{"id":4482,"date":"2025-12-31T02:50:00","date_gmt":"2025-12-31T02:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4482"},"modified":"2025-12-23T10:21:42","modified_gmt":"2025-12-23T10:21:42","slug":"o-encanto-do-natal-para-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/o-encanto-do-natal-para-todos\/","title":{"rendered":"O encanto do Natal para todos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda encantados com a ternura entranh\u00e1vel das celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas e humanas do Natal, a meio do tempo festivo que se conclui com o Baptismo de Jesus, continuamos a meditar o mist\u00e9rio que o envolve.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o primeiro atestado hist\u00f3rico da celebra\u00e7\u00e3o do Natal de Jesus no dia 25 de dezembro, atestado proveniente do ano 354, a evolu\u00e7\u00e3o da festa oferece agora aos comentadores um grandioso quadro d\u00edptico:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Num painel contam a cores garridas que o com\u00e9rcio usurpou o tempo do Natal para os seus pr\u00f3prios interesses, econ\u00f3micos, antecipando a desprop\u00f3sito o \u2018tempo de Natal\u2019 em fun\u00e7\u00e3o do lucro. Um chefe de Estado at\u00e9 decretou que \u00abdesde o 1 de Outubro arranca o Natal\u00bb no seu pa\u00eds (ao mesmo tempo que, contra o verdadeiro esp\u00edrito de Natal, mant\u00e9m as pessoas na pris\u00e3o pelas suas ideias pol\u00edticas!). Argumentam que o com\u00e9rcio, mesmo sem algoritmos que denunciem os desejos naturais das pessoas e das crian\u00e7as, transformou a festa do Natal numa feira mercantil e consumista, levando-a a perder o seu tom festivo. O verdadeiro tempo do Natal parece estar a ser substitu\u00eddo por um tempo comercializado, com uma \u00e1rvore e motivos neutros. Alguns at\u00e9 dizem que o Natal \u00e9 hoje o neg\u00f3cio que mais lucro d\u00e1 \u00e0queles que Jesus ter\u00e1 expulsado do templo. Outros observam que o n\u00facleo da festa se foi polarizando \u00e0 volta da figura de um Pai-Natal a distribuir os presentes caros e os brinquedos ricos que o com\u00e9rcio quer que sejam comprados. O Jesus nascido pobre \u00abnuma manjedoura, por n\u00e3o haver lugar para eles na hospedaria\u00bb (Lc 2,7), tem hoje uma celebra\u00e7\u00e3o rica, abrilhantada por luzes artificiais e por embrulhos envoltos em la\u00e7arotes reluzentes. Os te\u00f3logos registam nas celebra\u00e7\u00f5es do Natal das sociedades ocidentais o contraste entre a pobreza do acontecimento original e o consumo desenfreado oferecido pelos ricos supermercados: que resta da paz cantada, desejada e oferecida pela transcend\u00eancia dos anjos \u00abaos homens de boa vontade\u00bb? A indiferen\u00e7a religiosa face ao acontecimento d\u00e1-lhes a impress\u00e3o de que aquele que \u00e9 o verdadeiro centro e originador do \u201cesp\u00edrito de Natal\u201d, Jesus, fica esquecido: no momento em que uma comunidade lhe canta louvores, gratid\u00e3o, vilancicos, outros abafam pensamentos profundos que o Natal suscita. Grande disson\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 festa crist\u00e3 da Bondade sem limites, do \u00abaparecimento da gra\u00e7a do Deus salvador a todos os homens\u00bb (Tito 2,11)!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Mas, se pararmos a pensar, n\u00e3o h\u00e1 tantas raz\u00f5es para alguns crist\u00e3os se queixarem do chamado \u201csequestro do Natal\u201d por parte de uma sociedade mercantilizada ou capturada pelo com\u00e9rcio. A realidade, matizada, presta-se a outra vis\u00e3o, num segundo painel do d\u00edptico do Natal. At\u00e9 podem dizer que no Ocidente, oficialmente crist\u00e3o, as maiores festas do ano civil, especialmente a do Natal, s\u00e3o festas crist\u00e3s (em Espanha e noutros pa\u00edses junta-se-lhes a natal\u00edcia Festa dos Reis, a 6 de janeiro), numa esp\u00e9cie de alargamento da piedade lit\u00fargica ao \u00e2mbito pol\u00edtico. Esta constata\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 sobretudo motivo de orgulho crist\u00e3o. \u00c9 antes oferta de sentido a todo o tempo do ano civil, como se nas celebra\u00e7\u00f5es festivas o humano abra\u00e7asse o religioso e o religioso se deixasse impregnar pelo humano: o descanso do trabalho no tempo do Natal brinda, a todos os que param, uma quietude sagrada, solene, que \u00abune em si a intensidade da vida e a contempla\u00e7\u00e3o\u00bb (K. KER\u00c9NYI, <em>Antike Religion<\/em>, citado por B.-Ch. HAN, <em>Vita contemplativa<\/em> [Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua 2023] 12). A festa do Natal celebra uma forma intensiva e esplendorosa da vida. Promove, n\u00e3o s\u00f3 a fam\u00edlia crist\u00e3, mas qualquer comunidade. D\u00e1 origem a um <em>n\u00f3s<\/em> festivo, integral, integrado e afectuoso. Com a alegria que contagia todas as \u00e1reas e classes da sociedade, adverte-nos de que n\u00e3o podemos esquecer o melhor da vida. \u00c9 parteira do <em>novo<\/em>: tendo Jesus nascido \u00abhumano demasiado humano\u00bb (F. Nietzsche) e igualmente divino, d\u00e1 a todos os humanos a nova possibilidade de conviverem bem entre si e com Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse fulgor do Natal \u00e9 pintado numa p\u00e1gina admir\u00e1vel, l\u00edrica e metaf\u00edsica dos evangelhos ap\u00f3crifos \u2013 expans\u00f5es meditativas dos can\u00f3nicos. Conta que, quando Jesus nasceu, toda a vida parou, para admirar o acontecimento absolutamente <em>novo<\/em>. Maria sente as dores do parto. Jos\u00e9 introdu-la numa gruta e vai procurar uma parteira hebraica. Enquanto a procurava, nasce Jesus:<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abEu, Jos\u00e9, estava a andar e j\u00e1 n\u00e3o andava. E ao levantar o olhar para o ar pareceu-me que o ar estava estremecido de assombro; e quando fixei o olhar no firmamento vi-o est\u00e1tico e os p\u00e1ssaros do c\u00e9u im\u00f3veis; e, ao dirigir o olhar para a terra, vi um recipiente no ch\u00e3o e trabalhadores deitados em atitude de comer, com as m\u00e3os na escudela. E os que estavam a mastigar j\u00e1 n\u00e3o mastigavam\u2026: todos tinham o rosto a olhar para o alto. Tamb\u00e9m havia ovelhas a serem conduzidas a pastar; mas n\u00e3o davam um passo e ficaram paradas&#8230; E, ao dirigir o meu olhar para a corrente do rio, vi cabritos que punham nela o focinho, mas n\u00e3o bebiam. Numa palavra, todas as coisas, num momento, ficaram paradas no seu curso normal\u00bb (Proto-evangelho de Tiago, [s\u00e9c. II], XVIII, 2).<\/p>\n\n\n\n<p>Se este motivo densamente po\u00e9tico do sil\u00eancio c\u00f3smico que acompanha o grande acontecimento do Nascimento do Salvador com a suspens\u00e3o do curso da vida est\u00e1 presente na tradi\u00e7\u00e3o do nascimento de personagens religiosas, aqui \u00e9 um trepidante momento contemplativo. Assemelha-se ao pres\u00e9pio. Um e o outro tentam fazer uma fotografia ao momento preciso do Natal de Jesus. Na paisagem de tudo parado, as coisas da vida desposam-se em sinf\u00f3nica harmonia umas com as outras no relato ap\u00f3crifo e no pres\u00e9pio: a \u00e1rvore de Natal sempre verde \u2013 que do seu simbolismo origin\u00e1rio de vida perp\u00e9tua, de esperan\u00e7a e de renova\u00e7\u00e3o sazonal foi convertida pelo cristianismo em s\u00edmbolo de vida definitiva em Jesus \u2013 casa-se bem com o pres\u00e9pio, que capta a Incarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus na vida de cada comunidade; as luzes da \u00e1rvore associam-se \u00e0 luz da estrela que conduziu os magos a Jesus; a Santa (Ni)Klaus juntam-se os reis magos a repartir presentes; os anjos do pres\u00e9pio associam-se \u00e0s renas voadoras; o burro e o boi congra\u00e7am com os pastores que afagam a Vida nascente. Pela medita\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio do Natal, tudo aparece mais estreitamente ligado e nenhuma coisa se demarca da outra, fechada em si. Todas as coisas da vida se interpenetram, \u2018estando l\u00e1\u2019 numa rela\u00e7\u00e3o aberta, fazendo o que devem fazer, sendo o que devem ser de forma complementar. Uma verdade de fundo do Natal de Jesus \u00e9 a harmonia de todos os seres com os humanos, harmonia dos contrastes, opostos e complementares. O sil\u00eancio e a paragem do movimento e da actividade d\u00e3o car\u00e1cter divino ao humano genu\u00edno. A quietude p\u00f5e termo \u00e0 barb\u00e1rie. O sil\u00eancio contribui para compor \u00aba m\u00fasica calada, a solid\u00e3o sonora\u00bb (S. Jo\u00e3o da Cruz, <em>C\u00e2ntico espiritual<\/em>, can\u00e7\u00e3o 15), que vence o barulho. O sil\u00eancio e a m\u00fasica do Natal enquanto festa oferecem \u00e0 vida o seu esplendor e reflectem o mundo em estado de reden\u00e7\u00e3o e de reconcilia\u00e7\u00e3o. Se qualquer festa enquanto tal \u00e9 a forma resplandecente da exist\u00eancia humana, a do Natal eleva-se acima das outras na medida em que v\u00ea o filho de Deus a vir conviver com o homem.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, o fausto da festa n\u00e3o \u00e9 problema. Esse \u00e9 bem-vindo, como tudo o que gera alegria. O que se pode pedir \u00e9 que o Natal seja tamb\u00e9m festa <em>de<\/em> Jesus e segundo a mensagem que ele deixou j\u00e1 como jovem adulto: que gere uma sociedade inclusiva, fraterna, benevolente, em que o bem integral das pessoas, crentes ou descrentes, seja crit\u00e9rio supremo de ac\u00e7\u00e3o. O Natal de um mundo que n\u00e3o quisesse aprender nada do Nascimento de Jesus n\u00e3o seria digno dele, porque atrai\u00e7oaria essa hist\u00f3ria que ele quis para a humanidade. O mais importante do Natal \u00e9 a sua inten\u00e7\u00e3o original: ser uma hist\u00f3ria de transforma\u00e7\u00e3o activa, ocasi\u00e3o \u00fanica para refazer a exist\u00eancia com alegria, a maior festa para os que levam \u00e0s costas o fardo da vida e no cora\u00e7\u00e3o a esperan\u00e7a como \u00fanica bagagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Ainda encantados com a ternura entranh\u00e1vel das celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas e humanas do Natal, a meio do tempo festivo que se conclui com o Baptismo de Jesus, continuamos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4483,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4482","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4482","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4482"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4482\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4488,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4482\/revisions\/4488"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4483"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}