{"id":4470,"date":"2025-12-31T02:33:00","date_gmt":"2025-12-31T02:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4470"},"modified":"2025-12-23T10:11:39","modified_gmt":"2025-12-23T10:11:39","slug":"homilia-na-abertura-do-ano-jubilar-saojoanista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/homilia-na-abertura-do-ano-jubilar-saojoanista\/","title":{"rendered":"Homilia na abertura do ano jubilar s\u00e3ojoanista"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">+ D. Jes\u00fas Vidal, bispo de Seg\u00f3via<br>Convento de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Junto ao t\u00famulo de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, abrimos hoje o ano jubilar por ocasi\u00e3o do tricent\u00e9simo anivers\u00e1rio da sua canoniza\u00e7\u00e3o, por Bento XIII em 1725, e pelo primeiro centen\u00e1rio da sua proclama\u00e7\u00e3o como doutor da Igreja Universal, pelo Papa Pio XI, em 1925.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u00abSe foram capazes de saber tanto que puderam escrutinar o universo, como n\u00e3o encontraram antes o seu Senhor?\u00bb<\/em>. Esta pergunta do livro da Sabedoria poderia ser o in\u00edcio de um di\u00e1logo do Mestre S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz com o homem de hoje. Perante uma ci\u00eancia e uma t\u00e9cnica que se vangloriam de um grande conhecimento e poder, Frei Jo\u00e3o \u00e9 testemunha duma sabedoria que n\u00e3o vem dos homens, mas de Deus; uma sabedoria que, nas palavras de S\u00e3o Paulo, \u00e9 divina, misteriosa, oculta. Podemos muito bem colocar estas palavras na boca do Santo Doutor que, deixando-se fazer por Deus, foi levado \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, at\u00e9 sentir amar a Deus com o mesmo amor com que era amado por Ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir deste mosteiro que ele mesmo fundou e em cuja constru\u00e7\u00e3o participou, sendo o seu primeiro prior, hoje unimo-nos de cora\u00e7\u00e3o aos outros lugares s\u00e3ojoanistas onde se celebrar\u00e1 este ano jubilar: a diocese de \u00c1vila \u2013 \u00e0 sua localidade natal, Fontiveros, e a Duruelo, onde fundou o primeiro mosteiro do Carmo Descal\u00e7o \u2013, e com a diocese de Ja\u00e9n, porque de \u00dabedae partiu para o c\u00e9u para rezar as matinas. Uno-me desde aqui a meus irm\u00e3os bispos dessas dioceses, com quem, juntamente com o Padre Geral, Frei Miguel Maria M\u00e1rquez, e com D. C\u00e9sar, bispo em\u00e9rito da nossa diocese, se solicitou a gra\u00e7a deste ano jubilar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recordando as palavras de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II na sua memor\u00e1vel visita a este sepulcro, tal como ele, tamb\u00e9m n\u00f3s queremos encontrar em S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz <em>\u00abum amigo e um mestre que nos indique a luz que brilha na escurid\u00e3o para caminharmos sempre em dire\u00e7\u00e3o a Deus\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>. Muitos s\u00e3o os aspectos em que S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz pode ser um guia para o homem de hoje. Ao longo dos actos do jubileu, aprofundaremos isso; atrevo-me a apontar apenas tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro dos aspetos \u00e9 o necess\u00e1rio despojamento das criaturas para a renova\u00e7\u00e3o da nossa f\u00e9 no seguimento de Cristo. N\u00e3o porque pensemos que as criaturas s\u00e3o m\u00e1s. Elas foram criadas por Deus e levam-nos a admirar o seu nome. Mas porque,&nbsp;<em>cativos pela sua beleza<\/em>, o amor desordenado por elas impede-nos de amar verdadeiramente a Deus. O brilho das riquezas, do poder ou da fama desorientam-nos e semeiam a rejei\u00e7\u00e3o de Deus e a viol\u00eancia e a disc\u00f3rdia entre os homens. S\u00e3o tremendamente atuais as palavras do livro da Sabedoria: <em>Eles d\u00e3o voltas \u00e0s suas obras, investigam-nas e ficam seduzidos pela sua apar\u00eancia, porque \u00e9 belo o que veem<\/em>. \u00c9 belo, mas sem refer\u00eancia ao seu fundamento em Deus, s\u00e3o apar\u00eancia e levam ao engano. Olhar para Cristo, Aquele que \u00e9 a \u00fanica Palavra que o Pai nos deu, amplia o nosso horizonte vital e alarga o cora\u00e7\u00e3o. <em>\u00abAprende a amar a Deus como Deus quer ser amado\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, dir-nos-\u00e1 o santo doutor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um segundo aspeto \u00e9 o amor \u00e0 Igreja na sua unidade. Uma unidade pela qual Jesus reza no evangelho e \u00e0 qual o Papa Le\u00e3o XIV nos chama fortemente no seu primeiro magist\u00e9rio. A unidade da Igreja \u00e9 sinal da unidade de Deus (<em>Que sejam um como tu, Pai, em mim e eu em ti<\/em>) e \u00e9 caminho para a unidade com Deus (<em>Este \u00e9 o meu desejo: que estejam comigo<\/em>). A amizade com Cristo n\u00e3o pode levar-nos a outro lugar que n\u00e3o seja a comunh\u00e3o da Igreja. Tanto S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz como Santa Teresa de Jesus s\u00e3o grandes e experientes mestres num amor comprovado pela Igreja. N\u00e3o viveram no contexto de uma Igreja perfeita, mas de uma Igreja marcada pelas feridas da mundanidade espiritual. Uma Igreja sempre necessitada de convers\u00e3o e purifica\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pelos pastores. Uma Igreja que precisa da participa\u00e7\u00e3o de todos e que \u00e9 sempre renovada pela ac\u00e7\u00e3o de Deus nos pequenos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro aspecto que gostaria de salientar \u00e9 o do sil\u00eancio. \u00c9 a\u00ed que se encontra a <em>sabedoria oculta<\/em> que s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada atrav\u00e9s da <em>\u00abespessura dos sofrimentos\u00bb<\/em>. N\u00e3o \u00e9 um sil\u00eancio individualista, mas o sil\u00eancio que nasce da paradoxal solid\u00e3o acompanhada pela comunh\u00e3o trinit\u00e1ria. Este sil\u00eancio corresponde a um grito do cora\u00e7\u00e3o do homem, talvez especialmente vivo no nosso tempo. Nas palavras do pr\u00e9mio Princesa de Ast\u00farias, o fil\u00f3sofo Byung-Chul Han: <em>\u00abDo ponto de vista estrutural, uma das causas da crise da religi\u00e3o \u00e9 a perda do sil\u00eancio. A nossa \u00e9 uma \u00e9poca de ru\u00eddo\u00bb<\/em><a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>. Para nos aproximarmos de Deus, numa era de tanto ru\u00eddo interior e medi\u00e1tico, \u00e9 necess\u00e1rio, como era ent\u00e3o, recorrer \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, ao sil\u00eancio pessoal e \u00e0 escuta pausada e serena da Palavra de Deus. Esta ora\u00e7\u00e3o, vivida diariamente ou em momentos mais longos e tranquilos, conduzir-nos-\u00e1 \u00e0 sabedoria da cruz, a sabedoria do amor que se d\u00e1 no escondido, que nos leva a querer sofrer com Cristo e com todos aqueles que sofrem por causa das mais variadas pobrezas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contam-nos os livros de cr\u00f3nicas [conventuais] que S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz deixou neste lugar um fundamento espiritual t\u00e3o forte, t\u00e3o atraente e sublime que permaneceu at\u00e9 aos nossos dias. Pedimos, por isso, para todos os que se aproximarem dos templos jubilares este ano, que possam beber algo deste esp\u00edrito e ver as suas vidas renovadas num amor mais verdadeiro e intenso a Deus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>13 de dezembro de 2025<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, Celebra\u00e7\u00e3o da palavra em honra de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, 4 de novembro de 1982.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ditados de luz e amor, 59.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Byung-Chul Han \u2013 Sobre Dios: Pensar con Simone Weil. Ed. Paid\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>+ D. 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