{"id":4589,"date":"2026-02-28T02:23:00","date_gmt":"2026-02-28T02:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4589"},"modified":"2026-02-27T11:11:04","modified_gmt":"2026-02-27T11:11:04","slug":"la-cueva-de-san-jvan-de-la-%e2%80%a0-a-catedra-dos-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/la-cueva-de-san-jvan-de-la-%e2%80%a0-a-catedra-dos-animais\/","title":{"rendered":"LA CUEVA DE SAN JVAN DE LA \u2020: A c\u00e1tedra dos animais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Chamem-me louco ou acusem-me a Deus, que eu n\u00e3o levo a mal, mas esta tenho de a dizer j\u00e1 e na primeira linha: ningu\u00e9m chega a santo se n\u00e3o gostar de animais. Pode-se gostar menos ou gostar mais, mas tem de se gostar. N\u00e3o digo que tem de gostar-se tanto deles como tanto deles gosta o Criador que os criou. Digo que tem de se gostar, simplesmente. Basta apenas gostar. N\u00e3o tem de se gostar como S\u00e3o Francisco, ou como S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, j\u00e1 agora \u2013 tem de se gostar. Apenas gostar.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho ainda outra, e bem arriscada: quem n\u00e3o gostar de animais como pode gostar de Deus? Como pode querer ir para o c\u00e9u? Enfim, como podemos n\u00e3o gostar do que Deus criou, viu, e gostou do que viu? Se eu at\u00e9 acho que o Tom e o Jerry andam \u00e0 bulha um com o outro, em correrias pelas moradas eternas, como poderemos n\u00f3s n\u00e3o gostar aqui de animais? N\u00e3o digo que os animais sejam o nosso tudo e mais que tudo que, \u00f3bvio \u00e9, a primazia n\u00e3o lhes cabe, ali\u00e1s, nem o primeiro, o segundo, terceiro e quarto lugares. Digo simplesmente que n\u00e3o podemos n\u00e3o gostar deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, o mundo n\u00e3o seria o mesmo sem animais. Digo-o depois de ter pensado bem: uma casa com eles por perto ou por dentro est\u00e1 bem mais perto de ser c\u00e9u! Vivo, como creio que sabem, num convento. Sem quase espa\u00e7o para n\u00f3s, imposs\u00edvel ter bichos grandes, logo aqui n\u00e3o existem, n\u00e3o. Nem mesmo um bichano \u2013 bem, minto, existem, dois agapornis \u2013 o Juanico e a Benedita \u2013 que n\u00e3o sei como suportam o duro frio de Braga. Mas l\u00e1 se aguentam.<\/p>\n\n\n\n<p>2.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos conventos prim\u00edcios da nossa Descalcez n\u00e3o consta a presen\u00e7a de bichos, pelo menos como mascote. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o admira, visto que a comunh\u00e3o com aqueles irm\u00e3os era bem mais facilmente pr\u00f3xima h\u00e1 um s\u00e9culo ou s\u00e9culos atr\u00e1s que agora. Agora que estabelecemos a cidade em ruptura com a natureza, agora precisamos, naturalmente, de os trazer para dentro de casa \u2013 precisamos n\u00f3s, n\u00e3o eles! \u2013, sendo que antes, eles conviviam connosco pelo menos at\u00e9 \u00e0 soleira da porta da cozinha. Para qu\u00ea, portanto, ao tempo de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, falar ou cronicar do gostar ou n\u00e3o gostar de bichos se eles estavam sempre por ali, num terreiro, num galinheiro, numa coelheira, numa pomba arrulhadora que se aproxima, num gato t\u00e3o independente qu\u00e3o sonolento a meia tarde? Estavam, estavam; estavam, sim.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, a meu pobre ver, um santo tem de gostar de bichos \u2013 \u00e9 como se a rela\u00e7\u00e3o com os bichos completasse a humanidade que nos singulariza. Enfim, n\u00e3o me parece que um santo por ser santo tenha de andar com eles ao colo, isso n\u00e3o, mas n\u00e3o pode andar de costas voltadas para eles. Ali\u00e1s, n\u00e3o manda o Evangelho que contemplemos as avezinhas do c\u00e9u, que n\u00e3o semeiam nem colhem, n\u00e3o t\u00eam armaz\u00e9ns nem celeiros; contudo, Deus jamais as desampara, delas cuida e as alimenta? Ora se o cuidado de Deus se prolonga e alonga bem para al\u00e9m de n\u00f3s, se as maravilhas de Deus tamb\u00e9m se exprimem nesse cuidado e nesse gosto em sustentar os animais, como poder\u00edamos n\u00f3s ignor\u00e1-los ou desprez\u00e1-los?<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, e tamb\u00e9m reparo: aquando do dil\u00favio, n\u00e3o mandou a No\u00e9 guardar, proteger e defender os animais? Claro que sim \u2013 a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 para defender e cuidar; e defender e cuidar \u00e9 j\u00e1 amar.<\/p>\n\n\n\n<p>3.<strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>O Vaticano \u00e9 o pa\u00eds mais pequenino do mundo. Ora isso faz-me suspeitar que cada palmo de terra seja ali valios\u00edssimo! Mas se eu disser que quase metade desse estado s\u00e3o jardins, que pensar\u00e1 o meu querido leitor?&nbsp;Que, pois, pensar dum estado t\u00e3o pequenino que d\u00e1 tanto espa\u00e7o aos humanos como o que d\u00e1 aos animais e \u00e0s plantas? E que mais dir\u00e1 se eu acrescentar que esse espa\u00e7o assaz extraordin\u00e1rio, e que povoa o imagin\u00e1rio de muitos, abriga tantos animais, incluindo aves de v\u00e1rias esp\u00e9cies, al\u00e9m de sapos e esquilos; e se mais acrescentar que os jardins guardam tamb\u00e9m, livremente, gamos, gazelas e cor\u00e7os?<\/p>\n\n\n\n<p>Pois, das duas uma: ou que, o nosso justo lugar \u00e9 estar dentro da Arca de No\u00e9 \u2013 o que quer dizer que, ou nos salvamos juntos, ou toda a cria\u00e7\u00e3o junta perecer\u00e1 connosco \u2013, ou que, a teremos de trazer at\u00e9 n\u00f3s, pois n\u00e3o fomos criados para sozinhos habitarmos a terra. E sim, se o mais pequeno pa\u00eds do planeta \u2013 para mais rodeado duma cidade! \u2013 concede metade do seu espa\u00e7o para que as plantas e os bichos tenham ali cidadania, este \u00e9, em definitivo, um grande pa\u00eds! E eu quero-me da\u00ed, obviamente.<\/p>\n\n\n\n<p>4.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os bichos habitam a nave de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, tal como habitam a sua poesia. Percorrendo, por exemplo, os versos do seu <em>C\u00e2ntico Espiritual<\/em>, o seu poema mais extenso, encontramos ali bichos v\u00e1rios: cervos, feras, le\u00f5es, raposas, manadas de gado, aves, pombas, rouxinol, cavalos. E nos dias da sua vida, o mesmo \u00e9 dizer no seu ensinamento oral, encontramos outros muitos. Falarei aqui das r\u00e3s, dos peixinhos e duma lebre.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, por\u00e9m, recordar-te algo, leitor, leitora, sobre um pombo e os burros. Como de si o Santo pouco ou nada falou, ou\u00e7amos o que dele outros nos disseram.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando as fontes falam da constru\u00e7\u00e3o do convento de Seg\u00f3via \u2013 sob o risco, orienta\u00e7\u00e3o e a humilde labora\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Santo \u2013 dizem-nos que para si o seu primeiro Prior escolheu a cela mais pr\u00f3xima ao coro da igreja, e descrevem-na como a mais acanhada, dispensada de adornos e de conforto: n\u00e3o tinha estante nem livros, e que uma t\u00e1bua presa \u00e0 parede fazia de mesa (e haveria por ali um banquilho, claro!); por decora\u00e7\u00e3o, apenas uma tosca cruz de madeira e uma estampa de Nossa Senhora. E um pombo!<\/p>\n\n\n\n<p>A est\u00f3ria do pombo tem que se lhe diga, visto que ele n\u00e3o apareceu apenas em Seg\u00f3via, visto que anteriormente tamb\u00e9m j\u00e1 fora visto no Carmo de Granada, ao tempo que o Santo ali vivera. Os frades sabem disso e comentam-no entre si. E a raz\u00e3o \u00e9 simples: o pombo \u00e9 bel\u00edssimo, extraordin\u00e1rio at\u00e9; repousa calado e silencioso sobre a cabeceira da porta da cela do Prior, nunca dali se retira nem para comer nem para buscar companhia de iguais. Ah, e o que \u00e9 mais singular: aparece quando o padre Jo\u00e3o se ausenta da comunidade, pelo que os bons frades de Seg\u00f3via comentam que isso \u00e9 sinal da sua santidade, e que se o pombo mais se faz presente na aus\u00eancia do Prior \u00e9 porque Deus lho envia para lhes fazer companhia! N\u00e3o sei que imaginar\u00e1s, tu, leitor, leitora, mas a isso o Santo virava costas, enquanto lhes respondia:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 \u00abDeixem-se dessas coisas!\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deixaram; felizmente, inteiramente n\u00e3o deixaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre os burros n\u00e3o leio, intuo, pelo tanto que vi na minha terra, que n\u00e3o \u00e9 nem foi terra de burros, mas de bois. Eu ainda vi aquelas leiras e campos serem trabalhados em <em>modo laboira<\/em>, isto \u00e9, \u00e0 for\u00e7a de m\u00fasculos, sejam de humanos sejam de bois. E tinha a coisa mais ci\u00eancia do que possa parecer. Mocito eu era e vi homens e alim\u00e1rias trabalharem at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o; e apreciei que os donos das juntas eram mais r\u00e1pidos em cuidar e a dar descanso \u00e0s parelhas que a si mesmos. Eu vi e apreciei que no toque e no trato dos bichos havia, por vezes, mais humanidade que a concedida aos filhos \u2013 \u00e9 um exagero, conceda-se, mas fica assim para que se esclare\u00e7a o que quero dizer: amor igual se repartia pelos filhos e pelos animais. Mas a estes, com especial nobreza pelo tanto que deles a fam\u00edlia dependia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quero crer que, no m\u00ednimo, igual trato e cuidado dava frei Jo\u00e3o da Cruz \u00e0s mulas que o transportaram em tantas viagens. E n\u00e3o era para menos. Ali\u00e1s, nem sei imaginar o quanto, naquela \u00e9poca, uma viagem de quatrocentos quil\u00f3metros dependesse da sua for\u00e7a e docilidade; mas pelo respeito e carinho com que na minha terra vi dar dos bichos, tenho por certo que naqueloutra n\u00e3o seria menor; sobretudo, pelas m\u00e3os desse homem manso que foi o padre Jo\u00e3o da Cruz. O que de todo em todo a mim me impressiona, e s\u00f3 tenho pena de melhor n\u00e3o conseguir fazer-me entender (e provar), \u00e9 que entre o pai dos carmelitas descal\u00e7os e os burros haveria uma gentileza assaz \u00fanica, assaz delicada. De santo, l\u00e1 est\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>5.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As r\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha o Carmelo de Beas de Segura, na prov\u00edncia de Ja\u00e9n, um logradouro ou quintal, e no quintal uma represa. Tanto na represa como nas cercanias \u2013 quem se admirar\u00e1? \u2013 viviam muitas r\u00e3s, ora mergulhando, ora apreciando o sol, ora deliciando-se com os mosquitos, o seu andaluz prato preferido. Como por aqui tamb\u00e9m, ali\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>No bi\u00e9nio de 1579-1580, quando o padre frei Jo\u00e3o foi ali confessor, a cozinheira do Carmelo era a irm\u00e3 Catarina da Cruz, que tinha tanto de boa cozinheira como de ing\u00e9nua. Ora, em precisando a bendita Irm\u00e3 dum ramo de salsa, duma folha de louro ou dum olho de couve para os seus cozinhados, l\u00e1 sa\u00eda ela da cozinha, entrava na horta, cruzava a represa e ia colher o que precisasse. Bem, no trajecto uma coisa sobremaneira desconsolava a pac\u00edfica carmelita: em passando pelo espelho d\u2019\u00e1gua, as r\u00e3s percebiam os seus calados passos miudinhos e, z\u00e1s!, mergulhando, escapuliam-se para o fundo da p\u00f4\u00e7a! Ora, se a boa da irm\u00e3 Catarina n\u00e3o percebia de r\u00e3s, tinha ela o padre Jo\u00e3o por bom sabedor das coisas de Deus e dos bichos da terra, que eles, como atr\u00e1s dissemos, povoam os seus poemas e ensinamentos. E, a seu tempo, tratou de entrevistar-se com ele:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 <em>Padre, por qual raz\u00e3o, quando, cautelosa, passo pela represa, as r\u00e3s de um salto se escondem no fundo dela?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>(Ora, aprecie e delicie-se, o apurado leitor, os problemas existenciais com que os confessores de contemplativas se desunham!)<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 <em>Oh, filha! Pela simples raz\u00e3o de que esse \u00e9 o lugar e o centro onde encontram seguran\u00e7a \u2013<\/em> logo lhe responde frei Jo\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 <em>Pois com certeza, responde a monja. E \u00e9 que vossa rever\u00eancia tem inteira raz\u00e3o!<\/em> \u2013 anu\u00eda a cozinheira.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o padre confessor n\u00e3o se fica por aqui, e como nunca perde a ocasi\u00e3o de dizer palavra \u00fatil e de bom proveito, acrescenta:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 <em>E assim h\u00e1-de fazer voc\u00ea, Irm\u00e3 Catarina: fuja das criaturas que a podem distrair e prejudicar. Por isso, mergulhe sempre no seu mais profundo centro, que \u00e9 Deus! Esconda-se e proteja-se sempre Nele!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Dizer-te, leitor, leitora, que pouco depois frei Jo\u00e3o da Cruz houve de deixar de ser confessor daquelas freiras andaluzas e regressou a terras de Castela. Anos al\u00e9m, como nunca as esqueceu, escreveu-lhes uma carta. Numa breve linha da mesma deixou escrito o seguinte: <em>\u00abe \u00e0 nossa Irm\u00e3 Catarina digo que se esconda e mergulhe sempre no fundo\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Estou certo que, mesmo sem passar de humilde cozinheira, a Irm\u00e3 Catarina foi uma santa, de <em>per si<\/em>, e tamb\u00e9m porque nos dois Santos Padres teve bons mestres e guias espirituais. \u00c9 que no livro das <em>Funda\u00e7\u00f5es<\/em> (5,8) Santa Teresa recomenda \u00e0s suas irm\u00e3s que, quando tiveram de se ocupar em tarefas exteriores, como por exemplo na cozinha, recordem sempre <em>\u00abque tamb\u00e9m entre as panelas anda o Senhor!\u00bb<\/em>; e que isso as h\u00e1-de ajudar a viver no seu interior. E depois, n\u00e3o \u00e9 de crer que em p\u00f3s a partida de frei Jo\u00e3o, as r\u00e3s tenham ido com ele, pelo que, sempre que passasse pela represa, a Irm\u00e3 Catarina haveria de recordar a li\u00e7\u00e3o de seu pai espiritual: <em>fa\u00e7a como as r\u00e3s, e mergulhe, porque \u00e9 no profundo centro da sua alma, onde s\u00f3 Deus mora, que a irm\u00e3 encontra o seu descanso e a sua seguran\u00e7a<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, o Santo firma esta doutrina quando comenta o verso terceiro da primeira can\u00e7\u00e3o da <em>Chama de Amor Viva: \u00abde mi alma en el m\u00e1s profundo centro\u00bb<\/em>. Ali, de facto,n\u00e3o falar\u00e1 de r\u00e3s, mas da pedra que <em>\u00abquando est\u00e1 na terra, mesmo que n\u00e3o esteja no ponto mais profundo, est\u00e1 de alguma maneira no seu centro, porque est\u00e1 dentro da esfera do seu centro, ac\u00e7\u00e3o e movimento\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>6.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os peixinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>No Carmo e no Carmelo a \u00e1gua \u00e9, naturalmente, muito apreciada e est\u00e1 ao servi\u00e7o da doutrina dos nossos mestres, para que nos ensinem a ser espirituais. Creio, ali\u00e1s, que at\u00e9 o cat\u00f3lico mais pequenino est\u00e1 informado sobre como Santa Teresa dela se serviu para nos ensinar a rezar! S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, por sua vez, n\u00e3o foi t\u00e3o contundente, por\u00e9m, no livro <em>Subida ao Monte Carmelo<\/em> (1:8:3), lembra e adverte-nos que os pescadores se servem <em>das trevas<\/em> para, com a luz do candil, <em>encadilar<\/em> os desprecavidos peixes e assim os ca\u00e7arem em suas redes.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos, isso sim, e bem, que frei Jo\u00e3o gostava de rezar embrenhado na solid\u00e3o dos campos e da natureza, e que jamais se dispensava de contemplar a \u00e1gua dum regato a correr, porque isso o ajudava a rezar e lhe recordava o mist\u00e9rio de Deus \u2013 <em>essa fonte que mana e corre<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o gostava de gostar ele s\u00f3, mas que tamb\u00e9m os frades das suas comunidades gostassem do mesmo. Por isso, quando nos anos de 1582-1588 foi prior do convento de Los M\u00e1rtires, em Granada, para os aliviar das durezas da vida claustral, costumava ele levar os seus frades para uma quinta junto a um rio. E enquanto eles se divertiam, o padre Jo\u00e3o descia at\u00e9 \u00e0 margem do rio e contemplava, demorado e entusiasmado, os peixinhos cruzando e recruzando as \u00e1guas. E n\u00e3o \u00e9 que se cansasse de rezar e de contemplar t\u00e3o pequeninas criaturas, mas para que seus frades o advertissem e aprendessem, chamava-os e dizia-lhes:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013<em> \u00abVenham c\u00e1, irm\u00e3os, e h\u00e3o-de ver como estes pequeninos peixinhos e criaturas de Deus O est\u00e3o louvando! Levantemos, pois, o nosso esp\u00edrito, que tanto o fazem estes animaizinhos sem raz\u00e3o nem entendimento! E se eles o fazem, por maioria de raz\u00e3o o dever\u00edamos fazer n\u00f3s!\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>E enquanto a prelec\u00e7\u00e3o se alongava, o Santo Prior mais se extasiava; e para n\u00e3o o perturbarem em seu \u00eaxtase e eleva\u00e7\u00f5es m\u00edsticas, os bons frades dali se retiravam silenciosamente, deixando-o divinamente <em>encandilado<\/em> na contempla\u00e7\u00e3o dos peixinhos\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, e se ainda hoje uns dizem que os peixes s\u00e3o mudos, outros reclamam que n\u00f3s \u00e9 que somos surdos; santos h\u00e1, por\u00e9m \u2013 os da talha de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz \u2013, cujo ouvido fin\u00edssimo sintoniza fraterna e delicadamente, at\u00e9 mesmo com as mais pequeninas criaturas de Deus e, partindo delas, elevam-se at\u00e9 \u00e0 amorosa contempla\u00e7\u00e3o e louvor do Criador, e assim nos ensinam que tudo \u00e0 nossa volta nos deve impelir a louvar o Senhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe na nossa tradi\u00e7\u00e3o carmelitana um refr\u00e3o que diz:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Vivo sem viver em mim<\/em><br><em>e de tal maneira espero<\/em><br><em>que morro porque n\u00e3o morro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Santa Teresa comentou-o em verso e S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz tamb\u00e9m. Fiquemo-nos por uma estrofe do Santo, pois ela recorre \u00e0 met\u00e1fora do peixe (e n\u00f3s que a lemos, logo ali imaginamos o Santo com saudades do c\u00e9u, estando sentado na margem dum rio, contemplando peixinhos!):<\/p>\n\n\n\n<p><em>Fora de \u00e1gua o peixe \u00e9 tal<\/em><br><em>que de al\u00edvio n\u00e3o carece,<\/em><br><em>pois na morte que padece<\/em><br><em>no fim a morte lhe vale.<\/em><br><em>Que mote haver\u00e1 igual<\/em><br><em>ao viver em desespero,<\/em><br><em>pois se mais vivo mais morro?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>7.<strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>A lebre<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro dia do m\u00eas de junho de 1591, s\u00e1bado e v\u00e9speras do Pentecostes, reuniu-se em Madrid o cap\u00edtulo dos Descal\u00e7os \u2013 o \u00faltimo em que tomou parte frei Jo\u00e3o da Cruz. Participa, ali\u00e1s, como terceiro conselheiro e Prior de Seg\u00f3via. Cerca do fim daquela assembleia magna, frei Jo\u00e3o oferece-se como mission\u00e1rio rumo ao M\u00e9xico. O Cap\u00edtulo ratifica-lhe o pedido, deixando-o sem conventualidade e com licen\u00e7a para percorrer a prov\u00edncia da Andaluzia, juntar onze companheiros e partir.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito n\u00e3o se demorou ele, nem em despedidas, nem a acabar obras, nem a fechar dossi\u00eas, pelo que depois de percorrer as setenta l\u00e9guas entre Seg\u00f3via e La Pe\u00f1uela, no dia 10 de agosto de 1591, j\u00e1 naquela jocosa solid\u00e3o sonora ele se encontra, restaurando-se e recompondo-se. Foi naquele entrementes, talvez em finais de agosto, ou quem sabe, nos in\u00edcios de setembro, que se declarou um grande inc\u00eandio nos baldios do convento. Tudo ali, al\u00e9m das altas temperaturas, est\u00e1 seco e mais que resseco, por isso o inc\u00eandio n\u00e3o lavra, devora e precipita-se pavorosamente! O que naquela situa\u00e7\u00e3o de crise ficou de not\u00e1vel para o futuro foi o g\u00e9nio do padre Jo\u00e3o da Cruz: ele n\u00e3o sendo o Prior do convento, parecia sim um verdadeiro l\u00edder, um experiente chefe de brigada de bombeiros! Ajuntou a sua gente o mais r\u00e1pido que pode e colocou uns a rezar na igreja diante do Sant\u00edssimo \u2013 quero crer que os mais tr\u00f4pegos \u2013 e outros, entre frades e lavradores, a combater as chamas. Quanto a ele, foi postar-se, sem medo, de joelhos e bra\u00e7os em cruz, entre as chamas e o convento, precisamente naquele ponto da cerca em que as ervas eram mais altas e secas, e mais lenha havia! E vindo o fogo sobre o convento e a vinha, o Santo dali n\u00e3o se retirou jamais, a ponto das altas chamas o cobrirem e passarem por cima. Isso viram os bons frades e os lavradores que mais combate n\u00e3o podiam oferecer-lhes, em raz\u00e3o do qual o inc\u00eandio se precipitou sobre o convento e lhe lambeu as paredes, mas logo, inexplicavelmente, houveram as chamas de recuar t\u00e3o repentina e inexplicavelmente como se haviam sobre ele precipitado. Ao retirar-se aquelas, todos viram que o Santo estava vivo e permanecia de joelhos, e nem o h\u00e1bito nem os cabelos se havia chamuscado!<\/p>\n\n\n\n<p>Escusado ser\u00e1 dizer que todos logo ali falam, comentam e propalam o milagre! Quanto ao Santo, nada relevando, logo mandou abrir as portas da igreja para espantar o fumo. E ao abri-las certo frade, pode aquele ver que uma lebre que por ali se escondera, saiu precipitada para fora, correndo em direc\u00e7\u00e3o ao padre Jo\u00e3o da Cruz e se refugiou sob a t\u00fanica do seu h\u00e1bito! Depois dum facto maravilhoso, juntava-se-lhe, agora, um segundo. Mas o mais relevante \u00e9 que o Santo nem se intimidou, nem a assarapantou. Antes, por\u00e9m, foram os demais que a recolheram, por duas vezes, e pelas duas a agarraram pelas orelhas e a puseram fora da cerca; e das duas vezes ela lhes fugiu, regressando a correr para a seguran\u00e7a da sombra de frei Jo\u00e3o, repousando, serena e calma, a seus p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>8.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Porque \u00e0 data a sa\u00fade j\u00e1 n\u00e3o era muita, e porque numa perna se lhe declararam umas \u00ab<em>calenturillas<\/em>\u00bb que n\u00e3o se remiam, antes do fim do m\u00eas, convalescente, frei Jo\u00e3o saiu de La Pe\u00f1uela rumo a \u00dabeda, onde morrer\u00e1 no dia 14 de dezembro de 1591. O que n\u00e3o morreu foi a est\u00f3ria da lebre que, a meu ver, casa bem com aqueloutra dos dois c\u00e3es que, em certa viagem, se precipitaram sobre ele e seu companheiro. Como noutro lugar se l\u00ea, o Santo jamais se intimidou, antes sereno se quedou, at\u00e9 que foi por eles alcan\u00e7ado e cheirado, em p\u00f3s o que a c\u00f3lera dos mastins se serenou. Em boa verdade, n\u00e3o sei que tinha o santo frei Jo\u00e3o das Cruz. Sei que se diz que alguns humanos t\u00eam seis sentidos, e os c\u00e3es parecem possuir mais, pois o seu faro <em>percebe<\/em> a santidade onde ela existe. E se ela existia e persistia em frei Jo\u00e3o da Cruz! Existia, sim, em t\u00e3o alto grado que algo me diz que, se necess\u00e1rio fora, at\u00e9 entre a sua sombra se aconchegariam, como amigos e comparsas, um lebr\u00e9u e uma lebre!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>9.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Ah, queridos inimigos, querido irm\u00e3o lebr\u00e9u, querida irm\u00e3 lebre!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cfr Chama B 1:9-14.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chamem-me louco ou acusem-me a Deus, que eu n\u00e3o levo a mal, mas esta tenho de a dizer j\u00e1 e na primeira linha: ningu\u00e9m chega [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4590,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4589","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4589","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4589"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4589\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4591,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4589\/revisions\/4591"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4590"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4589"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4589"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4589"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}