{"id":4345,"date":"2025-09-30T06:20:00","date_gmt":"2025-09-30T06:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4345"},"modified":"2025-09-26T16:20:05","modified_gmt":"2025-09-26T16:20:05","slug":"no-jubileu-da-esperanca-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/no-jubileu-da-esperanca-2\/","title":{"rendered":"No jubileu da esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 recentemente na hist\u00f3ria da Igreja tivemos jubileus estritamente tem\u00e1ticos. O Papa Francisco quis que o jubileu extraordin\u00e1rio de 2015 celebrasse a <em>miseric\u00f3rdia<\/em> de Deus e que o jubileu ordin\u00e1rio de 2025 vivesse a <em>esperan\u00e7a<\/em> ao longo do ano. Continuamos, pois, a meditar nessa virtude, embora sempre insuficientemente.<\/p>\n\n\n\n<p>De facto, a esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 das coisas que se digam e se acolham no esp\u00edrito com brandura e com subterf\u00fagios. Nem se deixa manejar com m\u00e3o frouxa. Esperar ardentemente que chegue o dia de festa ou que amanh\u00e3 te levantes com sa\u00fade, todos os deuses e humanos o podem anunciar sem manhas escondidas. Manter elevadas as esperan\u00e7as de um pa\u00eds evitando que se envolva na guerra tamb\u00e9m parece razoavelmente f\u00e1cil. Esperar que te vais sair bem nessa empresa dif\u00edcil \u00e9 razo\u00e1vel. At\u00e9 a pretens\u00e3o de comprar a esperan\u00e7a da gl\u00f3ria \u2013 ou a esperan\u00e7a e a gl\u00f3ria \u2013 a troco de sofrimentos continuaria a ser f\u00e1cil. J\u00e1 quando S. Paulo escreve aos Romanos que \u00abfomos <em>salvos na [vivendo em] esperan\u00e7a<\/em>\u00bb (8,24), entramos no terreno em que ela d\u00e1 que pensar, especialmente se pusermos essa afirma\u00e7\u00e3o em paralelo com a outra de Paulo: \u00abfomos reconciliados com Deus pela morte do seu Filho\u2026; seremos <em>salvos na<\/em>\/<em>pela sua vida<\/em>\u00bb (Rm 5,10). Faz pensar, porque esse campo sem\u00e2ntico b\u00edblico \u2013 e religioso em geral \u2013 da \u201csalva\u00e7\u00e3o\u201d significa que a esperan\u00e7a, escorada pela vida e pela morte de Jesus por amor, quer dar resposta \u00e0 procura pelo sentido \u00faltimo da exist\u00eancia humana. Muita gente questiona se a d\u00e1 mesmo. Pelo menos, fica a perceber-se que a esperan\u00e7a como a f\u00e9 crist\u00e3 tem o seu centro e fundamento em Jesus. Assim o sup\u00f5e o mesmo Paulo, que ao seu disc\u00edpulo predilecto Tim\u00f3teo fala com emo\u00e7\u00e3o de \u00abCristo Jesus, nossa esperan\u00e7a\u00bb (1Tim 1,1). A f\u00e9 de Paulo em Jesus fundamenta nele a mais profunda esperan\u00e7a humana, embora tamb\u00e9m seja verdade, ao inv\u00e9s, que a esperan\u00e7a suporta a f\u00e9, pois s\u00f3 se acredita naquele em quem se confia: \u00abSei em quem confiei\u00bb (2Tim 1,12). F\u00e9 e esperan\u00e7a s\u00e3o duas faces da mesma medalha. Crer em Jesus como filho de Deus \u00e9 viver em esperan\u00e7a. O <em>crist\u00e3o<\/em> liga inextricavelmente a sua f\u00e9 \u00e0 esperan\u00e7a: \u00aba f\u00e9 \u00e9 garantia das coisas que se esperam\u00bb (Heb 11,1).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a esperan\u00e7a crist\u00e3 ser\u00e1 mais frut\u00edfera se mostrar um pouco do seu profundo conte\u00fado humano e espiritual (reconhecendo sempre a insufici\u00eancia da linguagem que o quer exprimir). O conte\u00fado \u00e9 que d\u00e1 raz\u00f5es para a sentir como indispens\u00e1vel. Desde logo, a verdadeira esperan\u00e7a \u2013 n\u00e3o a que <em>espera que<\/em>, mas a que <em>espera em<\/em> \u2013 torna poss\u00edvel o imposs\u00edvel. Espevita e traz at\u00e9 n\u00f3s o que desejamos de mais profundo, intang\u00edvel. Gera um mundo&nbsp;novo&nbsp;dentro de n\u00f3s, renova-nos, afastando de n\u00f3s o sentido do tr\u00e1gico. N\u00e3o nos projecta para o mundo da quimera ou da utopia (que \u00e9 o sem-lugar, aquilo que nunca acontece): faz-nos olhar para n\u00f3s pr\u00f3prios tal como somos, radicalmente limitados. Ao fazer isso, a for\u00e7a da esperan\u00e7a \u00e9 tal que, inflamada pelo amor, propicia a necessidade de superar os limites humanos cong\u00e9nitos, enfrentando dificuldades superiores a n\u00f3s, tamb\u00e9m as provindas da perversidade. A esperan\u00e7a \u00e9 uma exalta\u00e7\u00e3o da humanidade que em n\u00f3s grita e exige a vit\u00f3ria da vida sobre a morte. Se a esperan\u00e7a \u00e9 inerente ao ser humano, que j\u00e1 \u00e9 s\u00f3 por si um corpo que espera, renunciar a ela significa a morte do Homem; significa ceder a uma vis\u00e3o fragment\u00e1ria do mundo e da Hist\u00f3ria e abdicar da procura do sentido \u00faltimo em tudo o que fazemos e nos fazem. A desesperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 alternativa v\u00e1lida para a vida: \u00e9 fracasso total do pr\u00f3prio ser. A esperan\u00e7a \u00e9 o esfor\u00e7o total para \u2018salvar\u2019 o humano, humanizando-o. Pela esperan\u00e7a \u00e9 que nos movemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, tal esperan\u00e7a, que se revela com esta for\u00e7a e que coloca a pergunta pelo sentido \u00faltimo da vida, ao fim de contas ter\u00e1 de ser entendida, humildemente \u2013 na percep\u00e7\u00e3o de fil\u00f3sofos, te\u00f3logos e soci\u00f3logos da religi\u00e3o \u2013, como um desafio a apostar na necessidade de abertura \u00e0 transcend\u00eancia. Ter\u00e1 de ser entendida como f\u00e9 na exist\u00eancia de Deus e em Jesus como filho de Deus, embora sem acreditar no Deus tapa-buracos ou intervencionista mas s\u00f3 no Deus transcendente, mist\u00e9rio absoluto e Deus dos m\u00edsticos, precisamente pelo que Jesus revelou sobre Ele (e assim voltamos ao pensamento inicial). Quando Jesus assegura \u00abEu sou o p\u00e3o vivo, o que desceu do c\u00e9u\u2026; quem comer deste p\u00e3o viver\u00e1 para sempre\u00bb (Jo 6,33.41.47-51; 11,25-26), mostra como a fraqueza humana em busca de supera\u00e7\u00e3o encontra na esperan\u00e7a uma aliada destemida. \u00c9 essa l\u00f3gica que torna o esperan\u00e7ado maior do que ele pr\u00f3prio. A esperan\u00e7a que Jesus d\u00e1 \u00e9 um elogio \u00e0 vida humana, na medida em que \u00e9 capaz de superar os seus limites e at\u00e9 a desumanidade e a barb\u00e1rie, como a que o matou. Pela esperan\u00e7a que Jesus funda, o crist\u00e3o n\u00e3o se reconcilia com o limite da morte: cr\u00ea, por cima de tudo, na vida e na vida para sempre. Mas \u2013 mais importante \u2013, ao abrir o horizonte para <em>al\u00e9m<\/em> da morte, a esperan\u00e7a transforma a vida humana <em>aqu\u00e9m<\/em> da morte, dando como presente o que se espera como futuro, puxando o futuro para o presente e mudando assim o presente: \u00abQuem tem esperan\u00e7a vive de modo diferente; foi-lhe dada uma vida nova\u00bb (Bento XVI, <em>Spe salvi<\/em>, 2), que muda o modo de ver o mundo. O Novo Testamento resume com clareza a vida nova de quem espera: \u00abBendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que pela sua grande miseric\u00f3rdia, atrav\u00e9s da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo de entre os mortos, nos gerou de novo para uma esperan\u00e7a viva\u2026 Por isso viveis alegres, embora um pouco aflitos por agora por causa de v\u00e1rias prova\u00e7\u00f5es\u00bb (1Ped 1,3-6). Um segredo, mal guardado, da f\u00e9 crist\u00e3 consiste na impossibilidade do desespero.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD S\u00f3 recentemente na hist\u00f3ria da Igreja tivemos jubileus estritamente tem\u00e1ticos. 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