{"id":4378,"date":"2025-10-31T02:45:00","date_gmt":"2025-10-31T02:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4378"},"modified":"2025-10-28T09:44:04","modified_gmt":"2025-10-28T09:44:04","slug":"a-esperanca-e-a-epopeia-classica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-esperanca-e-a-epopeia-classica\/","title":{"rendered":"A esperan\u00e7a e a epopeia cl\u00e1ssica"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda no jubileu da esperan\u00e7a, voltamos a meditar nela.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas epopeias cl\u00e1ssicas, pela ac\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica e representativa dos seus protagonistas (de Gilgame\u0161 na sua epopeia, de Heitor na <em>Il\u00edada<\/em>, de Ulisses na <em>Odisseia<\/em>, de Eneias na <em>Eneida<\/em>, de Dante em <em>A Divina Com\u00e9dia<\/em>, de Vasco da Gama em <em>Os Lus\u00edadas<\/em>, etc.), a esperan\u00e7a \u00e9 um grande esfor\u00e7o da humanidade por vencer a sua conting\u00eancia, os desafios, a vulnerabilidade, a precariedade que caracterizam a sua natureza. Na mais antiga delas (a menos conhecida), a m\u00edtica viagem de Gilgame\u0161 por mares tremendos at\u00e9 \u00e0 ilha dos bem-aventurados em busca da imortalidade investe todo o seu desejo na esperan\u00e7a da vida sem fim. Em <em>Os Lus\u00edadas<\/em> (canto V), a ultrapassagem do Cabo das Tormentas, renomeado Cabo da Boa Esperan\u00e7a, abre um novo caminho para a concretiza\u00e7\u00e3o da esperan\u00e7a no bom sucesso da viagem \u00e9pica que imortalizava a gl\u00f3ria de um povo. Mas todas coincidem em sentir a esperan\u00e7a como uma virtude profundamente ligada \u00e0 consci\u00eancia da fragilidade humana e \u00e0 confiante espera de um futuro melhor. Tamb\u00e9m todas incluem a participa\u00e7\u00e3o da divindade, que influencia de modo determinante a vida dos her\u00f3is. A esperan\u00e7a est\u00e1 na ess\u00eancia da epopeia: a epopeia exprime a tens\u00e3o positiva e o car\u00e1cter dram\u00e1tico da vida e da esperan\u00e7a, porque esta \u00e9 posta naquele ou naquilo que \u00e9 ardentemente desejado mas que n\u00e3o se v\u00ea e ainda n\u00e3o se tem (Rm 8,24-25; 2Cor 4,18; Heb 11,1); o drama est\u00e1 em que o objecto da esperan\u00e7a \u00e9 necessariamente \u00faltimo. A epopeia valoriza a esperan\u00e7a como componente fundamental da experi\u00eancia humana, que eleva o esp\u00edrito dos her\u00f3is e os impele a superarem as dificuldades, a olharem em frente e a procurarem o sentido \u00faltimo dos seus feitos. A esperan\u00e7a n\u00e3o deixa que os her\u00f3is sejam subjugados pelos fen\u00f3menos da natureza e pelas medonhas for\u00e7as irreconhec\u00edveis do fatalismo e do tr\u00e1gico. D\u00e1-lhes luta. E torna-se assim um princ\u00edpio activo que orienta a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m a B\u00edblia inteira permite uma leitura da sua esperan\u00e7a em clave de epopeia. De facto, perante a inevitabilidade inquestion\u00e1vel da radical finitude da condi\u00e7\u00e3o humana, procurou inspirar esperan\u00e7a \u00e0 vida dando-lhe sentido \u00faltimo em Deus. Narrando a hist\u00f3ria de um povo desde a sua funda\u00e7\u00e3o pelos \u00abpais\u00bb, exala uma atmosfera \u00e9pica, religiosa e profundamente humana. Abra\u00e3o, o \u00abpai\u00bb mais antigo e mais venerado, \u00e9 posto em movimento pela palavra de Deus (\u00absai da tua terra, da tua p\u00e1tria e da casa do teu pai, para a terra que Eu te mostrar\u00bb: Gn 12,1), levando consigo s\u00f3 a esperan\u00e7a: \u00abpela f\u00e9 partiu sem saber para onde ia; pela f\u00e9, estabeleceu-se como estrangeiro na terra prometida\u00bb (Heb 11,8-9). Nas hist\u00f3rias dos patriarcas b\u00edblicos, as decis\u00f5es fundadoras \u2013 como em todas as epopeias \u2013 est\u00e3o cadenciadas por interven\u00e7\u00f5es divinas, que validam os factos em fun\u00e7\u00e3o de uma tese religiosa: um povo, convocado pelo \u201cDeus dos pais\u201d, busca uma terra para viver livre e feliz (Gn 15,18-20). Os \u00abpais\u00bb s\u00e3o integrados numa hist\u00f3ria de f\u00e9 e de esperan\u00e7a, que os ultrapassa e que aparece epicamente impregnada de um dinamismo interior: a esperan\u00e7a viva num futuro libertador. A hist\u00f3ria foi suscitando a esperan\u00e7a e a esperan\u00e7a fez hist\u00f3ria salvadora.<\/p>\n\n\n\n<p>A epopeia do \u00eaxodo dos hebreus do Egipto para a \u201cterra prometida\u201d \u00e9 a melhor representante desse g\u00e9nero liter\u00e1rio na B\u00edblia, encontrando depois na <em>Eneida<\/em> (19 a.C.) estreitos paralelos: como Eneias, j\u00e1 Mois\u00e9s tinha conduzido um grupo da sua gente, atravessando o mar no meio de ingentes dificuldades (\u00caxodo, Lev\u00edtico, N\u00fameros e Deuteron\u00f3mio), para a estabelecer e formar um povo numa terra que foi conquistada em luta b\u00e9lica contra a popula\u00e7\u00e3o aut\u00f3ctone (descrita no livro de Josu\u00e9). E tamb\u00e9m no \u00eaxodo b\u00edblico, como na <em>Eneida<\/em>, a esperan\u00e7a enche a narra\u00e7\u00e3o dos factos. A opress\u00e3o dos hebreus na constru\u00e7\u00e3o de obras megal\u00f3manas dos fara\u00f3s visa epicamente gerar a consci\u00eancia da necessidade de liberdade como bem gratuito sem alternativas reais: a incapacidade de a obterem por si mesmos abriu-os \u00e0 esperan\u00e7a, vendo Deus a favor deles como \u00fanico salvador poss\u00edvel. Onde se queria acabar com a esperan\u00e7a, a\u00ed nasceu a esperan\u00e7a miraculosa da liberta\u00e7\u00e3o de Israel. A epopeia dos escravos hebreus arranca do clamor da esperan\u00e7a. A epopeia dos cl\u00e1ssicos, de Gilgame\u0161, de Ulisses, de Eneias, de Paulo nos Actos dos Ap\u00f3stolos, do Gama, de Frei Ant\u00f3nio de Lisboa desviado no mar para a It\u00e1lia\u2026, sulca os mares das dificuldades. A dos hebreus atravessa o mar Vermelho e incute neles uma esperan\u00e7a que os acompanhou na travessia do deserto do Sinai at\u00e9 \u00e0 entrada na \u201cterra prometida\u201d. Como no mar encapelado de Ulisses em demanda da sua prometida ilha \u00cdtaca, tamb\u00e9m no deserto, para o povo conduzido por Mois\u00e9s, n\u00e3o havia nada entre a terra e o c\u00e9u, a n\u00e3o ser a esperan\u00e7a: onde n\u00e3o h\u00e1 nada facilmente se espera vir a ter muito e melhor. \u00c0 maneira das epopeias cl\u00e1ssicas ocidentais, a narrativa b\u00edblica, imbu\u00edda de densidade \u00e9pica, apresenta os sentimentos e as emo\u00e7\u00f5es das suas personagens numa hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o dos seus limites e da sua finitude radical.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da <em>Il\u00edada<\/em> tem continuidade na da <em>Odisseia<\/em> e na da <em>Eneida<\/em>. A B\u00edblia faz com que a epopeia dos her\u00f3is do \u00eaxodo na \u201cterra prometida\u201d continue com Samuel, com David, com os reis de Israel e de Jud\u00e1\u2026, at\u00e9 Jesus, filho de David, em quem a hist\u00f3ria \u00e9pica da esperan\u00e7a b\u00edblica teve o seu ponto culminante. Se algu\u00e9m o quiser ver como her\u00f3i vencido na cruz, pense que na realidade ele venceu o mal moral cravando-o na cruz e \u00abexpulsou o pr\u00edncipe deste mundo\u00bb (Jo 12,31; 14,30; Ef 2,2). Os \u00abque outrora estavam longe\u2026, sem esperan\u00e7a e sem Deus no mundo, foram trazidos para perto pelo sangue de Cristo\u2026 De ambos os povos fez um s\u00f3, derrubando o muro de separa\u00e7\u00e3o e suprimindo na sua carne a inimizade\u00bb (Ef 2,12-18). O seu calcanhar de Aquiles foi a bondade, a ternura, a compaix\u00e3o para com os humanos, revelando \u2018um fraquinho\u2019 pelos mais fracos da sociedade. Deu o conte\u00fado mais consistente \u00e0 esperan\u00e7a b\u00edblica, fundando, com a sua morte hist\u00f3rica por amor, uma \u00abesperan\u00e7a que n\u00e3o engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos cora\u00e7\u00f5es pelo Esp\u00edrito Santo que nos foi dado\u00bb (Rm 5,5). O seguidor de Jesus \u00e9 motivado, n\u00e3o pela imortaliza\u00e7\u00e3o her\u00f3ica do seu nome mediante a fama, mas pelo salto para a transcend\u00eancia por meio da esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Ainda no jubileu da esperan\u00e7a, voltamos a meditar nela. 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