{"id":4343,"date":"2025-09-30T06:16:00","date_gmt":"2025-09-30T06:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4343"},"modified":"2025-09-26T16:18:44","modified_gmt":"2025-09-26T16:18:44","slug":"como-rezar-depois-de-gaza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/como-rezar-depois-de-gaza\/","title":{"rendered":"Como rezar depois de Gaza?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em Gaza n\u00e3o morreram n\u00fameros. Morreram, sim, mulheres, m\u00e3es, filhas, meninos. Velhos. Homens e pais. Irm\u00e3os, futuros militantes do Hamas. E morreram beb\u00e9s que j\u00e1 nasceram depois de os ventres das m\u00e3es terem florescido durante esta guerra. Morreram beb\u00e9s de leite e de colo filhos todos das armas, da revolta, do medo, do horror; n\u00e3o da paz, do progresso, da ora\u00e7\u00e3o, do sonho. S\u00e3o filhos e netos da raiva e do \u00f3dio ao inimigo. Beb\u00e9s que n\u00e3o ouviram nem conheceram outras falas al\u00e9m dos gritos de horror, do zunido das balas e do estrondo das bombas, do ronco dos motores dos carros de combate inimigos, das impreca\u00e7\u00f5es, choros, l\u00e1grimas e juras de morte \u00e0 Estrela de David.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas outras Gazas actuais a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 id\u00eantica, embora, aqui, neste texto, mais me circunscreva \u00e0 que, por estes dias, mais ouvimos falar.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu que nestes meses todos n\u00e3o vi muita televis\u00e3o, o que vi enjoa-me e agonia-me. E n\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o consigo ver mais de Gaza, mesmo se eu, como todos, sou poupado \u00e0s imagens mais horripilantes e cru\u00e9is.<\/p>\n\n\n\n<p>Falam que o Hamas \u2014 e n\u00e3o me incomoda tomar este nome por inimigo da Humanidade \u2014 encena as imagens de fome e horror que envia para as televis\u00f5es ocidentais difundirem. Para nos confundirem e inquinarem. Talvez seja. Mas o que eu n\u00e3o consigo compreender \u00e9 como Israel, robusto, bem alimentado e armado como se marchasse contra aliens \u2014 e para mim, Israel \u00e9 um nome sagrado que virou infame \u2014 fez da Faixa de Gaza uma pris\u00e3o a c\u00e9u aberto, limitada por muros altos por tr\u00eas lados e, pelo quarto, pelo mar bravo. Eu n\u00e3o percebo como \u00e9 que um povo, infamemente, a seu bel prazer, corta a \u00e1gua, o ar, o p\u00e3o, a paz e as ra\u00edzes do sonho a outro povo; para mais e por demais pobre e humilhado. Sim, sim, tamb\u00e9m lhe corta o ar, pois s\u00e3o tantas as bombas que ali despeja e ali rebentam que aquele ar \u00e9 tudo menos bom e sadio, \u00e9 veneno!<\/p>\n\n\n\n<p>Eu olho para Gaza e credito-me que at\u00e9 as baratas da minha cozinha t\u00eam mais sorte que aquele povo. Olho para Gaza e j\u00e1 n\u00e3o tenho l\u00e1grimas para chorar. Olho e descreio-me: estarei passando por um pesadelo que inventei para me torturar a mim pr\u00f3prio e me autoflagelar horrivelmente? Que algu\u00e9m me diga tolo, me sacuda e acorde, que eu j\u00e1 n\u00e3o aguento mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Hesitei em escrever o que vou dizer. Hesitei muito e muito rezei para n\u00e3o ter de o fazer. Para que algu\u00e9m o fizesse antes. Mas tenho de faz\u00ea-lo, de diz\u00ea-lo, porque n\u00e3o \u00e9 digno nem humano n\u00e3o faz\u00ea-lo. H\u00e1 largos meses que durmo menos uma hora ou duas. \u00c9 nesse tempo que alinhavo ou preparo as minhas homilias; contudo, o que n\u00e3o consigo fazer \u00e9 evitar o martelo que, de quarto em quarto de hora, me bate na cabe\u00e7a como um sino pelo que, em vez de \u00abpam, pam, pam\u00bb, eu oi\u00e7o Gaza. Gaza, Gaza, Gaza. Gaza, Gaza, Gaza.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Gaza n\u00e3o morrem n\u00fameros, morrem pessoas. Segundo um lado, ou outro lado, segundo uma bandeira ou outra, morrem mais ou morrem menos pessoas. Segundo um lado, desde 27 de outubro de 2023 (vinte dias ap\u00f3s o in\u00edcio dos ataques palestinos a Israel) morreram 80.ooo mil palestinos, dos quais vinte mil n\u00e3o tinham for\u00e7as sequer para atirar uma pedra contra os carros de combate israelitas. Mas se escutarmos o outro lado \u2014 e f\u00e1cil \u00e9 perceber qual seja ele \u2014 morreram ou desapareceram 800.000 pessoas! Para vergonha de todos n\u00f3s, segundo ag\u00eancias independentes, esta cifra parece ser a mais aproximada, a mais verdadeira, embora seja bem mais dif\u00edcil de provar.<\/p>\n\n\n\n<p>Inacredit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Dir-me-\u00e3o os que se dizem defensores da verdade: \u2014 V\u00eas como te deixas enganar? Como tomas por verdadeira a not\u00edcia de que foram oitocentas mil mortes, e desprezas a que s\u00f3 relata oitenta mil? Mas n\u00e3o, eu n\u00e3o tomo nenhuma cifra por verdadeira ou por mais aproximada. N\u00e3o tomo. Para mim a morte de Abel \u00e0s m\u00e3os do irm\u00e3o j\u00e1 foi um exagero, um crime sem nome que jamais deveria ter sucedido. Mas ainda assim, um crime. Saibam: qualquer morte de Abel, de qualquer Abel de qualquer idade ou na\u00e7\u00e3o, e em qualquer era, j\u00e1 \u00e9 um excesso, uma indignidade incompreens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu que j\u00e1 n\u00e3o sei dormir seis horas seguidas, n\u00e3o sei como suportar isso. J\u00e1 tentei negar ou afogar os n\u00fameros, mas nem assim funciona ou aniquila as not\u00edcias da inf\u00e2mia. Alguns dizem, inclusive, para ao olharmos para Gaza n\u00e3o falarmos em genoc\u00eddio, por ser excessivo ou impr\u00f3prio. Mas eu olho. N\u00e3o posso n\u00e3o olhar para aquele deserto de casas e sonhos arrasados por bombas \u2013 quem \u00e9 que merece bombas em vez de p\u00e3o? Quem \u00e9 que pode ser condenado ao p\u00e3o \u00e1zimo do horror? N\u00e3o, n\u00e3o posso, n\u00e3o, eu n\u00e3o posso n\u00e3o olhar. N\u00e3o. N\u00e3o posso n\u00e3o pensar que o povo que na Segunda Grande Guerra foi impiamente abandonado e votado ao aniquilamento total, \u00e9 agora ele o autor, ainda que o n\u00e3o queiramos perceber, do aniquilamento de outro povo.&nbsp; Mas como \u00e9 isso poss\u00edvel? Como \u00e9 isso admiss\u00edvel? Poder\u00e1 agora Abel querer matar Caim?<\/p>\n\n\n\n<p>Quem percebe isso? Quem \u00e9 que hoje tem as m\u00e3os suficientemente pequeninas e limpas para p\u00f4r flores nas bocas das armas?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu que h\u00e1 longos dias ando \u00e0 cata de palavras e n\u00e3o as acho; eu que, cuidadosamente, ajunto letras e as articulo em carreirinha, umas a seguir \u00e0s outras, e s\u00f3 sinto que elas se esfumam e me falham, eu j\u00e1 n\u00e3o tenho palavras contra o mal que ali vejo impor-se como um veneno insidioso. N\u00e3o, eu n\u00e3o consigo jamais dizer ou escrever direito o sangue que me corre do cora\u00e7\u00e3o como a torneira duma pipa, como se meu cora\u00e7\u00e3o fora o \u00fanico alvo das armas, porque nele sofro o impacto de todas as balas, de tantas bombas que h\u00e1 tantos meses ferem e mordem o ch\u00e3o de Gaza.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu que com isto sofro o indiz\u00edvel, s\u00f3 pergunto: Senhor, at\u00e9 quando?&#8230; At\u00e9 quando terei de suportar tudo isto, sofrer tudo isto? Porque n\u00e3o apartas do meu olhar, do nosso olhar, tanto \u00f3dio, tanto mal? At\u00e9 quando morrer\u00e3o os inocentes, enfim, at\u00e9 quando morrer\u00e3o, durante o sono, tantos que n\u00e3o s\u00e3o inocentes? At\u00e9 quando h\u00e3o-de morrer os meninos que j\u00e1 n\u00e3o conseguem brincar, que n\u00e3o aprenderam a brincar, que n\u00e3o conheceram nem as flores bem as abelhas? At\u00e9 quando\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 quando terei de rezar, eu que j\u00e1 n\u00e3o sei rezar? Que te direi, eu que j\u00e1 n\u00e3o tenho palavras, que j\u00e1 n\u00e3o acredito nas letras alinhadas, que j\u00e1 n\u00e3o sei tange-las direito? Como, Senhor, como te rezarei salmos nestes dias em que Gaza nos lembra a inf\u00e2mia, onde os homens s\u00e3o como lobos que se atiram uns aos outros, sendo que os duma parte n\u00e3o t\u00eam dentes ou, se os t\u00eam, est\u00e3o quebrados? Como rezar-te, meu Deus, queres dizer-me? Eu que me apetece blasfemar, que me apetece perguntar-te porque continuas calado, porque n\u00e3o fazes ouvir a tua voz ardente, porque n\u00e3o calas as armas que matam inocentes, pergunto-me: porque te calas, meu Deus? Porque deixas que te acusem de insens\u00edvel quando te matam os filhinhos mais inocentes? Por que te calas, Deus? At\u00e9 quando nos provar\u00e1s? At\u00e9 quando te calar\u00e1s? At\u00e9 quando\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Como, Senhor, como \u00f3 Deus Bom, hei-de rezar-te nestes dias negros de Gaza? N\u00e3o sei, juro que n\u00e3o sei. Mas mesmo n\u00e3o sabendo, rezarei. Rezarei na certeza de que cada gesto, por pequenino que pare\u00e7a, acrescente for\u00e7as ao dique que se op\u00f5e \u00e0 tormenta. Rezarei para que ele n\u00e3o ceda. Rezarei para que a relva e as flores regressem a Gaza cantando de j\u00fabilo e alegria. E com elas deixem de chorar e lamentar-se os passarinhos, as minhocas e os esquilos. Rezarei como um anjo impotente que alarga as asas a fim de procurar suster o vento frio. Fechados ou abertos rezarei com os olhos porque n\u00e3o posso ignorar e n\u00e3o ficar do lado dos que, depois de destru\u00eddas as casas, recebem, sem defesa, as balas no peito. Rezarei, porque n\u00e3o estou dispon\u00edvel para ceder a \u00faltima palavra \u00e0 inf\u00e2mia, \u00e0 morte, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o, ao \u00f3dio. Rezarei para dizer sim \u00e0 dignidade e escolher a vida e a esperan\u00e7a e o abra\u00e7o entre irm\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Rezarei, sim, porque Deus gosta dos verg\u00e9is, n\u00e3o de destrui\u00e7\u00e3o dos nossos lares, sejam eles tendas de bedu\u00ednos ou mans\u00f5es \u2014 acreditando, por\u00e9m, que ele prefere as tendas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de as erguer, purificarei as m\u00e3os, como quem esparze sementes de esperan\u00e7a e p\u00e9talas de confian\u00e7a. Mesmo que em Gaza j\u00e1 n\u00e3o existam hospitais nem escolas, mesmo que toda a \u00e1gua esteja inquinada, mesmo que pare\u00e7a imposs\u00edvel que a vida ali sobreviva, rezarei contra o triunfo da morte! E a favor da esperan\u00e7a! A favor do renascer da vida e das m\u00e3os sem pedras nem aramas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que tu n\u00e3o me respondas, eu rezarei, Senhor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo sem m\u00e9rito, mesmo se exangue, mesmo se banhado em l\u00e1grimas secas, mesmo se assustado e se em descr\u00e9dito, mesmo que n\u00e3o tenha mais para onde olhar, mesmo se sem nenhuma esperan\u00e7a que me esperance, de olhos fitos no ultraje da cruz, rezarei.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu seguirei rezando, claro que continuarei a rezar porque o Padre Romanelli, p\u00e1roco da Sagrada Fam\u00edlia, a \u00fanica par\u00f3quia cat\u00f3lica de Gaza, podendo, dali n\u00e3o fugiu. Eu seguirei rezando porque o Padre Gabriel Romanelli, mesmo depois de ferido por uma bomba israelita, continua a rezar no meio dos escombros da esperan\u00e7a. Sim, eu continuarei a rezar porque o Padre Romanelli acolheu sob a sua capa de pastor quantas fam\u00edlias p\u00f4de; porque previamente n\u00e3o lhes perguntou se eram crist\u00e3os de qual confiss\u00e3o, se eram \u00e1rabes ou n\u00e3o, se do Hamas ou n\u00e3o. E com elas repartiu o p\u00e3o, p\u00e3o para a barriga e p\u00e3o para a alma e o cora\u00e7\u00e3o. Repartiu, sim, sem perguntar se rezavam e a qual Deus!<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, eu continuarei a rezar porque os que est\u00e3o no calv\u00e1rio de Gaza tamb\u00e9m rezam. Porque o frio noite do calv\u00e1rio sopra sobre as velas acesas, mas n\u00e3o as privou de palavra, n\u00e3o lhes tirou a voz, n\u00e3o lhes roubou a f\u00e9 nem a esperan\u00e7a. N\u00e3o lhes tirou, n\u00e3o, e eles sabem-no, como n\u00f3s sabemos, que o Senhor nos ensinou a rezar (e n\u00e3o apenas nos momentos felizes e folgados, tamb\u00e9m nos tristes, acabrunhados, nos de tormenta, de persegui\u00e7\u00e3o e de aniquilamento). Ora se ainda hoje em Gaza se reza, porque haveria eu de deixar de rezar? Se eu como p\u00e3o tr\u00eas vezes ao dia, e eles n\u00e3o, porque hei-de deixar de rezar no conforto e na paz da minha Igreja do Carmo? Se o Padre Romanelli e os que est\u00e3o com ele confiam no Senhor que nos ensinou a rezar, porque deixaria eu de rezar? Por isso,<\/p>\n\n\n\n<p><em>Pai Bom,<br>tu que \u00e9s pai de Esa\u00fa e de Jacob,<br>de Caim e de Abel,<br>dos ismaelitas, dos judeus<br>e dos crist\u00e3os;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>tu, Pai Bom,<br>tu que \u00e9s o \u00fanico Deus,<br>o \u00fanico pai e \u00fanica fonte da vida,<br>escuta-nos e ouve-nos<br>nesta hora tremenda da hist\u00f3ria<br>da tua fam\u00edlia.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tu que \u00e9s Pai de Jesus, o Filho,<br>Pai daqueles que O seguiram<br>e Pai dos que O sentenciaram<br>e mataram no madeiro;<br>tu que choraste por Ele<br>e agora choras e ficas sem palavras<br>quando em Gaza te morre um filho<br>ou uma filha,<br>n\u00e3o importa em que casa,<br>nem mesmo de que lado do muro;<br>tu que na tua impot\u00eancia<br>choras como n\u00f3s,<br>toma-nos nos teus bra\u00e7os,<br>aconchega-nos ao teu cora\u00e7\u00e3o,<br>afasta-nos da cara os cabelos,<br>beija-nos e diz-nos baixinho<br>o verbo, o \u00fanico verbo<br>que te define e nunca esqueces<br>e que tens para dizer a qualquer um<br>dos teus filhos ou filhas,<br>seja preto ou branco, ou viva<br>de qual um do lado do muro:<br>amo-te muito, minha filha!<br>Amo-te muito, meu filho!uito, meu filho!<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD Em Gaza n\u00e3o morreram n\u00fameros. 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