{"id":4717,"date":"2026-05-31T02:46:00","date_gmt":"2026-05-31T02:46:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4717"},"modified":"2026-05-26T13:47:15","modified_gmt":"2026-05-26T13:47:15","slug":"uma-baleia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/uma-baleia\/","title":{"rendered":"Uma baleia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">LA CUEVA DE SAN JVAN DE LA \u2020<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; R\u00e9cios correm os tempos aos dias de Juanico, Jo\u00e3zinho de Yepes. Para mais precis\u00e3o mire-se o cemit\u00e9rio da sua inf\u00e2ncia, cuja sementeira de brancas cruzes de madeira por demais ali mais eclode e mais cresce de dia para dia; e \u00e0s adversidades que tanto assediam a sua pobre casa e \u00e0 esteira em que no ch\u00e3o dorme, e que por demais o assoberbam, soma-se outra que melhor que alguma, talvez a todas metaforize: h\u00e1 uma baleia negra que, desde menino, o persegue. N\u00e3o a que s\u00f3 duzentos anos depois na literatura tomar\u00e1 nome, mas aqueloutra a que podemos dar o performativo nome de mal. E n\u00e3o era s\u00f3 a pobreza, em muitos lugares entendida como castigo de Deus, nem s\u00f3 as pen\u00farias e a mis\u00e9ria. Era bem mais que isso. Bem mais \u2013 o Mal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se os primeiros bi\u00f3grafos juram a p\u00e9s juntos que cresceu \u00f3rf\u00e3o, filho e neto de m\u00e3e esqu\u00e1lida e pobre, outros, mais recentes, dir\u00e3o que Catarina era de linhagem mourisca, e o pai Gon\u00e7alo, bem poderia proceder da casta judia, aquela a quem mormente estavam confiadas as afoba\u00e7\u00f5es t\u00e3o caracter\u00edsticas dos comerciantes. Em tempos, por\u00e9m, em que a honra se sustentava na limpeza de sangue, um santo tinha de ser limpo. E n\u00e3o lhe bastaria que a casa de Catarina fosse limpa como a pura prata, j\u00e1 que era o sangue que mais importava ser limpo, crist\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pela rua de Cantiveros abaixo saltita, descal\u00e7o, um pardalito ao frio. Vive de migalhas que sua m\u00e3e cata entre as linhas do pequeno tear ou \u00e0 caridade alheia. E ele sabe-o. E ele ajuda-a, pois que jamais lhe repugnou a m\u00e3e que o teceu de amor, muito embora n\u00e3o passasse duma servi\u00e7al dedicada aos trabalhos menores, habitualmente confiados pela sociedade de ent\u00e3o a mouriscos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o te estranhes, leitor, leitora, \u00e9 bem poss\u00edvel que nas veias de Juanico corra sangue de tr\u00eas fontes \u2013 a crist\u00e3, a judia e a \u00e1rabe. E quando falo que pela sua vida fora o assolar\u00e1 um combate sem tr\u00e9guas, nem sequer me refiro, porque n\u00e3o aceito, que os tr\u00eas rios de sangue que no seu cora\u00e7\u00e3o confluem, se revolvam e bulhem e se digladiem entre si. N\u00e3o, o pardalito de Fontiveros \u00e9 demasiado insignificante, demasiado doce, demasiado sereno, demasiado pac\u00edfico, para que a seu peito possa dar-se usan\u00e7a de campo de lide ou batalha, ou sirva de rinc\u00e3o onde se digladie turbul\u00eancia mort\u00edfera, s\u00f3 porque nele confluam tr\u00eas rios, sem que algum se sobreponha a outro, porque algum e outro e todos ergam seu gl\u00e1dio, querendo afirmar imp\u00e9rio sobre os demais. O menino \u00e9 meigo, n\u00e3o guerreiro. N\u00e3o levanta espada, nem punhal, nem cimitarra. Nem fisga, sequer. Espraia t\u00e3o s\u00f3 o sorriso doce de quem s\u00f3 d\u00f3cil sempre ser\u00e1 \u00e0 serena brisa suave que, bem para al\u00e9m das expectativas humanas, sempre sopra por onde e para onde lhe apetece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bem <em>muchachillo<\/em> ainda, qual pequenino pardalito sem penugem, v\u00edtima do desamparo e da inclem\u00eancia do frio invernio, Jo\u00e3ozito foi exposto desde cedo a for\u00e7as contr\u00e1rias bem assombrosas: fome, orfandade, fome, desprezo da abastada parentela paterna, fome, desprezo por causa da impureza de sangue, fome, pobreza extrema, fome. Os castelhanos resumem esta hist\u00f3ria numa express\u00e3o que, ainda que para n\u00f3s seja traduz\u00edvel, n\u00e3o tem, que eu saiba, paralelo forte em portugu\u00eas: Catarina e os dois filhos sobreviventes \u00e0 fome pertencem \u00e0 caterva dos <em>\u00abpobres de solenidade\u00bb<\/em>; aos mais pobres dos pobres. Foi, ali\u00e1s, por causa desta infinda nuvem de fam\u00e9licos gorri\u00f5ezitos que o visitador episcopal, acercado em seus dias \u00e0 par\u00f3quia de S\u00e3o Cipriano de Fontiveros, mandou que se vendessem as alfaias d\u2019ouro do tesoiro paroquial para que, em modo de caridade crist\u00e3, se socorresse de p\u00e3o e de medicina tantas fam\u00edlias de pequenitates que de fome tombavam sobre a g\u00e9lida neve. E ao dar-se que sucessivos anos de carestia exaurissem a arca de S\u00e3o Cipriano, aos Yepes s\u00f3 lhes coube, ouvindo apelos e conselhos de vizinhos e amigos, sa\u00edrem dali, da amada Fontiveros. Acabar\u00e3o em Medina del Campo, industriosa cidade de mercados e feiras, terra de traficantes e negociantes. J\u00e1 conhecemos a hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, j\u00e1 conhecemos a hist\u00f3ria e o vigor das for\u00e7as adversas contra o delicado peito e os bracitos fr\u00e1geis de Jo\u00e3ozito. Em Medina, terra das melhores feiras que a coroa de Castela possui, encontrar\u00e3o, julgavam, abrigo e apoio, ou pelo menos, mais oportunidades de trabalho, maior alcance de esmolas, e melhor possibilidade de que o menino letras amanhe. E assim ser\u00e1, sempre com a assombra\u00e7\u00e3o da adversidade por perto. Sempre sobre gelo fino e sob o assombrado olhar da baleia negra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E eis que aqui se deu um acontecimento que muitos bi\u00f3grafos passam por cima, sem, contudo, querer dizer que seja ap\u00f3crifo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Catarina achegou-se com os filhos a Medina quando Juanico andava pelos nove anitos. E o acontecimento deu-se pelos dez, sinal de que j\u00e1 ele se encontrava enquadrado no contexto social e escolar da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como deixo dito, uma baleia faz-se transportar nas profundezas destas p\u00e1ginas. E vem perseguindo o Santico. E aqui e ali ela irrompe de supet\u00e3o, ela o surpreende, ela o assalta nas \u00e1guas e fora delas, ela no-lo quer roubar para todo o sempre. De tudo far\u00e1 para que ele n\u00e3o se achegue ao futuro. E eis que aqui, se acaso falta, nos deixa mais um aviso e j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o primeiro: pelo meio do cora\u00e7\u00e3o da cidade de Medina passa Zapardiel, o rio das frescas r\u00e3s. N\u00e3o creias que se nos dias de calor gostam elas da frescura das suas \u00e1guas, n\u00e3o creias tu, pois, que os mi\u00fados gostem menos. Numa despreocupada tarde, Juanico de dez anitos, banha-se e delicia-se nas margens do rio quando um monstro, um peixe de grande envergadura, furtivo se aproxima e o abocanha. O mi\u00fado esbraceja, o mi\u00fado esfalfa-se, o mi\u00fado luta como ing\u00e9nuo gorri\u00e3ozito na boca de gato, e porfiando, desunha-se e logra escapar. N\u00e3o ganha para o susto, \u00e9 verdade, pelo que, aturdido, n\u00e3o sabe que pensar, n\u00e3o sabe que dizer, e o melhor que decide \u00e9 nada dizer a ningu\u00e9m. Guarda a acometida para si s\u00f3; contudo, por\u00e9m, n\u00e3o perde pela demora \u2013 n\u00e3o tarda, as investidas sobrevir\u00e3o novamente sobre ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por aquelas horas, o menino \u00e9 aluno do que hoje se chamaria uma escola profissional e que, \u00e0 data, dava pelo nome Col\u00e9gio de Doutrinos que, esta, a crist\u00e3, ali faz parte do card\u00e1pio e se ensina. Dali, com sucesso, migrar\u00e1 para o Col\u00e9gio da Companhia fundado, mais m\u00eas menos m\u00eas, aquando da sua chegada \u00e0 cidade. Volvidos oito anos, ei-lo pois ali, aluno de sucesso. \u00c9 \u00e0 data t\u00e3o perspicaz, t\u00e3o audaz e t\u00e3o capaz que todos o disputam. Os jesu\u00edtas querem-no para si, por evid\u00eancia; D. Alonso \u00c1lvarez de Toledo, seu protector, quere-o para capel\u00e3o do Hospital das Bubas, porque precisa de capel\u00e3o, n\u00e3o de mercen\u00e1rio, de quem cure as almas e n\u00e3o se atemorize, antes empatize com as p\u00fastulas do sofrimento alheio; tamb\u00e9m de outros lugares \u2013 ordens religiosas, digo \u2013 se lhe achegam outras lustrosas solicita\u00e7\u00f5es. Nenhuma aceita ele, por\u00e9m; sen\u00e3o que um dia, aos vinte e um anos, secretamente, do hospital saiu. Atravessou de norte a sul, as poucas ruas que o separam do convento carmelita de Santa Ana, recentemente fundado, e pediu o h\u00e1bito de Nossa Senhora. Nenhum dos carmelitas op\u00f5e resist\u00eancia, antes se apressam a rapar-lhe na cabe\u00e7a a tonsura monacal. Findo um ano, ser\u00e1 o sexto novi\u00e7o a professar naquele convento. Na c\u00faria de Roma reina como prior geral o padre Rubeo de Ravena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em fins de 1564, o rec\u00e9m-professo na Ordem, frei Jo\u00e3o de S\u00e3o Matias achegou-se a Salamanca. \u00c0s primeiras horas do novo ano, ei-lo frequentando j\u00e1 os dias mais gloriosos daquela universidade. E tanto na universidade como no col\u00e9gio carmelita leva ele vida exemplar. Na comunidade \u00e9 s\u00f3brio e discreto; na aula, sagaz e competente. Al\u00e9m disso, por aqueles dias, no pen\u00faltimo ano do curso teol\u00f3gico, o padre Jo\u00e3o Batista Rubeo visita o col\u00e9gio carmelita de Salamanca. Frei Jo\u00e3o \u00e9 ali um dos estudantes te\u00f3logos. Permaneceu o prior geral no col\u00e9gio de Santo Andr\u00e9 por sete dias, os suficientes para se <em>\u00abaperceber da santidade de frei Jo\u00e3o\u00bb<\/em>. Entrevistaram-se, \u00e9 claro. O que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ci\u00eancia certa, de papel escrito, digo eu, \u00e9 se o jovem religioso lhe confidenciou que, desiludido com o Carmo, pensa passar-se para a solid\u00e3o da Ordem da Cartuxa. Liso e lhano ele \u00e9, pelo que penso que nada lhe ocultou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensar\u00e1s, por\u00e9m, tu, leitor, leitora, que esta situa\u00e7\u00e3o, este aceso fogo que o consome, este irreform\u00e1vel desejo de maior perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de assumir? De si a si talvez seja; a outrem, mormente se superior geral, n\u00e3o \u00e9. Ai n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9. Antes \u00e9 outra face da silenciosa baleia que o mortifica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um par de meses depois, por feliz conflu\u00eancia de caminhos de santos, que s\u00f3 o Esp\u00edrito pode abonar, frei Jo\u00e3o, j\u00e1 novel sacerdote, entrevistar-se-\u00e1 no locut\u00f3rio do carmelo de S\u00e3o Jos\u00e9 de Medina del Campo com a Madre Teresa de Jesus. \u00c0quela hora providencial, a monja fundadora guarda no bolso uma patente do padre Rubeo de Ravena licenciando-a a que funde dois conventos <em>\u00abde frades contemplativos\u00bb<\/em>. Falam-se. Quando obt\u00e9m o assentimento do jovem carmelita <em>missacantano<\/em>, j\u00e1 ela guarda junto ao cora\u00e7\u00e3o o sim do padre Ant\u00f3nio Her\u00e9dia, depois frei Ant\u00f3nio de Jesus, pelo que se apressar\u00e1 a notificar as suas irm\u00e3s com palavras jocosas hoje muito conhecidas e citadas. O que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o conhecido \u00e9 o assentimento de nosso santo pai: <em>\u00ab\u2013 Sim, aceito, mas com a condi\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o demore muito!\u00bb<\/em>. Dila\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o com ele \u2013 que homem!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E Teresa leva-o a peito. T\u00e3o a peito que no dia 28 de novembro de 1568, domingo primeiro de Advento, se inaugurou a nossa Descalcez em Duruelo, lugarejo de um barrac\u00e3o s\u00f3, feito novo pres\u00e9pio de Bel\u00e9m. O jovem frei Jo\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o primeiro prior, mas a alma e a alegria da comunidade, e o mestre dos jovens que h\u00e3o-de vir \u2013 de imediato conhecemos pelo menos tr\u00eas: frei Jo\u00e3o Baptista, frei Pedro dos Anjos e frei Ant\u00f3nio de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em finais de outubro de 1570, por\u00e9m, por sugest\u00e3o da Madre Teresa de Jesus, vemo-lo em Pastrana, a segunda funda\u00e7\u00e3o da Ordem. Dadas as suas compet\u00eancias de pedagogo e de mestre de esp\u00edrito, \u00e9 ali enviado para reorganizar a vida dum maltrapilhado noviciado constitu\u00eddo por dez novi\u00e7os. Dali partir\u00e1 depois num impar\u00e1vel corrupio que, ora o far\u00e1 trilhar, descal\u00e7o, por caminhos agrestes, ora, de pico na m\u00e3o, lado a lado com oper\u00e1rios, o veremos deitando paredes abaixo e a preparar conventos onde acomodar as novas voca\u00e7\u00f5es. E por entre uma e outras, em Pastrana e Alcal\u00e1 de Henares, revelar-se-\u00e1 educador paciente, capaz, e moderado nas penit\u00eancias e nos exerc\u00edcios propostos \u00e0s primeiras voca\u00e7\u00f5es dos descal\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todavia, como a hist\u00f3ria tem das suas ironias, nos in\u00edcios de outubro de 1571 a Madre \u00e9 nomeada prioresa da Encarna\u00e7\u00e3o \u2013 esse mosteiro assaz grande como um quartel militar, ligeiramente estabelecido a norte de \u00c1vila. A ingente tarefa que ter\u00e1 por diante levar\u00e1 a Santa a exclamar: <em>\u00abEsta terra tem sido para mim t\u00e3o grande prova\u00e7\u00e3o que n\u00e3o parece tenha eu nascido aqui\u00bb<\/em>! E n\u00e3o achando em lugar algum melhor ajuda, manda chamar frei Jo\u00e3o da Cruz para director espiritual das mais de centro e trinta monjas \u2013 as cinquenta que faltam \u00e0 conta habitual, s\u00e3o senhoras piedosas e leigas que serviam de criadas a algumas das monjas de ascend\u00eancia nobre, e que a prioresa eleita, ainda antes de entrar e tomar posse, mandou sair do mosteiro, j\u00e1 que nem por um m\u00edsero par de horas as quer ver em sua casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seja qual seja o dia em que frei Jo\u00e3o se achegue ao seu m\u00fanus no mosteiro da Encarna\u00e7\u00e3o, uma coisa \u00e9 certa: nem um ano depois, j\u00e1 se sentem os efeitos ben\u00e9ficos da sua presen\u00e7a e condu\u00e7\u00e3o, pois que a sua palavra e sabedoria espirituais s\u00e3o um verdadeiro dom e gra\u00e7a, um b\u00e1lsamo, um verdadeiro \u00eaxito espiritual. Mas o Santico que n\u00e3o se creia seguro, pois n\u00e3o perde pela demora, porque a escura baleia n\u00e3o dorme e continua rondando por ali. E por aqui.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E eis que nos in\u00edcios de 1576, quatro anos depois de se ter assumido como confessor do famoso mosteiro, o Prior do Carmo de \u00c1vila, padre Valdemoro, invadiu, sem aviso e \u00e0 luz do dia, a casuchinha em que na Encarna\u00e7\u00e3o viviam o padre Jo\u00e3o da Cruz e o seu companheiro frei Francisco dos Ap\u00f3stolos, ambos descal\u00e7os. E entre pontap\u00e9s e insultos, prende-os e manda-os para a pris\u00e3o do Carmo de Medina del Campo. S\u00f3 que daqui e dali se alevantam pessoas e protestos, escrevem-se cartas e movem-se influ\u00eancias, e os dois fradicos descal\u00e7os s\u00e3o libertados em um m\u00eas, visto que numa carta de fevereiro daquele mesmo ano, ao Geral da Ordem, a Madre lhe d\u00e1 not\u00edcias de que <em>\u00abj\u00e1 regressaram os descal\u00e7os\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a baleia, sempre a negra baleia. Ainda que em perda, desta vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser\u00e1, por\u00e9m, descanso de pouca monta, visto que acobertados pela escurid\u00e3o da noite, a dois de dezembro de 1577, um grupo de Padres Cal\u00e7ados, alguns leigos e gente armada, de um pontap\u00e9 s\u00f3 deitam abaixo a porta da casucha, de repel\u00e3o invadem a cela do jovem fradico descal\u00e7o, e o levam algemado para a casa da antiga Observ\u00e2ncia, onde o ret\u00eam durante alguns dias \u2013 n\u00e3o sabemos quantos \u2013 e onde o a\u00e7oitam pelo menos por duas vezes. Tamb\u00e9m lhe prometeram tudo e de todos os seus<em> err\u00f3neos <\/em>caminhos o procuram demover; mas o descal\u00e7o n\u00e3o se comove nem desiste.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Decidem depois lev\u00e1-lo de \u00c1vila para Toledo, sob uma chuva cruel de m\u00e1s palavras e maus tratos, a ponto do arrieiro que os conduz se unir a um estalajadeiro de circunst\u00e2ncia, para o libertarem com toda a prontid\u00e3o e seguran\u00e7a, mas o doce frei Jo\u00e3o, manso e grato, n\u00e3o aceita t\u00e3o caritativa oferta que t\u00e3o bondosamente lhe acabam de comunicar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Oh, como s\u00e3o os santos, mesmo diante da negra e feroz f\u00faria da baleia!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vamo-nos a ela. Que ela mais e mais se aproxima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dizer-te ainda, contudo, leitor, leitora, que nesta hora escura em que a baleia o assalta dentro de sua casa, para frei Jo\u00e3o nada no ass\u00e9dio \u00e9 surpresa, ali\u00e1s, \u00e9 como se j\u00e1 o esperasse, pelo que quando o algemam, n\u00e3o resiste; e quando lhe mandam que se encaminhe para o cativeiro, apenas retorque: <em>\u2013 \u00abEst\u00e1 bem. Vamos!\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E que calv\u00e1rio n\u00e3o ter\u00e1 ele por diante\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como te disse e agora redigo, eis que em breves dias, a meados de dezembro, sequestrado o levaram de \u00c1vila para Toledo, por caminhos solit\u00e1rios e nevosos. \u00c0 socapa e de olhos vendados o levam, \u00e0 socapa o embrenham em Toledo, sem que algu\u00e9m, nem mesmo o rei, sobre cujo <em>territ\u00f3rio jamais o sol se p\u00f5e<\/em>, saiba onde o ret\u00eam. Ali\u00e1s, \u00e0 chegada, os esbirros d\u00e3o voltas e mais voltas pelas ruelas estreitas e labir\u00ednticas da cidade imperial \u2013 se ousar fugir, n\u00e3o saber\u00e1 por onde!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o apresentam ao visitador geral, frei Jer\u00f3nimo Tostado, dentro do h\u00e1bito o fradico mais parece vara de varejar. De si j\u00e1 \u00e9 amiudado; mas depois dos a\u00e7oites que recebeu, e dos castigos, e priva\u00e7\u00f5es, e da longa e \u00e1lgida e dolorosa viagem, parece verdadeiramente perdido dentro do saial frailuno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 sua chegada, logo corre a not\u00edcia por todo o convento e, ainda que feito um reles trapo, todos acorrem para o ver e insultar! Na aula capitular, pronto se constitui um tribunal formado pelo visitador geral Tostado, o prior Maldonado e os frades mais circunspectos da comunidade. Leem-lhe as acusa\u00e7\u00f5es decorrentes das determina\u00e7\u00f5es do cap\u00edtulo de Plazenza celebrado ao ano de 1575, mas ele fica calado. Notificam-no de rebeldia, mas ele calado fica. Acusam-no de ter abandonado o convento e de viver livremente na casuchinha da Encarna\u00e7\u00e3o, mas como n\u00e3o \u00e9 verdade, ele permanece calado. Amea\u00e7am-no de tudo, e o seu sil\u00eancio responde que n\u00e3o recua. E n\u00e3o recuar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo, logo a baleia muda de estrat\u00e9gia e, de caustic\u00e1-lo passa a alici\u00e1-lo. Oferecem-lhe um priorato de boa e c\u00f3moda cela, e ele recusa. Oferecem-lhe admir\u00e1vel biblioteca, e ele recusa. Oferecem-lhe uma valios\u00edssima cruz de ouro, e ele n\u00e3o vai em subornos. Tudo, tudo se lhes mostra in\u00fatil porque, o fradico apenas diz e retorna: <em>\u2013 \u00abquem procura seguir a Cristo despojado de tudo, n\u00e3o precisa de j\u00f3ias\u00bb<\/em>. E tudo, tudo, pois, se lhes revelou in\u00fatil; e visto que o fradico de Deus a nada cede, determinam sepult\u00e1-lo numa cela t\u00e3o grande como uma tumba.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ei-lo definitivamente apanhado e tragado pela escura baleia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Parece-me oportuno dizer-te aqui, leitor, leitora, que foi assim mesmo que S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz leu a sua perman\u00eancia naquela terr\u00edvel e escura pris\u00e3o. E conv\u00e9m ainda que te diga que ele inteiramente assume a met\u00e1fora da baleia retirada do livro do profeta Jonas, filho de Amitai, que profetizou pelo s\u00e9culo oitavo antes de Cristo, no reinado de Jerobo\u00e3o II. Ali\u00e1s, o aconselh\u00e1vel seria que, antes de leres a do fradico, lesses aquela narrativa \u2013 encontr\u00e1-la-\u00e1s posicionada na B\u00edblia entre a profecia de Abdias e a de Miqueias. Verificar\u00e1s ent\u00e3o que narrativa de Jonas e a do pac\u00edfico fradico se distinguem numa coisa: Jonas permaneceu tr\u00eas dias no ventre da baleia; o fradinho santo, nove meses \u2013 e nove meses d\u00e3o para fazer nascer uma nova criatura, n\u00e3o d\u00e3o?)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tumba ou cela \u2013 ali\u00e1s uma velha latrina transformada em c\u00e1rcere! \u2013 tem seis p\u00e9s de largo por dez de comprimento. (Por favor, leitor, suspende a leitura destas linhas, levanta-te, e mede no ch\u00e3o o que sejam seis p\u00e9s por dez! E diz-me: \u00e9 esconso, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 sufocante, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 pouco mais que as dimens\u00f5es de um ata\u00fade, certo? \u00c9, \u00e9\u2026 \u2013 Est\u00e1 sepultado em vida!) E \u00e9 desprovida de janela \u2013 tem apenas um bocal no tecto, do tamanho duma malga, donde se desprende um fiozinho de luz que, segundo a posi\u00e7\u00e3o do sol, raro \u00e9 que aponta ao ch\u00e3o. No solo jaz uma t\u00e1bua e duas mantas para cama do prisioneiro. Em pleno inverno, despido de capucha e de escapul\u00e1rio, em modo castigo, e s\u00f3 com o brevi\u00e1rio, ali entra frei Jo\u00e3o da Cruz, o rebelde descal\u00e7o. Por efeitos das duras geadas toledanas os p\u00e9s inchar-lhe-\u00e3o e os dedos abrir-se-\u00e3o em grandes ferias. J\u00e1 no t\u00f3rrido ver\u00e3o toledano, suar\u00e1 e abafar\u00e1 todo ele de calor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o fradico santo ali vai restando e jazendo abandonado no ventre escuro da baleia!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>6.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A qualquer hora do dia fazem-lhe afrontas muitas: do lado de fora do ata\u00fade param-lhe os frades \u00e0 porta e, despropositadamente, riem, mofam, desconversam e falam impropriedades e atiram-lhe chantagens emocionais duras como pedras: que o descal\u00e7o est\u00e1 s\u00f3 e abandonado pelos seus; que a Madre o esquecera; que nem a gra\u00e7a de Deus nem o rei algo podem; que os seus conventos ser\u00e3o reduzidos a nada; e que, ou o atirar\u00e3o a um po\u00e7o, sem que algu\u00e9m o lamente, ou que s\u00f3 dali sair\u00e1 morto para banhos de terra fria\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, a di\u00e1rio o submetem a estas e a tantas outras humilha\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Miser\u00e1vel \u00e9 a comida que lhe d\u00e3o: um mendrugo de p\u00e3o, \u00e1gua e uma sardinha; \u00e0s vezes, s\u00f3 meia. \u00c0s segundas, quartas e sextas, \u00e0 ceia, s\u00f3 p\u00e3o e \u00e1gua, acocorado ele no ch\u00e3o do refeit\u00f3rio, como um cachorro; os outros, em seus bancos e \u00e0 mesa; algumas vezes, por\u00e9m, consolam-no com as peles que sobram de seus pratos e com as espinhas que lhe cospem\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 ceia de sexta-feira, enquanto jaz prostrado de bra\u00e7os em cruz \u00e9 \u00e1spera e publicamente repreendido por rebeldia. E o manso fradinho ouve. Em sil\u00eancio ouve as inj\u00farias e as impreca\u00e7\u00f5es que o cruel prior Maldonado lan\u00e7a contra si e os seus. E no fim da repreens\u00e3o, canta-se um <em>Miserere<\/em>. Ent\u00e3o, ele desnuda as costas e, um a um, come\u00e7ando pelo prior, os frades chicoteiam-no \u2013 isto quatro ou cinco vezes ao m\u00eas, vezes nove meses. \u00c9 fazer as contas\u2026 As chicotadas s\u00e3o t\u00e3o vigorosas que as costas do pobre jorram sangue abundante, a ponto de muitos anos mais tarde ainda ele manter feridas por cicatrizar!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esta negra tortura acresce que a branca t\u00fanica interior com que entrara no c\u00e1rcere n\u00e3o lha deixam jamais lavar nem tirar, pelo que em consequ\u00eancia de tantos meses de sangrento mart\u00edrio \u2013 obviamente esta n\u00e3o apenas se conspurcou, como tamb\u00e9m se vai esfarrapando!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por esta altura, leitor, leitora, eu j\u00e1 n\u00e3o sei se o que o engoliu foi uma baleia, ou se uma cobra contristora. Nem eu, nem o santo, o sabemos, ali\u00e1s. E depois de tanta vergastada, de tanta humilha\u00e7\u00e3o, de tanta m\u00e1 cara, de tanta inj\u00faria, de tanto dia sem luz, sem uma palavra amiga, sem o conforto da ora\u00e7\u00e3o em comum, sem eucaristia, sem se confessar, depois de tanta recrimina\u00e7\u00e3o, julgar\u00e1s tu, leitor, que n\u00e3o chegou a duvidar que estivesse enganado! Ai duvidou, duvidou, que ainda que fora um anjo de graciosa luz duvidaria!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>7.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mais conta menos conta, mais dia menos dia, nove meses s\u00e3o vinte e cinco semanas. Se por tantas semanas o apertaram, o torturaram e o moeram \u2013 foram os pr\u00f3prios irm\u00e3os torturadores que o confessaram e o reconheceram \u2013, s\u00f3 n\u00e3o sei como o Santico n\u00e3o sucumbiu, n\u00e3o o derru\u00edram e o esmoeram a p\u00f3, ou como os torturadores n\u00e3o se cansaram de o torturar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas hei-de procurar saber tal segredo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por ora, o que sei \u00e9 que, filados e porfiados, os tenazes carcereiros o torturaram durante cento e oitenta dias, sem alcan\u00e7ar verg\u00e1-lo ou enlouquec\u00ea-lo; e quanto menos o vergam mais o vergastam, o humilham, o injuriam, mais o isolam abandonado numa cela quase sem luz, sem \u00e1gua e sem ar, em total solid\u00e3o, sem o conforto da ora\u00e7\u00e3o em comum, sem eucaristia, sem companhia, sem se confessar. Sim, de tudo fizeram para emocionalmente o quebrar, o rebaixar e o coagir, como se n\u00e3o houvera amanh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>8.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>No dia 14 de agosto de 1577, \u00e0 tarde \u2013 o dia quatorze de agosto \u00e9 a v\u00e9spera da festa da Senhora de Agosto ou dos Mil Nomes! \u2013, a porta da tumba abriu-se inesperadamente. Frei Jo\u00e3o, de costas para a porta, nada v\u00ea, de nada se apercebe, de nada suspeita. De joelhos est\u00e1, de joelhos e de rosto por terra, rezando segue. Em paz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 \u00abPor que n\u00e3o vos alevantais vindo eu visitar-vos?\u00bb<\/em>, troa-lhe o prior Maldonado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 \u00abPensava que era o carcereiro\u00bb<\/em>, desculpa-se o humilde prisioneiro, em esfor\u00e7o, enquanto, por causa da fraqueza extrema, se levanta com dificuldade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 \u00abEm que est\u00e1veis a pensar agora?\u00bb<\/em>, replica-lhe o prelado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 <em>\u00abEm que amanh\u00e3 \u00e9 o dia de Nossa Senhora e eu gostava muito de celebrar Missa!\u00bb<\/em>, responde frei Jo\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2013 <em>\u00abIsso nunca, em meus dias!\u00bb<\/em>, brusco lhe devolve o prior Maldonado que se vira, sai e fecha a pesada porta atr\u00e1s de si.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>9.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A frei Jo\u00e3o da Cruz, cativo no ventre escuro da baleia, n\u00e3o se lhe ouve, como nunca se ouviu, ou ouvir\u00e1, um lamento. Um choro, uma raiva, um desabafo, sequer. Jamais se queixou ou se queixar\u00e1 uma vez que fosse. Pelo contr\u00e1rio, se houve de falar daquele assunto dir\u00e1: \u2013 <em>\u00abFaziam aquilo por pensarem estar na verdade!\u00bb<\/em>. E calava-se. E calado ficava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas naquele dia, n\u00e3o. Sim, naquele dia n\u00e3o se queixou nem se revoltou. Mas decidiu ali mesmo que teria de fugir, nem que morresse na aventura. Por isso, de joelhos e cabe\u00e7a no ch\u00e3o, reza e volta a rezar, e sente um impulso interior que n\u00e3o passa nem se dilui nem se esfuma, e convence-se que Nossa Senhora o ajudar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dispenso-te os pormenores da prepara\u00e7\u00e3o da fuga, leitor, leitora; n\u00e3o todos, visto j\u00e1 te ter dito que o prisioneiro levou o assunto \u00e0 ora\u00e7\u00e3o e ao altar de Deus que \u00e9 a consci\u00eancia. Fugiria e fugiria. Fugir\u00e1 numa noite de lua clara. S\u00f3 precisado est\u00e1 duma noite de lua bem clara. Afinal, os descal\u00e7os precisam dele e ele precisa da doce fraternidade dos descal\u00e7os que, ali\u00e1s, enquanto comunidade, por esses dias passam, como ele, muito mal, \u00e0 m\u00e3o dos Cal\u00e7ados e seus poderosos protectores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos na oitava da Assun\u00e7\u00e3o. Os dias s\u00e3o sufocantes, de can\u00edcula; as noites quentes e abafadas. H\u00e1 tanto tempo silenciosamente sofrendo na barriga da baleia, tanto sofre que aprendeu a valorizar todos os acasos, a aproveitar todas as oportunidades \u2013 a volver-se sedutor, at\u00e9. Dentro ainda da oitava, numa dessas raras oportunidades, o carcereiro deixa-lhe, por momentos, a porta aberta e ele logo arranjou modo de desapertar parafusos e desentaramelar as armelas do cadeado. A um canto escuro da tumba jazem j\u00e1 as mantas feitas em tiras e presas uma a uma; numa ponta acrescenta-lhe a velha t\u00fanica branca, suja, manchada e meio apodrecida, e na outra ponta, preso tem o gancho da candeia. Fugir\u00e1 nessa noite, <em>sem ser notado<\/em>. Um pouco ao lado do c\u00e1rcere h\u00e1 uma sala e da sala passa-se para um corredor com uma janela em arco, virada para o rio Tejo \u2013 um verdadeiro miradoiro sobre uns terr\u00edveis penhascos. J\u00e1 ciente de todos os passos a dar e com o plano da fuga na cabe\u00e7a, pelas duas da manh\u00e3, estando <em>toda a casa sossegada<\/em>, frei Jo\u00e3o empurra a porta da <em>carcelilla<\/em> e ela desaba como se fora as muralhas de Jeric\u00f3. D\u00e1-se naturalmente um estrondo, e os bi\u00f3grafos querem fazer-nos crer que ningu\u00e9m se apercebeu, que ningu\u00e9m ouviu, ningu\u00e9m acordou; mas outros, alguns de hoje, mais avispados, afirmam que tudo est\u00e1 combinado, ao menos com o carcereiro que mudado havia sido h\u00e1 tr\u00eas meses. De facto, quero crer, sim, quero crer que \u00e0quela hora algu\u00e9m numa cela algo distante sorri por debaixo dos len\u00e7\u00f3is.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alcan\u00e7ada a janela, frei Jo\u00e3o engancha o gancho, atira janela fora a corda de tiras, atira o h\u00e1bito enfaixado na correia, sobe ao parapeito, faz o sinal da cruz e, <em>\u00abagarrando-se com as m\u00e3os e os joelhos\u00bb<\/em>, desliza lenta e suavemente. Ao alcan\u00e7ar o extremo das tiras e da velha t\u00fanica rota ainda est\u00e1 a metro e meio do ch\u00e3o coberto de pontiagudas pedras; deixa por isso descair um pouco mais o corpo e, ainda em suspenso, abandona-se e cai a dois palmos dum abismo. Ei-lo no ch\u00e3o, ei-lo solto, mas n\u00e3o livre. E da\u00ed a nada t\u00e3o cheio de ang\u00fastias que chegou a considerar ter de berrar pelos carcereiros para que o viessem buscar, quer lhe dessem a morte, quer n\u00e3o. A verdade \u00e9 que depois de vestir o h\u00e1bito, ainda lhe faltam saltar quatro altos muros e, buscando por onde busque, \u00e0 luz da lua, n\u00e3o h\u00e1 modo de trepar e saltar o primeiro, quanto mais quatro! Depois de desconsiderar voltar a cair nas m\u00e3os dos Cal\u00e7ados, depois de voltas e mais voltas, de muita ang\u00fastia e de muitos suores frios tamb\u00e9m, sem saber como, conseguiu trepar um e outro e todos os demais muros e achar-se livre. Est\u00e1 na rua, est\u00e1 livre, mas n\u00e3o seguro, pelo que se os Cal\u00e7ados o apanham, desfazem-no em migalhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esconde-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pelas oito da manh\u00e3 achegou-se ao mosteiro das filhas de Santa Teresa, onde \u00e9 prioresa a madre Ana dos Anjos. E um novo milagre se d\u00e1 e se deu, mas este ficar\u00e1 para outras calendas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>10.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aqui te deixo, leitor, leitora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui te deixo com um farrapinho descal\u00e7o rodeado de encantadas freirinhas. Vendo elas como o veem, logo se apressam a cozinhar-lhe umas peras com canela \u2013 com canela, reparar\u00e1s!; o que \u00e0 data, n\u00e3o \u00e9 nada pouco e at\u00e9 \u00e9 muit\u00edssimo! \u2013, e servem-lhas ainda quentinhas. E enquanto isso, ele conta-lhes aquela longu\u00edssima noite de ang\u00fastias, a imensa negra noite que sofreu no escuro ventre da baleia, e conta-lhes\u2026 Ah, espera, j\u00e1 te direi o que mais contou para del\u00edcia das santas monjinhas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Volvo atr\u00e1s. Preciso de interrogar-te, leitor, e \u00e9 sobre o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acreditas no que te disse: que torturaram a nosso pai S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz durante nove meses? Acreditas que os torturadores era seus irm\u00e3os? Acreditas mesmo que foi durante nove meses? (Bem, os tr\u00eas \u00faltimos foram um pouco mais levadeiros, mas n\u00e3o menos cru\u00e9is nem menos ign\u00f3beis!) Acreditas no que te disse? Julgas mesmo ter sido isso poss\u00edvel? (Olha que os carcereiros eram zelosos, fi\u00e9is \u00e0 lei vigente; e como o Santo dizia: <em>\u00abFaziam aquilo por pensarem estar na verdade!\u00bb<\/em>). Olha, acreditas agora melhor que essa tortura assim se deu, com a tenacidade de uma incans\u00e1vel m\u00f3 de moinho bem calibrado, com a taramela sempre tr\u00e9mula, incansavelmente tr\u00e9mula, batendo incans\u00e1vel na m\u00f3? Se sim, acertas; e ent\u00e3o, tenho para ti mais perguntas:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Explica-me se sabes, explica-me se porventura entendes; se passados anos as costas de frei Jo\u00e3o ainda n\u00e3o haviam cicatrizado, responde-me, por favor: como \u00e9 que o n\u00e3o mataram? Como n\u00e3o o vergaram? Como n\u00e3o cedeu ele? Como n\u00e3o o enlouqueceram?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta que te quero propor \u00e9 mesmo esta: Como \u00e9 que n\u00e3o enlouqueceram aquele pobre de Deus? (Este \u00e9 o meu espanto: como n\u00e3o o enlouqueceram tantas torturas horr\u00edveis, tantos espancamentos, torturas psicol\u00f3gicas, torturas morais, a priva\u00e7\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o, a priva\u00e7\u00e3o de eucaristia, a priva\u00e7\u00e3o de todo o conforto, a priva\u00e7\u00e3o da confiss\u00e3o, a priva\u00e7\u00e3o?&#8230; Como n\u00e3o o endoidaram?)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforta-me e responde-me, leitor: como n\u00e3o enlouqueceram a nosso pai nu e descal\u00e7o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 que se o houvessem endoidado, tinham-no vencido de igual modo, tinham-no tirado para fora da barriga da baleia, tinham-lhe posto uma trela para exibi-lo \u00e0s claras. E n\u00f3s todos talvez tiv\u00e9ssemos so\u00e7obrado tamb\u00e9m com ele, n\u00e3o sei.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, sim, mas como \u00e9 que o n\u00e3o endoidaram? Porque, \u00e9 claro, porque Deus existe \u2013 e \u00e0 quest\u00e3o da exist\u00eancia de Deus acrescento-lhe mais esta prova!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o o ensandeceram, n\u00e3o. E eu que de poucas letras sou, vou explicar-te porque o n\u00e3o conseguiram ensandecer: simplesmente porque frei Jo\u00e3o tinha a B\u00edblia do cora\u00e7\u00e3o. Porque, enfim, inteiro vivia ele na B\u00edblia!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o encontro isto em lado algum, mas na paix\u00e3o do Senhor, ele revia a sua. No tribunal de Jesus e na senten\u00e7a de Jesus, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz nelas se via, se lia e se relia. Na flagela\u00e7\u00e3o de Jesus, ele se sentia. Nas costas retalhadas de Jesus, servo in\u00fatil, rasgadas via ele as suas. No risos e mofas, ele fechava os ouvidos como Jesus. Nas inj\u00farias, ele se apoiava na debilidade de Jesus. Unia-se a Jesus, abandonava-se ao Pai, como Jesus. S\u00f3 como Jesus. Sempre como Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isto para mim \u00e9 inteiramente verdade. N\u00e3o; o mal e a baleia n\u00e3o o surpreenderam, jamais o enredaram e o encarceraram s\u00f3 a ele, pois j\u00e1 antes tinham feito o mesmo a Jesus, o cordeiro sem mancha. O Puro. E no Puro encontrou frei Jo\u00e3o da Cruz o modelo da sua paci\u00eancia, da sua paz e da sua esperan\u00e7a, e ficou-se nelas. Fincou-se nelas e venceu a negra baleia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas n\u00e3o foi tudo. H\u00e1 mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem testemunhas \u2013 naturalmente posteriores \u00e0 pris\u00e3o no ventre da baleia; mas ainda assim, porque n\u00e3o h\u00e3o-de algumas ser tamb\u00e9m anteriores? \u2013, existem testemunhas que afirmam que S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz sabia a B\u00edblia de cor \u2013 eis o segredo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao prend\u00ea-lo, ao reclu\u00ed-lo na masmorra da baleia, privaram-no de tudo; sim, at\u00e9 do escapul\u00e1rio, sinal de alian\u00e7a com a Virgem Maria. Mas n\u00e3o puderam jamais nem raspar-lhe nem arrancar-lhe a Palavra que levava gravada no cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o puderam, jamais puderam apagar-lhe a Palavra de Deus do cora\u00e7\u00e3o, porque todo ele era uma b\u00edblia aberta, uma b\u00edblia peregrina, caminheira, andante, era Palavra-fonte, Palavra-leite que alimenta, Palavra-p\u00e3o que sacia, palavra-mel que ado\u00e7a o fel da falsa fraternidade, palavra-chave que abre os grilh\u00f5es, Palavra-esperan\u00e7a que faz voar. Era alian\u00e7a que Deus n\u00e3o quebra, Amor que n\u00e3o desmaia. Palavra-sabor que lhe temperava de terna luz as escuras horas do dia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao prend\u00ea-lo, prenderam-no, sim, no ventre da baleia; e privando-o de tudo, fizeram-lhe um favor: n\u00e3o puderam impedir \u2013 ou at\u00e9 o favoreceram? \u2013 que ele fosse ao mais profundo centro de si mesmo, onde secreta e caladamente Deus mora, e ali morasse ele na Palavra e a Palavra nele, e assim, desse modo, a Palavra o ajustasse e o fortificasse como um baluarte seguro! Ali preso, ele era um com Deus. Era um h\u00edfen entre Palavra e corpo! Um h\u00edfen unindo palavra santa e corpo de um santo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E morando inteiro \u2013 corpo, alma e esp\u00edrito \u2013 num e noutro e noutro vers\u00edculo da B\u00edblia, assim foi que o n\u00e3o enlouqueceram. Ali\u00e1s, tamb\u00e9m ignoravam, isso \u00e9 certo, que n\u00e3o existe gaiola que prenda quem anseie ser p\u00e1ssaro solit\u00e1rio!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quiseram-no d\u00e9bil e posterg\u00e1vel, \u00e9 verdade, e fizeram-no forte \u2013 \u00f3 sofrimento heroico de quem, j\u00e1 morando na Palavra de vida eterna, ainda mora em terra estrangeira!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas algo mais existe e aqui quero deixar-to dito, leitor, leitora: daquela alian\u00e7a entre Palavra e corpo de p\u00e1ssaro solit\u00e1rio acontecida na noite escura do ventre escuro da baleia \u2013 oh insond\u00e1veis des\u00edgnios de Deus! \u2013, brotou da torrente impetuosa da Palavra uma fresca fonte de palavras: e o santo escreveu poemas! Dos mais belos que existem. S\u00e3o poemas de amor encantado, poemas de amor fiel e santo, poemas de amor puro, poemas de alian\u00e7a, poemas-palavra de corpo e alma que se sentem amados. Poemas-poemas. E se outros n\u00e3o existissem, estes bastariam para salvar a humanidade! Oh, que poemas ele n\u00e3o escreveu!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poemas assim n\u00e3o s\u00e3o hoje f\u00e1ceis de ler; digo, n\u00e3o s\u00e3o interpret\u00e1veis num s\u00f3, inteiro e definitivo sentido. Por isso, ponho aqui os seus t\u00edtulos e tu busca-os por a\u00ed. E l\u00ea-os at\u00e9 que neles mores. Outros, dois ou tr\u00eas mais, escrever\u00e1 ele depois da liberta\u00e7\u00e3o do Egipto; mas o que bem sei \u00e9 que quando se fugou, atirou pela janela o h\u00e1bito (e depois, no ch\u00e3o, o vestiu!), mas aos poemas n\u00e3o. Deles jamais se desprendeu, porque n\u00e3o o enredavam, nem podiam obliterar-se nem raspar-se da Fonte que manava e lhe ardia no cora\u00e7\u00e3o! E por isso os levou amarrados a si, porque a Palavra estava feita corpo no seu corpo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deixo-te aqui os t\u00edtulos dos poemas que lhe borbulharam na escura pris\u00e3o de Toledo. Ele os escreveu quando p\u00f4de, e hoje s\u00e3o luz clara para os passos da nossa f\u00e9: <em>C\u00e2ntico Espiritual<\/em> (tem este poema por matriz o livro do <em>C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos<\/em>; mas se algu\u00e9m tiver outra interpreta\u00e7\u00e3o e te disser que n\u00e3o, vai por ele, leitor! O <em>C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos<\/em> \u00e9 um livro b\u00edblico, do Antigo Testamento; \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o de poemas sobre o amor puro e fiel de um amado por uma amada. Por\u00e9m, melhor o interpretamos agora, entre o amor de Deus e a humanidade ou, mais pessoal e circunscritamente, entre Deus e a alma \u2013 naquele caso, entre Deus e o prisioneiro frei Jo\u00e3o da Cruz que, apesar de cativo na baleia, se sabia fielmente amado por Deus! V\u00eas agora, claramente, leitor, leitora, por qual raz\u00e3o o n\u00e3o venceram, o n\u00e3o puderam anular?&nbsp; O n\u00e3o puderam elidir? Nem ensandecer?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O passarito solit\u00e1rio era amado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E al\u00e9m do <em>C\u00e2ntico Espiritual<\/em> (escrito \u00e0 data at\u00e9 \u00e0 estrofe <em>\u00d3 ninfas da Judeia<\/em>), escreveu e memorizou ainda nove <em>Romances sobre o Evangelho \u00abIn principio erat Verbum\u00bb<\/em>, mais um <em>Romance sobre o salmo Super flumina<\/em>; o poema <em>Bem eu sei eu a fonte<\/em> e o poema <em>Noite Escura<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Oh, que clara poesia nasceu no seu seio amoroso vivendo ainda naquele ventre escuro! T\u00e3o clara que o salvou!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>11.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem faz a manh\u00e3 longa, encurta a tarde. Mas uma coisa te garanto, amigo, amiga, naquele mosteiro de S\u00e3o Jos\u00e9 de Toledo ningu\u00e9m naquela manh\u00e3 falou, sen\u00e3o um santo, j\u00e1 quase n\u00e3o homem, j\u00e1 quase todo ele cad\u00e1ver, todo ele inteiramente fogo, todo ele carne, ossos e nervos feitos poesia, sim, todo ele feito inteira mem\u00f3ria ali disse e redisse, estrofe a estrofe, verso a verso, os poemas que trazia na mem\u00f3ria do cora\u00e7\u00e3o (e num pequeno alma\u00e7o). Naquela manh\u00e3 quente, ningu\u00e9m ali falou nem almo\u00e7ou, n\u00e3o, que do cora\u00e7\u00e3o de frei Jo\u00e3o, sempre livre, sempre fiel, irrompeu um veio de \u00e1gua fresca que nenhuma monjita quis desprezar ou deixar de beber.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Almo\u00e7aram todos a desoras, e at\u00e9 h\u00e1 um poema recente que nos recorda que enquanto as monjinhas ardiam de alegria diante daquela poesia santa, as peras do Santo se esfriavam no prato. Sim, n\u00e3o duvido que as saboreou frias. E tamb\u00e9m sei que tr\u00eas anos depois da miraculosa fuga, quando ainda nas costas tinha feridas abertas, escreveu desde Baeza uma carta a Catarina de Jesus, carmelita descal\u00e7a, dizendo-lhe <em>\u00abDepois que aquela baleia me trouxe e me vomitou neste desconhecido porto\u2026\u00bb<\/em>. \u00c9 o que eu suspeitava, leitor, leitora, vomitado foi o Santo do ventre da baleia, mas esta ficou-lhe morando dentro por muitos anos, precisamente onde ele secretamente vive trabalhando a Palavra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a baleia negra resguarda-se algures, entre as letras de um poema por fazer, at\u00e9 certo dia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LA CUEVA DE SAN JVAN DE LA \u2020 Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; R\u00e9cios correm os tempos aos dias de Juanico, Jo\u00e3zinho de Yepes. 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