{"id":4762,"date":"2026-06-30T06:14:00","date_gmt":"2026-06-30T06:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4762"},"modified":"2026-06-29T08:16:34","modified_gmt":"2026-06-29T08:16:34","slug":"velhice-e-tempo-na-biblia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/velhice-e-tempo-na-biblia\/","title":{"rendered":"Velhice e tempo na B\u00edblia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><br>Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem n\u00e3o l\u00ea as hist\u00f3rias de longevidade dos anci\u00e3os b\u00edblicos perde a incalcul\u00e1vel riqueza que os potenciais anci\u00e3os de hoje podem herdar. De facto, a longevidade daqueles n\u00e3o \u00e9 um concurso sobre quem viveu mais. \u00c9 medita\u00e7\u00e3o sobre o tempo que passa inexor\u00e1vel, sobre a experi\u00eancia humana indel\u00e9vel e sobre a liga\u00e7\u00e3o do humano ao divino. O tempo tinha passado fugazmente por eles. Mas a idade acumulada tinha ficado: eles \u2018tinham-na\u2019, formando parte de si, como a cauda do cometa. Eles eram precisamente a vida e a experi\u00eancia que se tinha sedimentado, depositado, <em>dentro<\/em> deles, ano ap\u00f3s ano, gerando um misterioso enriquecimento neles e no povo que formavam. As experi\u00eancias recolhidas, a abertura da mente a novas perspectivas e a novos horizontes, a maior capacidade de avaliar situa\u00e7\u00f5es e de acolher o \u2018diferente\u2019 n\u00e3o tinham \u2018fugido\u2019 deles. Tinham-nos <em>feito<\/em>, como nos fazem a n\u00f3s. A idade madura destes antepassados vivos era, afinal, <em>recapitula\u00e7\u00e3o<\/em> da sua vida de \u2018n\u00e3o passados\u2019, a idade mais valiosa, depois da qual n\u00e3o havia outra. A recapitula\u00e7\u00e3o continha e sintetizava a vida inteira, mem\u00f3ria agradecida das consola\u00e7\u00f5es vividas, quinta-ess\u00eancia dos desejos e projectos realizados, as dores superadas, as frustra\u00e7\u00f5es sublimadas, os amores dados e recebidos; era o remanso final do curso dos anos, ao longo dos quais tinham escolhido o que queriam ser para sempre no mar da eternidade que j\u00e1 se sentia perto: \u00abEis que eu estou para morrer. Mas Deus estar\u00e1 convosco\u00bb \u2013 diz Jacob a Jos\u00e9 (Gn 48,21). O anci\u00e3o b\u00edblico n\u00e3o esquecia a espessura dos acontecimentos, como se esquece hoje com uma tend\u00eancia suicida a \u2018actualiz\u00e1-los\u2019 no que \u00e9 recente e, por isso, a reduzi-los a um s\u00f3 plano, talvez a uma not\u00edcia evanescente, mutilando-os do seu sentido humano e religioso e das suas consequ\u00eancias. Em boa verdade, o \u2018actual\u2019 mant\u00e9m e guarda o conte\u00fado de fundo que vem do passado e merece aten\u00e7\u00e3o: \u00abRecorda os dias de outrora, medita nos anos de tantas gera\u00e7\u00f5es. Pergunta ao teu pai e ele contar-te-\u00e1, aos teus anci\u00e3os e eles dir-te-\u00e3o\u00bb (Dt 32,7). A <em>record<\/em>a\u00e7\u00e3o b\u00edblica, registo no <em>cor<\/em>a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era conserva\u00e7\u00e3o passiva, fixada de uma vez para sempre, como nas paredes de um museu, na cadeia dos acontecimentos do passado. Recuperava, celebrava e salvava no presente aqueles factos gr\u00e1vidos de um sentido que n\u00e3o se tinha conseguido ver no passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O anci\u00e3o, com a sua longevidade, afastando as fronteiras da morte o mais poss\u00edvel, vivia em mais de um mundo e em sucessivas gera\u00e7\u00f5es, impedindo assim que o passado se apagasse: dando tempo que mais contempor\u00e2neos jovens testemunhassem os mesmos factos que ele, consolidava-os na mem\u00f3ria colectiva do povo, sempre \u2018actual\u2019, e contribu\u00eda mais para ela. A longevidade \u2013 a real e a aumentada pela inten\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica \u2013 permitia gerar uma razo\u00e1vel unidade, harmonia e coer\u00eancia entre os acontecimentos desconexos dos mais idosos e dos jovens que iam fazendo cultura no povo de Israel: \u00abFui jovem, j\u00e1 sou velho; e nunca vi um justo abandonado, nem a sua descend\u00eancia a mendigar p\u00e3o\u00bb (Sl 37,25). A mem\u00f3ria de cada anci\u00e3o superava-o e continuava depois dele, no jovem. A hist\u00f3ria n\u00e3o era sucess\u00e3o mas conviv\u00eancia de gera\u00e7\u00f5es, que cresciam e amadureciam simultaneamente. Era forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua intergeracional, educa\u00e7\u00e3o inclusiva, reciclagem permanente dos idosos com o contributo dos jovens e vice-versa: \u00abEscutai, filhos, a instru\u00e7\u00e3o do pai; estai atentos para adquirirdes a intelig\u00eancia\u00bb (Pr 4,1-4). \u00abOuvi isto, anci\u00e3os!\u2026 Contai-o aos vossos filhos; e os vossos filhos aos seus filhos; e os seus filhos \u00e0 seguinte gera\u00e7\u00e3o\u00bb (Jl 1,1-3). \u00abO que ouvimos e aprendemos e os nossos pais nos transmitiram n\u00e3o o ocultaremos aos seus filhos; tudo contaremos \u00e0s gera\u00e7\u00f5es vindouras\u00bb (Sl 78,3-4). Os mais idosos sabiam que \u201ca conversa converte\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mem\u00f3ria, base para a aprendizagem, tecia as diversas vis\u00f5es do mundo e unia as formas de pensamento dos idosos com as dos jovens. Ao estarem na ponta final da vida, os anci\u00e3os b\u00edblicos eram capazes de unir o que os jovens tendiam a ver em <em>fragmentos<\/em> (aptid\u00f5es e realiza\u00e7\u00f5es, ganhos e ren\u00fancias, desaires e alegrias, perdas e fantasias). N\u00e3o encontravam no fim um mont\u00e3o de destro\u00e7os, mas a harmonia feita com os muitos fragmentos de vida (cf. P. R. SCALABRINI, \u201cL\u2019et\u00e0 anziana secondo l\u2019Antico Testamento\u201d, <em>Le et\u00e0 della vita<\/em> [PSV 49; EDB Bolonha 2004] 11-29). Com a sua longa mem\u00f3ria contavam diante de si e dos outros os acontecimentos de toda a vida, reconhecendo as luzes e as sombras, integrando os gozos e os sofrimentos, vivendo o presente com paz e harmonia interior. Redimiam o tempo, libertando-o de maus pensamentos sobre o passado e abrindo-o a um futuro de esperan\u00e7a, considerando cada instante como um presente valioso, oferecido para relan\u00e7ar a vida e para o desposar com a eternidade: \u00abInstru\u00edste-me, \u00f3 Deus, desde a minha juventude; e at\u00e9 ao presente tenho anunciado as tuas maravilhas\u2026 Tamb\u00e9m agora, na velhice e de cabelos brancos, n\u00e3o me abandones, \u00f3 Deus, at\u00e9 que eu anuncie a tua for\u00e7a a esta gera\u00e7\u00e3o\u00bb (Sl 71,17-18; cf. J. CRISTO REY GARC\u00cdA, \u201cLongevidad y tiempo extra\u201d, <em>Vida Religiosa<\/em> [Monogr\u00e1fico 1\/2022\/ vol. 132] 33-87). Quem assim ora desprende-se das contradi\u00e7\u00f5es da vida e entra no limiar da imortalidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Quem n\u00e3o l\u00ea as hist\u00f3rias de longevidade dos anci\u00e3os b\u00edblicos perde a incalcul\u00e1vel riqueza que os potenciais anci\u00e3os de hoje podem herdar. 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