{"id":451,"date":"2017-06-18T13:47:27","date_gmt":"2017-06-18T13:47:27","guid":{"rendered":"http:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=451"},"modified":"2017-06-18T13:47:27","modified_gmt":"2017-06-18T13:47:27","slug":"deus-connosco-deus-para-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/deus-connosco-deus-para-nos\/","title":{"rendered":"Deus connosco \u2013 Deus para n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<p class=\"p3\"><em>Jeremias Carlos Vechina<\/em><\/p>\n<p class=\"p3\">J\u00e1 se come\u00e7a a falar da miseric\u00f3rdia barata. Fala-se da miseric\u00f3rdia por activa e por passiva, sem tom nem som. Temo que este ano da miseric\u00f3rdia seja mais um de tantos que temos celebrado nestes \u00faltimos anos. Isto n\u00e3o acontecer\u00e1 se n\u00f3s descobrirmos o Deus que est\u00e1 subjacente \u00e0 experi\u00eancia da miseric\u00f3rdia e o assumirmos na pastoral e na catequese. Digo isto porque a imagem de Deus que ainda se encontra no subconsciente colectivo das pessoas n\u00e3o \u00e9 o Deus misericordioso, mas o Deus justiceiro e castigador. E aquilo que \u00e9 estruturante da religiosidade da pessoa humana n\u00e3o se cura num ano nem em dois nem em tr\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p3\">Um dos frutos da renova\u00e7\u00e3o do estudo das fontes da revela\u00e7\u00e3o foi o facto de nos convencermos que o cristianismo \u00e9 uma hist\u00f3ria. E a Sagrada Escritura, memorial dessa hist\u00f3ria, n\u00e3o se apresenta como um conjunto de doutrinas, mas sim como a narra\u00e7\u00e3o daquilo que Deus fez com as suas criaturas vivas, com toda a humanidade, em ordem a realizar nela um certo des\u00edgnio de gra\u00e7a e de amor. Toda esta hist\u00f3ria tem um centro que \u00e9 o acontecimento que se chama Jesus Cristo.<\/p>\n<p class=\"p3\">A partir do momento em que a teologia deixa os mosteiros e passa para as universidades, come\u00e7a-se a esquecer a teologia do cora\u00e7\u00e3o e nasce a teologia especulativa, a teologia escol\u00e1stica. Esta dedica-se a contemplar e definir, a partir da revela\u00e7\u00e3o, o <b>em-Si<\/b> de Deus e de Cristo, isto \u00e9, <b>aquilo que<\/b> Eles s\u00e3o em si mesmos. Isto fez com que os manuais de teologia se fixassem simplesmente nos atributos divinos que resultavam da ess\u00eancia de Deus, como a imutabilidade, simplicidade, infinitude, eternidade, omnipresen\u00e7a, omnisci\u00eancia, omnipot\u00eancia, etc. Este modo de ver a Deus tem os seus limites. Como a miseric\u00f3rdia n\u00e3o fazia parte dos atributos metaf\u00edsicos de Deus a teologia esqueceu-a. Embora n\u00e3o fa\u00e7a parte dos atributos metaf\u00edsicos de Deus, sim, que pertence \u00e0 sua auto-revela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Esquecer a miseric\u00f3rdia n\u00e3o \u00e9 um problema de somenos import\u00e2ncia, mas algo que determina a ess\u00eancia divina e os atributos divinos em geral. Isto obriga-nos a reformular a teologia.<\/p>\n<p class=\"p3\">Segundo a filosofia grega que herdaram os te\u00f3logos escol\u00e1sticos, a perfei\u00e7\u00e3o consiste na posse total e simult\u00e2nea de todos os valores. Por conseguinte, o Deus infinitamente perfeito possui simultaneamente todas as perfei\u00e7\u00f5es. N\u00e3o pode receber nada novo. Portanto, a cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o comunica nada \u00e0 sua ess\u00eancia, ou ao seu \u201c<b>em si<\/b>\u201d, fica completamente \u00e0 margem, como acidente. At\u00e9 mesmo o homem, destinado a participar da vida \u00edntima de Deus, do deu mist\u00e9rio trinit\u00e1rio n\u00e3o entra no seu \u201c<b>em si<\/b>\u201d, fica \u00e0 margem.<\/p>\n<p class=\"p3\">O conceito de perfei\u00e7\u00e3o mudou. J\u00e1 n\u00e3o se pensa numas ess\u00eancias \u201cest\u00e1ticas\u201d, mas vitais e evolutivas. Tudo tem car\u00e1cter \u201chist\u00f3rico\u201d, ou seja, est\u00e1 submerso num processo evolutivo. Mais que pensar nas ess\u00eancias metaf\u00edsicas, est\u00e1ticas e no ser, pensa-se no devir. Estar submetido a este processo evolutivo j\u00e1 n\u00e3o se considera imperfei\u00e7\u00e3o. Cada coisa \u00e9 perfeita se corresponde ao momento exigido pelo processo evolutivo.<\/p>\n<p class=\"p3\">H\u00e1 te\u00f3logos que, considerando a Deus atrav\u00e9s das suas manifesta\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram a pensar se a assun\u00e7\u00e3o da natureza humana por parte de Deus e a participa\u00e7\u00e3o do homem na vida trinit\u00e1ria, n\u00e3o sup\u00f5e um desenvolvimento no \u201c<b>em si<\/b>\u201d de Deus.<\/p>\n<p class=\"p3\">Deus sem deixar de ser quem \u00e9, como que saiu do <b>em-Si<\/b>, entrou no nosso mundo e na nossa hist\u00f3ria para nos tornar participantes da sua vida, da sua alegria, da sua imortalidade, da sua gl\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p3\">Hoje os biblistas est\u00e3o de acordo em reconhecer que a Revela\u00e7\u00e3o se fez essencialmente \u201cfuncional\u201d, ou seja, em fun\u00e7\u00e3o dos homens: n\u00e3o h\u00e1 revela\u00e7\u00e3o de Deus e de Cristo sen\u00e3o a partir do testemunho que nos foi transmitido sobre aquilo que realizaram e realizam <b>para-n\u00f3s<\/b>, para nossa salva\u00e7\u00e3o. Deus fez-se conhecer nos actos e nas palavras pelas quais declara e realiza os seus prop\u00f3sitos de alian\u00e7a. Conhece-se alguma coisa daquilo que Ele \u00e9 <b>em Si <\/b>mesmo a partir daquilo que Ele faz <b>para n\u00f3s<\/b> e <b>por n\u00f3s<\/b>. O seu des\u00edgnio n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o a salva\u00e7\u00e3o ou a felicidade do homem (n\u00e3o separado do universo), pela comunh\u00e3o com Ele em Jesus Cristo.<\/p>\n<p class=\"p3\">Uma das maiores desgra\u00e7as que atingiu o catolicismo moderno est\u00e1 no facto de se ter tornado teoria e catequese sobre o <b>em-Si<\/b> de Deus e da religi\u00e3o sem lhe acrescentar o momento de tudo isso <b>para o homem<\/b>. O homem e o mundo sem Deus, com os quais hoje em dia nos defrontamos, nasceram, em parte, de uma reac\u00e7\u00e3o contra um tal Deus sem homem e sem mundo.<\/p>\n<p class=\"p3\">Porque Deus <b>em-Si <\/b>mesmo<b> <\/b>\u00e9 com o homem, Deus n\u00e3o descansa enquanto o homem n\u00e3o se aperceba desta realidade e acolha este Deus que se lhe apresenta, lhe bate \u00e0 porta e faz um pedido: pede intimidade, amizade, amor correspondido. Enquanto o homem n\u00e3o seja <b>com Deus<\/b> algo Lhe falta, porque Deus \u00e9 <b>connosco<\/b>. E antes de sair ao nosso encontro por fora, Deus ilumina-nos por dentro para que o possamos reconhecer.<\/p>\n<p class=\"p3\">A B\u00edblia \u00e9 o livro que relata a hist\u00f3ria de um Deus que sai ao encontro de um homem que n\u00e3o o procurava, de um Deus que respondia quando n\u00e3o perguntavam por Ele. A B\u00edblia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o livro do desejo humano de Deus, mas \u00e9, antes de mais nada, o livro do desejo divino do homem. Ou seja: a Sagrada Escritura j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o livro do desejo que o homem tem de Deus, mas o livro do desejo que Deus tem do homem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jeremias Carlos Vechina J\u00e1 se come\u00e7a a falar da miseric\u00f3rdia barata. Fala-se da miseric\u00f3rdia por activa e por passiva, sem tom nem som. 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