{"id":4637,"date":"2026-03-31T06:20:00","date_gmt":"2026-03-31T06:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4637"},"modified":"2026-03-27T14:51:04","modified_gmt":"2026-03-27T14:51:04","slug":"contemplacao-e-precisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/contemplacao-e-precisa\/","title":{"rendered":"Contempla\u00e7\u00e3o, \u00e9 precisa"},"content":{"rendered":"\n<p>Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente foi dito e confirmado com inqu\u00e9ritos que Deus no mundo ocidental \u00e9 como \u00abum estranho em nossa casa\u00bb (escreveu o monge antrop\u00f3logo Ll. DUCH, <em>Un extra\u00f1o en nuestra casa<\/em> [Herder 2007]). Os que assim sentem vivem bem sem Deus: n\u00e3o lhes faz falta. Se os incomoda, que raz\u00f5es estruturais h\u00e1 para a aus\u00eancia do Deus transcendente na sociedade? Os fil\u00f3sofos e soci\u00f3logos da religi\u00e3o apontam como principal raz\u00e3o a do decl\u00ednio da aten\u00e7\u00e3o. Que querem dizer? &#8211; \u00abA aten\u00e7\u00e3o \u00e9 alavanca da alma\u00bb: f\u00e1-la subir a uma esfera superior do nosso ser; \u00aba aten\u00e7\u00e3o, no seu mais alto grau, \u00e9 ora\u00e7\u00e3o\u00bb \u2013 dizia Simone Weil, a fil\u00f3sofa que viveu judia no limiar da f\u00e9 crist\u00e3 (citada em Byung-Chul HAN, <em>Conversas sobre Deus<\/em> [Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua; Lisboa 2025] 84 e 24 e 11). E concluem que a crise da religi\u00e3o crist\u00e3 tamb\u00e9m \u00e9 em boa medida uma crise da aten\u00e7\u00e3o e da contempla\u00e7\u00e3o, complementares.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando dizemos <em>contempla\u00e7\u00e3o<\/em>, mergulhamos na vida dos m\u00edsticos crist\u00e3os e pensamos nos inumer\u00e1veis contemplativos que deram espessura \u00e0 espiritualidade da B\u00edblia com a sua experi\u00eancia de Deus. Pensamos em Maria, m\u00e3e de Jesus, que \u00abguardava todos estas palavras [com Jesus e na sua vida], ponderando-as no seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb, relacionando-as e meditando a presen\u00e7a de Deus na hist\u00f3ria do seu povo, ligando a terra com o c\u00e9u (Lc 2,19.51). E pensamos em Maria, irm\u00e3 de Marta, que, \u00absentada aos p\u00e9s do Senhor, escutava a sua palavra\u00bb com aten\u00e7\u00e3o (Lc 10,39). O contemplativo escuta e espera, d\u00e1-se tempo para compreender os acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esse pendor contemplativo que \u2013 dizem \u2013 est\u00e1 hoje esmorecido. A crise religiosa n\u00e3o se deve simplesmente \u00e0 falta de f\u00e9 em Deus ou ao facto de certas express\u00f5es de f\u00e9 (inferno, diabo, pecado original\u2026) suscitarem desconfian\u00e7a. Nem \u00e9 Deus que est\u00e1 morto, como gritou o fil\u00f3sofo F. Nietzsche dando voz a um louco (aforismo 125 de <em>A gaia ci\u00eancia<\/em>). Est\u00e1 amortecida a capacidade de contemplar o Deus vivo em Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, s\u00e3o precisamente os fil\u00f3sofos, al\u00e9m dos te\u00f3logos, a recomendar que nos aproximemos da vida de forma contemplativa, adoptando a atitude que monges e eremitas crist\u00e3os cultivaram desde o s\u00e9c. III. A aten\u00e7\u00e3o contemplativa pode restabelecer a alian\u00e7a entre o esp\u00edrito e o mundo, \u00e0s vezes destru\u00edda. Com efeito, na opini\u00e3o do fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han, convertido ao catolicismo, \u00abos tr\u00eas monstros da civiliza\u00e7\u00e3o actual s\u00e3o o capital, a digitaliza\u00e7\u00e3o e a IA. Rebaixam o ser humano, reduzindo o esp\u00edrito a escravo da efici\u00eancia\u2026 Obscenas s\u00e3o a hiperactividade, a hiperprodu\u00e7\u00e3o, a hipercomunica\u00e7\u00e3o e a hiperacelera\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o desprovidas de qualquer direc\u00e7\u00e3o, ou seja, de qualquer sentido\u00bb (<em>Conversas sobre Deus<\/em>, p. 82). Estas formas de viver, espica\u00e7adas pela redund\u00e2ncia da pressa (na qual tudo se tornou de curto prazo, de respira\u00e7\u00e3o curta e de vistas curtas), embotam a aten\u00e7\u00e3o que poderia tocar o mist\u00e9rio de Deus. Tornam-na superficial, tiram-lhe verticalidade, eleva\u00e7\u00e3o, profundidade. A alma perde-se no fluxo acelerado de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o e perde a rela\u00e7\u00e3o contemplativa com o mundo. O que conta hoje \u00e9 o sucesso e o lucro r\u00e1pidos; todas as necessidades t\u00eam de ser satisfeitas imediatamente. \u00abA acelera\u00e7\u00e3o monstruosa da vida habitua o esp\u00edrito e o olhar a uma vis\u00e3o e a um julgamento parciais ou falsos\u00bb \u2013 dizia F. Nietzsche em 1878 (em <em>Humano, demasiado humano<\/em>: citado por Byung-Chul HAN, <em>Vita contemplativa<\/em> [Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua; Lisboa 2023] 26). \u00ab\u00c9 precisamente devido \u00e0 falta de aten\u00e7\u00e3o que o mundo de hoje \u00e9 t\u00e3o pobre em pensadores e poetas\u00bb (B.-Ch. HAN, <em>Conversas sobre Deus<\/em>, p. 25). F. Nietzsche, que morreu em 1900, tamb\u00e9m pensava que o facto de o seu tempo ser pobre em cultores do esp\u00edrito se devia \u00e0 perda da vida contemplativa, atribuindo-lhe a crise da modernidade.<\/p>\n\n\n\n<p>De facto, \u00abn\u00e3o vivemos somente em crise econ\u00f3mica\u2026 Em sentido estrito, o que experimentamos na Europa \u00e9 uma crise do esp\u00edrito\u2026 [em 2012] Desde h\u00e1 dez ou vinte anos, quase nada acontece em literatura. Deparamos com um dil\u00favio de publica\u00e7\u00f5es e, todavia, nota-se um estancamento do esp\u00edrito. A causa \u00e9 uma crise da comunica\u00e7\u00e3o. Os novos meios de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o admir\u00e1veis, mas produzem um ru\u00eddo aterrador\u00bb (Byung-Chul HAN, <em>A agonia de Eros<\/em> [Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua; Lisboa 2014] p. 56, e B.-Ch. HAN, <em>Vita contemplativa<\/em>, p. 28). Aturdidos com o del\u00edrio de informa\u00e7\u00e3o pululante e atordoados com a embriaguez da comunica\u00e7\u00e3o, descuramos a contempla\u00e7\u00e3o. No digital, o ser humano encontra-se a si mesmo e n\u00e3o encontra os outros. A digitaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma anestesia. As ferramentas digitais s\u00e3o um meio precioso para compreendermos o mundo e a n\u00f3s pr\u00f3prios, mas exigem discernimento corajoso, que v\u00e1rios pa\u00edses j\u00e1 fazem proibindo \u00e0s crian\u00e7as a entrada de telem\u00f3veis nas escolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os procuradores de Deus o sabem, n\u00e3o s\u00f3 os monges e frades ao recomendarem o sil\u00eancio interior e exterior. O ru\u00eddo das m\u00e1quinas, dos motores e das fren\u00e9ticas redes sociais, com todos os benef\u00edcios que t\u00eam, \u00e9 intrusivo e invasivo: ataca a alma, mata o sil\u00eancio prop\u00edcio \u00e0 vida do esp\u00edrito e priva de aten\u00e7\u00e3o contemplativa. Como dizia F. Nietzsche, \u00abo ru\u00eddo mata os pensamentos\u00bb (<em>Assim falava Zaratustra<\/em> [Presen\u00e7a; Oeiras 2010] 270). Com a massa de informa\u00e7\u00f5es ficamos inteirados do que passa, mas desorientados, porque a <em>ci\u00eancia Google<\/em> \u00e9 aditiva, soma de dados: n\u00e3o \u00e9 ainda conhecimento, verdade, saber. Os dados e as informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a e alma; e, s\u00f3 por si, s\u00e3o desprovidas de consequ\u00eancias, porque s\u00e3o fragmentos. A vida curta da informa\u00e7\u00e3o fragmenta o tempo e fragmenta a nossa aten\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o consegue fixar-se e demorar-se no que muda constantemente. Necess\u00e1rio \u00e9 fazer a interpreta\u00e7\u00e3o dos dados, que liga as coisas e d\u00e1 sentido \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, d\u00e1 conhecimento inovador e d\u00e1 sentido, orienta\u00e7\u00e3o e mais consci\u00eancia \u00e0 vida. Enquanto a informa\u00e7\u00e3o perde rapidamente o seu encanto e desvanece na chegada da nova informa\u00e7\u00e3o, a aten\u00e7\u00e3o contemplativa interpreta e centra-se no que perdura. Desperta o desejo do <em>novo<\/em>, tornando-se o limiar do invis\u00edvel e do inaudito: \u00abN\u00e3o fixamos os olhos nas coisas vis\u00edveis, mas nas invis\u00edveis, pois as coisas vis\u00edveis s\u00e3o passageiras, mas as invis\u00edveis s\u00e3o eternas\u00bb (2Cor 4,18; 5,7). A aten\u00e7\u00e3o contemplativa n\u00e3o \u00e9 fraqueza. \u00c9 vida com esplendor, empresta intensidade \u00e0 vida. \u00c9 olhar profundo para o lado bom e bonito das coisas. N\u00e3o \u00e9 adorno da vida: \u00e9 o seu melhor. Introduz-nos no mist\u00e9rio da vida, aproximando-nos do divino. Quem sabe se foi um pouco por isto que o cr\u00edtico do cristianismo F. Nietzsche pedia que entre os melhoramentos a introduzir na vida da humanidade constasse \u00abfortalecer em grande medida o elemento contemplativo\u00bb (em <em>Humano, demasiado humano<\/em>, citado por B.-Ch. HAN, <em>Vita contemplativa<\/em>, p. 27).<\/p>\n\n\n\n<p>O elogio da contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o quer escamotear a necessidade e a virtude do trabalho. Alerta para o facto de que uma vida fixada no trabalho, na produ\u00e7\u00e3o, no consumo, no desempenho e na efici\u00eancia gera um vazio de sentido, retira a sacralidade \u00e0 vida e profana a actividade humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Contempla\u00e7\u00e3o, precisa-se, muito particularmente para nos deixarmos envolver pelo sumo mist\u00e9rio da f\u00e9 crist\u00e3, a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, que se pode contemplar mas n\u00e3o filmar: s\u00f3 a contempla\u00e7\u00e3o entra nessa super-realidade que tocou por dentro a vida de seguidores e perseguidores de Jesus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Recentemente foi dito e confirmado com inqu\u00e9ritos que Deus no mundo ocidental \u00e9 como \u00abum estranho em nossa casa\u00bb (escreveu o monge antrop\u00f3logo Ll. 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