{"id":4676,"date":"2026-04-30T02:33:00","date_gmt":"2026-04-30T02:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4676"},"modified":"2026-04-27T09:34:35","modified_gmt":"2026-04-27T09:34:35","slug":"o-espirito-vem-em-auxilio-da-nossa-fraqueza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/o-espirito-vem-em-auxilio-da-nossa-fraqueza\/","title":{"rendered":"O Esp\u00edrito vem em aux\u00edlio da nossa fraqueza"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Irm\u00e3 Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro<\/em><br><\/p>\n\n\n\n<p> Meu querido irm\u00e3o,<\/p>\n\n\n\n<p>Por muito tempo a minha fraqueza impediu-me de perguntar a Deus qual o projecto Dele para mim. Tinha medo porque era uma desconhecida a mim mesma, porque n\u00e3o encontrava no meu interior nada de valor, porque n\u00e3o me sabia reconciliar com aquela que n\u00e3o era eu e na qual eu me tinha transformado. Medo porque n\u00e3o sabia assumir a minha pobreza interior e n\u00e3o encontrava em mim algo que pudesse atrair o olhar de Deus sobre este pobre ser\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, n\u00e3o tinha nada. E o pior \u00e9 que n\u00e3o sabia estar assim, pobre de tudo e de mim mesma. Eu e o meu nada\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Por ent\u00e3o, o \u00fanico que prevalecia \u00e9 que eu pertencia a Deus, mas tamb\u00e9m isto era um dilema. Como podia ser de Deus n\u00e3o tendo nada, do qual Ele pudesse servir-se para atrair os irm\u00e3os? Pelo contr\u00e1rio, se pudesse isolava-me \u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Tal como Job, sempre tinha tido tudo. Sempre tinha disposto as coisas desde o centro que era eu, sempre tinha colocado os talentos a render e dum momento para o outro at\u00e9 a minha pr\u00f3pria identidade me tinha sido tirada. O meu nome j\u00e1 n\u00e3o se identificava com a pessoa que eu conhecia. O meu projecto de vida tinha deixado de existir. Come\u00e7ar outro, como, quando no meu ser n\u00e3o existia nada que justificasse o Amor de Deus por mim?<\/p>\n\n\n\n<p>Era o acto mais puro da gratuidade do Amor de Deus para comigo e eu n\u00e3o o era capaz de reconhecer. Ele estava-me amar, apenas por ser obra do Seu acto criador, sem mais nada, e faltava-me a humildade para me acolher e aceitar na for\u00e7a do seu Amor, faltava-me passar do conhecimento de f\u00e9 para o conhecimento experi\u00eancial de Deus. Agora, sei que este foi um dos momentos mais fortes de purifica\u00e7\u00e3o passiva do meu ser\u2026 e agrade\u00e7o profundamente a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Queria ter algo para lhe oferecer, como seguran\u00e7a do Seu Amor por mim, como garantia de que pelas minhas qualidades eu O poderia servir e assim \u201cmereceria\u201d o seu amor. Eu servi-lo-ia e Ele teria motivo para me amar\u2026veja que amor impuro e ego\u00edsta, veja qu\u00e3o longe e distante da gratuidade do Amor, de amar a Deus pelo que Ele \u00e9 em si mesmo e n\u00e3o pelo que Ele \u00e9 em mim, t\u00e3o longe de O amar sem me deixar condicionar pela minha incapacidade para o Amor, sem me deixar condicionar pelas minhas feridas\u2026 Ele \u00e9 digno de todo o amor, porque Ele \u00e9 o pr\u00f3prio Amor. Independentemente do que sou ou sinto, o \u00fanico necess\u00e1rio \u00e9 Amar a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>O nosso cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 criado para um amor grande como o de Deus. \u201cQue possuis que n\u00e3o tenhas recebido e se o recebeste, porque ages como se n\u00e3o tivesses recebido?\u201d S\u00e3o tantas as vezes que sinto que Deus me faz esta pergunta\u2026 T\u00e3o pequeno o meu sentimento de gratid\u00e3o e de felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Como temos dificuldade em entender a gratuidade! Como temos dificuldade em entender que valemos&nbsp; o pre\u00e7o do Sangue de Cristo, n\u00e3o pelo que fizemos ou fazemos, mas pelo que somos, n\u00e3o por vontade nossa, mas por vontade do nosso Pai Eterno! Como temos dificuldade em acreditar que o Pai nos quer e nos ama, assim, nas nossas fraquezas, debilidades e impot\u00eancias, que \u00e9 assim que a nossa hist\u00f3ria se converte em hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Por&nbsp; algum tempo&nbsp; vivi e convivi com classe social alta da sociedade portuense. Um dia em que estava sozinha em casa, tocou o telefone, era algu\u00e9m que estava a passar uma tremenda crise de escr\u00fapulos. Algu\u00e9m que j\u00e1 n\u00e3o acreditava que Cristo tinha morrido na cruz, para lhe dar a vida da gra\u00e7a. Naquele momento tudo era posto em causa. A mim o que o Esp\u00edrito Santo me inspirava fortemente eram as Palavras de S. Paulo: \u201cA vida do momento presente, vivo-a animado na f\u00e9 do Filho de Deus que me amou e Se entregou a si mesmo por mim.\u201d (Gl 2,20) Falei-lhe da verdade hist\u00f3rica e da impossibilidade de negar a morte de Cristo na Cruz e da verdade de f\u00e9 que ela j\u00e1 tinha experimentado na ora\u00e7\u00e3o. Da for\u00e7a do chamamento que o Senhor lhe tinha feito e pelo qual tinha renunciado a tudo. Da experi\u00eancia de resgate do pecado da qual tantas vezes tinha dado testemunho.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto estava ao telefone, o elevador parou no nosso andar, mas a campainha n\u00e3o tocou.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Eu estava junto \u00e0 porta, onde existia uma parede toda espelhada na qual reflectia a pintura da silhueta dum homem deitado, atado com amarras, em tons de preto e cinzento e que para mim evocava fortemente a presen\u00e7a da liberta\u00e7\u00e3o interior que Cristo nos tinha conquistado pelo seu Sangue. Apesar de ser o hall de entrada, era o lugar que mais evoca e invocava a presen\u00e7a ressuscitadora de Cristo e vivificadora do Esp\u00edrito de Deus, por isso, quando falava de Deus era o espa\u00e7o que frequentemente ocupava. A\u00ed sentia a for\u00e7a da necessidade de liberta\u00e7\u00e3o da humanidade e sentia-me intimamente solid\u00e1ria com Cristo, na luta por essa mesma liberta\u00e7\u00e3o. Tal como diz S. Paulo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA cria\u00e7\u00e3o encontra-se em expectativa ansiosa, aguardando a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus. De facto, a cria\u00e7\u00e3o foi sujeita \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o voluntariamente, mas por disposi\u00e7\u00e3o daquele que a sujeitou \u2013 na esperan\u00e7a de que tamb\u00e9m ela ser\u00e1 libertada da escravid\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o, para alcan\u00e7ar a liberdade na gl\u00f3ria dos filhos de Deus. Bem sabemos como toda a cria\u00e7\u00e3o geme e sofre as dores de parto at\u00e9 ao presente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o s\u00f3 ela. Tamb\u00e9m n\u00f3s que possu\u00edmos as prim\u00edcias do Esp\u00edrito, n\u00f3s pr\u00f3prios gememos no nosso \u00edntimo, aguardando adop\u00e7\u00e3o filial, a liberta\u00e7\u00e3o do nosso corpo. (\u2026) O Esp\u00edrito vem em aux\u00edlio da nossa fraqueza, pois n\u00e3o sabemos o que pedir, para rezarmos como deve ser; mas o pr\u00f3prio Esp\u00edrito intercede por n\u00f3s com gemidos inef\u00e1veis. E aquele que examina os cora\u00e7\u00f5es conhece as inten\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito, porque \u00e9 de acordo com Deus que o Esp\u00edrito intercede pelos santos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos que tudo sucede para bem daqueles que amam a Deus, segundo a Sua vontade.\u201d (Rm 8, 18-28)<\/p>\n\n\n\n<p>Creio que ao telefone se apoderou de mim essa for\u00e7a de Cristo, que me faz ser testemunha do poder de Cristo, e, que naquele momento me fez ser insistente e persistente, para dissipar as d\u00favidas do amor de Cristo que tinham assaltado aquela pessoa. Quando desliguei o telefone algu\u00e9m voltou a puxar o elevador.<\/p>\n\n\n\n<p>Dias mais tarde, quando ia para a faculdade um Senhor com o ar de muito importante, parou para me cumprimentar, o que fez muito delicada e atenciosamente, eu como sou muito desatenta \u00e0 realidade material dos factos em si . mesmos, ocupo-me na procura da manifesta\u00e7\u00e3o de Deus por meio das realidades vis\u00edveis, fiquei muito admirada porque n\u00e3o conhecia o Sr de parte nenhuma, mas retribu\u00ed com toda a cordialidade. Quando regressei a casa disseram-me: \u201co Sr tal aprecia-a muito, tem uma grande considera\u00e7\u00e3o por si\u201d. Eu perguntei quem era o Sr. Ao que me responderam era o dono da cadeia de lojas de Pronto a Vestir internacional. Eu voltei a perguntar como \u00e9 que ele me conhecia, se o meu amor \u00e0 pobreza n\u00e3o me deixava frequentar as suas lojas. Parece que ele tinha ido l\u00e1 a casa,&nbsp; eu estava ao telefone, e ele ficou do lado de fora da porta a escutar a conversa. Ele tinha ficado a escutar o que nunca ningu\u00e9m se tinha atrevido a dizer-lhe: que ele valia o pre\u00e7o do sangue de Cristo, que a vida que estava a viver seria vazia de sentido se n\u00e3o fosse vivida em comunh\u00e3o com Cristo, sen\u00e3o fosse vida eterna e que a vida eterna era o conhecimento do Pai como \u00fanico Deus verdadeiro e Aquele que ele enviou, Jesus Cristo. (Jo 17,2) Este era o \u00fanico sentido da vida e por ele t\u00ednhamos de lutar.<\/p>\n\n\n\n<p>E no fim tinha-se sentido bem com a novidade de vida que lhe era proposta e que estava muito al\u00e9m de toda a riqueza das roupas, e da imagem que ele possu\u00eda, tratava-se da f\u00e9. Esta era para ele um verdadeiro desafio, porque nem o dinheiro, nem os bens que ele tinha, lha podiam garantir, nem adquirir\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes temos medo de propor aos outros a f\u00e9. Muitas vezes n\u00f3s mesmos negamos a gra\u00e7a recebida, porque n\u00e3o acreditamos que ela tenha poder para curar as nossas feridas. N\u00e3o manifestamos a Deus as nossas feridas e n\u00e3o lhe manifestamos a nossa confian\u00e7a no poder que tem para nos curar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s uma longa temporada de muita ora\u00e7\u00e3o e num desses momentos de encontro \u00edntimo e pessoal com o Senhor, nesses momentos em que somos convidados a entrar no quarto e fechar a porta, e a rezar ao Pai no segredo, num mar de turbulentos sentimentos de fraqueza e impot\u00eancia foram determinantes, para mim, as palavras de S. Paulo: \u201cSe vivemos, vivemos para o Senhor e se morremos, morremos para o Senhor. Quer vivamos, quer morramos pertencemos ao Senhor.\u201d Ent\u00e3o, se mesmo \u201cmorta ou agonizante\u201d, estado em que interiormente me sentia, pertencia ao Senhor, o que me fazia ter medo d\u2019Ele? O meu estado interior? Mas Ele conhecia-o melhor do que eu\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Faltava-me a humildade para me acolher das m\u00e3os do Senhor; a docilidade para me reconhecer como um instrumento pobre e d\u00e9bil, mas cheio da sua gra\u00e7a, segundo a Sua vontade; a simplicidade para o reconhecer como Senhor da minha hist\u00f3ria e criador de cada detalhe da minha exist\u00eancia; a confian\u00e7a para permanecer na paz de quem se sente envolvido pelo amor; o verdadeiro esp\u00edrito de comunh\u00e3o de amizade com o Senhor, de ora\u00e7\u00e3o, para saber que n\u00e3o sou mais, nem estou chamada a ser mais do que o seu querer para mim. E como \u00e9 desconcertante o Seu querer para mim, liberta-me continuamente do meu \u201ceu\u201d ego\u00edsta e orgulhoso. E o eu de cada um de n\u00f3s est\u00e1 mais vivo e actuante do que possamos pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPertencer-LHE \u00e9 uma aprendizagem cont\u00ednua, que se funda n\u00e3o no amor que LHE temos, porque n\u00e3o O sabemos amar, mas na gratuidade do Seu amor por n\u00f3s. E quando nada valemos, ent\u00e3o, \u00e9 quando temos o verdadeiro e justo pre\u00e7o \u2013 o do amor de Deus por n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE o amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de n\u00f3s: Deus enviou&nbsp; ao mundo o Seu Filho Unig\u00e9nito, para que, por Ele tenhamos a vida. \u00c9 nisto que est\u00e1 o amor: n\u00e3o fomos n\u00f3s que amamos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou primeiro e enviou o Seu Filho como v\u00edtima de expia\u00e7\u00e3o pelos nossos pecados.\u201d (1Jo 1,4)&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o receba a Gra\u00e7a de Deus em v\u00e3o. N\u00e3o se preocupe com o que est\u00e1 oculto e um dia se vir\u00e1 a manifestar, porque \u201cn\u00e3o cai um cabelo da sua cabe\u00e7a sem que o Pai do c\u00e9u o saiba.\u201d N\u00e3o h\u00e1 nada oculto em si que Ele n\u00e3o conhe\u00e7a. E quanto mais o oculta aos irm\u00e3os, mais eles o descobrem pelos seus comportamentos. Isto n\u00e3o \u00e9 incoer\u00eancia, nem denuncia, prefiro chamar-lhe caminho para a verdade. Lembre-se \u201cque tudo acontece para bem daqueles que O amam, segundo os des\u00edgnios da Sua vontade. Porque \u00e0queles que Ele de antem\u00e3o conheceu, tamb\u00e9m os predestinou para serem uma imagem id\u00eantica \u00e0 de seu Filho, de tal modo que Ele \u00e9 o primog\u00e9nito de muitos irm\u00e3os. E \u00e0queles que predestinou, tamb\u00e9m os chamou; e \u00e0queles que chamou tamb\u00e9m os justificou; e \u00e0queles que justificou, tamb\u00e9m os glorificou.\u201d (Rm 8, 28-30)<\/p>\n\n\n\n<p>Meu querido irm\u00e3o, Deus ama-o total e incondicionalmente, at\u00e9 dar \u00e0 morte o seu Filho \u00fanico, para o fazer filho no Filho, e, se isso j\u00e1 n\u00e3o fosse muito, para o fazer comungar da mesma miss\u00e3o do Filho.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocupe-se apenas Dele, nas circunst\u00e2ncias concretas e reais em que Ele se lhe manifesta e Ele ocupar-se-\u00e1 de si. Centre-se n\u2019Ele, n\u00e3o deixe que a gra\u00e7a Dele seja v\u00e3 em si\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>A sua desunifica\u00e7\u00e3o e dispers\u00e3o interior&nbsp; continuar\u00e3o e lev\u00e1-lo-\u00e3o ao total des\u00e2nimo e cansa\u00e7o at\u00e9 que O tenha colocado como \u00fanico centro da Sua vida. \u00c9 isto que Ele pede de si\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Deixe-se amar e n\u00e3o fuja ao Amor. Tem Cristo esculpido no centro da sua alma, deixe que a ora\u00e7\u00e3o o liberte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Irm\u00e3 Sofia da Cruz, Carmelo de Aveiro Meu querido irm\u00e3o, Por muito tempo a minha fraqueza impediu-me de perguntar a Deus qual o projecto Dele para mim. 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