{"id":4272,"date":"2025-07-31T02:30:00","date_gmt":"2025-07-31T02:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4272"},"modified":"2025-07-26T07:57:47","modified_gmt":"2025-07-26T07:57:47","slug":"diz-que-e-uma-especie-de-diario-duma-novena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/diz-que-e-uma-especie-de-diario-duma-novena\/","title":{"rendered":"Diz que \u00e9 uma esp\u00e9cie de Di\u00e1rio duma Novena"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Convidaram-me os meus irm\u00e3os frades de Viana do Castelo a pregar a <em>sua<\/em> Novena do Carmo e eu aceitei. Com gosto. Falei primeiro c\u00e1 em casa, com a minha comunidade, ponder\u00e1mos, atempadamente, for\u00e7as e falhas, organiz\u00e1mos os dias e as solenidades a que teria de faltar. E aceit\u00e1mos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui deixo algumas notas sobre o ali vivido e o rezado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fui levado a Viana pelo Frei Rui. Pelo caminho e para n\u00e3o falarmos s\u00f3 de futebol, instruiu-me sobre o povo de Viana, sobre o g\u00e9nio das gentes da Ribeira, sobre o denodo dos homens do mar e sobre a responsabilidade de, para al\u00e9m destes, falar aos homens e mulheres da Guarda Nacional Republicana. Fa\u00e7o notar isto: eles s\u00e3o iguais aos demais, \u00e9 certo, mas apresentam-se fardados, garbosos, dignos, a rezar e a cantar \u00e0 sua e nossa Padroeira. Comunh\u00e3o, portanto. D\u00e1 gosto partilhar com eles a M\u00e3e!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 chegada descarreguei, r\u00e1pido, a trouxa, e ainda lhe perguntei se almo\u00e7ava connosco. A casa n\u00e3o \u00e9 minha, n\u00e3o \u00e9 dele, mas em Portugal diz-se que enquanto o caldo est\u00e1 na panela chega para todos. Preferiu ir com\u00ea-lo na casa de familiares e fez bem, afinal n\u00e3o havia sopa na mesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Atribu\u00edram-me uma cela virada para o interior do claustro, donde quase n\u00e3o sa\u00ed. A cela era abafada, mas abrir a janela era assunto que n\u00e3o se punha \u2013 tal era o calor durante o dia. Pedi uma ventoinha e n\u00e3o havia. A meia tarde, por magia, apareceu uma \u00e0 porta. Estava nova e deitava-me ar para a cara. N\u00e3o refrescava, mas a sensa\u00e7\u00e3o era de que sim. Sobrevivi mantendo-a ligada, inclusive, de noite, ou em grande parte da noite \u2013 fiquei caro \u00e0 comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era tal o calor que tomava banho antes da Novena e, de novo, me refrescava no fim dela. Fiquei-lhes caro em \u00e1gua, embora o segundo banho fosse s\u00f3 para retirar o suor que me picava a pele. N\u00e3o uso gel, mas sabonete; levei-o de casa, mas n\u00e3o digo quanto gastei para que o meu ec\u00f3nomo n\u00e3o desmaie \u2013 a ignor\u00e2ncia tamb\u00e9m salva. Se isto ler, ele que me perdoe como puder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Abrir a janela da cela para que o fresco da noite me beijasse a cara tem o seu custo \u2013 ao menos no Carmo de Viana: entram tamb\u00e9m os mosquitos. Fui a Viana, recordei Viana, gostei de Viana, mas tamb\u00e9m sa\u00ed de Viana com gosto. Desculpem se vos incomodo (um poucochinho talvez): pela manh\u00e3 o meu corpo parecia ter sido bombardeado, tantas eram as crateras pequeninas e vermelhuscas que a minha pele apresentava. Ao fim de dez dias de bombardeamentos sobrevivi, mas n\u00e3o volto l\u00e1 sem m\u00edsseis Patriot! Ai n\u00e3o volto, n\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que me valeu foi aquela janela alta, qual abertura de imenso C\u00e9u. Ah, que porta aquela porta\u2026 Aquela janela de luz, aquela janela de gl\u00f3ria, de paz. N\u00e3o importava que o c\u00e9u fosse farrusco ou pardo \u2013 importava que n\u00e3o fosse postigo, que ela abrisse para cima. E para baixo tamb\u00e9m. E em baixo eu contemplava um jardinzinho fresco, florido, bonito, terno \u2013 ah, que belas palavras me inspirou!; e uma oliveira que \u2013 foi em Viana que o aprendi \u2013 \u00e9 o bras\u00e3o duma casa; e tamb\u00e9m um sino cansado e fora de combate, mas imponente em seu sil\u00eancio, falando tanto como um mudo de m\u00e3os erguidas, diante do Sant\u00edssimo Sacramento!; e uma cruz-padr\u00e3o, alta como um himalaia, obrigando-nos a sempre al\u00e7ar o olhar para a gl\u00f3ria. Sim, eu abria a janela e ela falava-me de voo, de c\u00e9u, de anjos em j\u00fabilo. De quarto em quarto \u2013 um dos sinos deve estar rachado, Padre Nuno! \u2013, uma badalada lembrava-me que eu ficava mais perto do C\u00e9u, mais perto, mais perto, uma hora mais perto do c\u00e9u!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gra\u00e7as a Deus!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">(Em boa verdade, eu n\u00e3o sei como n\u00e3o vem mais gente para frade; r\u00e1pido pensei eu que, se f\u00e1cil n\u00e3o fora de vir, ou ainda n\u00e3o viera, me disporia a pagar para entrar, s\u00f3 para poder ouvir aquele sino, desde o lado de dentro, de quarto em quarto de hora, tangendo-me a alma e falando-me linguajar celestial!)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Rezei com aqueles santos monges. S\u00e3o monges orantes e avan\u00e7ados, ultramodernos. Quando chega a Hora que, generoso, o sino d\u00e1, sacam do bolso o telefone, abrem a aplica\u00e7\u00e3o e cantam tudo. (E se \u00e9 o frei Agostinho a presidir, cantam-se at\u00e9 as rubricas!) Eu usei um velho e desgastado brevi\u00e1rio, pois n\u00e3o levara o meu para n\u00e3o pesar \u2013 afinal, os rompidos brevi\u00e1rios em desuso jaziam todos em descanso \u00e0 entrada do orat\u00f3rio e para algo haveriam de servir, claro; para peregrinos como eu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o leitor faz parte daquele ex\u00e9rcito orante, perceber\u00e1 o que a seguir vou dizer: quando se usam vers\u00f5es diferentes dos textos s\u00e1lmicos, aquilo, por vezes, redunda numa pequena confus\u00e3o bab\u00e9lica. Na verdade, era s\u00f3 eu que destoava, o que imprimia o seu qu\u00ea de tr\u00e9mulo e desordenado \u00e0 minha ora\u00e7\u00e3o. O que me vale \u00e9 que eu sempre me encomendo ao Santo Esp\u00edrito quando in\u00edcio a reza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda tentaram baixar a <em>aplica\u00e7\u00e3o lit\u00fargica<\/em> para o meu telefone, mas eu resisti. Devo ser antigo, pelo que \u00e9 coisa em que n\u00e3o encaixo. Nem mesmo me convence que se possa rezar as Horas quando em viagem; para isso, lhes disse que quando em desloca\u00e7\u00f5es, eu fa\u00e7o como S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz: canto os salmos com os olhos, com o cora\u00e7\u00e3o e a boca. E se os n\u00e3o canto inteiros como ele cantava, bato palmas ou dan\u00e7o nos vers\u00edculos em que a mem\u00f3ria me falha. E depois contemplo a natureza, os rios, os vales, os campos de milho, as vinhas de enforcado, os animais a pastar, os montes correndo velozes atr\u00e1s de mim como carneirinhos, as nuvens, a luz do sol. Ah, a luz do sol\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe outra raz\u00e3o para n\u00e3o baixar a aplica\u00e7\u00e3o: ela s\u00f3 fornece a liturgia pr\u00f3pria do dia lit\u00fargico <em>normal<\/em>, isto \u00e9, sem atender \u00e0s especificidades de cada fam\u00edlia espiritual. Carmelita eu sou, caramba, por isso, n\u00e3o h\u00e1 santinho dos meus que eu n\u00e3o recorde e celebre \u2013 nem que apenas seja com a ora\u00e7\u00e3o dfa colecta!, mas acontece que na<em> aplica\u00e7\u00e3o oficial<\/em> eles n\u00e3o fornecem o of\u00edcio de S\u00e3o Louis Martin e Santa Z\u00e9lia Gu\u00e9rin, e eu gosto muito de os celebrar. Gosto mesmo muito!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>6.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No primeiro dia da Novena puseram-me a casula \u00e0s costas, para que eu entendesse que o servi\u00e7o noven\u00e1rio era mesmo comigo. E era. Eu sabia-o, mas ainda, n\u00e3o assumira bem qu\u00e3o pesada poderia ser a responsabilidade. Mais para mais, toda a comunidade religiosa estava ali a ouvir e a rezar comigo; e depois, \u00e0 mesa, comentavam-me os meus manquejamentos. Cheguei a lembrar-me do meu exame para a Primeira Comunh\u00e3o que meu pai me fez (minha m\u00e3e rezava por mim) debaixo duma ramada, enquanto arranc\u00e1vamos batatas\u2026 N\u00e3o posso contar agora aqui essa <em>est\u00f3ria<\/em>; posso, sim, contar que no refeit\u00f3rio do Carmo de Viana me senti pequenino durante a Novena. E as batatas, apanhava-as, mas no prato\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 mesmo verdade que \u00e0 mesa comentavam tudo e mo atiravam, com caridade, \u00e0 cara.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E pelo meio o Superior ia avisando que tinha enviado emails aos P\u00e1rocos da cidade. E foi assim que pela Novena foram passando alguns p\u00e1rocos: o Padre Quintas, de 91 anos; o Padre Belo, de 86 anos; e o Padre Coutinho de 82. O leitor haver\u00e1 de pensar que eles est\u00e3o velhos e tr\u00f4pegos, mas n\u00e3o eu. Esses tr\u00eas vener\u00e1veis, mais o P\u00e1roco da S\u00e9, passaram por l\u00e1, e repetiram a dose, pelo que eu me via, sem querer, entre doutores; mas desta vez eles sabiam bem mais que eu! E fincavam as frontes semi-inclinadas nos bra\u00e7os ossudos como rijas escoras, e isso intimidava-me porque, sei l\u00e1 se eu os estava a ajudar a caminhar para o C\u00e9u, se a afundar-se no barro! Sim, aquelas cabe\u00e7as pesadas inclinadas sobre m\u00e3os, intimidavam-me. O que vale \u00e9 que um deles, num dos dias do meio da Novena, puxou-me pela manga e me disse: <em>\u2013 O senhor diz coisas interessantes, mas eu vinha \u00e0 espera de o ouvir falar do Escapul\u00e1rio!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo eu descansei nas <em>\u00abcoisas interessantes\u00bb<\/em> e depois remendei, sem mentir, que como em Can\u00e1, o melhor vinho ficava para o fim. E ele veio ouvir at\u00e9 ao fim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>7.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Eu j\u00e1 tinha vivido em Viana do Castelo. Seis anos, nada menos! Mas seja em Viana, seja onde for, mantenho um defeito que n\u00e3o deve ser s\u00f3 meu: longe da vista e longe da mem\u00f3ria, depressa esque\u00e7o os nomes das pessoas. \u00c9 um defeito que lamento muito, mas n\u00e3o sei como resolver. Por isso, quando na Novena subi, pela primeira vez, ao altar encontrei um rebanhinho fiel e algo robusto \u2013 mais de setenta pessoas! Eram quase todas conhecidas, de rostos lindos, t\u00e3o aprimorados quanto devotos. Claro, estavam todos doze anos mais velhos, pois os anos passam, afinal, por todos. E havia tamb\u00e9m alguns novos, n\u00e3o propriamente em idade; embora houvesse alguns fossem jovens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma coisa sobremaneira me encantou: fossem novos, fossem velhos, valentes, todos cantavam, especialmente os hinos e os c\u00e2nticos da Senhora do Carmo! E eu gosto disso, porque um povo com identidade, sabe encantar o cora\u00e7\u00e3o, sabe cantar o que \u00e9 seu, tanto o da terra como o do c\u00e9u!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>8.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E tinham um ac\u00f3lito. Chamava-se Henrique. Se n\u00e3o erro tem dez anos. Quero que saibam que, por vezes, os melhores celebrantes s\u00e3o os ac\u00f3litos. O Henrique s\u00f3 faltou uma vez porque teve uma prova de judo. Ao ouvi-lo justificar-se no dia seguinte quase fiquei contente: um padre est\u00e1 no altar e \u00e9 bom saber que est\u00e1 bem acolitado e bem defendido!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mantenho que \u00e0s vezes os ac\u00f3litos s\u00e3o os melhores celebrantes, mesmo se distra\u00eddos como o Henrique. Ah, que bom celebrante \u00e9 o menino. E depois, era mais nele que, durante a Novena, as velhinhas mais se infirmavam! E eu c\u00e1 por mim, ficava descansado\u2026 Existe ainda outra coisa que me agradava no acolitozinho: quando procedia ao lavabo deitava-me \u00e1gua abundante nos pulsos, coisa que muito me delicia. Pena era que tamb\u00e9m me ca\u00edsse nos p\u00e9s. De todo eu n\u00e3o desgostei, enfim, mas como n\u00e3o dava para os enxugar\u2026 \u2013 Deus te perdoe, Henrique!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>9.<\/strong> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A nossa espiritualidade carmelitana mariana \u00e9 a mais perfumada. Gosto muito disso. Outras h\u00e1 que s\u00e3o mais doloristas, mais combativas, mais voluntaristas, mais misericordiosas, mais mission\u00e1rias, mas ardentes,&nbsp; mais fraternas, mais viradas para a convers\u00e3o, mais pungentes e piedosas. Eu gosto da espiritualidade mariana do Carmo, porque \u00e9 terna, suave, enamorada e levemente perfumada. Gosto muito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carmo ou Carmelo s\u00e3o nobres palavras hebraicas cuja transum\u00e2ncia para o portugu\u00eas nos coube a n\u00f3s, Carmelitas; e que muito me dizem porque s\u00e3o antigas, b\u00edblicas, com muito sarro \u2013 um doce sarro perfumado, diga-se; e por ambas dizerem: <em>vinha florida<\/em> ou <em>jardim de Deus.<\/em> Um ou outro dizer, encantam-me muito. A <em>vinha florida<\/em> \u00e9 inebriante fonte de esperan\u00e7a, \u00e9 (quase) certeza de vinho (e de alegria). E \u00e9 perfume. O <em>jardim de Deus<\/em> \u00e9 perfume e frag\u00e2ncia, \u00e9 encanto, \u00e9 beleza, \u00e9 tempero, \u00e9 sinal de urg\u00eancia de trabalho, de trabalho interior, de cuidado dos outros e de si pr\u00f3prio. \u00c9 perfume perfumado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu gosto do perfume que damos quando trabalhamos, quando ajudamos os outros, quando, desgastando-nos, suamos. Gosto de qualquer perfume, sobremaneira desse que fala do duro esfor\u00e7o que d\u00e1 trabalhar o interior de cada um de n\u00f3s, at\u00e9 fazermos dele um jardim agrad\u00e1vel e prazeroso para Deus, para a Virgem e para os irm\u00e3os. Um jardim com uma fonte no meio, de prefer\u00eancia, claro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>10.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Doze anos \u00e9 muito tempo. Por isso, com facilidade as senhoras (e alguns senhores) que todas as noites constitu\u00edam aquela interessante assembleia ultrapassavam os oitenta. Certo dia da Novena em que distribu\u00eda a comunh\u00e3o pediram-me que fosse lev\u00e1-l\u2019A a um banco. Fui. Aproximei-me e a senhora, soerguendo-se a custo, endireitou-se. Ao levantar-se vi que tinha ao lado um andarilho. N\u00e3o sei se fiquei mais surpreso, se mais preocupado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 15 \u00e0 noite, sa\u00edmos em Prociss\u00e3o de Velas \u2013 com <em>\u00abdois bin\u00f3mios \u00e0 frente\u00bb<\/em>, dizia-me, ufano, o Padre Marco Caldas que tanto trabalhou para a festa! \u2013. Fizemos o percurso de sempre. Coisa para bem mais de uma folgada hora \u2013 e n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 por ir a rezar que, mormente para aos velhos, o caminho se torna mais levadeiro! Eia, pois, qual n\u00e3o \u00e9 o meu espanto, quando, \u00e0 sa\u00edda da Prociss\u00e3o, vi a velhinha e o seu companheiro, digo, o seu andarilho, ao fundo da igreja! Pensei: queres ver, Frei Jo\u00e3o, que ela vai na prociss\u00e3o! N\u00e3o ia, n\u00e3o foi. Ficou ali, no \u00faltimo banco. Quando reentr\u00e1vamos, ela l\u00e1 estava. <em>\u00abFiquei a rezar\u00bb<\/em>, disse-me ela, consolada, quando, no regresso, me inclinei sobre o seu rosto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na hora, s\u00f3 me consegui lembrar de Mois\u00e9s, j\u00e1 velho, engelhado e ro\u00eddo das artroses, rezando no cimo dum monte, com os bra\u00e7os levantados, enquanto Josu\u00e9 e os israelitas combatiam, c\u00e1 em baixo, os amalecitas. Josu\u00e9 me senti eu por uma noite, assumindo, que sim, enquanto corremos e labutamos existe uma indesistente igreja velhinha e cansada que reza por n\u00f3s, para que n\u00e3o cansemos nem desistamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Obrigado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>11.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem me conhece sabe que tenho uma ternura enorme por Simone Weil (1909-1943). Nascida judia em Paris, era, como a sua fam\u00edlia, agn\u00f3stica. Aos 15 anos obteve o bacharelato em filosofia e algures depois, mesmo fr\u00e1gil de sa\u00fade, fez-se oper\u00e1ria metal\u00fargica nas f\u00e1bricas da Renault. Por causa da condi\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria dos oper\u00e1rios tornou-se pugnaz sindicalista, para os defender. Era crist\u00e3, mesmo sem ser baptizada porque, dizia, <em>\u00absempre adoptei como \u00fanica atitude poss\u00edvel a atitude crist\u00e3. Por assim dizer, nasci, cresci e permaneci sempre na inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Claro que sabia que a minha concep\u00e7\u00e3o de vida era crist\u00e3. \u00c9 por isso que nunca me ocorreu que poderia entrar no cristianismo. Tinha a impress\u00e3o de ter nascido no seu interior\u00bb<\/em>. Tinha, em fun\u00e7\u00e3o dessa concep\u00e7\u00e3o, um certo pudor em entrar numa igreja, <em>\u00abapesar de me sentir bem l\u00e1 dentro\u00bb<\/em>. Por\u00e9m, era m\u00edstica \u00e0 altura e com a profundidade duma Santa Teresa ou dum S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz. Como mulher m\u00edstica encontrou-se v\u00e1rias vezes com o Crucificado, clave do seu conhecimento e porta da sua alegria interior que jamais a separou da massa dos desventurados; um desses encontros deu-se nas Caxinas, perto de Vila do Conde. A coisa passou-se assim: em setembro de 1935, Simone estava a passar f\u00e9rias em Viana do Castelo com seus pais. Os pais hospedaram-se no Hotel Santa Luzia, no monte que domina Viana. Por sua vez, Simone optou por uma modesta pens\u00e3o, em baixo, na cidade. Dando umas voltas pelas redondezas, no dia 15 de setembro desceu \u00e0s Caxinas, Vila do Conde, onde naquele dia, domingo, se celebrava a Senhora das Dores. Simone Weil tinha ent\u00e3o 26 anos e deixou-nos o relato do que viu naquela aldeia portuguesa; diz ela: <em>\u00abas mulheres dos pescadores faziam um percurso em redor dos barcos, em prociss\u00e3o, empunhando c\u00edrios e entoando c\u00e2nticos, decerto muito antigos, de uma tristeza dilacerante\u00bb.<\/em> [\u2026] <em>\u00abNunca tinha conhecido nada de t\u00e3o pungente, a n\u00e3o ser o canto dos barqueiros do Volga. A\u00ed tive, repentinamente, a certeza de que o cristianismo \u00e9, por excel\u00eancia, a religi\u00e3o dos escravos, que os escravos n\u00e3o podem sen\u00e3o aderir a ela, e eu entre eles\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sublinho aqui o que ela mais tarde repetir\u00e1: essa ades\u00e3o \u00e0 <em>\u00abreligi\u00e3o dos escravos\u00bb<\/em> \u2013 ou seria das vi\u00favas, infindas servas do amor? \u2013 \u00e0 qual tamb\u00e9m ela inteiramente se entregou, n\u00e3o fora jamais uma imposi\u00e7\u00e3o esmagadora que lhe aniquilasse a vontade, mas uma do\u00e7ura que lhe respeitou <em>\u00aba liberdade total e o direito de tudo negar\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre, enfim, me impressionou essa amorosa deposi\u00e7\u00e3o abissal de Simone, essa impress\u00e3o datada e t\u00e3o crua do catolicismo portugu\u00eas. Ora aconteceu que, no dia 12 de julho, no Carmo de Viana, celebr\u00e1mos a eucaristia da Novena pelas e com as gentes do mar, mormente por quantos, entre as Caxinas e Vila Praia de \u00c2ncora, o furibundo mar tragou. Vieram muitos pescadores, inteiras fam\u00edlias sorridentes e uma m\u00e3e vi\u00fava de dois filhos afundados numa traineira feita ata\u00fade ou ber\u00e7o final; caxineira toda ela, vive sepultada no luto vai para mais de vinte anos. Ao ver a infinda crueza do seu luto nas algas dos seus olhos de m\u00e3e, nas da sua alma, do seu cora\u00e7\u00e3o e das suas m\u00e3os pequeninas e desamparadas, a mim tamb\u00e9m me deu vontade de chorar. Aben\u00e7oei-a com um beijo de padre e de filho, porque percebi nela a insaci\u00e1vel servid\u00e3o de Simone Weil \u00e0 fidelidade do amor. E conclu\u00ed para mim: sinceramente n\u00e3o sei se algu\u00e9m tem direito a resgatar esta m\u00e3e do seu negro fundo luto; mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que numa pessoa s\u00f3, eu jamais vi um abismo t\u00e3o fundo e t\u00e3o negro de l\u00e1grimas desistentes, um sepulcro t\u00e3o intenso, como aquele naquela tarde do meu quinquag\u00e9simo oitavo anivers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>12.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No in\u00edcio da noite do dia 15 houve Prociss\u00e3o. Acendemos as velas no umbral do lusco-fusco e cant\u00e1mos cinquenta Ave Marias s\u00f3 no primeiro mist\u00e9rio, mais cinquenta nos outros quatro! Original, sem mal. A prociss\u00e3o foi trabalhosamente grande e todos gostaram que assim tenha sido: os do Carmo, os do Bairro do Jardim, os da Ribeira, os da Senhora de F\u00e1tima, o comando territorial da GNR. Todos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No fim houve copo d\u2019\u00e1gua. Cumprimentei conhecidos. Veio um casal e disse-me: <em>\u2013 \u00abh\u00e1 tanto tempo que n\u00e3o nos v\u00edamos! E olhe que eu n\u00e3o podia faltar \u00e0 prociss\u00e3o! Vim com a roupa de trabalho e tudo! Nem banho tomei!\u00bb.<\/em> S\u00f3 ent\u00e3o reparei que estava todo empoeirado; e eu que o julgava pintor, dei-me de caras com um oper\u00e1rio cheio de p\u00f3 de pedra e com botas de trabalho! Simone Weil teria gostado. Eu gostei! A M\u00e3e tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>13.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E no dia 16, dia da Padroeira, de joelhos, de p\u00e9 e a cantar a f\u00e9, o zelo e o servi\u00e7o, deslumbrados, eu vi tamb\u00e9m todos os <em>g\u00ean\u00eaerres<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gra\u00e7as tamb\u00e9m por isso, \u00f3 Bom Pai! \u00c1men.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD Convidaram-me os meus irm\u00e3os frades de Viana do Castelo a pregar a sua Novena do Carmo e eu aceitei. Com gosto. 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