{"id":4244,"date":"2025-06-30T02:36:00","date_gmt":"2025-06-30T02:36:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4244"},"modified":"2025-06-27T14:37:42","modified_gmt":"2025-06-27T14:37:42","slug":"jubileu-abertura-a-deus-libertador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/jubileu-abertura-a-deus-libertador\/","title":{"rendered":"Jubileu: abertura a Deus libertador"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Em clima de Ano Santo, o 27.\u00ba jubileu ordin\u00e1rio da hist\u00f3ria da Igreja proclamado para 2025, tem vindo a ser celebrado por grupos sociais, institucionais, religiosos ou diocesanos, com o apoio e a participa\u00e7\u00e3o dos Papas Francisco e Le\u00e3o XIV ou do respectivo bispo. Importa recuperar algumas linhas da sua espiritualidade, para a assumir e viver neste \u00abano da gra\u00e7a do Senhor\u00bb, renovando o compromisso com os valores da esperan\u00e7a, da paz, da reconcilia\u00e7\u00e3o e da solidariedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A longa pr\u00e1tica de celebrar um ano jubilar cada 25 anos s\u00f3 aconteceu na passagem do jubileu de 1450 para o jubileu de 1475. Em 1450 a Europa estava no Renascimento. Com a expans\u00e3o mar\u00edtima dos portugueses e dos espanh\u00f3is, o mundo alargou-se e ganhou outra dimens\u00e3o, que n\u00e3o tinha na Idade M\u00e9dia, quando se pensava que o mundo acabava na ponta ocidental da Europa, no cabo <em>Finis terrae<\/em>. Novos mundos eram noticiados. Grandes transforma\u00e7\u00f5es culturais, art\u00edsticas e cient\u00edficas aliavam-se a novas descobertas. A humanidade era mais apreciada. Havia motiva\u00e7\u00f5es que, na consci\u00eancia das pessoas, fizeram do jubileu de 1450 um acontecimento que marcava a transi\u00e7\u00e3o do mundo medieval para o mundo moderno. Foi um jubileu com grande aflu\u00eancia de gentes de toda a Europa a Roma: <em>cum jubilo<\/em> ligavam o sagrado e o profano, a espiritualidade e a <em>roma<\/em>ria, em que<em> rome<\/em>iros peregrinos conviviam e concelebravam com aut\u00f3ctones locais. O envolvimento das multid\u00f5es fazia do <em>jubileu<\/em> um convite ao <em>j\u00fabilo<\/em>. Fazia-se penit\u00eancia e celebrava-se a vida, interligando tamb\u00e9m a f\u00e9 e a arte.<\/p>\n\n\n\n<p>Se at\u00e9 \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do de 1450 o jubileu se conjugava mais com os \u201cautos\u201d, carnais no melhor sentido da palavra, e com os \u201cmist\u00e9rios\u201d\/representa\u00e7\u00f5es religiosas medievais, a partir da\u00ed a motiva\u00e7\u00e3o do jubileu j\u00e1 era espiritual: era a salva\u00e7\u00e3o da alma, contendo como elementos essenciais a procura e a concess\u00e3o da indulg\u00eancia, a peregrina\u00e7\u00e3o e a visita \u00e0s quatro bas\u00edlicas maiores de Roma.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas essa era uma motiva\u00e7\u00e3o distinta da original, que tinha inspirado o jubileu b\u00edblico (no livro do Lev\u00edtico 25). De facto l\u00e1 tinha profunda dimens\u00e3o humana e social, embora n\u00e3o esquecesse a espiritual. De l\u00e1 vem a palavra <em>jubileu<\/em>, pelo latim da Vulgata, <em>jubilaeu<\/em>, que traduzia o hebraico <em>yobel<\/em>, originariamente <em>chifre de carneiro<\/em>. Porque o <em>chifre de carneiro<\/em> era usado como trombeta para anunciar e iniciar o ano jubilar, <em>yobel<\/em> passou a designar tamb\u00e9m <em>jubileu, ano jubilar<\/em>, conotando ainda o som festivo de j\u00fabilo, difundido com o ressoar do <em>chifre de carneiro<\/em>. At\u00e9 \u00e9 poss\u00edvel que o substantivo <em>j\u00fabilo<\/em>, que vem do latim tardio <em>jubilu-<\/em>, provenha afinal de <em>jubilaeu-<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O jubileu b\u00edblico mandava que cada 50 anos se deveria fazer repousar a terra, n\u00e3o a cultivando, e se deveriam restituir em Israel os campos que tivessem sido arrendados ou vendidos desde o ano jubilar anterior; todas as propriedades, requeridas por causa de d\u00edvidas, deveriam ser devolvidas aos seus propriet\u00e1rios anteriores ou aos seus herdeiros. Os escravos deviam ser resgatados e libertados. Assim diz o texto fundamental que descreve a origem do <em>jubileu<\/em>: \u00abDeclarareis santo o ano cinquenta e proclamareis pelo pa\u00eds a liberta\u00e7\u00e3o para todos os seus habitantes. Ser\u00e1 para v\u00f3s um jubileu [<em>yobel<\/em>]: voltar\u00e1 cada um de v\u00f3s \u00e0 sua propriedade e cada um voltar\u00e1 \u00e0 sua fam\u00edlia. Este ano cinquenta ser\u00e1 para v\u00f3s ano jubilar [<em>yobel shenat<\/em>]: N\u00e3o semeareis, n\u00e3o colhereis do que cresce espontaneamente, nem vindimareis as vinhas que n\u00e3o foram podadas, porque \u00e9 um jubileu [<em>yobel<\/em>], que ser\u00e1 sagrado para v\u00f3s. Comereis do campo o que ele produzir\u2026 N\u00e3o vos prejudiqueis um ao outro\u2026 Ningu\u00e9m de v\u00f3s prejudique o seu pr\u00f3ximo\u2026 Eu sou o Senhor, vosso Deus\u00bb (Lv 25,1.8-17).<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se sabe se historicamente Israel celebrou alguma vez um ano jubilar, sem trabalho algum nos campos. Importante era a mensagem, um apelo \u00e0 grande oportunidade para melhorar o relacionamento com Deus, com as pessoas e com a natureza, implicando a remiss\u00e3o de d\u00edvidas. Por isso, os primeiros tradutores da B\u00edblia hebraica (para o grego, desde o s\u00e9c. III at\u00e9 ao s\u00e9c. I a.C.) traduziram o \u00abano do jubileu [<em>yobel<\/em>]\u00bb como \u00abano, s\u00edmbolo da liberta\u00e7\u00e3o\/perd\u00e3o\u00bb por excel\u00eancia. Era a grande liberta\u00e7\u00e3o, por motivos humanos e religiosos, um ano de liberdade, de festa, em que o povo se sentia voltar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o original de libertado por Deus (da escravid\u00e3o do Egipto). De facto, o jubileu aparecia como institui\u00e7\u00e3o divina, palavra de Deus a Mois\u00e9s para todo o povo: \u00abO Senhor disse a Mois\u00e9s no monte Sinai\u00bb (Lv 25,1). E significava que a vontade de Deus era a liberta\u00e7\u00e3o total e a fraternidade universal.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, no evangelho de Lucas, que quer apresentar a vida de Jesus como obra de liberta\u00e7\u00e3o universal para todos os que aderissem \u00e0 sua mensagem, na p\u00e1gina admir\u00e1vel que traz o seu discurso program\u00e1tico, colocado logo no in\u00edcio do seu minist\u00e9rio p\u00fablico (Lc 4,16-30), Jesus cita o profeta Isa\u00edas: \u00abO Esp\u00edrito do Senhor\u2026 enviou-me a proclamar aos prisioneiros a liberta\u00e7\u00e3o\u2026, a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano de gra\u00e7a do Senhor\u00bb. Citando assim as Escrituras, Jesus abria o sentido \u00faltimo delas. Via na passagem de Isa\u00edas a express\u00e3o do seu pr\u00f3prio projecto de vida humana, que dava corpo ao projecto de Deus. Uma vez que Jesus aparece como Filho de Deus, a liberta\u00e7\u00e3o sentida como promessa em Isa\u00edas irrompeu em Jesus como o <em>hoje<\/em> de Deus, fiel a si pr\u00f3prio e aos humanos. Portanto, este \u00abano favor\u00e1vel do Senhor\u00bb refere-se claramente ao <em>ano do jubileu<\/em> israelita e significa que Jesus em pessoa o realizou em pleno, com todas as actualiza\u00e7\u00f5es: actualizou-o e tornou-o mais eficaz. Sendo ele pr\u00f3prio a \u00abproclamar um ano de gra\u00e7a do Senhor\u00bb, sugeria que a sua miss\u00e3o era anunciar e comunicar efectivamente o perd\u00e3o de Deus a todos os povos, perd\u00e3o total e n\u00e3o s\u00f3 ao povo de Israel.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta plena remiss\u00e3o dos pecados por Jesus \u00e9 precisamente o que se deve ver como <em>indulg\u00eancia<\/em> plen\u00e1ria ou plena, a palavra e a realidade \u00e0 volta da qual girou a hist\u00f3ria dos jubileus at\u00e9 aos nossos dias. \u00c9 fundamental entender o seu alcance para compreender o significado do jubileu.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; [continuar\u00e1]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Em clima de Ano Santo, o 27.\u00ba jubileu ordin\u00e1rio da hist\u00f3ria da Igreja proclamado para 2025, tem vindo a ser celebrado por grupos sociais, institucionais, religiosos ou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4213,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4244","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4244","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4244"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4244\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4245,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4244\/revisions\/4245"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4213"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}