{"id":4689,"date":"2026-04-30T02:41:00","date_gmt":"2026-04-30T02:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4689"},"modified":"2026-04-27T09:42:29","modified_gmt":"2026-04-27T09:42:29","slug":"ligar-deus-a-guerra-e-blasfemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/ligar-deus-a-guerra-e-blasfemia\/","title":{"rendered":"Ligar Deus \u00e0 guerra \u00e9 blasf\u00e9mia"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, chefes pol\u00edticos e militares rezavam para que, na guerra em que estavam envolvidos, Deus aben\u00e7oasse e ajudasse os pr\u00f3prios soldados a matarem os \u00abmaus que n\u00e3o merecem a miseric\u00f3rdia de Deus\u00bb. Pediam que as armas do seu ex\u00e9rcito \u00abacertassem\u00bb nos inimigos e os vencessem, pretendendo que Deus se envolvesse na guerra e tomasse partido por uns contra outros. Instrumentalizavam a ora\u00e7\u00e3o num cen\u00e1rio b\u00e9lico, imaginado e montado com m\u00edsseis no c\u00e9u, com bombardeiros e com tanques de guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, interpretando a B\u00edblia, h\u00e1 que dizer: quem assim reza dirige-se a uma caricatura de deus, a um \u00eddolo,&nbsp; a uma imagem alienante que usurpa a imagem de Deus transcendente e a ofende. Esse pedido estulto ao fantoche de um (ent\u00e3o) falso orante n\u00e3o \u00e9 ora\u00e7\u00e3o, nem pode ser escutada por Deus. \u00c9 \u201cinvoca\u00e7\u00e3o do santo nome de Deus em v\u00e3o\u201d, tentativa de o manipular. \u00c9 sacril\u00e9gio que atenta contra a dignidade sagrada da pessoa. Metendo Deus na guerra, o que pretendem \u00e9 moraliz\u00e1-la e justific\u00e1-la. Pretens\u00e3o v\u00e3: quando se tenta justificar a viol\u00eancia, facilmente se resvala para a justifica\u00e7\u00e3o do crime. Tamb\u00e9m \u00e9 v\u00e3o envolver nela o Deus que&nbsp; j\u00e1 no s\u00e9c. VIII a.C. foi posto a dizer aquela frase b\u00edblica gravada agora no edif\u00edcio das Na\u00e7\u00f5es Unidas: \u00abTodos os povos dir\u00e3o: Subamos \u00e0 montanha do Senhor\u2026 Das suas espadas forjar\u00e3o relhas de arado; e das suas lan\u00e7as, foices. Uma na\u00e7\u00e3o n\u00e3o levantar\u00e1 a espada contra outra na\u00e7\u00e3o, nem se exercitar\u00e3o mais para a guerra\u00bb (Isa\u00edas 2,3-4). Nem os senhores da guerra podem hoje argumentar a seu favor dizendo que, a fazer f\u00e9 \u00e0 B\u00edblia, Deus \u00abprecipitou no mar cavalos e cavaleiros\u00bb na travessia do Mar Vermelho (\u00caxodo 15,1-3) e que Ele \u00e9 chamado \u00abSenhor dos ex\u00e9rcitos\u00bb, um Deus que interveio pela for\u00e7a e ia \u00e0 frente das tropas de Israel nas batalhas, aniquilando os inimigos e os seus reis (Josu\u00e9 10). H\u00e1 que compreender essa linguagem. \u00c9 a da f\u00e9 que estava a aperfei\u00e7oar-se, no contexto religioso de procura da melhor imagem de Deus, na revela\u00e7\u00e3o progressiva relatada no Antigo Testamento, em que os deuses das na\u00e7\u00f5es em redor eram vistos com tra\u00e7os guerreiros. Porque a f\u00e9 do povo de Israel, numa atmosfera contemplativa, via os acontecimentos \u00e0 luz de Deus e via Deus neles, tamb\u00e9m viu o seu Deus a \u00abcombater por ele\u00bb (Js 10,42) e a dar-lhe a vit\u00f3ria. Essa liga\u00e7\u00e3o de Deus \u00e0 guerra era uma interpreta\u00e7\u00e3o ainda imperfeita da imagem de Deus, que foi sendo corrigida com longa contempla\u00e7\u00e3o, medita\u00e7\u00e3o e ora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era Deus que era violento ou guerreiro. Afinando as lentes da sua f\u00e9, as ac\u00e7\u00f5es violentas que os humanos literariamente atribu\u00edam a Deus eram express\u00e3o da viol\u00eancia deles, que ainda o viam assim. A guerra, na B\u00edblia, est\u00e1 intricada com Deus por ser uma das experi\u00eancias humanas com que os autores b\u00edblicos foram pensando, descobrindo e limpando pouco a pouco a imagem do Deus da sua f\u00e9: inevitavelmente, Ele revelou-se aos humanos atrav\u00e9s do que eles eram e faziam na vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas essa imagem de Deus morreu definitivamente em Jesus, que \u00abno-lo deu a conhecer\u00bb (Jo\u00e3o 1,18) perfeitamente como Pai bondoso de todos os humanos: \u00abOuvistes que foi dito: \u2018Amar\u00e1s o teu pr\u00f3ximo e odiar\u00e1s o teu inimigo\u2019. Mas eu digo-vos: \u2018Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem, para vos tornardes filhos do vosso Pai que est\u00e1 nos c\u00e9us, porque Ele faz despontar o seu sol sobre maus e bons\u00bb (Mateus 5,43-45). \u00abFelizes os pacificadores, porque ser\u00e3o chamados filhos de Deus\u00bb (Mt 5,9). Deus continuou o mesmo. A imagem dele \u00e9 que foi plenamente revelada por Jesus e captada com mais nitidez pelos aderentes a ele.<\/p>\n\n\n\n<p>O Deus de Jesus \u00e9 o Deus da paz. E Jesus aceitou voluntariamente morrer na cruz para, com o seu amor, dar sentido \u00faltimo \u00e0 vida de todos os humanos, perdoando aos seus algozes, e para que jamais se desse lugar \u00e0 guerra e \u00e0 vingan\u00e7a de humanos contra humanos, rompendo a sua l\u00f3gica \u2018diab\u00f3lica\u2019. Despedindo-se dos disc\u00edpulos em atmosfera de trai\u00e7\u00e3o e de viol\u00eancia armada, Jesus insiste na paz: \u00abdeixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; n\u00e3o vo-la dou como a d\u00e1 o mundo\u00bb (Jo 14,27), com o mero sil\u00eancio das armas ou com um acordo pol\u00edtico de n\u00e3o-beliger\u00e2ncia, firmado \u00e0 ligeira. Assumiu em si e rejeitou a viol\u00eancia, cravando-a na cruz. Desde a sua morte inocente, todas as guerras se estilha\u00e7am reprovadas na imagem do <em>Homem<\/em> crucificado. Na cruz quebram-se todas as imagens desfocadas de Deus: a do deus guerreiro e castigador e a do \u2018Deus omnipotente\u2019 de uma espiritualidade ing\u00e9nua e imatura. \u00c9 de joelhos, diante da cruz de Jesus, que comtemplamos o verdadeiro Deus: impotente perante a maldade humana e s\u00f3 omnipotente no amor e no perd\u00e3o. A associa\u00e7\u00e3o de Deus \u00e0 guerra na B\u00edblia aparece como caminho para afirmar que \u00abDeus \u00e9 amor\u00bb incondicional (1Jo 4,8.16). Um Deus da guerra estaria em contradi\u00e7\u00e3o com a mensagem crist\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Esta nem sempre foi entendida. Tentaram justificar a chamada \u2018guerra santa\u2019 entre na\u00e7\u00f5es, com o conceito da <em>leg\u00edtima defesa<\/em>. Mas \u00e9 injustific\u00e1vel \u00e0 luz do evangelho de Jesus. N\u00e3o h\u00e1 guerras santas. Santa \u00e9 a paz que promove a fraternidade sem fronteiras. Tanto o terrorismo fundamentalista como a guerra contra ele em nome de Deus \u00e9 blasf\u00e9mia, porque o insulta, a Ele que \u00e9 o Deus de Jesus, o Deus da pessoa e na pessoa, o Deus a favor das pessoas, o \u00abDeus por n\u00f3s\u00bb todos (Rm 8,31). E uma religi\u00e3o identificada com um sistema de poder pol\u00edtico \u00e9 alienante. Esquece o essencial na rela\u00e7\u00e3o com Deus, que \u00e9 transcendente, puro Mist\u00e9rio, n\u00e3o manipul\u00e1vel nem control\u00e1vel pela linguagem humana (da\u00ed a proibi\u00e7\u00e3o das imagens materiais de Deus na B\u00edblia). S\u00f3 h\u00e1 uma possibilidade de implicar o verdadeiro Deus nas guerras dos humanos: compreender que Ele n\u00e3o as quer.<\/p>\n\n\n\n<p>(Publicado no jornal <em>Crescendo<\/em>, 46, n.\u00ba 293, Abril 2026, p. 10)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Recentemente, chefes pol\u00edticos e militares rezavam para que, na guerra em que estavam envolvidos, Deus aben\u00e7oasse e ajudasse os pr\u00f3prios soldados a matarem os \u00abmaus que n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4690,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4689","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4689","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4689"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4689\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4691,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4689\/revisions\/4691"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4689"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4689"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4689"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}