{"id":4538,"date":"2026-01-31T02:40:00","date_gmt":"2026-01-31T02:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4538"},"modified":"2026-01-23T15:19:58","modified_gmt":"2026-01-23T15:19:58","slug":"a-palavra-do-oriente-no-ocidente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-do-oriente-no-ocidente\/","title":{"rendered":"A Palavra do Oriente no Ocidente"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A recorda\u00e7\u00e3o dos factos fundadores da cultura e da religi\u00e3o do Israel b\u00edblico e do cristianismo primitivo n\u00e3o se diluiu nas areias do deserto do Sinai; desaguou na Palavra escrita, que transportava a f\u00e9 e a fazia progredir, na carreira contributiva e merit\u00f3ria de todos os intervenientes: o melhor da religiosidade dos sum\u00e9rios, ac\u00e1dicos, babil\u00f3nios, ass\u00edrios, hititas, hurritas e cananeus, sobreviveu filtrado pela f\u00e9 da palavra b\u00edblica, que se foi purificando at\u00e9 \u00e0 era crist\u00e3. O que estes povos semearam, pelo menos desde o fim do 4\u00ba mil\u00e9nio a.C., floresceu tr\u00eas mil anos mais tarde na Palestina e frutificou sucessivamente, por meio de rigorosos crivos de selec\u00e7\u00e3o, na Galileia e na Judeia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por ironia do destino \u2013 ou talvez n\u00e3o \u2013 a influenciada religi\u00e3o b\u00edblica viria ela pr\u00f3pria, sob a forma de juda\u00edsmo e de cristianismo, a influenciar culturas e a gerar religi\u00f5es ou movimentos religiosos. Essa influ\u00eancia estendeu-se, atrav\u00e9s dos Padres gregos e latinos, particularmente para Ocidente. Como astronomicamente, no aparente andamento do sol, a luz avan\u00e7a do Oriente para o Ocidente, tamb\u00e9m historicamente uma movimenta\u00e7\u00e3o da cultura e da religiosidade foi de Oriente para Ocidente, fixando o aforisma <em>Ex oriente lux<\/em>. Ele sintetiza a ideia de que <em>a luz<\/em>, literal e metaforicamente, <em>tem origem no Oriente<\/em>, com implica\u00e7\u00f5es profundas a n\u00edvel cultural, filos\u00f3fico e religioso. A afirma\u00e7\u00e3o de que o Nascente \u00e9 fonte de sabedoria e espiritualidade encontra uma concretiza\u00e7\u00e3o na primeira grande tradu\u00e7\u00e3o de toda uma obra liter\u00e1ria de uma l\u00edngua oriental para a l\u00edngua grega, que foi precisamente a B\u00edblia em fim de composi\u00e7\u00e3o, a chamada tradu\u00e7\u00e3o grega dos <em>Setenta<\/em>, feita nos s\u00e9culos III-I a.C. Essa vers\u00e3o supunha a abertura da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica, oriental, a uma cultura ocidental, fen\u00f3meno cultural sem precedentes na antiguidade, determinante para a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. Feita por judeus da di\u00e1spora de Alexandria, constitu\u00eda uma not\u00e1vel migra\u00e7\u00e3o da sabedoria do Oriente para o Ocidente. Era o encontro da B\u00edblia hebraica com a civiliza\u00e7\u00e3o grega e a influ\u00eancia de uma sobre a outra. Alexandria tinha contribu\u00eddo para fundir duas prestigiadas civiliza\u00e7\u00f5es: a eg\u00edpcia e a grega. Agora unia Jerusal\u00e9m com Atenas, o hebraico com o grego, num tri\u00e2ngulo aberto ao Ocidente. Por meio da tradu\u00e7\u00e3o grega da B\u00edblia, o juda\u00edsmo p\u00f4de oferecer as suas Escrituras can\u00f3nicas, com a sua cultura, ao mundo ocidental. O Novo Testamento escrito em grego refor\u00e7ou essa influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o objectivo essencial da palavra b\u00edblica n\u00e3o era dar cultura, certamente contribuiu para fazer cultura, literatura e arte no Ocidente ao longo dos s\u00e9culos, porque tinha ela pr\u00f3pria qualidades liter\u00e1rias. N\u00e3o obstante, se mexeu com o mundo e com a sua hist\u00f3ria, n\u00e3o foi s\u00f3 por ser um monumento liter\u00e1rio e cultural. \u00abExerceu uma cont\u00ednua, fecunda influ\u00eancia na literatura inglesa, dos escritores anglo-sax\u00f5es aos poetas mais jovens; no entanto, nenhum deles diria que a palavra da B\u00edblia \u201c\u00e9\u201d literatura\u00bb \u2013 afirma N. Frye (<em>The Great Code<\/em>, p. 9 da vers\u00e3o italiana, Torino 1986). A raz\u00e3o principal da sua atrac\u00e7\u00e3o e para a sua sempiterna actualidade est\u00e1 no facto de ela mexer na vida concreta das pessoas. Tem a ver com elas. \u00c9 escola de humanidade. Essa velha hist\u00f3ria narrada com as palavras b\u00edblicas n\u00e3o deixa ningu\u00e9m indiferente: como se cada um quisesse dar dela a sua interpreta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 apropriar-se dela. Se a palavra de Jesus ainda hoje continua a exercer influ\u00eancia nas decis\u00f5es humanas, \u00e9 porque ela fala do ser humano e da sua felicidade, dos seus problemas, das suas contradi\u00e7\u00f5es e ambiguidades e das suas rela\u00e7\u00f5es enredadas, apresentando um projecto de vida que satisfaz os seus mais profundos anseios. Bem faz o fil\u00f3sofo ao tentar compreender intelectualmente o mundo. Mas o decisivo \u00e9 mud\u00e1-lo existencialmente e dar-lhe sentido. Ora, a palavra b\u00edblica, al\u00e9m de ajudar a compreender o mundo e a sua organiza\u00e7\u00e3o, visa precisamente transform\u00e1-lo e torn\u00e1-lo mais humano e um pouco divino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A leitura da palavra b\u00edblica, que a f\u00e9 via e v\u00ea como Palavra de Deus, tem o potencial de valorizar a mem\u00f3ria colectiva, de elevar a pessoa na sua dignidade, de promover a rectid\u00e3o e a solidariedade. Os apelos veementes e as acutilantes invectivas dos profetas, denunciando o mal moral e anunciando o bem, cortam no vivo da sociedade de todos os tempos. Precisamente a grande ruptura que a palavra b\u00edblica provocou no processo hist\u00f3rico da sociedade ocidental aconteceu ao interpelar cada pessoa na sua consci\u00eancia. Mesmo quando, no s\u00e9c. XVI, a Reforma protestante divergiu da Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja ficando s\u00f3 com a B\u00edblia, esta adquiriu uma nova centralidade, que muito concorreu para alicer\u00e7ar uma nova \u00e9tica, at\u00e9 ali claramente individualista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A leitura do texto b\u00edblico teve impacto na cultura e na vida porque ele se dirigia imediatamente ao ser humano de <em>hoje<\/em> como palavra viva e como pronunciada para si. Em tal leitura, feita em boa f\u00e9, n\u00e3o era s\u00f3 o leitor a interrogar a B\u00edblia mas tamb\u00e9m a B\u00edblia a interrog\u00e1-lo a ele. \u00c9 nessa fun\u00e7\u00e3o pro-vocante, apelativa, que est\u00e1 o grande valor da palavra na B\u00edblia. Lida assiduamente, oferece respostas para os problemas de sempre, questiona e sugere, adverte e salva, mantendo o leitor na escuta e na interroga\u00e7\u00e3o (2Tim 3,15-17). A Palavra inspirada n\u00e3o se apresenta como um cat\u00e1logo de proibi\u00e7\u00f5es ou como um c\u00f3digo moral de leis a cumprir. Nem \u00e9 um texto inici\u00e1tico para fundamentar e apoiar as convic\u00e7\u00f5es do leitor. E \u00e9 mais do que o nosso livro de bordo. \u00c9 uma inst\u00e2ncia cr\u00edtica para o ser humano se rever ao mais alto n\u00edvel e se transcender: faz pensar, desafia, alerta e inspira a ac\u00e7\u00e3o. \u00c9 um <em>vi\u00e1tico<\/em> para a <em>via<\/em>, para o caminho do homem em direc\u00e7\u00e3o a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra b\u00edblica tem voca\u00e7\u00e3o de actualidade e sobreviv\u00eancia, porque se misturou com a vida e com a cultura das pessoas na hist\u00f3ria nobre das ideias. Aquele Jesus que sobreviveu ressuscitado entre os que acreditam nele como Salvador ter\u00e1 pressentido o destino de sobreviv\u00eancia da palavra b\u00edblica: \u201cpassar\u00e3o o c\u00e9u e a terra, mas as minhas palavras n\u00e3o passar\u00e3o\u201d (Mc 13,31). Continuam a influenciar a vida, a educa\u00e7\u00e3o, o ensino, as mentalidades, a f\u00e9 e a ora\u00e7\u00e3o, gerando assim a cultura da amizade, do di\u00e1logo e da compreens\u00e3o m\u00fatua, e afastando a intoler\u00e2ncia e o \u00f3dio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD A recorda\u00e7\u00e3o dos factos fundadores da cultura e da religi\u00e3o do Israel b\u00edblico e do cristianismo primitivo n\u00e3o se diluiu nas areias do deserto do Sinai; desaguou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4539,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4538","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4538","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4538"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4538\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4540,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4538\/revisions\/4540"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4539"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4538"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4538"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4538"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}