{"id":4719,"date":"2026-05-31T02:47:00","date_gmt":"2026-05-31T02:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4719"},"modified":"2026-05-26T13:48:48","modified_gmt":"2026-05-26T13:48:48","slug":"a-longevidade-a-partir-da-biblia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-longevidade-a-partir-da-biblia\/","title":{"rendered":"A longevidade a partir da B\u00edblia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, por causa da crise demogr\u00e1fica, da esperan\u00e7a de vida prolongada e das quest\u00f5es ligadas \u00e0 Seguran\u00e7a Social, fala-se e escreve-se muito sobre a longevidade. Oferecemos aqui ao leitor \u2013 ao idoso e ao jovem que ser\u00e1 idoso \u2013 elementos b\u00edblicos para ele pr\u00f3prio delinear uma espiritualidade que valorize a sua longevidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das realidades que o ser humano enfrenta toda a sua vida e que sempre se imp\u00f4s \u00e0 considera\u00e7\u00e3o dos mortais \u00e9 o decorrer do tempo, a fugacidade da vida. Sobretudo no fim da vida f\u00edsica atinge-o a falta de tempo, como drama, como trag\u00e9dia ou como dom, sendo tudo o resto muito secund\u00e1rio. Com o tempo, cansamo-nos ao subir escadas. Mas o tempo nunca se cansa: <em>Fugit irreparabile tempus<\/em> \u2013 <em>O tempo foge irrecuper\u00e1vel<\/em> (Virg\u00edlio, <em>Ge\u00f3rgicas<\/em>, III, 284). O problema \u00e9 t\u00e3o grande como invenc\u00edvel, t\u00e3o grande que \u00e9 invenc\u00edvel. Nem os poetas o conseguem mudar: por muito que lhe cantem, ele n\u00e3o \u00abvolta para tr\u00e1s\u00bb (nem \u00abo tempo para mim parou\u00bb, como canta Ant\u00f3nio Mour\u00e3o). N\u00e3o volta; e em horas fugidias vai dobando o fio da meada da vida humana, qual Pen\u00e9lope, fiel esposa de Ulisses, na <em>Odisseia<\/em>. Desliza entre mil ocupa\u00e7\u00f5es, distrac\u00e7\u00f5es e desaten\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que a morte fria, de passos mudos, o transforma em eternidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se n\u00e3o se pode vencer, a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 porventura na velha t\u00e1ctica b\u00e9lica: juntar-se a ele, p\u00f4-lo do nosso lado, procurando ser feliz todo o tempo que a vida durar, instituir \u00abo tempo, esse grande escultor\u00bb (T\u00edtulo de um livro de Marguerite Yourcenar), em amparo do corpo e da alma, especialmente a pensar na melhor idade da vida, que \u00e9 a \u00faltima. Tamb\u00e9m a f\u00e9 b\u00edblica se sentiu interpelada pela liga\u00e7\u00e3o do tempo \u00e0 vida das pessoas, particularmente \u00e0 velhice, com a sua carga de debilidade, sofrimento e limita\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m de gl\u00f3ria e esplendor. Vamos descobrir esta liga\u00e7\u00e3o, reflectindo sobre ela em v\u00e1rios pontos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as idades da vida humana, a B\u00edblia salienta a longevidade serena e pr\u00f3spera do justo que fecha a sua exist\u00eancia terrena \u00abcheio de dias\u00bb e com numerosa descend\u00eancia que quase o imortaliza. Este retrato aparece quase estereotipado: \u00abOs dias de vida de Abra\u00e3o foram 175 anos. Depois Abra\u00e3o foi-se extinguindo e morreu numa feliz velhice, anci\u00e3o e cheio de dias, e foi juntar-se aos seus\u00bb (Gn 25,7-8). De Isaac, a quem se atribuem 180 anos, diz-se: \u00abmorreu e juntou-se ao seu povo, anci\u00e3o e cheio de dias\u00bb (Gn 35,28-29). Jacob vive at\u00e9 aos 147 anos \u00abe juntou-se aos seus\u00bb (Gn 47,28; 49,33); e o seu filho Jos\u00e9, at\u00e9 aos 110 anos (Gn 50,26). \u00abOs anos de vida de Levi foram 137\u2026 Os anos de vida de Amram foram 137\u00bb (Ex 6,16-20). Mois\u00e9s apagou-se aos 120 anos, sem que tivesse deca\u00eddo o seu vigor (Dt 31,2; 34,7) e \u00abadormeceu com os seus pais\u00bb (Dt 31,16). David \u00abadormeceu com os seus pais\u00bb (1Rs 2,10), \u00abmuito velho, cheio de dias, de riqueza e de gl\u00f3ria\u00bb (1Cr 29,28). Tobite teve uma velhice longa \u00abna felicidade, continuando sempre a bendizer Deus\u00bb, vendo o sucesso do seu filho Tobias e \u00abmorrendo em paz aos 112 anos\u00bb (14,2-3). A hero\u00edna Judite \u00abavan\u00e7ou em idade na casa do seu marido, at\u00e9 chegar aos 105 anos de idade\u00bb (16,23). Job \u00abviveu 140 anos, viu os filhos e os netos por quatro gera\u00e7\u00f5es e morreu anci\u00e3o e cheio de dias\u00bb (42,16-17). O sacerdote Matatias \u00abchegou ao fim dos seus dias\u00bb em idade avan\u00e7ada, \u00ababen\u00e7oou os seus filhos e juntou-se aos seus pais\u00bb (no ano 166 a.C.: 1Mc 2,69).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A longevidade era de tal import\u00e2ncia que serviu para caracterizar o futuro ideal de Jerusal\u00e9m: \u00abN\u00e3o haver\u00e1 l\u00e1 adulto que n\u00e3o chegue \u00e0 velhice, pois ser\u00e1 ainda novo aquele que morrer aos cem anos\u00bb (Is 65,20). O motivo ser\u00e1 retomado pelo profeta Zacarias no seu retrato de Jerusal\u00e9m em festa, com \u00abanci\u00e3os e anci\u00e3s que se sentar\u00e3o nas pra\u00e7as de Jerusal\u00e9m, cada um com a bengala na m\u00e3o pela sua longevidade\u00bb (8,4).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica prefere falar de <em>dias<\/em> a falar de <em>anos<\/em>, como se quisesse valorizar o instante vivido. A vida aparece assim como o longo trilho dos dias; e os dias aparecem como os passos de um caminho, met\u00e1fora de uma vida. A velhice \u00e9 a aproxima\u00e7\u00e3o ao fim do caminho, em rela\u00e7\u00e3o vital com o percurso feito: representa o esplendor do ser humano. Mas que significam estas longas idades atribu\u00eddas \u00e0s personagens fundadoras do povo b\u00edblico, idades que n\u00e3o s\u00e3o objectivas mas conotativas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os humanos s\u00e3o, em grande medida, desejo e procura; e ningu\u00e9m os pode culpar por quererem satisfazer o seu desejo, do qual brota quase tudo na vida. Desejo de qu\u00ea? \u2013 De dar sentido pleno \u00e0 vida, de modo que n\u00e3o acabe feita em cacos, em frustra\u00e7\u00e3o ou desgra\u00e7a. Ora, atribuir idades super-humanas \u00e0s importantes pessoas respectivas era uma forma de a B\u00edblia sugerir que elas se realizaram plenamente e que a sua vida estava completa, dando muito de si e da sua longa vida ao seu povo. Sugeria que o anci\u00e3o a quem se atribu\u00eda longevidade exorbitante tinha contribu\u00eddo mais para fazer mem\u00f3ria dos acontecimentos da hist\u00f3ria humana: a longa mem\u00f3ria deles n\u00e3o deixava que o p\u00f3 dos anos cobrisse com o esquecimento os gloriosos dias de uma vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas este tema complexo, que entretece hist\u00f3ria, simbolismo e espiritualidade, merece mais pondera\u00e7\u00e3o. T\u00ea-la-\u00e1\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Hoje, por causa da crise demogr\u00e1fica, da esperan\u00e7a de vida prolongada e das quest\u00f5es ligadas \u00e0 Seguran\u00e7a Social, fala-se e escreve-se muito sobre a longevidade. 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