{"id":4373,"date":"2025-10-31T02:40:00","date_gmt":"2025-10-31T02:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4373"},"modified":"2025-10-28T09:41:24","modified_gmt":"2025-10-28T09:41:24","slug":"criacao-divina-sem-pecado-humano-uma-historia-com-sentido-genesis-2-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/criacao-divina-sem-pecado-humano-uma-historia-com-sentido-genesis-2-3\/","title":{"rendered":"Cria\u00e7\u00e3o divina sem pecado humano: Uma hist\u00f3ria com sentido: G\u00e9nesis 2-3"},"content":{"rendered":"\n<p>No fim do ano passado foi publicado em espanhol o livro&nbsp; de Armindo dos Santos VAZ, <em>Cria\u00e7\u00e3o divina sem pecado humano. Uma hist\u00f3ria com sentido: G\u00e9nesis 2-3<\/em> (Paulinas Editora; Prior Velho, Fevereiro 2024) 270 p\u00e1ginas.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui fica a Recens\u00e3o da vers\u00e3o espanhola, feita pelo prestigiado te\u00f3logo Eloy Bueno de la Fuente:<\/p>\n\n\n\n<p>Armindo dos Santos VAZ, <em>Creaci\u00f3n divina sin pecado humano. Una historia con sentido: G\u00e9nesis 2-3<\/em>, Fonte, Burgos 2024, 310 p\u00e1ginas.<\/p>\n\n\n\n<p>O relato veterotestament\u00e1rio chamado \u201chist\u00f3ria de Ad\u00e3o e Eva\u201d constituiu-se como clave de toda uma civiliza\u00e7\u00e3o, tendo-a influenciado por diversas vias, de modo universal. No \u00e2mbito crist\u00e3o marcou a compreens\u00e3o e a recep\u00e7\u00e3o da mensagem evang\u00e9lica e, consequentemente, a teologia e a espiritualidade crist\u00e3 durante s\u00e9culos. Basta pensar no papel que o pecado original desempenhou na <em>forma mentis <\/em>da tradi\u00e7\u00e3o judeo-crist\u00e3, que ligava explicitamente o pecado \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. Avaliado o relato em perspectiva hist\u00f3rica e tendo em conta os seus efeitos, descobrem-se algumas ambiguidades ou unilateralidades que suscitam reac\u00e7\u00f5es negativas a partir da sensibilidade actual. Por isso esteve exposto a rejei\u00e7\u00f5es e a cr\u00edticas do ponto de vista filos\u00f3fico e at\u00e9 teol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Torna-se necess\u00e1rio, por conseguinte, o esfor\u00e7o por fazer uma recep\u00e7\u00e3o conforme com essa sensibilidade contempor\u00e2nea que ao mesmo tempo n\u00e3o atrai\u00e7oe o sentido original e genu\u00edno do texto b\u00edblico. Nesta direc\u00e7\u00e3o e a partir desta preocupa\u00e7\u00e3o, deve-se agradecer o contributo do Professor Armindo dos Santos Vaz, Carmelita Descal\u00e7o portugu\u00eas, que foi docente na Universidade Cat\u00f3lica de Portugal e primeiro presidente da Associa\u00e7\u00e3o B\u00edblica Portuguesa. Depois de duas fases de compreens\u00e3o desse texto do G\u00e9nesis, leitura historicista e leitura concordista, abriu-se uma terceira fase, a de uma leitura cr\u00edtica e contextualizada, a partir da qual se constata que tradicionalmente o sentido real do relato foi for\u00e7ado, tendo sido descontextualizado.<\/p>\n\n\n\n<p>O objectivo do livro est\u00e1 claramente expresso a partir do enquadramento e ao longo de todo o desenvolvimento: libertar os relatos do G\u00e9nesis de uma leitura em perspectiva \u201cmoral\u201d, porque esta gerou enormes doses de culpabiliza\u00e7\u00e3o nos crentes. Na raiz destes efeitos est\u00e1 o facto de se ter visto no relato do G\u00e9nesis a origem de todo o mal que caiu sobre a fam\u00edlia humana: um pecado moral dos primeiros humanos, a partir do qual surgiu a ideia de uma culpabilidade herdada, produzida por transmiss\u00e3o quase biol\u00f3gica e com uma culpa de car\u00e1cter praticamente jur\u00eddico. A origem de todo o mal radicaria num pecado moral dos primeiros humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, esta l\u00f3gica teria a sua origem ou fundamento no pr\u00f3prio Deus. Essa fundamenta\u00e7\u00e3o favoreceu uma imagem estranha de Deus, que o foi tornando um estranho na autoconsci\u00eancia que a fam\u00edlia humana ia adquirindo de si pr\u00f3pria. Isso repercute-se de modo decisivo na avalia\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio cristianismo, com a sua repercuss\u00e3o negativa na hist\u00f3ria humana. Por isso \u00e9 imprescind\u00edvel uma purifica\u00e7\u00e3o dessa imagem de Deus, como salvaguarda da pr\u00f3pria mensagem crist\u00e3. No entanto, isso n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel sen\u00e3o na medida em que se articule de modo diferente o relato de Gn 2-3 com a evolu\u00e7\u00e3o (ou, mais precisamente, com o devir) da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nossa opini\u00e3o, duas s\u00e3o as coordenadas da leitura que o autor do livro oferece. Por um lado (<em>pars destruens<\/em>) deve-se evitar a tend\u00eancia para projectar no texto b\u00edblico categorias surgidas de problem\u00e1ticas teol\u00f3gicas posteriores; se, por exemplo, se ler o relato a partir da teologia agostiniana ou luterana da condi\u00e7\u00e3o humana pecadora projectam-se no texto b\u00edblico dimens\u00f5es que na realidade n\u00e3o se encontram na inten\u00e7\u00e3o do hagi\u00f3grafo; igualmente, \u00e9 preciso superar a concep\u00e7\u00e3o negativa de \u201cmito\u201d, pois nele encontra-se uma componente de verdade, enquanto exprime autenticamente um estado concreto da consci\u00eancia humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado (a <em>pars construens<\/em>, como op\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica de fundo) prop\u00f5e-se uma leitura do relato do G\u00e9nesis como mito de origem, que permite uma nova interpreta\u00e7\u00e3o: \u00e0 luz dos textos paralelos do seu meio cultural, pode ser lido como mito de origem e a partir deles pode-se captar o seu sentido original. Assume-se o <em>mito<\/em> juntamente com o <em>l\u00f3gos<\/em>, irredut\u00edveis mas sem se exclu\u00edrem mutuamente; o pr\u00f3prio <em>mito<\/em> pode ser est\u00edmulo para o <em>l\u00f3gos, <\/em>para ampliar a racionalidade humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta perspectiva, pode dizer-se que o Antigo Testamento nunca caracterizou essa narrativa como queda. Em boa verdade, ela oferece uma apologia do humano (portanto, longe de qualquer atitude de condena\u00e7\u00e3o ou de castigo): \u2018diz\u2019 a verdade da condi\u00e7\u00e3o humana, realmente bela mas ao mesmo tempo finita e sofredora. Tem a fun\u00e7\u00e3o de ser ant\u00eddoto contra a ang\u00fastia e os medos, pois cont\u00e9m simbolicamente uma presen\u00e7a do invis\u00edvel; de facto, \u201cimagina\u201d Deus a criar, o qual implica acreditar no ser humano e no que ele faz; narra um acontecimento constitutivo inaugural, num tempo anterior \u00e0 hist\u00f3ria e justifica assim a exist\u00eancia das coisas, de acordo com a complexidade do ser humano. Oferece assim um pressuposto para \u201cdizer\u201d as melhores possibilidades de ser e de existir, porque se lhe d\u00e1 um significado incondicional, insuper\u00e1vel. A partir da sua experi\u00eancia presente, o narrador b\u00edblico descobre as ra\u00edzes, o original, oferecendo assim uma terapia perante a experi\u00eancia da fragilidade; e de algum modo restaura a perfei\u00e7\u00e3o e a beleza que o tempo cronol\u00f3gico faz murchar. A teologia da cria\u00e7\u00e3o, podemos dizer, enriquece-se semanticamente ao incorporar-lhe uma teologia da Provid\u00eancia divina, superando assim a contamina\u00e7\u00e3o ou am\u00e1lgama da cria\u00e7\u00e3o divina com as (derivadas) cria\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir destes pressupostos, e dentro da mesma l\u00f3gica, o autor do livro enfrenta o ponto central que provocou a compreens\u00e3o \u201cculpabilizadora\u201d e moral do relato do G\u00e9nesis: \u201ccomer do fruto\u201d proibido como acto que teria desencadeado a puni\u00e7\u00e3o divina. Trata-se realmente de uma desobedi\u00eancia a Deus ou simplesmente de uma transgress\u00e3o primordial, tal como aparece noutros mitos de origem? O autor opta claramente por esta segunda possibilidade, que oferece um paralelo significativo na <em>hybris <\/em>ou na figura de Prometeu, presentes na mitologia grega.<\/p>\n\n\n\n<p>O que realmente est\u00e1 em jogo no relato b\u00edblico \u00e9 procurar uma \u2018explica\u00e7\u00e3o\u2019 para a situa\u00e7\u00e3o real da exist\u00eancia humana na sua conting\u00eancia. A raiz para essa situa\u00e7\u00e3o foi imaginada pelo relato numa transgress\u00e3o, cometida no excesso de ir mais al\u00e9m do que estava permitido no processo da cria\u00e7\u00e3o em curso; o relato imagina uma infrac\u00e7\u00e3o \u00e0 necess\u00e1ria distin\u00e7\u00e3o entre a natureza humana e a natureza divina, ultrapassagem (inaceit\u00e1vel) do limite divinamente imposto (Gn 2,17) \u00e0 condi\u00e7\u00e3o dos seres humanos. A transgress\u00e3o deve ser entendida como uma met\u00e1fora, linguagem figurativa e n\u00e3o descri\u00e7\u00e3o realista, pois nesse caso (como sucedeu na hist\u00f3ria da interpreta\u00e7\u00e3o do relato) produzem-se falsidades (que foram o factor fundamental da culpabiliza\u00e7\u00e3o humana).<\/p>\n\n\n\n<p>No seu n\u00facleo e ponto de partida est\u00e1 a dificuldade de aceitar as radicais limita\u00e7\u00f5es da condi\u00e7\u00e3o humana, que acompanham o devir e a evolu\u00e7\u00e3o da autoconsci\u00eancia humana. O conhecimento colocava o ser humano entre o mundo animal e o mundo divino, estabelecendo assim uma distin\u00e7\u00e3o n\u00edtida entre ambos. O \u201cfacto transgressor\u201d quer ser um salto qualitativo, que permite aos humanos abrir os olhos \u00e0quilo que at\u00e9 ent\u00e3o era desconhecido para eles; mais do que \u201cqueda\u201d, algo negativo, \u00e9 uma mudan\u00e7a positiva no processo de cria\u00e7\u00e3o do ser humano completo. Este tende para a civiliza\u00e7\u00e3o e para a cultura, um elemento novo no processo de cria\u00e7\u00e3o divina em curso, que lhe permite transcender-se e empreender uma vida nova.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora podemos dizer que este passo est\u00e1 marcado pela ambiguidade entre o positivo (o conhecimento, a civiliza\u00e7\u00e3o) e o doloroso da vida humana actual (a consci\u00eancia de limita\u00e7\u00e3o, a experi\u00eancia de conting\u00eancia, a morte). O mito procura \u2018explicar\u2019 essa radical ambiguidade antropol\u00f3gica, dos bens e dos males da vida presente. A partir deste enquadramento, a serpente \u00e9 equipar\u00e1vel a Prometeu, ao mesmo tempo benfeitor da humanidade e origem dos males humanos; e n\u00e3o deveria ser vista como uma for\u00e7a contr\u00e1ria a Deus, como uma anterioridade do mal pr\u00e9via ao pecado humano. Deste modo, fica deslegitimada a compreens\u00e3o da proibi\u00e7\u00e3o divina como um estratagema para submeter \u00e0 prova a obedi\u00eancia e a liberdade humanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em s\u00edntese, portanto (e esta \u00e9, em nossa opini\u00e3o, a tese fundamental do autor do livro), a transgress\u00e3o m\u00edtica deve ser situada na din\u00e2mica de uma cria\u00e7\u00e3o divina em curso e n\u00e3o como pecado moral. \u00c9 mito de origem, como se disse no in\u00edcio, n\u00e3o mito de queda nem pecado moral hist\u00f3rico. A senten\u00e7a divina punitiva que o narrador situa na \u00faltima fase da cria\u00e7\u00e3o corresponde \u00e0 fase de maturidade do ser humano. Isso permite purificar a imagem de Deus e do ser humano e do seu mundo: n\u00e3o \u00e9 o Deus castigador do ser humano com todos os males da vida e com a morte; e o mundo deixa de aparecer como um mundo \u201cca\u00eddo\u201d por causa de um pecado original. Portanto, a vida \u00e9 um bem; e mesmo o mal que ela cont\u00e9m tamb\u00e9m \u00e9 digno de ser vivido. O relato do G\u00e9nesis \u2018explica\u2019, n\u00e3o culpabiliza. Reduzi-lo a uma mensagem moral seria destru\u00ed-lo ou, ao menos, empobrec\u00ea-lo; seria matar o seu conte\u00fado antropol\u00f3gico e religioso. Pelo contrario, o autor do livro, como alternativa a uma concep\u00e7\u00e3o tradicional e habitual, desvela uma vis\u00e3o positiva e optimista da vida, na perspectiva de Deus, do Deus criador e providente.<\/p>\n\n\n\n<p>Eloy Bueno de la Fuente<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No fim do ano passado foi publicado em espanhol o livro&nbsp; de Armindo dos Santos VAZ, Cria\u00e7\u00e3o divina sem pecado humano. Uma hist\u00f3ria com sentido: G\u00e9nesis 2-3 (Paulinas Editora; Prior [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4374,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-4373","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-livros","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4373"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4373\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4375,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4373\/revisions\/4375"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4374"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}