{"id":4309,"date":"2025-08-31T02:40:00","date_gmt":"2025-08-31T02:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4309"},"modified":"2025-08-26T10:07:57","modified_gmt":"2025-08-26T10:07:57","slug":"jubileu-jubilo-no-amor-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/jubileu-jubilo-no-amor-de-deus\/","title":{"rendered":"Jubileu: J\u00fabilo no amor de Deus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p>Como vimos no m\u00eas passado, a peregrina\u00e7\u00e3o aos lugares sagrados \u00e9, no jubileu, um exerc\u00edcio humano e religioso significativo. Todavia \u2013 parafraseando S. Jer\u00f3nimo e o enciclopedista Voltaire \u2013 n\u00e3o s\u00e3o os lugares santos que nos salvam: salva-nos o amor do Deus santo. Esta verdade leva-nos ao conte\u00fado intr\u00ednseco da indulg\u00eancia jubilar, que \u00e9 o amor recebido, de Deus. O Papa Francisco \u00e9 lapid\u00e1rio: \u00abA primeira verdade da Igreja \u00e9 o amor de Cristo, deste amor que vai at\u00e9 ao perd\u00e3o\u00bb (<em>Misericordiae vultus<\/em>, 12). Toca assim o cora\u00e7\u00e3o do evangelho, onde <em>amor<\/em> \u00e9 palavra densa. Desde logo, diz o <em>Ser<\/em> de Deus (1Jo 4,8.16), equa\u00e7\u00e3o que marca a originalidade da f\u00e9 crist\u00e3 no concerto das religi\u00f5es. E o \u2018amor que Deus \u00e9\u2019 n\u00e3o \u00e9 abstracto, rom\u00e2ntico, nebuloso ou distante, tamb\u00e9m porque<em> l\u2019amour <u>plat<\/u>onique est toujour plat, jamais tonique<\/em>. Deus p\u00f4de ser definido como Amor porque se tornou pr\u00f3ximo dos que amava. Pudemos v\u00ea-lo, manifestado historicamente no Filho Jesus, particularmente ao deixar crucificar a sua vida inocente. A sua morte por amor revelava \u00e0 f\u00e9 que Deus participa na hist\u00f3ria da humanidade: \u00abEstou persuadido de que nem a morte nem a vida\u2026, nem o presente nem o futuro\u2026 poder\u00e1 jamais separar-nos do amor de Deus que \u00e9 em Cristo Jesus\u00bb (Rm 8,38-39). \u00ab\u00c9 o pr\u00f3prio Pai que vos ama, porque v\u00f3s j\u00e1 me tendes amor\u00bb (Jo 16,27). Em cada pessoa que o celebra, o jubileu alcan\u00e7a o objectivo de a abrir ao ilimitado amor de Deus manifestado em Jesus. A f\u00e9 introdu-la de tal modo na \u00f3rbita do amor de Deus que tudo na sua exist\u00eancia pessoal e de crente se joga no interior desse amor, onde tudo \u00e9 sublime.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed, por\u00e9m, soa um alerta: tanto amor dado s\u00f3 \u00e9 reconhecido por um amor correspondente. \u00c9 preciso t\u00ea-lo. \u00abPorque \u00e9 sempre assim: ao amor s\u00f3 o amor o encontra, s\u00f3 o amor o entende, s\u00f3 o amor o merece\u00bb \u2013 assegura o agostiniano Frei Luis de Le\u00f3n (citado em <em>El cantar m\u00e1s bello <\/em>[traducci\u00f3n y comentario de Emilia Fern\u00e1ndez; Trotta; Madrid 1998] 85). Se \u00abDeus \u00e9 amor\u00bb, s\u00f3 o amor O reconhece e cr\u00ea n\u2019Ele: \u00abQuem n\u00e3o ama n\u00e3o reconheceu Deus\u00bb (1Jo 4,8). N\u00e3o \u00e9 por acaso que o evangelho de Jo\u00e3o, na cena do Calv\u00e1rio, p\u00f5e junto \u00e0 cruz o disc\u00edpulo que Jesus amava (Jo 19,26). Os outros disc\u00edpulos tamb\u00e9m tinham acreditado em Jesus. Mas, n\u00e3o entendendo suficientemente o significado da sua morte por amor a eles, fugiram. O disc\u00edpulo que se sentiu amado n\u00e3o fugiu, porque reconheceu o amor de Deus em Jesus. Igualmente no regresso ao trabalho da pesca \u00abos disc\u00edpulos n\u00e3o reconheceram que era Jesus\u00bb (Jo 21,2-3). S\u00f3 \u00abo disc\u00edpulo que Jesus amava\u00bb foi capaz de o reconhecer: \u00ab\u00c9 o Senhor\u00bb (Jo 21,7). Do amor que reconhece em Jesus o Enviado de Deus (Jo 13,20) emerge a verdade de uma vida. O amor, enquanto recebido e enquanto dado, \u00e9 a express\u00e3o mais coerente da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Cada um pressup\u00f5e o outro, tamb\u00e9m ao celebrar o jubileu. Quem tem consci\u00eancia de que \u00e9 envolvido no amor de Deus em Jesus recebe a indulg\u00eancia: isso \u00e9 a indulg\u00eancia. Ent\u00e3o \u00e9 convidado a corresponder em consequ\u00eancia, segundo a l\u00f3gica do amor. Ao amor reconhecido, em vertical, responde o amor em horizontal: \u00abPorque o amor vem de Deus, amemo-nos uns aos outros\u2026 Se Deus nos amou assim, tamb\u00e9m n\u00f3s nos devemos amar uns aos outros\u2026 Quem ama Deus ame tamb\u00e9m o seu irm\u00e3o\u00bb (1Jo 4,7.11.20-21; 3,16).<\/p>\n\n\n\n<p>Este amor fraterno a investir no quotidiano seria, \u00e0 partida, uma aposta sem garantia, condicionada pela fragilidade humana. Mas Paulo declara que em todas as tribula\u00e7\u00f5es e dificuldades \u00absomos mais do que vencedores gra\u00e7as \u00e0quele que nos amou\u00bb (Rm 8,37), \u00abpelo amor imenso com que nos amou\u00bb (Ef 2,4; Gl 2,20). Esta garantia estremecedora deriva do facto de o crente ser, primeiro, amado por Deus (1Jo 4,9-10.19). O gozo de ser amado, sem outra raz\u00e3o que n\u00e3o seja a de ser quem \u00e9, institui-se como o mais forte est\u00edmulo para ganhar a aposta de amar, alargando o amor de Deus \u00e0s pessoas: \u00abN\u00e3o h\u00e1 coisa t\u00e3o eficaz nem t\u00e3o poderosa em quem ama como saber que \u00e9 amado: isso sempre foi a isca e o \u00edman do amor\u00bb \u2013 insiste Frei Luis de Le\u00f3n (<em>Cantar de Cantares<\/em> [Edici\u00f3n de J. Guill\u00e9n; S\u00edgueme; Salamanca 1980] 90). J. W. von Goethe veio a dizer: \u00abSentir-se amado d\u00e1 mais for\u00e7a do que sentir-se forte\u00bb. Bem o percebeu Camilo Castelo Branco no <em>Amor de perdi\u00e7\u00e3o<\/em>: \u00abNo amor que [as pessoas] nos d\u00e3o \u00e9 que n\u00f3s graduamos o que valemos em consci\u00eancia\u00bb (Sistema solar; Lisboa 2018, p. 111). Ao ver a beleza e ao sentir o amor da jovem que passou a amar, o protagonista do romance projectou na sua vida a luz e o sentido que n\u00e3o via antes e teve for\u00e7a para substituir o \u00f3dio e o crime pelo amor. Para conduzir o ser humano \u00e0 felicidade, o amor \u00e9 o maior poder.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim do jubileu de 2015 o Papa Francisco conclu\u00eda: \u00abSou amado, logo existo, estou perdoado; por conseguinte, renas\u00e7o para uma vida nova\u00bb (Carta apost\u00f3lica <em>Misericordia et misera<\/em>, 16). O grande fruto do jubileu decide-se no acolhimento do amor de <em>Deus<\/em> em forma de perd\u00e3o de <em>Jesus<\/em> pela media\u00e7\u00e3o da <em>Igreja<\/em>. Na celebra\u00e7\u00e3o do jubileu n\u00e3o esquecemos o convite do ap\u00f3stolo Pedro (1Ped 4,8): \u00abAcima de tudo, mantende entre v\u00f3s um intenso amor, porque o amor cobre a multid\u00e3o dos pecados\u00bb. Esta \u00e9 uma verdade antropol\u00f3gica de grande densidade, a forma mais expressiva de convers\u00e3o, suposta e requerida para a celebra\u00e7\u00e3o do jubileu. No \u2018jubilado\u2019 renovado, \u00e9 o amor que deve primar como verdadeiro ser e identidade da pessoa: ele <em>\u00e9<\/em> na medida em que ama; a medida do seu ser \u00e9 a medida do seu amor. Santo Agostinho di-lo com acutil\u00e2ncia: \u00abO meu peso \u00e9 o meu amor\u00bb, isto \u00e9, peso tanto quanto amo, o meu primeiro valor est\u00e1 no meu amor (<em>Confiss\u00f5es<\/em>, XIII, 9, 10). A percep\u00e7\u00e3o de Paulo \u00e9 semelhante: \u00abse n\u00e3o tiver amor, nada sou\u00bb (1Cor 13,2); na express\u00e3o de Jo\u00e3o, \u00abquem n\u00e3o ama permanece na morte\u00bb (1Jo 3,14), eventualmente anterior ao jubileu. Quem ama est\u00e1 cheio de vida. Tendo, no jubileu, conhecido e reconhecido o amor, s\u00f3 falta traduzi-lo em vida: \u00abA f\u00e9 manifesta a sua energia mediante o amor\u00bb (Gl 5,6); o amor \u00e9 que torna a f\u00e9 verdadeira. O conte\u00fado da f\u00e9 \u00e9 \u00abo Amor total, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo\u00bb (Francisco, Enc\u00edclica <em>Lumen fidei<\/em>, 15).<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00f3pria indulg\u00eancia na celebra\u00e7\u00e3o do jubileu \u2013 amor descendente \u2013 \u00e9 uma vitamina para n\u00e3o desistir do amor ascendente. Interioriza a ideia de que a f\u00e9 crist\u00e3 ter\u00e1 de ser um motor de ac\u00e7\u00e3o e de mudan\u00e7a, de cultura do amor aos que andam nas periferias da vida, por exemplo, na pobreza que \u00e9 n\u00e3o conhecer o evangelho de Jesus. O jubileu quer acelerar este motor e contribuir para a globaliza\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia e da compaix\u00e3o. \u00c9 \u00abum ano da gra\u00e7a do Senhor\u00bb oferecido ao crente, \u00abo tempo favor\u00e1vel\u00bb (2Cor 6,1-2), \u00abo tempo de deixar tocar o cora\u00e7\u00e3o\u00bb (Francisco, <em>Misericordiae vultus<\/em>, 19).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Como vimos no m\u00eas passado, a peregrina\u00e7\u00e3o aos lugares sagrados \u00e9, no jubileu, um exerc\u00edcio humano e religioso significativo. Todavia \u2013 parafraseando S. 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