{"id":4530,"date":"2026-01-31T02:35:00","date_gmt":"2026-01-31T02:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4530"},"modified":"2026-01-23T15:12:39","modified_gmt":"2026-01-23T15:12:39","slug":"la-cueva-de-san-jvan-de-la-%e2%80%a0-companheiros-a-caminho-do-ceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/la-cueva-de-san-jvan-de-la-%e2%80%a0-companheiros-a-caminho-do-ceu\/","title":{"rendered":"LA CUEVA DE SAN JVAN DE LA \u2020 \u2013 Companheiros a caminho do c\u00e9u"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Parar. Contemplar. Caminhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mora nos carmelitas um zelo de lento fogo feito e de veredas \u00e1geis. At\u00e9 ao fim do mundo, se necess\u00e1rio. Quando digo fogo, digo forno, proximidade ao calor de Deus que mais arde, mais aquece, alumia e queima se o corpo e o esp\u00edrito mais se d\u00e3o \u00e0 calma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este jeito antigo \u00e9 do profeta Elias que ora, no cimo do Carmelo, se aquecia ao lume da contempla\u00e7\u00e3o, ora, baixando, velozmente, \u00e0 sua passagem, se incendiavam as margens dos caminhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este jeito \u00e9 t\u00e3o antigo que tem para cima de vinte e cinco s\u00e9culos. Credo, que digo? \u2013 Tem quase trinta! \u00c9 eficaz e actual, mesmo em tempos de pressa, de velocidade e de vertigem loucas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parar para rezar, andar a apregoar e volver a parar e a serenar n\u00e3o \u00e9 para fole furado, \u00e9 uma via capaz, mais que bem testada e trilhada. Ali\u00e1s, quando Jesus a preferiu n\u00e3o inventava nada. E quando S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz a usou, idem, aspas, aspas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Ningu\u00e9m d\u00e1 o que n\u00e3o tem; e at\u00e9 o que tem, sabe Deus\u2026 Ah, e desde o \u00e2ngulo em que falo, o que importa mesmo \u00e9 que dando, quem d\u00e1, d\u00ea Deus feito palavra de luz, palavra certeira, palavra que guie, que instaure, restaure, que jamais rasteire. \u00c9 disso que aqui falo.)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 quase trinta s\u00e9culos, no cimo do monte, \u00e0 serena boca duma cova, Elias passava longas temporadas dedicadas ao sil\u00eancio, a escutar a brisa suave, ruminando a Palavra, cutucando com o ombro o ombro de Jahv\u00e9; e s\u00f3 depois de bem esmo\u00edda, s\u00f3 depois de a fazer capa sua e de habitar dentro dela, se abalan\u00e7ava e se abandonava aos incans\u00e1veis caminhos, vertendo-a no cora\u00e7\u00e3o ressequido do povo. E n\u00e3o foi isso, ali\u00e1s, que depois Jesus fez nas suas longas jornadas de ora\u00e7\u00e3o e de caminhada? Foi, sim. Idem para frei Jo\u00e3o da Cruz, que nada inventou, apenas seguiu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2.<\/strong> S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz era homem de boa tempera. N\u00e3o se assustava nem com a calma nem com o sil\u00eancio, nem com cobra nem com uivo de lobo rasgando a noite em duas, em quatro, em seis partes; ali\u00e1s, amava-os, procurava-os; deleitava-se neles. Ensinava a am\u00e1-los, a abra\u00e7\u00e1-los, a comprazer-se, a sanar-se e a deliciar-se neles. Que sim, mais depressa puxava ele a capucha sobre calva e, de p\u00e9s descal\u00e7os, se cobria sob a sua capa branca, do que se contorcia ou se consumia em histerismos e lamenta\u00e7\u00f5es in\u00fateis e est\u00e9reis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 homem dos caminhos. Dos cantinhos. Franzinos todos. Preferindo os dos arrieiros aos reais. Os prec\u00e1rios aos muito seguros, brunidos e elaborados. Dum desnudo cantinho fazia um altar de elei\u00e7\u00e3o. Dum caminho, um claustro sereno. Eu gosto dessa ideia que na alma repetidamente ele nos inscreve como em branda cera; ali\u00e1s, os seus confrades e companheiros de lide e de jorna, sabem-no apreciador do longo sil\u00eancio escalvado, sabem que jamais se assusta se tem de ficar no seu canto. Ou se diante duma empresa tem de arrega\u00e7ar as mangas, ora pois. Jamais, por\u00e9m, s\u00f4frego trope\u00e7ava no corre-corre. Oh, como ele gostava do remanso desalumiado duma <em>cueva<\/em> ou dumas horas, mesmo se morti\u00e7as, diante do Sacr\u00e1rio!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3.\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Amigo do seu cantinho ele era, mas n\u00e3o bicho do buraco. E que o mandassem a Lisboa ou ao M\u00e9xico, a Los M\u00e1rtires ou a Seg\u00f3via era igual. Ia. Vamos, por isso, com ele para o caminho, que sacr\u00e1rio viandante era!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4.<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Algu\u00e9m em nossos dias deitou contas aos seus passos \u2013 quero crer, dos de apenas como Descal\u00e7o, isto \u00e9, entre os primeiri\u00e7os de Duruelo e os postreiri\u00e7os de \u00dabeda. Ora se o crit\u00e9rio for esse, as balizas v\u00e3o de meados de 1568 ao outono de 1591; uns vinte e tr\u00eas anos mais que incompletos, portanto. Ora, pois, nesse per\u00edodo de pouco mais de vinte anos palmilhou ele 27.000km \u2013 ou seja: mais de mil por ano! (Qualquer coisa como ir e vir de Braga a Faro uma vez ao ano!)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 obra, pois n\u00e3o os fez de mota, de carro ou de avi\u00e3o, mas a p\u00e9 e, quando muito, revezadamente, ao lombo de mula. S\u00e3o muitos quil\u00f3metros, muitos mesmo, at\u00e9 para homem apost\u00f3lico! Mas frei Jo\u00e3o era um contemplativo que gostava da sua <em>cueva<\/em>, da sua cela, do sossego do seu cantinho. De passar ali longas temporadas na solid\u00e3o, a s\u00f3s com seu Deus s\u00f3, para s\u00f3 depois se atirar ao caminho; logo, portanto, a sua obra viandante \u00e9 naturalmente bem mais significativa do que estamos habituados a reconhecer!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tanto caminho n\u00e3o o palmilhou ele s\u00f3, pelo que se o t\u00edtulo deste texto fala de companheiros, a isso iremos, e ainda, ao de leve, ao seu jeito santo de caminhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os Descal\u00e7os sempre esteve proibido viajar sozinho. Ali\u00e1s, n\u00e3o invent\u00e1vamos n\u00f3s nada, pois j\u00e1 os Evangelhos deixam nota de que os ap\u00f3stolos eram enviados pelo Senhor a pregar dois a dois. Assim, se um se assustava, o outro o serenava. Se um desanimava, o outro o alentava. Se um adoecia, o outro o socorria. Se um descarrilava, o outro o punha em seus cabais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, frei Jo\u00e3o da Cruz viajava acompanhado, de prefer\u00eancia dum irm\u00e3o; por vezes, dum sacerdote, e mais raramente dum sacerdote e dum irm\u00e3o. Com dois irm\u00e3os tamb\u00e9m sucedia. Era, ali\u00e1s, t\u00e3o estimado pelos seus companheiros \u2013 ou seriam anjos? \u2013 que eles disputavam entre si o gozo de o acompanhar pelo alongar da lonjura e da dureza dos caminhos. Conhecemos alguns dos seus nomes, e sabemos que algum \u2013 n\u00e3o recordamos agora aqui, na ponta da caneta, o seu nome\u2026 \u2013 pediu e alcan\u00e7ou o singular privil\u00e9gio de sempre mudar para o lugar e convento que, findo o tri\u00e9nio, frei Jo\u00e3o mudasse. E foi assim que o acompanhou por l\u00e9guas e l\u00e9guas infindas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Haveria certamente outros, mas registemos os nomes dos seus principais companheiros que temos mais \u00e0 m\u00e3o, seus secret\u00e1rios pessoais ou n\u00e3o: Diego da Concei\u00e7\u00e3o, Gabriel da M\u00e3e de Deus, Pedro de Santa Maria, Jo\u00e3o Evangelista. Os mais queridos, por\u00e9m, foram o irm\u00e3o Jer\u00f3nimo da Cruz e, sobretudo, o irm\u00e3o Martinho da Assun\u00e7\u00e3o \u2013 talvez aquele que alcan\u00e7ou a dita de mudar de conventualidade sempre que o padre Jo\u00e3o da Cruz mudasse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5.\u00a0\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Alguns daqueles lan\u00e7os de caminhada eram assaz longos \u2013 coisa para oitenta l\u00e9guas ou mais! (Tenha-se em conta que uma l\u00e9gua rondaria os cinco quil\u00f3metros, talvez, at\u00e9 para mais!) Uma carreira dessas implicava caminhar bem para cima dum m\u00eas e at\u00e9 mais que dois \u2013 se \u00e9 que nenhum dos dois caminheiros adoecia, ou n\u00e3o eclodia outra surpresa que os empaliasse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, e que faziam dois frades descal\u00e7os e mendicantes durante um m\u00eas ou mais de caminho?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bem, se o irm\u00e3o Martinho tanto gostava de partilhar as longas e dur\u00edssimas viagens com o padre Jo\u00e3o da Cruz, de todo em todo, n\u00e3o era por inteira mortifica\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, era por bom gosto. Por puro desfrute e deleite. Enfim, eu creio que S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz era um homem temperado, agrad\u00e1vel e sem receio de ser mimoso; paterno e carinhoso, digo. N\u00e3o o pintem arisco ou ur\u00e3o que n\u00e3o o aceito. Nem danado, nem avinagrado, nem \u00e1cido. Nem bruto, nem brusco, nem chupa-lim\u00e3o. Austero, sim. Apraz\u00edvel sempre, apesar das contrariedades, mesmo se uma urg\u00eancia o obrigava a vadear um obst\u00e1culo por trinta l\u00e9guas, mesmo se as vitualhas n\u00e3o passassem de miudezas e de c\u00f4deas duras que se houvessem de anediar na \u00e1gua fresca dalgum regato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certa vez, j\u00e1 quase noite, alcan\u00e7aram tr\u00eas Descal\u00e7os uma albergaria e n\u00e3o havia ali nada de comer ou beber; e por n\u00e3o existir, imposs\u00edvel procurar outra:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 Bem, irm\u00e3os<\/em> \u2013 ter\u00e1 sussurrado o padre Jo\u00e3o \u2013 <em>visto que por aqui nada h\u00e1 que nos conforte, consolemo-nos com o amor de Deus, que de comer n\u00e3o nos h\u00e1-de faltar!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 verdade que <em>barriga vazia n\u00e3o tem alegria<\/em> nem d\u00e1 bom repouso, mas vazios os tr\u00eas \u2013 o que n\u00e3o seria in\u00e9dito! \u2013 l\u00e1 se encaminharam para a porta de sa\u00edda! Ao irm\u00e3o e ao donado tocariam, como de costume, uma enxerga a cada qual. Ao padre, uma humilde esteira estendida no ch\u00e3o. Por manta, a capa do h\u00e1bito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recebidas foram aquelas palavras do Santo Prior num t\u00e3o breve entrementes que nenhum dos companheiros tempo teve para balbuciar: <em>Deus nos d\u00ea paci\u00eancia e um carro para a levar<\/em>. Estavam, pois, postos nisto, quando, ensaiando cada um o conformado retiro para seu pouso, porta adentrou um cavalheiro que logo se apercebeu da pen\u00faria do lugar e da indig\u00eancia dos tr\u00eas mendicantes, e lhes imperou:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 Senhores, hoje, ceiam comigo! E n\u00e3o h\u00e1 c\u00e1 ren\u00fancias!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E os quatro jantaram a bem jantar, que de tudo vinha ele bem provido! Ah, e se o Santo jamais se lamentou, o irm\u00e3o e o donado, esses, os dedos lamberam!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cena passou-se e est\u00e1 relatada. O que, por\u00e9m, nas entrelinhas melhor leio, \u00e9 que nenhum dos mendicantes, em momento algum, rezingou. Sim, nem antes nem depois, jamais algum deu pela sua vida a andar para tr\u00e1s, por causa duma l\u00e9gua a mais ou duma malga de caldo a menos; e se jamais lamentaram as duras durezas que, circunstancialmente, a cada hora lhes cabiam, tamb\u00e9m n\u00e3o enjeitavam as branduras quando estas sucediam \u2013 ora pois, se naquela noite, de comer ou beber n\u00e3o havia, que mais fazer sen\u00e3o rezar o Salmo 30, o 129, o <em>Nunc Dimitis<\/em>, o <em>Sub tuum praesidium<\/em>, encomendar-se a S\u00e3o Jos\u00e9, e ala que se faz tarde e amanh\u00e3 outro dia ser\u00e1, que cada dia o seu cansa\u00e7o traz?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como admiro eu a serenidade daqueles pobres mendicantes a caminho, e a paz com que, hora a hora, sabem abrir-se \u00e0 justi\u00e7a da Provid\u00eancia! Sim, mas o que mais bem me cai \u00e9 que os companheiros de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz gostavam muito de caminhar com ele, mesmo se inapelavelmente o fim do dia vazio lhes mostrava o fundo da saca do p\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns bi\u00f3grafos chamam-lhes companheiros \u2013 os que comem do mesmo p\u00e3o; outros escudeiros \u2013 que protegem; outros, anjos \u2013 que guiam. Seriam tudo isso, e at\u00e9 sacrist\u00e3es e enfermeiros. E confessores, se eram sacerdotes. Tenho ainda, por isso, mais de duas est\u00f3rias na taleiga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>6.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Nas viagens longas eram acompanhados por asnilho que, ora montava um, ora outro, e no outro ter\u00e7o, descansava a alim\u00e1ria. Lembram, por conseguinte, que eram famosas as quedas de frei Jo\u00e3o da montada. N\u00e3o deveriam ser muito desabridas, porque mansa \u00e9 a mula ou n\u00e3o aceita albarda; mas elas sucediam, sobretudo quando ele se embrenhava na leitura da B\u00edblia \u2013 n\u00e3o te encantar\u00e1 a ti, leitor, leitora, a imagem dum santo voando manso ao lombo de mula mansa, lendo e rezando a Sagrada Escritura? A mim, sim; e tenho por assente que a mula teria de ir a seu natural <em>\u00abpasso de mula\u00bb<\/em>, isto \u00e9, dando conforto e firmeza, j\u00e1 que se fosse a trote, nem olho de \u00e1guia haveria que acompanhasse a divina carreira das letras. Ora, pois, v\u00ea l\u00e1 tu: ia o Santo a ler, quem sabe, aquele vers\u00edculo do C\u00e2ntico de Salom\u00e3o que diz: <em>\u00abEu durmo, mas meu cora\u00e7\u00e3o vela. Eis a voz do meu amado, que bate\u00bb<\/em>. E era aquilo lido e sorvido com tal un\u00e7\u00e3o, com tal recolhimento, que at\u00e9 a mula entendia. E o Santo lia e a mula ouvia; e o Santo se recolhia e a mula meditava sem perder o p\u00e9; e em recolhendo-se profundamente o andarilho na <em>cueva<\/em> dum verso, como que escuitando o chamamento do Amado, sem saber como, despegava-se ele da albardilha e, pumba!, estatelava-se no ch\u00e3o! Sucedendo isso, nada burra, sustinha-se a mula, e o Santo, j\u00e1 mais que desperto, erguia-se rindo e, sacolejando-se, varejava o p\u00f3 do h\u00e1bito, para logo ver o afligido e prestimoso companheiro acercar-se para o ajudar; e enquanto um se saracoteia, o outro lhe aperta os ossos a ver se algum se quebrara como um chami\u00e7o! E n\u00e3o, n\u00e3o, desta vez mais, nenhum se quebrara. Felizmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o julgues, leitor, leitora, que isto se passou uma vez apenas, mas v\u00e1rias e repetidas, visto que um m\u00eas ou dois de viagem de ida, e a mesma cifra para a volta, d\u00e3o para muitos e deliciosos toques do Amado\u2026 E eram eles t\u00e3o suficientemente frequentes que certo companheiro seu decidiu que, em tocando ao padre Jo\u00e3o a montar, caminharia ele nem adiante nem atr\u00e1s, nem no seu mundo nem infirmando-se nas maravilhas da natureza, mas sempre, sempre, lado a lado de seu Prior, como fiel e atento escudeiro, sempre assaz pronto a ampar\u00e1-lo quando, desenculatrado da albarda, um <em>toque<\/em> houvesse de o tombar para um lado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ah, a isso chama-se escudeiro fiel, sim, e anjo, que companheiro tamb\u00e9m o era.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>7.\u00a0\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sabedores fomos e em algum lugar j\u00e1 o deixamos escrito que os montes, os c\u00e9us, os rios e os vales, e as searas, e mesmo um sino tocando ao longe encantavam e incendiavam o cora\u00e7\u00e3o l\u00edrico e santo do Santo. Que jamais caminhava em esfor\u00e7o, mas em <em>laudem gloriae<\/em>, e em jubiloso j\u00fabilo. Que logo se desfraldava em c\u00e2nticos e hinos a Nossa Senhora, trinando regalados salmos qual David com sua harpa. Que mesmo seguindo por caminhos de arrieiros \u2013 entendo que os mais duros e agrestes de ao tempo \u2013, se dedicava tamb\u00e9m a cavaquear com seu companheiro, digo que dialogavam, como diria que ele os catequizava, lhes dava bons conselhos, ensinando-os a servir a Deus como Deus quer e ama ser servido e amado. Que lhes confidenciava est\u00f3rias da sua vida pessoal e familiar, da sua ora\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o com Deus. Ah, e certamente que cantarolavam juntos sem ferir a mod\u00e9stia, que juntos ajoelhavam e tamb\u00e9m erguiam as m\u00e3os, abrindo os bra\u00e7os para o alto tal como as \u00e1guias reais alongam as asas ao levantar voo. E que diziam, rezavam e cantavam juntos a Fonte, o Pastorinho, os Romances, o C\u00e2ntico, a Chama, a Noite; quem disso tem d\u00favidas? E, claro, que \u00e0 beira dum regato \u2013 quase como se num recreio \u2013 lhes explicava, com tempo e com calma, um a um, os versos que escrevera e outros que pensava escrever (e at\u00e9 talvez tenha escrito, mas n\u00e3o chegaram at\u00e9 n\u00f3s).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>8.\u00a0\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nem tudo, por\u00e9m, foram andan\u00e7as e melodias ternas. Algumas vezes existiram contrariedades s\u00e9rias, l\u00e1grimas e at\u00e9 sangue.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nalguma viagem o seu companheiro falou-lhe de certo pal\u00e1cio rec\u00e9m-inaugurado, cuja beleza arquitet\u00f3nica anda nas bocas do mundo. E pronto lhe sugere que, como tantos, o visitem, at\u00e9 porque o desvio n\u00e3o excede a l\u00e9gua, l\u00e9gua e meia. Mas o Santo logo atalha: <em>\u00abn\u00f3s n\u00e3o andamos aqui para ver, mas para n\u00e3o ver\u00bb<\/em>. E n\u00e3o viram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verdade \u00e9 que aquelas viagens se n\u00e3o careciam de picaresca, tamb\u00e9m n\u00e3o lhes falhavam as dila\u00e7\u00f5es. Como se ver\u00e1; ou porque frei Jo\u00e3o adoecia e, falho de for\u00e7as e de alimento, demorava a recuperar, ou porque surpreendiam uma rixa, ou porque noutro lugar, o irm\u00e3o Pedro, desembestado, se despenhou por um barranco abaixo. Iam tr\u00eas; o outro irm\u00e3o, perante cena t\u00e3o funambul\u00e1ria, escaqueirou-se a rir. J\u00e1 o padre Jo\u00e3o, percebendo a coisa \u00e0 beira da trag\u00e9dia, retorque-lhe:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 Cale-se, tonto, que a coisa \u00e9 mesmo s\u00e9ria!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E se era!; pelo que, temerosos e assustados, se aproximaram os dois. Desvelado e cuidadoso, logo o Santo socorre o sinistrado: aqui havia uma entorse, ali uns ossos desmanchados. Acol\u00e1 umas feridas e rabunhadelas. Enfaixado o ferido, com suprema caridade e muito cuidado, al\u00e7am-no para a montada. E retomaram o caminho com tais cuidados, que o que se faria em bem menos se fez em muito mais. Achegados \u00e0 estalagem prevista, recomenda o Padre ao doente que aguarde na montada, enquanto tudo ali aprontar\u00e1 para o bem receber e acomodar. Mas logo este responde que n\u00e3o, que n\u00e3o, pois se encontrava bem e mais que bem: \u2013 <em>E vossa Paternidade ver\u00e1 que me encontro t\u00e3o bem que dum salto me encontro no ch\u00e3o!<\/em> E deu o salto e estava mesmo bom, pelo que a ceia melhor caiu aos tr\u00eas!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Noutra viagem, de surpresa e \u00e0 m\u00e1 fila, o rugido de dois canzarr\u00f5es rasgou o sil\u00eancio e a medita\u00e7\u00e3o dos Descal\u00e7os. E logo os colossos se precipitam sobre ambos companheiros. Houvera por ali um pinheiro e logo verias o irm\u00e3o no cocuruto da \u00e1rvore. Mas como n\u00e3o havia, protegeu-se ele atr\u00e1s do Padre. Este, parado, aguardou-os, sereno e firme. Acercam-se os dois mastins, com a li\u00e7\u00e3o bem estudada: \u2013 <em>O terreno \u00e9 deles, por ali ningu\u00e9m passa sem pagar<\/em>! O Santo, por\u00e9m, jamais se intimida nem se mexe. Apenas lhes manda que se acalmem, se calem e se aproximem. E eles acalmam-se, calam-se e aproximam-se: cheiram-lhe as m\u00e3os, cheiram-lhe os p\u00e9s descal\u00e7os e, sossegados, quais beb\u00e9s, deitam-se ali, como se o padre Jo\u00e3o fosse o seu dono. E ele lhes retribui a obedi\u00eancia e a mansid\u00e3o com car\u00edcias e ternuras e, remansados, os envia de volta para a guarda do rebanho. J\u00e1 os dois Descal\u00e7os, livres e s\u00e3os, seguem em frente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Noutro dia, achega-se o Santo a certa hospedagem de certo lugar. Vem ele em cima da mula, o que lhe d\u00e1 bem no\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio que tem diante. E que v\u00ea? Piores que mastins, dois homens bulham ferozmente \u00e0 navalha. Um deles, ali\u00e1s, sangra abundantemente, o que encoraja e acrescenta a ferocidade do oponente. Tudo indica, este aponta j\u00e1 o afiado gume ao cora\u00e7\u00e3o do exaurido. Por isso, ou o padre Jo\u00e3o age depressa, ou pronto temos confiss\u00e3o, encomenda\u00e7\u00e3o da alma e funeral. E ao n\u00e3o ver mais sa\u00edda, deita ele m\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o que lhe resta e r\u00e1pido atira o seu chap\u00e9u para o meio dos dois, imprecando-lhes que, como bons crist\u00e3os, e em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, parem a rixa. Apressado baixa da montada \u2013 recatado, o irm\u00e3o Martinho fica segurando-a pela arreata \u2013 e \u00e0 vista de todos os circunstantes, destemido, se aproxima de ambos contendores que, gelados e incr\u00e9us, n\u00e3o param de se entreolhar. E t\u00e3o pac\u00edfico e manso ele lhes fala que eles, mesmo se recidivos no duelo, abrem as m\u00e3os, deixam cair as navalhas, e caindo nos bra\u00e7os um do outro, beijam-se mutuamente os p\u00e9s e ficam amigos!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E que ceia n\u00e3o foi a daquele dia, depois que o Santo curou aquela m\u00e3o e, sobretudo, aqueles cora\u00e7\u00f5es t\u00e3o profundamente inimigos e rasgados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>9.\u00a0\u00a0<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Terminemos que tudo tem um fim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim da vida, desprezado e perseguido por uma pandilha arrivista e malcriada, amado de cora\u00e7\u00e3o por disc\u00edpulos leigos e pelo fiel grupo de perseguidos, foi enviado para o M\u00e9xico como mission\u00e1rio. N\u00e3o chegou a partir que o corpo cedeu a 14 de dezembro de 1591, tinha ele apenas 49 anos. Doente e acamado em convento pobr\u00edssimo, pedem-lhe, pelo muito que vale, que se d\u00ea a cuidados e se cure. Escolher\u00e1 partir para o convento do Carmo da cidade de \u00dabeda, onde as gentes o n\u00e3o conhecem, e o prior lhe \u00e9 adverso. Ali acabar\u00e1 morrendo v\u00edtima tamb\u00e9m dos seus maus humores e ingratid\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que aqui mais interessar\u00e1 \u00e9 esta sua \u00faltima viagem, a que faz para ali chegar. Foi demorada, cansativa. O enfermo vai cansado e h\u00e1 quatro dias que n\u00e3o come algo de proveito. Mesmo agasalhado e acomodado em cima de cavalgadura capaz, as paragens s\u00e3o frequentes, demoradas \u2013 um desafio maior, mesmo para o pacient\u00edssimo jovem criado que o acompanha. Quem, ali\u00e1s, visse passar o pequeno cortejo diria que al\u00e9m do ch\u00e3o, at\u00e9 a montada se cond\u00f3i. A cada repetida pergunta sobre se alguma coisa lhe apetece, a resposta \u00e9 sempre negativa. N\u00e3o, nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ia a tarde a mais de meio quando chegaram \u00e0 ponte de Ariza, sobre o rio Guadalimar. Pede o enfermo, num discreto fio de voz, para descansar \u00e0 sua sombra. E descansa, aproveitando a frescura das \u00e1guas. E novamente perguntado sobre se lhe apeteceria comer, responde:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 \u00abUns espargos, se os houvesse\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bem sabem, ele e o jovem criado, que os finais de setembro n\u00e3o s\u00e3o tempos de criar espargos. Mas logo o rapaz saltarica por aqui, saltarica por ali, corre acol\u00e1, ciranda por al\u00e9m e\u2026 e n\u00e3o \u00e9 que encontra um molho de espargos trigueiros!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 Ide e apanhai-os<\/em> \u2013 diz frei Jo\u00e3o, depois de o ter aconselhado a procurar o dono \u2013 <em>e sobre a pedra em que se encontram deixai quatro maravedis, para que o poss\u00edvel dono n\u00e3o seja roubado!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ah, S\u00e3o Jo\u00e3o, S\u00e3o Jo\u00e3o, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz! Ent\u00e3o, onde alguma vez vistes tu, onde j\u00e1 viu algu\u00e9m, espargos em finais de setembro? E deixar quatro maravedis para que o dono n\u00e3o fosse roubado?!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O certo \u00e9 que as moeditas l\u00e1 ficaram sobre a mesma pedra em que foram encontrados. O certo \u00e9 que, chegado a casa, o Santo conta o caso aos frades <em>\u00abem tom de risota\u00bb<\/em>. E certo \u00e9 que, por n\u00e3o crerem, os frades os tomam nas m\u00e3os e veem nisso algo e at\u00e9 tudo de maravilhoso!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">C\u00e1 por mim que nada sou, nada valho, mas \u00e0s vezes entrevejo um lampejo, esse homem bendito, nosso pai, todo ele celestial e divino, esse peregrino de mil caminhos, que em vez de regalos apenas pediu para <em>\u00abpadecer e&nbsp;ser desprezado&nbsp;por causa de&nbsp;V\u00f3s, Senhor\u00bb<\/em>, esse homem que al\u00e9m de padecimentos uma s\u00f3 vez desejou, e logo espargos, uns simples espargos \u2013 quem diria! \u2013 alcan\u00e7ou-os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como bem paga o nosso Deus a seus servos!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Parar. Contemplar. Caminhar. Mora nos carmelitas um zelo de lento fogo feito e de veredas \u00e1geis. At\u00e9 ao fim do mundo, se necess\u00e1rio. 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