{"id":4592,"date":"2026-02-28T02:42:00","date_gmt":"2026-02-28T02:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4592"},"modified":"2026-02-27T11:13:30","modified_gmt":"2026-02-27T11:13:30","slug":"baptismo-e-nova-identidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/baptismo-e-nova-identidade\/","title":{"rendered":"Baptismo e nova identidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><br>Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p>A Quaresma tamb\u00e9m tem uma dimens\u00e3o baptismal. Convida os baptizados a redescobrirem e a aprofundarem durante esse \u201ctempo favor\u00e1vel\u201d (2Cor 6,2) o essencial no caminho da f\u00e9 crist\u00e3, morrendo para o mal e crescendo na \u201cvida nova\u201d em Cristo Jesus (Rm 6,4), de modo a participarem mais intensamente no mist\u00e9rio da sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, celebrado no final da Quaresma. Por isso, neste m\u00eas de Quaresma meditamos sobre o baptismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Tradicionalmente \u00e9 associado \u00e0 doutrina dogm\u00e1tica do chamado \u201cpecado original\u201d; e a reflex\u00e3o sobre ele foi, desde o s\u00e9c. V, tribut\u00e1ria dessa doutrina. O <em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>, de 1992, diz, num enquadramento negativo, que ele \u201ccancela o pecado original\u201d (n.\u00ba 405). Mas, dissociando o baptismo dessa doutrina, qual seria ent\u00e3o a fun\u00e7\u00e3o dele? Deixaria de ter sentido? De modo nenhum. Continuaria a ter o sentido positivo que lhe \u00e9 pr\u00f3prio. Apareceria como o sacramento que introduz o ser humano na Igreja de Jesus, na comunidade dos seus disc\u00edpulos, dos que s\u00e3o filhos de Deus pelo Filho de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a f\u00e9 b\u00edblica, o humano rec\u00e9m-nascido \u00e9 <em>criatura de Deus criador<\/em>, \u201ccriado \u00e0 Sua imagem e semelhan\u00e7a\u201d (Gn 1,26); pelo baptismo torna-se <em>filho de Deus Pai<\/em>, ao participar da gra\u00e7a do Seu Filho pelo Seu Esp\u00edrito. Esse \u00e9 o \u2018valor acrescentado\u2019 pelo baptismo ao nascido que entra para a exist\u00eancia, n\u00e3o como concebido e manchado pelo pecado, mas em estado de estreita rela\u00e7\u00e3o com Deus. O baptismo \u00e9 um renascimento para Jesus (Jo 3,5), uma reorienta\u00e7\u00e3o decisiva da pr\u00f3pria vida para ele, seu salvador. \u00c9 a celebra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio da vida recebida. O nascimento pelo amor dos pais d\u00e1 o <em>ser<\/em>. O baptismo pelo amor de Jesus, como novo nascimento, d\u00e1 o <em>pertencer<\/em> \u00e0 comunidade dos salvados por ele. O baptizando, que dos pais recebe a vida, pelo baptismo recebe o sentido para a viver: o Esp\u00edrito de Jesus ressuscitado. O baptismo <em>mergulha<\/em> o baptizado no c\u00edrculo do amor de Deus manifestado para com ele em Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>A gra\u00e7a do baptismo, que \u00e9 o dom do Esp\u00edrito de Deus, regenera eficazmente o baptizado: \u201cO baptismo salva-vos: n\u00e3o o facto de tirar uma sujidade corporal mas o compromisso para com Deus de uma consci\u00eancia honrada, fundado na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo\u201d (1Ped 3,21); \u201cDeus salvou-nos\u2026 segundo a sua miseric\u00f3rdia por meio do banho de regenera\u00e7\u00e3o e de renova\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo\u201d (Tit 3,5). N\u00e3o \u00e9, pois, uma simples limpeza ritual. E se \u00e9 ministrado a um adulto com pecados, s\u00e3o perdoados (Ef 5,26; Heb 10,22; 1Cor 6,11).<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo assim, justifica-se ministrar o baptismo \u00e0s crian\u00e7as, incorporando-as quanto antes na comunidade de salva\u00e7\u00e3o. O compromisso para com Deus, assumido pelos pais e padrinhos em representa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, ser\u00e1 conscientemente cumprido por ela quando chegar ao uso da raz\u00e3o e da f\u00e9. Ao gozar desse dom, quando mais tarde cometer pecados, poder\u00e1 ser perdoada por pertencer \u00e0 Igreja dos redimidos: pelo sacramento \u00e9-lhe aplicado o amor gratuito de Deus em forma de perd\u00e3o. Incorporando o baptizado no \u00e2mbito de influ\u00eancia da salva\u00e7\u00e3o realizada \u201cem Cristo\u201d, o s\u00edmbolo do baptismo afasta-o da tend\u00eancia espont\u00e2nea para o \u201cpecado do mundo\u201d, que o rec\u00e9m-nascido j\u00e1 encontra. Nesse sentido, o baptismo \u00e9 realmente um morrer ao pecado-realidade (no adulto) e ao pecado-possibilidade (na crian\u00e7a). A <em>imers\u00e3o<\/em>\/<em>mergulho<\/em> (sentido etimol\u00f3gico de <em>baptismo<\/em>) no banho de \u00e1gua pura sepulta o pecador e o seu passado (mesmo a crian\u00e7a pertence a uma comunidade de pecadores!) na morte de Jesus, da qual sai pela ressurrei\u00e7\u00e3o com ele para uma \u201cvida nova\u201d como \u201cnova criatura\u201d, como \u201chomem novo\u201d: \u201cQuem est\u00e1 em Cristo \u00e9 uma nova cria\u00e7\u00e3o\u201d (2Cor 5,17; Rm 6,4; Col 2,12; Ef 2,15). O baptizado n\u00e3o est\u00e1 determinado pelo seu passado: abre-se por meio da f\u00e9 \u00e0 novidade que Deus realiza nele pela vida de Jesus. Ministrar o baptismo sugere que a gra\u00e7a\/vida \u00e9 mais forte do que o pecado\/morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Martinho Lutero tinha gravada na sua escrivaninha a inscri\u00e7\u00e3o \u00absou baptizado\u00bb. Ela inspirava o seu viver. Significava que Deus o tinha aceitado incondicionalmente, que o amava em Jesus e que a salva\u00e7\u00e3o vinha d\u2019Ele e n\u00e3o do seu bom comportamento. Ser baptizado \u00e9 decidir-se por Jesus, vivendo na f\u00e9 sob influ\u00eancia da sua vida e do seu evangelho. \u00c9 assumir que a f\u00e9 crist\u00e3 confere qualidade \u00e0 vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O ap\u00f3crifo Evangelho de Filipe, gn\u00f3stico, do s\u00e9c. II, traz este <em>dito<\/em> (49): \u201cSe tu dizes \u2018eu sou judeu\u2019, ningu\u00e9m se preocupar\u00e1. Se tu dizes \u2018eu sou romano\u2019, ningu\u00e9m se sentir\u00e1 abalado. Se tu dizes \u2018eu sou grego, b\u00e1rbaro, escravo, livre\u2019, ningu\u00e9m se perturbar\u00e1. Se tu dizes \u2018eu sou crist\u00e3o\u2019, todos se agitar\u00e3o\u201d. Esta afirma\u00e7\u00e3o, situada no cristianismo primitivo, sublinha que a identidade do baptizado, enquanto ligado a Jesus Cristo, \u00e9 nova e poderosa: supera a biologia, transcende as etiquetas sociais (de judeu, grego, escravo\u2026) e suscita reac\u00e7\u00f5es fortes, por apelar a uma transforma\u00e7\u00e3o radical e a crit\u00e9rios de vida exigentes: \u201cSe o mundo vos odeia, ficai a saber que, primeiro que a v\u00f3s, me odiou a mim\u201d (Jo 15,18-25). A identidade crist\u00e3 provoca agita\u00e7\u00e3o, porque desafia a sociedade e a ordem social ao sugerir que ser baptizado n\u00e3o \u00e9 uma perten\u00e7a superficial terrena, mas sup\u00f5e interioridade transformadora, como fermento na massa e perten\u00e7a distintiva: \u201cNisto reconhecer\u00e3o todos que sois meus disc\u00edpulos: se tiverdes amor uns pelos outros\u201d (Jo 13,35). Os baptizados que humildemente seguem Jesus s\u00e3o a consci\u00eancia nova e a luz do mundo (Mt 5,13-16).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD A Quaresma tamb\u00e9m tem uma dimens\u00e3o baptismal. 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