{"id":4301,"date":"2025-08-31T02:25:00","date_gmt":"2025-08-31T02:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4301"},"modified":"2025-08-26T09:55:16","modified_gmt":"2025-08-26T09:55:16","slug":"alem-das-telas-caminhos-de-descanso-e-contemplacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/alem-das-telas-caminhos-de-descanso-e-contemplacao\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m das telas: caminhos de descanso e contempla\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Ver\u00f3nica Parente<\/p>\n\n\n\n<p>No mundo atual onde a tecnologia invade cada instante, as f\u00e9rias correm o risco de se tornar apenas prolongamento das obriga\u00e7\u00f5es digitais. Vamos de f\u00e9rias com os telem\u00f3veis sempre conectados e com os port\u00e1teis atrelados a n\u00f3s, pois temos sempre algo que ficou pendente. E televis\u00e3o e r\u00e1dio sempre ligados. Ser\u00e1 que o sil\u00eancio incomoda? Das informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o nos podemos desconectar? Mas, ser\u00e1 que n\u00e3o? \u2014 Sim, podemos e devemos desconectar, porque o sil\u00eancio e o recolhimento, como ensinam os Carmelitas, oferecem um espa\u00e7o sagrado para reencontrar a alma, os outros e o mist\u00e9rio que nos habita.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava eu em f\u00e9rias quando recebo de um amigo carmelita uma mensagem\/link no WhatsApp. Era um link acompanhado duma frase: \u00abF\u00e9rias: lugares de encontro \u2013 Entrevista ao padre Vasco Pinto Magalh\u00e3es\u00bb. Abri, vi e refleti. O t\u00edtulo ficou a ressoar em mim. F\u00e9rias como lugar de encontro? O curioso era o meio pelo qual esta provoca\u00e7\u00e3o me chegava: um telem\u00f3vel, em plena altura em que eu procurava precisamente afastar-me dele, do computador e dos livros, para poder descansar o c\u00e9rebro. Precisava de um tempo para n\u00e3o fazer nada! E como \u00e9 necess\u00e1rio e urgente esse tempo!<\/p>\n\n\n\n<p>A entrevista com o padre Vasco Pinto Magalh\u00e3es lembrava que as f\u00e9rias n\u00e3o s\u00e3o apenas um intervalo do trabalho, mas sobretudo uma oportunidade de encontro \u2014 com os outros, com a natureza, com Deus e, n\u00e3o menos importante, connosco mesmos. Esta ideia confronta-se com a realidade do nosso tempo: vivemos mergulhados num mar de notifica\u00e7\u00f5es e mensagens que nos roubam o sil\u00eancio necess\u00e1rio para tais encontros. E-mails e mais e-mails, grupos e mais grupos, chamadas e mensagens\u2026 publicidades, um sem n\u00famero de distra\u00e7\u00f5es. E o descanso dos ecr\u00e3s? Sim, o descanso que deveria abrir espa\u00e7o \u00e0 vida mais profunda torna-se facilmente prolongamento das obriga\u00e7\u00f5es digitais e da era das teclas\u2026.<\/p>\n\n\n\n<p>O quanto temos de aprender e regressar ao essencial com os carmelitas, eles que sempre foram mestres na arte do recolhimento. Santa Teresa de Jesus, no Livro da Vida, insiste que \u00ab\u00e9 necess\u00e1rio afastar-se das distra\u00e7\u00f5es\u00bb para que a alma se encontre. Da mesma forma, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz fala na Subida do Monte Carmelo da import\u00e2ncia do desapego: libertarmo-nos das amarras \u2014 materiais ou interiores \u2014 para alcan\u00e7ar a verdadeira liberdade. Tantos necess\u00e1rios desapegos! Desapegos que hoje podem muito bem significar desligar o telem\u00f3vel e o e-mail para redescobrir a serenidade perdida. Mas n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 estes Santos que nos alertam para tal necessidade. Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) acrescenta outra luz. Para ela, o sil\u00eancio e a contempla\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram fuga do mundo, mas a forma mais radical de se ligar ao essencial. Nas f\u00e9rias, esta intui\u00e7\u00e3o pode traduzir-se em reservar momentos para a interioridade, resistindo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de encher cada instante com est\u00edmulos digitais. Para mim, o sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia, mas plenitude; assim o aprendi ao longo da minha vida! E como o aprendi! A filosofia contempor\u00e2nea tamb\u00e9m alerta para os riscos da dispers\u00e3o. Albert Borgmann, em Technology and the Character of Contemporary Life (1984) nota como a tecnologia ocupa o espa\u00e7o do repouso, substituindo a experi\u00eancia direta pelo consumo constante de est\u00edmulos; j\u00e1 Jon Kabat-Zinn (1990) acrescenta que o excesso de conex\u00e3o digital fragiliza a capacidade de relaxar e apreciar o lazer. Ambos fazem ecoar aquilo que S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz afirma em A Noite Escura da Alma: \u00abpara vir a saborear tudo, n\u00e3o queiras ter gosto em coisa alguma\u00bb. Concordo com S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz e atrevo-me a afirmar que a verdadeira liberdade nasce do esvaziamento das distra\u00e7\u00f5es. E como em n\u00f3s ecoa a espiritualidade carmelita quando nos lembra ainda que o encontro connosco mesmos s\u00f3 acontece no recolhimento. Outro exemplo: se lermos Santa Maria Madalena de Pazzi, m\u00edstica carmelita do s\u00e9culo XVI, encontrar-nos-emos com o seguine ensinamento: \u00aba alma precisa mergulhar no sil\u00eancio como quem mergulha no oceano de Deus\u00bb. Esta imagem t\u00e3o po\u00e9tica serve, hoje, de ant\u00eddoto \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o digital: aprender a mergulhar no sil\u00eancio das f\u00e9rias, em vez de nos perdermos na superf\u00edcie das redes sociais! David A. Levy, em Mindful Techie, traduz em linguagem contempor\u00e2nea esta mesma intui\u00e7\u00e3o: estar presente \u00e9 o verdadeiro ant\u00eddoto contra a dispers\u00e3o. O gesto simples de desligar-se abre caminho para viver o momento \u2014 seja ao vento no rosto, \u00e0 brisa do mar ou a uma conversa sem pressa. Assim o fiz; nestas f\u00e9rias foi este o meu estar: estive presente! E este estar presente \u00e9, sem d\u00favida, o verdadeiro ant\u00eddoto contra a dispers\u00e3o que nos consome (tantas vezes em sil\u00eancio, sem nos darmos conta\u2026). No ritmo acelerado do mundo contempor\u00e2neo tentei n\u00e3o ser puxada em mil dire\u00e7\u00f5es: seja pelas notifica\u00e7\u00f5es que piscam, pelas mensagens que exigem resposta, ou pela urg\u00eancia de atender informa\u00e7\u00f5es que se acumulam sem cessar. Sim, no meio deste turbilh\u00e3o, a aten\u00e7\u00e3o fragmenta-se e a vida escapa em peda\u00e7os, muitas vezes sem que que o percebamos. \u00c9 justamente neste contexto que a presen\u00e7a consciente revela a sua for\u00e7a transformadora: ela nos reconecta com o instante, com o corpo, com o mundo e com aquilo que \u00e9 essencial dentro de n\u00f3s. Embora simples, o gesto de desligar-me carregou uma pot\u00eancia quase ritual: silenciar o telem\u00f3vel, fechar a porta das redes sociais, recusar-me a ser arrastada pelo fluxo incessante de est\u00edmulos digitais \u2014 tudo isto gerou uma abertura, um espa\u00e7o onde foi poss\u00edvel, enfim, habitar a pr\u00f3pria vida. Nesse espa\u00e7o, cada sensa\u00e7\u00e3o se intensificou: o vento que tocou o meu rosto deixou de ser apenas brisa e passou a torna-se presen\u00e7a; o som do mar n\u00e3o foi apenas ru\u00eddo, mas di\u00e1logo profundo entre a natureza e a alma; e uma conversa, antes interrompida pelo telefone ou pela pressa, transformou-se em verdadeiro encontro, onde cada palavra tinha peso, cada sil\u00eancio carregava significado e cada olhar encontra a sua verdade. Estar presente \u00e9 isto! Estar presente \u00e9 tamb\u00e9m um ato de coragem, pois exige escolher a experi\u00eancia direta em vez da distra\u00e7\u00e3o constante. \u00c9 recusar a ilus\u00e3o das multitarefas que nos fragmentam e nos esvaziam, e permitir que mergulhemos na plenitude do agora. Neste mergulho descobrimos nuances da vida que antes passavam despercebidas: a delicadeza da luz filtrando-se pelas folhas, o aroma do mar misturado com a brisa, o ritmo da respira\u00e7\u00e3o compartilhada em sil\u00eancio. Cada instante, quando vivido com aten\u00e7\u00e3o plena revela-se abundante, repleto de sentido e de intimidade com o mundo e consigo mesmo.<br>No fundo, o presente n\u00e3o \u00e9 apenas um tempo cronol\u00f3gico; \u00e9 um espa\u00e7o m\u00edstico, uma porta que se abre para a interioridade. E a vida nesta presen\u00e7a deixa de ser uma sucess\u00e3o de tarefas e preocupa\u00e7\u00f5es e torna-se experi\u00eancia viva, di\u00e1logo cont\u00ednuo com o que nos habita e com o que nos rodeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Desligarmo-nos, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas retirar-nos do digital; \u00e9 permitir que a alma respire, que os sentidos despertem, que a aten\u00e7\u00e3o encontre o seu lugar no universo. E \u00e9 neste gesto aparentemente simples que reside a verdadeira liberdade: a liberdade de sentir, de viver, de existir com profundidade, e de reconhecer, em cada instante, o milagre silencioso da vida que pulsa ao nosso redor; o milagre de estar com os outros, connosco e com Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 assim que regresso \u00e0 mensagem recebida. Talvez o Padre Vasco Pinto Magalh\u00e3es tenha raz\u00e3o: as f\u00e9rias s\u00e3o lugares de encontro. Para l\u00e1 disso, concordo com o que nos ensinam os Carmelitas: o encontro exige escolhas. Escolher o sil\u00eancio em vez do ru\u00eddo, a presen\u00e7a em vez da dispers\u00e3o, a contempla\u00e7\u00e3o em vez da pressa. S\u00f3 ent\u00e3o as f\u00e9rias deixam de ser uma pausa cronol\u00f3gica e se tornam um tempo de transfigura\u00e7\u00e3o, onde nos reencontramos com o essencial. E talvez seja precisamente a\u00ed, neste paradoxo \u2014 receber via WhatsApp um convite para o sil\u00eancio \u2014 que se revela a urg\u00eancia do nosso tempo: redescobrir, como os santos Carmelitas nos recordam, que a verdadeira renova\u00e7\u00e3o nasce quando ousamos desconectar. Oxal\u00e1 possamos (re)aprender com Santa Teresa de Jesus e S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz que o verdadeiro encontro connosco mesmos e com o divino ocorre na quietude, longe das distra\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, reflex\u00f5es contempor\u00e2neas ressaltam que a satura\u00e7\u00e3o de est\u00edmulos digitais pode fragilizar a nossa capacidade de relaxar e apreciar o momento presente. \u00d3, como \u00e9 bom e salutar redescobrir o valor do sil\u00eancio e da contempla\u00e7\u00e3o nas f\u00e9rias! (Re)descobrir torna-se essencial para uma renova\u00e7\u00e3o genu\u00edna, permitindo que estes momentos se transformem em verdadeiros encontros com o essencial. Arrisco a dizer que n\u00e3o s\u00f3 em tempo de ferias, mas sempre!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Borgmann, A. (1984). Technology and the character of contemporary life: A philosophical inquiry. University of Chicago Press.<br>Kabat-Zinn, J. (1990). Full catastrophe living: Using the wisdom of your body and mind to face stress, pain, and illness. Delacorte.<br>Levy, D. M. (2016). Mindful tech: How to bring balance to our digital lives. Yale University Press.<br>Magalh\u00e3es, V. P. (2023, [m\u00eas]). F\u00e9rias: lugares de encontro [Entrevista]. YouTube. https:\/\/youtu.be\/wnRTcpXui0I<br>Stein, E. (Santa Teresa Benedita da Cruz). (2002). Self-portrait in letters: 1916\u20131942 (J. Koeppel, Trans.). ICS Publications.<br>Teresa de Jesus, S. (2010). Livro da vida (M. Delgado, Trad.; Edi\u00e7\u00f5es Carmelo). Paulinas. (Obra original publicada 1565)<br>Jo\u00e3o da Cruz, S. (2013). Subida do Monte Carmelo (F. Rodrigues, Trad.; Edi\u00e7\u00f5es Carmelo). Paulus. (Obra original publicada 1578)<br>Jo\u00e3o da Cruz, S. (2014). Noite escura da alma (M. S. L. Coelho, Trad.; Edi\u00e7\u00f5es Carmelo). Paulus. (Obra original publicada 1585)<br>Maria Madalena de Pazzi, S. (1996). The complete works (Vols. 1\u20136). ICS Publications. (Obras originais do s\u00e9culo XVI)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ver\u00f3nica Parente No mundo atual onde a tecnologia invade cada instante, as f\u00e9rias correm o risco de se tornar apenas prolongamento das obriga\u00e7\u00f5es digitais. 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