{"id":4472,"date":"2025-12-31T02:34:00","date_gmt":"2025-12-31T02:34:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4472"},"modified":"2025-12-23T09:35:48","modified_gmt":"2025-12-23T09:35:48","slug":"o-que-vieste-tu-visitar-e-celebrar-hoje-a-segovia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/o-que-vieste-tu-visitar-e-celebrar-hoje-a-segovia\/","title":{"rendered":"O que vieste tu visitar e celebrar hoje a Seg\u00f3via?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">P. Miguel Mar\u00eda M\u00e1rquez, Padre Geral OCD<br>Convento de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[Fa\u00e7amos uns breves momentos de sil\u00eancio que nos ajudem a acolher a Palavra de Deus que para n\u00f3s acaba de ser proclamada.]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perguntava Jesus: <em>\u00abO que sa\u00edstes a contemplar no deserto? Para que sa\u00edstes? Para ver um profeta?\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E pergunta-nos a n\u00f3s, Jesus: Por que vieste tu hoje a Seg\u00f3via? O que procuras tu em Jo\u00e3o da Cruz? Jo\u00e3o era o precursor que anunciava o Messias no deserto. Era mais do que um profeta. Tornou-se voz e caminho. Jo\u00e3o da Cruz \u00e9 a voz que clama na Noite, uma Chama que arde mais viva do que nunca: o cora\u00e7\u00e3o inflamado de Deus, o peito magoado de Cristo, a Fonte que mana e corre porque \u00e9 noite, neste <em>p\u00e3o vivo que hoje vamos comungar<\/em>. Jo\u00e3o da Cruz prepara-nos para esse encontro, convida-nos a que rendamos, a entrar na espessura desse Amor, a viver essa uni\u00e3o de amor com Ele, e entre n\u00f3s, como <em>o bem mais precioso da Igreja<\/em> \u2013 diz o pref\u00e1cio da Missa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que vieste tu visitar e celebrar hoje a Seg\u00f3via? Um para\u00edso neste belo lugar de Seg\u00f3via? Um t\u00famulo lindamente restaurado? A mem\u00f3ria da sua canoniza\u00e7\u00e3o e doutoramento? N\u00e3o. N\u00e3o vieste para celebrar a beleza do lugar, para venerar o seu corpo ou para recordar o que aconteceu h\u00e1 trezentos e cem anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">V\u00f3s viestes convidados para [fazer] uma experi\u00eancia viva, \u00edntima e comunit\u00e1ria, para um encontro, para a vertigem de se deixarem olhar por aqueles <em>olhos desejados<\/em> que Jo\u00e3o tinha e que voc\u00eas t\u00eam e que eu tenho <em>nas minhas entranhas desenhados<\/em>. Aqueles que iluminam o caminho todas as noites. [Com] pressa por viver a uni\u00e3o do amor, [com] urg\u00eancia por sair do que n\u00e3o importa, por sair da armadilha da divis\u00e3o e de esperar pelo amanh\u00e3. Viemos \u00e0 procura da p\u00e9rola, do tesouro e do segredo que iluminou a vida de Jo\u00e3o da Cruz: ele passou fome, foi preso, foi encurralado, e dedicou-se a procurar os seus amores, fugiu antes de saltar pela janela da pris\u00e3o de Toledo, n\u00e3o se deixou sequestrar por homens ou julgamentos humanos, mas pelo <em>veado ferido<\/em>, por Jesus ferido e apaixonado. Porque ele sabia que Deus nos ama dentro de Si com o amor que tem por Si mesmo: <em>\u00abama a alma em Si com o mesmo amor com que Se ama a Si mesmo\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A poesia e a voz de Jo\u00e3o da Cruz nascem da nudez e da uni\u00e3o. Para homenage\u00e1-lo, tamb\u00e9m n\u00f3s temos que nos descal\u00e7ar e nos render. Basta-nos isso, e \u00e9 a isso que vos convido: a nos descal\u00e7armos, em nudez e pobreza, aceitar essa Mirada, essa chama que o incendiou em amores no cora\u00e7\u00e3o da noite.<em> \u00abQu\u00e3o delicadamente me enamoras!\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estou, estamos, emocionados por estar aqui!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui ressoam com for\u00e7a aquelas palavras e a pergunta de Mar\u00eda Zambrano: <em>\u00ab(&#8230;) Veio pousar nesta rocha alta sobre o murm\u00fario do rio, sob este c\u00e9u limpo, neste ar rarefeito; veio aqui pousar como um p\u00e1ssaro para cantar livremente, desasidamente. Como um p\u00e1ssaro que faz a sua morada no ar, mas que saiu da terra castanha e \u00e9 castanho como ela, como, enfim, feito da sua subst\u00e2ncia. E assim, quando canta, por mais livremente que o fa\u00e7a, \u00e9 como se a pr\u00f3pria terra cantasse; como se a pr\u00f3pria terra tivesse conseguido libertar-se do seu peso, da gravidade que a ret\u00e9m. P\u00e1ssaro desta terra, o que canta? O que nos diz no seu canto?\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O seu canto com a liturgia da Palavra de hoje, domingo de Gaudete, diz alegria e regozijo na nudez. Diz for\u00e7a e gra\u00e7a que se d\u00e1 na m\u00e1xima pobreza e fraqueza \u2013 a que Jo\u00e3o da Cruz viveu toda a sua vida. Diz encontro e cuidado sem julgamento uns dos outros \u2013 tal como Jo\u00e3o cuidou das amizades saud\u00e1veis e se deixou cuidar. Diz que s\u00f3 tornando-nos pequenos somos grandes no reino dos c\u00e9us.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Percorre[-nos] por dentro um sentimento de profunda gratid\u00e3o ao recordarmos a sua canoniza\u00e7\u00e3o e o seu doutoramento. E convida-nos a sermos santos e doutores em simplicidade e humildade, em sabedoria do cora\u00e7\u00e3o, em uni\u00e3o e comunh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jo\u00e3o da Cruz \u00e9 um profeta urgente, daquilo que importa e do que est\u00e1 em jogo na nossa vida neste momento. N\u00e3o admite espectadores, pega-nos pela m\u00e3o e leva-nos ao centro, aproxima-nos da chama, coloca-nos na sua noite, desnuda-nos e coloca-nos diante da Mirada do Amado, deixa-nos que nos percamos para nos deixar encontrar e perceber que quem est\u00e1 apaixonado \u00e9 Ele, o veado ferido, Cristo. N\u00e3o nos deixa em si mesmo. Os mestres n\u00e3o amam disc\u00edpulos imitadores, n\u00e3o querem c\u00f3pias. Jo\u00e3o quer que sejas aut\u00eantico e que tu escrevas o teu c\u00e2ntico. Sem desculpas. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00e3o negativa, nem noite, nem desprezo ou ferida na tua vida que n\u00e3o possa ser reciclada e convertida em adubo de vida nova, de vida apaixonada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jo\u00e3o \u00e9 belamente divino e profundamente humano. \u00c9 preciso conhec\u00ea-lo melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como viver este ano jubilar? Algu\u00e9m nos d\u00e1 uma boa consigna: \u00ab[Este \u00e9] <em>um ano para nos aproximarmos e nos deixarmos interpelar pela profundidade humana e espiritual da sua experi\u00eancia\u00bb. \u00abLer hoje S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz numa clave jubilar n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de nostalgia espiritual. \u00c9 um apelo \u00e0 convers\u00e3o\u00bb<\/em>. Jo\u00e3o da Cruz conheceu o desprezo dos seus irm\u00e3os, a dureza das rela\u00e7\u00f5es truncadas, a incompreens\u00e3o institucional e a \u00abnoite\u00bb do abandono. E quando uma carmelita descal\u00e7a daqui, de Seg\u00f3via, preocupada, lhe fez ver isso, ele responde \u00e0 sua carta com esta frase: <em>\u00abE onde n\u00e3o h\u00e1 amor, ponha amor e encontrar\u00e1 amor\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u00abColocar amor\u00bb<\/em> \u00e9 passar do julgamento r\u00e1pido \u00e0 escuta atenta; do idealismo espiritual \u00e0 proximidade real; da cr\u00edtica \u00e0 corresponsabilidade. \u00c9 tornar-se parte, envolver-se, comprometer-se com a sua maneira de \u00abestar com\u00bb e \u00abser com\u00bb os outros. O amor de que Jo\u00e3o fala n\u00e3o \u00e9 sentimento nem boa inten\u00e7\u00e3o: \u00e9 presen\u00e7a, \u00e9 cuidado, \u00e9 apoio. \u00c9 um acto da vontade. Eu escolho amar. Isso implica passar da queixa est\u00e9ril \u00e0 responsabilidade partilhada. Falar de colocar amor \u00e9 falar de compromisso: intervir, assumir a responsabilidade e criar condi\u00e7\u00f5es para que ningu\u00e9m fique exposto ao dano<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jo\u00e3o da Cruz <em>\u00abteve em vida uma audi\u00eancia intensa e limitada. Foi carmelita contemplativo, eficaz e sem brilho, inimigo de altos cargos e pouco dado a rela\u00e7\u00f5es sociais. Nos seus escritos n\u00e3o deixa espa\u00e7o para os grandes feitos da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea. Impass\u00edvel perante os acontecimentos ruidosos, \u00e9 um fino observador de Deus e do homem que se movem pela vida. Observador, ressonador, int\u00e9rprete. N\u00e3o faz gestos, mas vive com paix\u00e3o: ama, trabalha, ouve, sofre, cala, escreve. Por um estranho destino, tornou-se uma das figuras representativas da hispanidade, do cristianismo, da humanidade\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para despertarem da armadilha da confronta\u00e7\u00e3o e da polariza\u00e7\u00e3o Espanha, a Igreja e o mundo precisam urgentemente da sabedoria de Jo\u00e3o da Cruz. Os padres, os religiosos, os crist\u00e3os, a sociedade, precisamos de voltar a apaixonar-nos e encontrar a fonte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recebi esta manh\u00e3, \u00e0s 8h10, uma mensagem de Alfonso [D\u00edaz Zurdo]. Dizia assim: <em>\u00abBom dia, Miguel! Acho que hoje vais celebrar a Eucaristia no mesmo lugar e \u00e0 mesma hora em que fizemos o diaconato h\u00e1 36 anos, em 1989. Quem diria que voltarias a\u00ed no mesmo dia, como Geral da Ordem! Que tenhas um bom dia de anivers\u00e1rio. Um abra\u00e7o!\u00bb. <\/em>[Na verdade, dizia mais coisas, mas vou omiti-las\u2026] Aquele que naquele dia nos ordenou a ambos \u2013 Dom Santos \u2013 tinha sido arcebispo, no Chile, e tinha-se aposentado \u2013 era em\u00e9rito; e estava em Espanha a fazer o noviciado como Carmelita Descal\u00e7o e ordenou-nos di\u00e1conos, no dia 14 de dezembro de 1989, na capela do sepulcro \u2013 [Fomos ordenados por um novi\u00e7o, \u00e9 o que eu quero dizer!\u2026].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">[Concluindo em modo de ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as] convido-vos a um momento de sil\u00eancio, pela m\u00e3o de Jo\u00e3o da Cruz:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u00abFiquei e esqueci-me,<\/em><br><em>o rosto reclinei sobre o Amado.<\/em><br><em>Tudo cessou e deixei-me,<\/em><br><em>deixando meu cuidado<\/em><br><em>entre os l\u00edrios esquecidos\u00bb.<\/em><a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><br><em>Qu\u00e3o manso e amoroso<\/em><br><em>te recordas em meu seio,<\/em><br><em>onde secretamente s\u00f3 moras<\/em><br><em>e no teu aspirar saboroso,<\/em><br><em>bem e gl\u00f3ria cheio,<\/em><br><em>qu\u00e3o delicadamente me enamoras!\u00bb.<\/em><a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>14 de dezembro de 2025<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz \u2013 C\u00e2ntico Espiritual B 32,6.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz \u2013 Carta 26.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cfr Blog de Mar\u00eda Noel Firpo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Federico Ruiz Salvador \u2013 M\u00edstico y Maestro, Pr\u00f3logo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Noite Escura 8. (Tradu\u00e7\u00e3o livre)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz \u2013 Chama Viva 4. (Tradu\u00e7\u00e3o livre)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P. 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