{"id":4241,"date":"2025-06-30T02:30:00","date_gmt":"2025-06-30T02:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4241"},"modified":"2025-06-27T14:33:02","modified_gmt":"2025-06-27T14:33:02","slug":"principio-de-aceleracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/principio-de-aceleracao\/","title":{"rendered":"Princ\u00edpio de acelera\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Frei Jo\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><strong>I.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong> Mais que os outros tr\u00eas juntos, o Evangelho de S\u00e3o Lucas coloca muitas vezes Jesus em ora\u00e7\u00e3o, de tal modo que alguns te\u00f3logos o intitulam de \u00abEvangelho da ora\u00e7\u00e3o\u00bb. De t\u00e3o intensa, a \u00edntima comunh\u00e3o de amor que Jesus vivia com o Pai manifesta-se no seu modo de orar de tal modo que, tocados e comovidos, os disc\u00edpulos h\u00e3o-de um dia pedir-Lhe que os ensine a rezar.<\/p>\n\n\n\n<p>Como deveria ser fascinante ver Jesus a rezar! Quem me dera\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Se o ver \u00e9 j\u00e1 aprender, quem me dera ter contemplado aquele silencioso e amoroso di\u00e1logo do olhar que, na for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, envolvia o Pai e o Filho, e se tornava delicada manifesta\u00e7\u00e3o de Deus Trindade. Essa comunh\u00e3o de amor \u00e9, pois, tamb\u00e9m hoje, o ambiente onde a nossa ora\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1rio se deve desenvolver.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong> O cap\u00edtulo nono de S\u00e3o Lucas situa Jesus algures na fase final da etapa da Galileia. At\u00e9 ali tinha Ele andado pelas cidades, vilas e aldeias da regi\u00e3o a cumprir o seu programa de levar a Boa Nova aos pobres, aos marginalizados, aos oprimidos. Acompanhavam-no alguns disc\u00edpulos, gente que se tinha encontrado com Ele, que tinha escutado o seu libertador an\u00fancio do Reino de Deus e que decidira embarcar nessa aventura. Jesus, por\u00e9m, n\u00e3o queria ficar-se apenas pela Galileia. Por isso, cumprida aquela etapa, o projeto deveria avan\u00e7ar para uma nova fase, pois Ele tinha a inten\u00e7\u00e3o de se dirigir a Jerusal\u00e9m e de ali enfrentar as autoridades judaicas. Era l\u00e1 que tudo se haveria decidir; era l\u00e1 que se consumaria o \u00eaxito ou o fracasso do Reino.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, antes, de se abalan\u00e7ar ao caminho, Jesus parou \u2013 conv\u00e9m muito ter isso em conta. Em certo dia, tendo os disc\u00edpulos por perto, Jesus parou e p\u00f4s-se a orar sozinho \u2013 tal \u00e9 como, neste domingo doze do tempo comum, somos informados quanto ao modo como d\u00e1 Ele in\u00edcio \u00e0 nova e definitiva etapa do Evangelho.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode quem me l\u00ea ir agora reler os vers\u00edculos dezoito a vinte e quatro daquele cap\u00edtulo de Lucas, e ficar\u00e1 informado do demais, isto \u00e9, do quanto disse o Senhor aos disc\u00edpulos, quer quando junto deles indagou sobre como o povo em geral O identificava, quer sobre o que eles pr\u00f3prios pensavam, quer ainda sobre a necessidade de estarem dispostos a viver as consequ\u00eancias dessa assun\u00e7\u00e3o. De facto, n\u00e3o \u00e9 suficiente saber que Jesus Cristo \u00e9 o Messias. \u00c9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio aceitar o modo como escolhera Ele realizar a sua miss\u00e3o messi\u00e2nica e salvadora \u2013 essa \u00e9 a sua pedra de toque, mas neste texto n\u00e3o iremos por a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>A ora\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria de Jesus \u00e9 o que me ocupar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>3. Foco-me, pois, na disposi\u00e7\u00e3o e no acto da ora\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de retomar o an\u00fancio do Evangelho, Jesus parou, Jesus rezou. E, acresce, Lucas, os disc\u00edpulos estavam por ali. Se \u00e9 certo que o Evangelista n\u00e3o diz nunca que os disc\u00edpulos rezaram com Jesus, tamb\u00e9m n\u00e3o diz que n\u00e3o rezaram ou que se distra\u00edram, dormiram ou jogaram \u00e0s cartas. E eu n\u00e3o afirmo uma coisa nem outra; afirmo o que afirma o Evangelista: estavam por ali, por perto de Jesus, enquanto Ele, Jesus, sim, rezava. Por\u00e9m, se de Jesus se diz que rezava e dos disc\u00edpulos n\u00e3o se afirma tal, provavelmente, eles n\u00e3o rezaram \u2013 e, no m\u00ednimo, nem rezaram com Jesus; \u00e9 o que me parece. E como o processo de ades\u00e3o a Jesus \u00e9 mesmo um processo, isto \u00e9, sup\u00f5e um andamento, uma grada\u00e7\u00e3o, uma evolu\u00e7\u00e3o \u2013 tamb\u00e9m na ora\u00e7\u00e3o \u2013, ent\u00e3o, parece-me, eles est\u00e3o ainda muito incipientes; pelo que n\u00e3o rezaram, que ainda lhes falta muito tempo para que, encantados e maravilhados com o modo de Jesus rezar, eles Lhe pe\u00e7am: <em>\u00abMestre, ensina-nos a rezar\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Retomemos o in\u00edcio do Evangelho de hoje; diz-se-nos ali: <em>\u00abJesus orava sozinho\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem com certeza v\u00e1rios modos de rezar, pelo menos, a s\u00f3s, e tamb\u00e9m, em grupo ou comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos pela ora\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria de Jesus e, penso eu, compreenderemos porque dela, naquela hora, n\u00e3o partilharam os disc\u00edpulos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, estou certo, dela n\u00e3o participaram, porque Ele n\u00e3o quis nem os chamou. Sim, existe um modo solit\u00e1rio de rezar, um modo que Jesus praticou, promoveu, ensinou e ainda hoje somos convidados a praticar e a ensinar a rezar. E, em segundo lugar, dela n\u00e3o participaram porque se mormente a ora\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria f\u00f4r um di\u00e1logo amig\u00e1vel entre cada um de n\u00f3s e o Pai \u2013 e sim, a ora\u00e7\u00e3o solit\u00e1ria \u00e9-o \u2013, ent\u00e3o, \u00e9 compreens\u00edvel que ningu\u00e9m mais nela se deva intrometer, nem mediar, nem pontificar: nem o marido, nem os filhos, nem o padre nem o professor, nem o m\u00e9dico nem o psiquiatra, nem o patr\u00e3o nem os outros membros do grupo de ora\u00e7\u00e3o; nem o presidente nem o amigo mais amigo, nem os disc\u00edpulos nem a M\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que ningu\u00e9m se intrometesse entre Ele e o Pai, Jesus apartou-se naquele dia tal como se apartava frequentemente dos disc\u00edpulos para orar (mas tamb\u00e9m orava com eles em grupo, aten\u00e7\u00e3o!), porque o que, naquela hora, tinha Ele para conversar com o Pai era diferente do que qualquer um deles e de n\u00f3s tinha e temos para lhe dizer \u2013 era pessoal; porque Ele \u00e9 Filho e eu criatura; Ele o Salvador e eu nem a pegoreiro vou; porque o que Ele haveria de dizer eram palavras santas e puras, e as minhas s\u00e3o cheias de bolor, lodo e barro.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, ainda faltava tempo para os disc\u00edpulos aderirem radicalmente a Jesus; para assumirem e darem corpo ao Seu projecto. Ora, se isso sucedia, como haveriam eles de aprender a rezar-dialogar com o Pai se ainda n\u00e3o estavam inteiramente sintonizados com o cora\u00e7\u00e3o do Mestre? Se ainda n\u00e3o sabiam querer O que Ele queria? Se n\u00e3o sabiam caminhar pelos mesmos caminhos que o Pai inspirava a Jesus? Do que iriam falar a s\u00f3s com o Pai: dos rebanhos? Das redes vazias? Dos rendimentos em perda? \u2013 Que sim, poderiam falar disso, mas o Pai tinha um sonho e o sonho era o Reino; mas por Reino ainda eles entendiam uma coisa diferente da do Pai!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Enfim, como naquela hora em que Jesus rezou solitariamente estava dif\u00edcil para Eles falarem com o Pai, ao jeito solit\u00e1rio de Jesus! \u2013.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.<\/strong> Eis, pois, que em mais um momento decisivo da sua vida, Jesus se p\u00f4s a rezar solitariamente. S\u00e3o Jo\u00e3o conta-nos que quando Jesus os informou sobre o fito daquela subida a Jerusal\u00e9m (no fim da evangeliza\u00e7\u00e3o da Galileia), Tom\u00e9 respondeu: \u2013 <em>Vamos at\u00e9 l\u00e1 tamb\u00e9m, para morrermos com Jesus<\/em>. Enfim, n\u00e3o sabia o que dizia; mas aquela sua resposta indica-nos que tinham sido bem informados do que l\u00e1 iam fazer, do que l\u00e1 se haveria de passar. Ou seja, indica-nos que, em primeiro lugar, a ora\u00e7\u00e3o em solit\u00e1rio de Jesus dera frutos, fora esclarecedora, jamais se enquadrara num perder tempo, pelo contr\u00e1rio, mostrara-se princ\u00edpio de r\u00e1pida acelera\u00e7\u00e3o pelo caminho fora; isto \u00e9, dentro em breve, estariam mesmo em r\u00e1pida ascens\u00e3o a Jerusal\u00e9m. Em breve se achegariam \u00e0 P\u00e1scoa, \u00e0 Ascens\u00e3o, ao Pentecostes. Sim, digo bem quando digo <em>dentro em breve<\/em> porque, na verdade, a ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o serve para entorpecer nem para alienar nem para adiar, n\u00e3o serve para adormecer ou para evadir, mas para decidir, configurar e avan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois daquela ora\u00e7\u00e3o em solit\u00e1rio, refor\u00e7ado nas suas inten\u00e7\u00f5es e uni\u00e3o ao Pai, Jesus quase voou para Jerusal\u00e9m (e os disc\u00edpulos com Ele)! Porque a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 decisivo princ\u00edpio de acelera\u00e7\u00e3o para a miss\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-medium-font-size\"><strong>II<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>6. <\/strong>Rezava Jesus em comunidade no Templo, nas casas, nas sinagogas. E sozinho frente ao mar, nos desertos, nas bordas das montanhas, reclu\u00eddo entre o arvoredo. Situando-o orando numa bela ladeira, vejo-O desde outra; e, desde a minha tenho tamb\u00e9m diante do olhar aquele grupo de disc\u00edpulos andados ainda bem longe do Pentecostes, muito distantes de alcan\u00e7arem rezar na for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo. Acres\u00e7o, por isso, uns par\u00e1grafos sobre como abrir-se e favorecer a ora\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7.<\/strong> Nunca Deus se envergonha dos nossos limites humanos. Nem mesmo quando rezamos. Deus \u00e9 pai e n\u00e3o desdenha dos filhos. N\u00e3o se ri se somos gagos, nem se espanta se n\u00e3o somos capazes de articular sons intelig\u00edveis, porque a m\u00fasica que Ele mais ouve \u00e9 o nosso calado cora\u00e7\u00e3o. Que importa se Lhe rezamos irrazoavelmente ou gagejando \u2013 Ele entende-nos. Se lhe rezamos com sono, tamb\u00e9m. Se aflitos, idem. Se como beb\u00e9s, Ele percebe o nosso beicinho e doce olhar. E se na velhice as sombras nos toldam a raz\u00e3o, a Sua luz alumia os dois \u00fanicos neur\u00f3nios decentes que ainda nos restem e <em>v\u00ea<\/em> o que nem sequer entendemos querer dizer-Lhe.<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhum pai ousaria deitar um filho a um rio. Nem o Pai nosso nos condena ao fogo; muito menos se n\u00e3o soubermos rezar. Ah, e podemos ser grandes pecadores, sim. Empedernidos, at\u00e9. Se Lhe rezamos, Ele aceita. N\u00e3o digo que goste, digo que Ele preferiria que em tudo nos parec\u00eassemos a Jesus, mas se n\u00e3o, paciente, Ele aguarda-nos, fica \u00e0 coca, esperando que num imprevisto, numa volta de mar, num percal\u00e7o ou num baixar das defesas, permitamos que Ele nos enterne\u00e7a e seduza o cora\u00e7\u00e3o. E ent\u00e3o toca-nos levemente \u00e0 porta e, se, lha abrirmos por dentro, Ele entra para rezar connosco.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8.<\/strong> Para que bem rezemos, importa, sobretudo, que nos conhe\u00e7amos bem, n\u00e3o suceda que nos julguemos girafa sem que passemos de reles pulga. Que creiamos ultrapassar as nuvens e tocar a lua, quando apenas somos pequenino bichinho-de-conta, que ao m\u00ednimo ru\u00eddo se encolhe e se esconde. Importa muito que saibamos que n\u00e3o somos nem Le\u00e3o nem Cordeiro. Talvez apenas lagartixa ou, quem sabe, algo mais simp\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso sim, o que importa \u00e9 que, para rezarmos, nos conhe\u00e7amos bem. Que de frente enfrentemos e assumamos as nossas torpezas e tor\u00e7\u00f5es, engelhas e papos nos olhos da alma. Para isso n\u00e3o h\u00e1 como ser-se humilde, realista. Repara: se vais pedir uma esmola a um rico n\u00e3o julgues que \u00e9s recebido de igual maneira, se diante dele te apresentas mais bem vestido que ele ou se de roupa de cote! Olha que quem te ouve percebe se em falsete lhe falas f\u00e1bulas ou se h\u00e1 fome de sal e sede de azeite no timbre da tua l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre isto Santa Teresa de Jesus tem palavra autorizada. Come\u00e7ando a falar sobre ora\u00e7\u00e3o, diz ela no Livro da Vida, ser imposs\u00edvel rezar sem humildade: <em>\u00abcomo este edif\u00edcio,<\/em> [da ora\u00e7\u00e3o] <em>tem a sua funda\u00e7\u00e3o na humildade, quanto mais pr\u00f3ximos de Deus estivermos, tanto maior dever\u00e1 ser esta virtude, pois, se assim n\u00e3o for, tudo perderemos\u00bb <\/em>(12:4). Por n\u00e3o sermos realistas, mas fantasiosos, digo eu. De facto, quanto mais nos aproximarmos da luz, mais em n\u00f3s se v\u00ea qual seja o nosso quarto e quais as teias-de aranha, o desalinho e o p\u00f3 que o habitam.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a necessidade do vero autoconhecimento em vista \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, Santa Teresa \u00e9 severa e assevera-nos nas Primeiras Moradas: <em>\u00aba quest\u00e3o de nos conhecermos \u00e9 t\u00e3o importante que eu gostaria que n\u00e3o houvesse nisso nenhuma neglig\u00eancia, por mais elevadas que estejais nos c\u00e9us. Enquanto estamos nesta terra, n\u00e3o h\u00e1 coisa que mais nos importe do que a humildade. E assim volto a dizer que \u00e9 muito bom, extremamente bom, entrar primeiro no aposento do conhecimento pr\u00f3prio antes de voar aos outros, porque esse \u00e9 o caminho. Se podemos ir pelo seguro e plano, para que haveremos de querer asas para voar? Devemos, pelo contr\u00e1rio, aprofundar-nos mais no conhecimento de n\u00f3s mesmas\u00bb<\/em> (2:9). N\u00e3o podia a Mestra, est\u00e1 bom de ver, ser mais assaz prudente e verdadeira. De facto, rezar n\u00e3o \u00e9 assunto delicodoce, que ocorra aquando de ventos favor\u00e1veis, antes obriga a que se evite toda a neglig\u00eancia sem jamais se mermar na humildade.<\/p>\n\n\n\n<p>Jamais sobre n\u00f3s sejamos cegos ou tacanhos no teste do algod\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>9.<\/strong> Orar \u00e9 como treinar; melhor, orar implica muito treinar \u2013 n\u00e3o digo <em>malhar<\/em>, digo treinar, mas treinar fazendo, rezando. N\u00e3o nego que tamb\u00e9m exige esfor\u00e7o, disciplina. \u2013 Perdoem-me se parece que endoido, mas n\u00e3o me sai da ideia que um ensaio geral, por vezes, <em>sai melhor<\/em> que a sess\u00e3o p\u00fablica. \u2013 Treinar, treinar \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o. E se o \u00e9 para os mergulhadores e os corredores de fundo, enfim, para os atletas e os artistas, tamb\u00e9m o \u00e9 para os orantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Pegando na met\u00e1fora teresiana direi que ningu\u00e9m se faz amigo sem que se cruze diante do olhar desse Amigo que (nos) olha \u2013 de facto, nunca me fiz amigo de nenhum bosqu\u00edmano!<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o entendo de ora\u00e7\u00e3o nem ouso ensinar algu\u00e9m a rezar; j\u00e1, por\u00e9m, oro para entend\u00ea-la, e entendendo-a, ore melhor. \u2013 O princ\u00edpio \u00e9, penso, de Santo Agostinho; e quer dizer isto mesmo: a Deus entende-se na capela, diante da luzinha tremeluzente do sacr\u00e1rio, n\u00e3o no escrit\u00f3rio, diante do \u00e9cran do computador que nos abre para o poderosamente inef\u00e1vel mundo da IA. Tudo nos abre para os mist\u00e9rios de Deus se formos pela via da f\u00e9; \u00e9 pela f\u00e9, n\u00e3o pela for\u00e7a, nem pela vontade nem pela intelig\u00eancia \u2013 mas pela sua deposi\u00e7\u00e3o \u2013 que nos aproximamos do sacr\u00e1rio do mist\u00e9rio. S\u00f3 a ora\u00e7\u00e3o humilde, constante e confiada convence a Deus a abrir-nos esse sacr\u00e1rio cujos ignotos mares foram preparados para extasiar as almas que porfiam sob as tempestades. E se me perguntarem a mim, pobre pecador, como isso \u00e9, como isso se faz e se entende, apenas direi que n\u00e3o sei, que n\u00e3o entendo, que oro para entender e entendo para orar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>10.<\/strong> E para concluir, fa\u00e7amo-lo ouvindo palavras dum mestre que sabia centrar no essencial a quantos com ele caminhavam pelo caminho da perfei\u00e7\u00e3o. Os excertos que seguem resumem o quanto atr\u00e1s fica dito: <em>i)<\/em> n\u00e3o basta rezar, \u00e9 necess\u00e1rio permanecer, continuamente, noite e dia, na ora\u00e7\u00e3o; <em>ii)<\/em> na ora\u00e7\u00e3o tanto mais alegria achamos, quanto mais tudo nela se oferece com gosto ao Amado; <em>iii)<\/em> e por \u00faltimo: a for\u00e7a da prece que elevamos ao C\u00e9u apenas est\u00e1 em dar gosto a Deus que gosta de dar; e quanto mais damos, mais gostamos de Lhe dar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ensinando sobre ora\u00e7\u00e3o, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz insistia muito em que por raz\u00e3o ou justifica\u00e7\u00e3o alguma, mesmo se santa, ela fosse abandonada; insistia:<em> \u00abprocure, pois, ser cont\u00ednuo na ora\u00e7\u00e3o e no meio dos exerc\u00edcios exteriores n\u00e3o a deixe. Quer coma, quer beba, quer trate com os de fora, quer fa\u00e7a qualquer outra coisa, ande sempre desejando a Deus, pondo n\u2019Ele o afeto do seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb<\/em> (Conselhos a um Religioso, 9), <em>\u00abporque o verdadeiro amante s\u00f3 est\u00e1 contente quando tudo o que ele \u00e9, vale, tem e recebe, o emprega no Amado, e quanto mais \u00e9 tudo isso, tanto mais gosto tem em lho dar\u00bb <\/em>(Chama de Amor Viva III, 1); e, perspicaz e s\u00e1bio, conclu\u00eda, resumindo: <em>\u00abpara alcan\u00e7ar as peti\u00e7\u00f5es que temos no nosso cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 melhor meio do que p\u00f4r a for\u00e7a da nossa ora\u00e7\u00e3o naquilo que \u00e9 mais do gosto de Deus; porque ent\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 nos dar\u00e1 o que Lhe pedimos, que \u00e9 a salva\u00e7\u00e3o, como ainda aquilo que v\u00ea que nos conv\u00e9m e nos \u00e9 bom, embora n\u00e3o Lho pe\u00e7amos\u00bb<\/em> (III Subida 44:1-2).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>11.<\/strong> AVISO: O autor destas linhas n\u00e3o \u00e9 s\u00e1bio nem \u00e9 santo. Escreve como escreve: sem acerto e, \u00e0s vezes, sem conserto. E se cita s\u00e1bios e santos \u00e9 s\u00f3 porque os copiou em algum lugar, jamais porque seja bom a imit\u00e1-los como eles imitaram a Cristo. Avisado que \u00e9, o leitor saber\u00e1 ler, previamente, este aviso e dispensar\u00e1 a leitura de tudo o mais. Obrigado.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o I. 1. 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