{"id":4408,"date":"2025-11-30T01:29:00","date_gmt":"2025-11-30T01:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4408"},"modified":"2025-11-27T14:30:12","modified_gmt":"2025-11-27T14:30:12","slug":"natal-o-anjo-e-maria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/natal-o-anjo-e-maria\/","title":{"rendered":"Natal, o anjo e Maria"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 das cenas do evangelho mais meditadas na hist\u00f3ria da espiritualidade e mais representadas pelas artes. \u00c9 chamada \u201cAnuncia\u00e7\u00e3o do anjo a Maria\u201d. A sua fragr\u00e2ncia liter\u00e1ria e espiritual inspirou centenas de pinturas, especialmente no Renascimento italiano. Na literatura s\u00e3o incont\u00e1veis as narrativas que transferiram para a escrita a sua m\u00edstica. Destaca-se a que o dramaturgo e poeta genial Paul Claudel (regressado \u00e0 f\u00e9 cat\u00f3lica no dia de Natal de 1886) rescreveu em <em>L\u2019annonce fait \u00e0 Marie<\/em> (<em>A anuncia\u00e7\u00e3o a Maria<\/em>, na tradu\u00e7\u00e3o de Sophia de Mello-Breyner Andresen), pe\u00e7a estilizada em linhas dram\u00e1ticas de uma beleza virginal, sulcada de intenso simbolismo com pendor mistag\u00f3gico. Admirando n\u00f3s a obra art\u00edstica e po\u00e9tica infinita sobre o relato b\u00edblico, tamb\u00e9m importa ousar a compreens\u00e3o da sua inten\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria. Que <em>queria dizer<\/em> no que disse?<\/p>\n\n\n\n<p>A cena comp\u00f5e o primeiro quadro mariano do evangelho de Lucas (1,26-38), narra\u00e7\u00e3o viva carregada de for\u00e7a espiritual, em que Maria aparece \u00e0 escuta da palavra de Deus. Na realidade, descrevendo a conversa\u00e7\u00e3o do anjo com a virgem, p\u00f5e-na em di\u00e1logo com a palavra de Deus, <em>representada<\/em> simbolicamente no mensageiro divino. De facto, a apari\u00e7\u00e3o ang\u00e9lica \u00e9 uma imagem do pr\u00f3prio Deus em estado de comunica\u00e7\u00e3o aos humanos; \u00e9 um s\u00edmbolo que torna imediatamente<em> presente<\/em> a Maria a palavra de Deus. O anjo da palavra \u00e9 realmente um \u00edcone da palavra de Deus, estampada tamb\u00e9m nas Escrituras hebraicas, que o mensageiro divino refere em abund\u00e2ncia, polvilhando o relato de treze vers\u00edculos com pelo menos doze cita\u00e7\u00f5es e alus\u00f5es a elas: a constela\u00e7\u00f5es de temas paralelos, a imagens, figuras, personagens, express\u00f5es, palavras. O di\u00e1logo emocionante e avassalador entre os dois protagonistas, o anjo e Maria, quer ent\u00e3o ser express\u00e3o pl\u00e1stica da palavra de Deus a dirigir-se e a revelar-se a ela, embebida em elevada ora\u00e7\u00e3o meditativa. O quadro \u00e9 uma trepidante imagem da virgem Maria, m\u00e1xima express\u00e3o do acolhimento, da aten\u00e7\u00e3o permanente, do cora\u00e7\u00e3o que sabe escutar. Nele, Maria \u00e9 modelo de escuta e de discernimento crist\u00e3o, a descobrir a vontade de Deus para si, j\u00e1 \u00abdesposada com um homem chamado Jos\u00e9\u00bb. Se h\u00e1 pessoas que v\u00e3o ter com os acontecimentos, Maria, confrontada com a palavra de Deus, deixou-se surpreender pelo acontecimento que veio ter com ela; deixou-se surpreender pelo Deus que \u00e9 sempre Mist\u00e9rio e Palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>O enviado\/palavra de Deus sa\u00fada-a. A sua f\u00e9 orante, que era conhecimento por meio do cora\u00e7\u00e3o e do amor, \u201cinterrogava-se\u201d, a partir da vida, \u201cque significaria aquela sauda\u00e7\u00e3o\u201d: qual seria o significado daquela palavra divina para o caminho novo a fazer entre palavras cruzadas, como m\u00e3e anunciada? Com efervesc\u00eancia simb\u00f3lica, a figura do <em>anjo<\/em> irrompe com uma mensagem super-humana a Maria: visa faz\u00ea-la compreender e assumir que o filho que ela \u00abconceberia no seu seio e daria \u00e0 luz\u00bb era e \u00abseria chamado filho de Deus\u00bb. Maria compreendeu que estava face ao Mist\u00e9rio quando meditava em di\u00e1logo com a palavra de Deus (\u00abcomo ser\u00e1 isso?\u00bb), que a remeteu para a ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo e para o Alto: \u00abo Esp\u00edrito Santo vir\u00e1 sobre ti e o poder do Alt\u00edssimo cobrir-te-\u00e1 com a sua sombra\u00bb; nas coisas do Esp\u00edrito, \u00abpara Deus nada \u00e9 imposs\u00edvel\u00bb (como o nascimento de um filho \u00e0 Sara \u00abentrada em anos\u00bb: Gn 18,14). Assim, Maria a responder ao anjo que escutara \u00e9, na realidade, Maria a rezar com a palavra de Deus. E esta n\u00e3o \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica. Dimana do teor liter\u00e1rio e comparativo do pr\u00f3prio an\u00fancio a Maria, que fazia culminar em si os numerosos an\u00fancios de nascimento prodigioso do Antigo Testamento, desde o de Isaac, Sans\u00e3o e Samuel at\u00e9 ao do Emanuel no profeta Isa\u00edas. \u00c9 a mesma mensagem, do princ\u00edpio ao ponto culminante da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica, que alimentava a ora\u00e7\u00e3o de Maria e a sua pondera\u00e7\u00e3o do sentido das coisas para ela, valendo-se do alimento e da luz das Escrituras, como faziam os judeus piedosos (2Tim 3,14-17 e 1,5; Act 16,1).<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos de linguagem, temos aqui, portanto, um relato b\u00edblico de apari\u00e7\u00e3o, fascinante <em>medita\u00e7\u00e3o espiritual<\/em> de estilo narrativo, que iluminava o presente crist\u00e3o (cerca de 80 anos depois dos factos a que se refere!) com passagens das Escrituras judaicas inspiradas. Era um g\u00e9nero liter\u00e1rio corrente entre os rabinos do tempo de Jesus e nos autores do Novo Testamento: o sentido a dar \u00e0 vida presente encontravam-no em textos das Escrituras, pondo-se \u00e0 escuta da palavra de Deus nelas. Foi o que fez Maria, \u00e0 procura de sentido transcendente para o que lhe estava a acontecer: \u00abMaria guardava todas estas palavras\/acontecimentos, meditando-as no seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb (Lc 2,19.51), revolvendo-as e colocando-as em rela\u00e7\u00e3o entre si e todas elas com o mist\u00e9rio de Deus para si.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, a narra\u00e7\u00e3o \u00e9 figurativa, cheia de imagens, a n\u00e3o alterar com um entendimento \u00e0 letra, como se o narrado tivesse sucedido tal e qual. A Igreja apost\u00f3lica usou essa linguagem imag\u00e9tica para suscitar nas comunidades crist\u00e3s a f\u00e9 no mist\u00e9rio que era Jesus: que ele era homem mas tamb\u00e9m Filho de Deus. Maria \u00e0 escuta do anjo \u00e9 Maria a contemplar o seu filho como Filho de Deus. Cruzando dados hist\u00f3ricos, geogr\u00e1ficos e pessoais, do presente com as sagradas Escrituras, o relato queria mostrar o sentido salv\u00edfico dos j\u00e1 antigos acontecimentos relativos ao nascimento de Jesus de Maria, sua m\u00e3e. N\u00e3o se trata de pensar que devemos traduzir a concep\u00e7\u00e3o virginal e a divindade de Jesus nos s\u00edmbolos da narra\u00e7\u00e3o. \u00c9 ao contr\u00e1rio. Trata-se de pensar que os s\u00edmbolos significam a real divindade de Jesus, que s\u00f3 neles se podia exprimir. N\u00e3o corremos o <em>risco<\/em> de ler tudo como representa\u00e7\u00e3o. Lucas teve <em>necessidade<\/em> de comunicar por meio de representa\u00e7\u00f5es: como se poderia dizer que Jesus \u00e9 o Filho de Deus sem ser pela virgindade de Maria? Nem abolimos o \u2018esc\u00e2ndalo\u2019 da Incarna\u00e7\u00e3o. Jesus n\u00e3o \u00e9, nem Super-homem nem Extraterrestre. \u00c9 Deus no homem, \u00e9 homem-Deus na terra. E Maria, de protagonismo incontorn\u00e1vel no Natal, \u00e9 quem ajuda a desatar estes dois n\u00f3s. Ela \u00e9 a mulher real que realmente concebeu no seu ventre o homem real Jesus, que a f\u00e9 crist\u00e3 desde sempre contemplou como Filho de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se queria dizer com essa forma de narrar \u00e9 que Jesus, al\u00e9m da sua inser\u00e7\u00e3o humana como elo central na corrente da hist\u00f3ria do seu povo (significada pela genealogia do evangelho de Lc 3), teve realmente origem em Deus (significada pela narrativa da anuncia\u00e7\u00e3o a Maria). A voz ang\u00e9lica a anunciar a concep\u00e7\u00e3o e o nascimento de Jesus quer dar visibilidade a Deus. N\u00e3o p\u00f5e \u00e0 escuta de hist\u00f3ria factual. Apela \u00e0 f\u00e9 no Mist\u00e9rio. Capta a transcend\u00eancia divina a vir \u00e0 iman\u00eancia humana. Maria n\u00e3o tem aqui fun\u00e7\u00e3o instrumental: \u00e9 essencial, necess\u00e1ria, para Deus e os humanos terem Jesus. Por ela, o Deus do seu povo tornou-se um Deus que se pode abra\u00e7ar e beijar, um Deus vivo que se p\u00f4de tocar e que pode tocar-nos. Viva o pres\u00e9pio!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD \u00c9 das cenas do evangelho mais meditadas na hist\u00f3ria da espiritualidade e mais representadas pelas artes. \u00c9 chamada \u201cAnuncia\u00e7\u00e3o do anjo a Maria\u201d. 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