{"id":4714,"date":"2026-05-31T02:44:00","date_gmt":"2026-05-31T02:44:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4714"},"modified":"2026-05-26T13:46:01","modified_gmt":"2026-05-26T13:46:01","slug":"conhecer-me-as-na-fidelidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/conhecer-me-as-na-fidelidade\/","title":{"rendered":"Conhecer-Me-\u00e1s na fidelidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><br>Irm\u00e3 Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tempos recebi a visita dum amigo com o qual estudei. Come\u00e7\u00e1mos a conversar e a uma dada altura fomos ter ao assunto dos tempos de estudantes, a comunidade. Dizia-me ele, muito aborrecido, que um confrade seu lhe tinha estragado as f\u00e9rias, porque o tinha encarregado de fazer um estudo para um ciclo de confer\u00eancias que estavam a preparar. Disse-lhe que se animasse que Deus queria fazer dele um santo. Ele respondeu-me, imediatamente, que Deus quer fazer de todos n\u00f3s santos e que temos que ver as coisas \u00e0 luz da raz\u00e3o. Continuou dizendo: \u201ce se fosse eu n\u00e3o faria uma coisa destas. Isto n\u00e3o se faz e de mais a mais se fosse o ano passado eu n\u00e3o o poderia fazer\u2026\u201d Disse-lhe: Deus j\u00e1 sabia que o ano passado n\u00e3o lho podia pedir, por isso \u00e9 que o est\u00e1 a pedir este ano. Dizia-me ele: n\u00f3s somos livres e podemos sempre interferir nos planos de Deus. Perguntei-lhe: mas n\u00e3o acredita que \u00e9 Deus que conduz a sua hist\u00f3ria e que \u00e9 Ele que tem a \u00faltima palavra sobre a sua vida? Sim, respondeu-me. Temos que deixar que a f\u00e9 ilumine a raz\u00e3o, mas somos livres. E isto n\u00e3o tem nada de l\u00f3gico\u2026 perguntei-lhe qual era o estudo e disse-lhe que Deus lhe queria dar muito com aquele estudo, (e a verdade \u00e9 que Deus quer-Se dar a ele atrav\u00e9s daquele estudo). Ele respondeu-me que era mais f\u00e1cil dar do que receber. N\u00e3o tinha a certeza do que tinha escutado e pedi-lhe para repetir. Ele repetiu: \u00c9 mais f\u00e1cil dar a Deus do que receber de Deus. Disse-lhe que isso n\u00e3o era verdade, porque quando conhecemos a Deus n\u00e3o podemos fazer outra coisa sen\u00e3o estar diante Dele (quando digo diante dele n\u00e3o significa estar diante do sacr\u00e1rio, mas antes a consci\u00eancia de que sempre e em todo o momento Deus est\u00e1 connosco e tem a nossa vida nas suas m\u00e3os e por isso nos pode pedir o que Ele quiser, atrav\u00e9s dos irm\u00e3os, das circunst\u00e2ncias etc\u2026) de m\u00e3os estendidas, como pobres, para receber tudo o que Ele nos quer dar, para depois de o termos recebido Lho darmos alegremente, atrav\u00e9s do servi\u00e7o aos irm\u00e3os, ou da ora\u00e7\u00e3o, ou do trabalho, como quem n\u00e3o tem nada mas sabe que tudo possui \u2026Terminei dizendo-lhe que s\u00f3 dizemos que \u00e9 mais f\u00e1cil dar a Deus do que receber de Deus quando n\u00e3o conhecemos a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E esta \u00e9 a nossa verdade, n\u00f3s conhecemos a Deus, atrav\u00e9s duma f\u00e9 limitada pela raz\u00e3o e pela l\u00f3gica e depois temos um conhecimento de Deus, l\u00f3gico e racional. Um conhecimento de Deus desde n\u00f3s, dos nossos crit\u00e9rios e n\u00e3o desde o Deus que se nos revela no amor, na justi\u00e7a, no direito, na ternura e na fidelidade. Do Deus que faz connosco uma alian\u00e7a para se nos dar a conhecer\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu te louvo, \u00f3 Pai, Senhor do c\u00e9u e da terra, porque ocultaste estas coisas aos s\u00e1bios e doutores e as revelastes aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim, foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ningu\u00e9m conhece o Filho sen\u00e3o o Pai, e ningu\u00e9m conhece o Pai sen\u00e3o o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar.\u201d (Mt11, 25)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cEis que vou, eu mesmo, seduzir-te,<\/em><br><em>Conduzir-te ao deserto e<\/em><br><em>Falar-te ao cora\u00e7\u00e3o.<\/em><br><em>A\u00ed me responder\u00e1s como nos dias da tua juventude\u2026<\/em><br><em>Eu farei contigo uma alian\u00e7a para sempre,<\/em><br><em>Farei contigo uma alian\u00e7a na justi\u00e7a e no direito,<\/em><br><em>No amor e na ternura.<\/em><br><em>Eu farei contigo uma alian\u00e7a na fidelidade<\/em><br><em>E tu conhecer\u00e1s o teu Deus.\u201d<\/em> (Os 2,16-17.21-22)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao chamar-nos Deus n\u00e3o quer sen\u00e3o dar-se de todo a n\u00f3s, por isso seduz-nos e enamora-nos para que tamb\u00e9m n\u00f3s lhe respondamos com a mesma linguagem amorosa com que Ele nos fala. O seu amor em n\u00f3s gera uma resposta de amor dada pelo Esp\u00edrito de Amor e comunh\u00e3o, que nos impele para fora de n\u00f3s mesmos e dos nossos estreitos horizontes e nos lan\u00e7a na comunh\u00e3o amorosa do Pai e o Filho, introduz-nos j\u00e1 no fim \u00faltimo para o qual estamos chamados a \u201cparticipa\u00e7\u00e3o na vida intratrinit\u00e1ria\u201d, isto tendo em conta a nossa condi\u00e7\u00e3o de criaturas num processo de continua recria\u00e7\u00e3o. (cf Jer 18, 1-6) Quando vamos dando o nosso todo de cada momento a Deus, Ele vai-Se dando a n\u00f3s de todo, isto \u00e9, na plenitude da nossa capacidade de acolhimento. Esta entrega mutua d\u00e1 origem a um movimento de continua comunh\u00e3o, de continua presen\u00e7a, de continua perten\u00e7a, de continua luz ainda que estejamos na escurid\u00e3o, de continuo conhecimento, porque Deus \u00e9 fiel e n\u00e3o pode negar-se a si mesmo e porque \u00e9 pela fidelidade \u00e0 alian\u00e7a que Ele estabeleceu com cada uma das nossas vidas que n\u00f3s o vamos conhecendo&#8230; \u00abVer\u00e3o a sua face, e o seu nome estar\u00e1 sobre as sua frontes. J\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1 noite: nem precisar\u00e3o da luz da l\u00e2mpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhar\u00e1 sobre eles, e eles reinar\u00e3o pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos\u00bb (Ap 22,5).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conhecimento de Deus exige de n\u00f3s uma constante op\u00e7\u00e3o existencial por Ele, isto \u00e9, exige que o reconhe\u00e7amos como o Outro diferente de n\u00f3s e lhe demos o lugar que n\u00f3s pr\u00f3prios nos atribu\u00edmos, enquanto senhores da nossa vida, na pr\u00e1tica exige que deixemos que Ele seja o nosso Centro, o nosso Eu e n\u00f3s passemos para o lado, exige que n\u00e3o sejamos mais do que transpar\u00eancia de Deus. Quando O conhecemos esta exig\u00eancia converte-se numa necessidade, porque o \u00fanico sentido da nossa vida passa a estar em fazer a vontade de Deus, tal como o Mestre. \u00abO meu alimento \u00e9 fazer a vontade de meu Pai e consumar a obra que ele me mandou realizar. (Jo 4,34)\u00bb Isto \u00e9 o \u00fanico que \u00e9 capaz de converter as nossas vidas em vida eterna, no sentido joanino: \u201cA vida eterna consiste em que te conhe\u00e7am a Ti como o \u00fanico Deus verdadeiro e \u00e0quele que Tu enviaste, Jesus Cristo\u201d(Jo 17,3). O conhecimento de Deus, \u201cdesde o pr\u00f3prio Deus\u201d, ou seja, de como Ele se nos manifesta \u00e9 o \u00fanico capaz de converter a nossa hist\u00f3ria em hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o, dentro do grande marco da Hist\u00f3ria amorosa de Deus com o Seu povo. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reproduzimos em pequena escala, nas nossas vidas, aquilo que \u00e9 a vida e a hist\u00f3ria do povo de Deus, por isso \u00e9 f\u00e1cil descobrirmos o rosto amoroso de Deus que se nos d\u00e1 a conhecer do mesmo modo que se deu a conhecer a Abra\u00e3o, a Isaac e a Jacob. \u00c9 f\u00e1cil reconhecermos que a for\u00e7a trinit\u00e1ria que a Palavra encerra renova em n\u00f3s aquela alian\u00e7a em que Deus se compromete a ser o nosso Deus e pede-nos apenas que sejamos Seus, de alma e cora\u00e7\u00e3o. Daqui passamos o umbral da palavra para o encontro com o Esp\u00edrito vivificador, que actualiza em n\u00f3s o mist\u00e9rio da vida divina encerrada na palavra e sacramento da fidelidade de Deus para com as nossas vidas. \u00c9 na Palavra feita carne que Deus cumpre todas as promessas feitas aos nossos pais na f\u00e9 e a n\u00f3s pr\u00f3prios. A n\u00f3s cabe escutar e assumir as promessas que Deus foi fazendo ao longo da hist\u00f3ria, faz\u00ea-las nossas e deixar que Deus no-las cumpra, no nosso hoje, nas nossas circunst\u00e2ncias, na nossa cultura, no nosso existir. Deus desposou-nos na fidelidade para que O conhec\u00eassemos\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre que, por algum instante, repasso algum momento da minha hist\u00f3ria acabo por descobrir uma presen\u00e7a de Deus mais intensa, uma mais abundante fidelidade de Deus ao Seu projecto de me fazer totalmente sua. Para dizer a verdade acho que a minha vida n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o a hist\u00f3ria da fidelidade de Deus para comigo, talvez por isso O encontre t\u00e3o pr\u00f3ximo, talvez por isso a f\u00e9 seja uma luz t\u00e3o clara como o sol, talvez por isso tenha necessidade de cada vez mais procurar a sua vontade, para me tornar apenas transpar\u00eancia do Seu amor. N\u00e3o que o seja, mas lan\u00e7o-me cada vez mais n\u2019Ele para que, perdendo \u2013 me de mim mesma, me possa encontrar cada vez mais n\u2019Eles e Eles possam fazer em mim a Sua morada permanente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00abConsidero tudo como perda, diante do conhecimento do bem supremo que \u00e9 Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como lixo, para ganhar a Cristo e ser achado nele (<em>\u2026) <\/em>para conhec\u00ea-lo\u00bb Flp 3,8.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Irm\u00e3 Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro H\u00e1 tempos recebi a visita dum amigo com o qual estudei. 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