{"id":4197,"date":"2025-05-31T02:55:00","date_gmt":"2025-05-31T02:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4197"},"modified":"2025-05-28T11:26:18","modified_gmt":"2025-05-28T11:26:18","slug":"ressurreicao-de-jesus-para-alem-da-linguagem-ainda-em-tempo-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/ressurreicao-de-jesus-para-alem-da-linguagem-ainda-em-tempo-pascal\/","title":{"rendered":"Ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus: para al\u00e9m da linguagem (ainda em tempo pascal)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p>Falando da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, enquanto pessoas com forma\u00e7\u00e3o e mentalidade tendencialmente racional (no bom sentido: as que v\u00eam das Ci\u00eancias, da Filosofia, da Biologia, da Gen\u00e9tica ou da Engenharia\u2026) gostariam de ver factos objectivos, fotograf\u00e1veis, as mulheres que foram de madrugada ao sepulcro dele eram convidadas a ver o Invis\u00edvel, o Ausente. A aus\u00eancia, neste caso, era o cora\u00e7\u00e3o e a verdade do Ser existente: era \u2018o mais al\u00e9m do ser\u2019, a transcend\u00eancia divina que se impunha \u00e0 iman\u00eancia humana. Era a verdade do Jesus imediatamente ausente que se fazia mediatamente presente aos que o contemplavam mi<em>s<\/em>ticamente e se impunha como na vis\u00e3o a olhos nus. Tal experi\u00eancia m\u00edstica de Jesus ressuscitado era a tomada de consci\u00eancia do resplendor Espiritual da sua pessoa\/corpo; iluminava a sua vida inteira a partir da morte na cruz do amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, comunicar verbalmente essa percep\u00e7\u00e3o m\u00edstica era como configurar o invis\u00edvel, o n\u00e3o tang\u00edvel. Era como pintar um \u00edcone que aspira a representar o que n\u00e3o \u00e9 f\u00edsico, a dar forma visual \u00e0s coisas do esp\u00edrito, a dar imagem ao divino. Tarefa nada f\u00e1cil. Ent\u00e3o os escritores do Novo Testamento, no limite da comunica\u00e7\u00e3o, adoptaram a arte liter\u00e1ria metaf\u00f3rica, que conta com a aspira\u00e7\u00e3o dos humanos leitores ao transcendente\u2026; arte representativa que tamb\u00e9m conta com a pot\u00eancia conotativa da met\u00e1fora mais usada para exprimir a <em>ressurrei\u00e7\u00e3o<\/em> de Jesus, com o verbo grego (<em>ege\u00edro<\/em>) nos seus dois sentidos: o acto de <em>levantar-se<\/em> ou <em>elevar-se<\/em> da posi\u00e7\u00e3o de deitado no sepulcro e o acto de <em>acordar<\/em> do sono da morte. Esta met\u00e1fora da ressurrei\u00e7\u00e3o sugere o sentido mais elevado, deixando o leitor enlevado no sentido que apontou: n\u00e3o fiquem a olhar para a letra do relato, olhem para o sentido dele. Opera uma transfer\u00eancia de sentido, com palavras que ent\u00e3o n\u00e3o se regem pela l\u00f3gica da linguagem da hist\u00f3ria factual mas pertencem a um dom\u00ednio superior, fazendo ver Jesus a uma luz nova e permitindo contempl\u00e1-lo com tra\u00e7os que ficam escondidos \u00e0 linguagem da simples hist\u00f3ria factual. A leveza da met\u00e1fora \u2018dizia\u2019 o que os historiadores n\u00e3o conseguiriam mostrar. \u00c9 a linguagem da f\u00e9, n\u00e3o a linguagem de fazer hist\u00f3ria, porque a ressurrei\u00e7\u00e3o, de Jesus e das pessoas, exige sempre um acto de f\u00e9: sem f\u00e9, ficaria privada de fundamento e do conte\u00fado escondido debaixo das palavras ou dos s\u00edmbolos que a confessam. A historiografia at\u00e9 pode ser cientificamente bem feita. Mas, n\u00e3o apanhando o sentido interior e profundo dos factos por meio da introspec\u00e7\u00e3o, \u00e9 in\u00f3cua, incapaz de inaugurar algo novo, no pensamento e na exist\u00eancia. Ao inv\u00e9s, a linguagem metaf\u00f3rica, que gera o real superior, transforma realmente, remete a contempla\u00e7\u00e3o <em>m\u00edst<\/em>ica para o <em>mist<\/em>\u00e9rio do Jesus vivo na gl\u00f3ria de Deus e para a sua divindade; e gera ades\u00e3o \u00e0 sua pessoa e \u00e0 sua salva\u00e7\u00e3o como amor dado. Procura comunicar de alguma maneira o que os disc\u00edpulos beneficiados pela experi\u00eancia m\u00edstica de Jesus Ressuscitado viam claramente, inquestionavelmente, incontestavelmente.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o admira, pois, que o testemunho das mulheres madrugadoras, que anunciavam que Jesus estava vivo, tenha ocasionado reparos nos ap\u00f3stolos e nos disc\u00edpulos (\u00abalgumas mulheres de entre n\u00f3s deixaram-nos sobressaltados\u2026: ao n\u00e3o encontrarem o seu corpo, vieram dizer que tinham&nbsp; tido a vis\u00e3o de uns anjos que diziam que ele estava vivo\u2026; mas a ele n\u00e3o o viram\u00bb: Lc 24,22-24). Nem admira que os disc\u00edpulos, depois da sua vis\u00e3o m\u00edstica, fossem inicialmente olhados com desconfian\u00e7a ou at\u00e9 com desd\u00e9m pelos que queriam ver objectivamente (como o ap\u00f3stolo Tom\u00e9) ou por respeit\u00e1veis mestres da academia de hoje. Os grandes literatos e os g\u00e9nios da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica religiosa (mas tamb\u00e9m os videntes de F\u00e1tima e outros) tamb\u00e9m foram submetidos a provas de verifica\u00e7\u00e3o an\u00e1logas. E os que entendem a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e0 letra, como reanima\u00e7\u00e3o ou revivifica\u00e7\u00e3o do corpo material, ter\u00e3o dificuldade em acreditar nela ou em explic\u00e1-la; e, se pensam \u00e0 letra que o sepulcro estava fisicamente vazio, ent\u00e3o logicamente ter\u00e3o de se perguntar para onde foi o cad\u00e1ver do Jesus f\u00edsico! Tudo indica, pois, que temos de compreender como imag\u00e9tica a linguagem do Novo Testamento sobre a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus. H\u00e1 alternativa a esta compreens\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>O recurso a esta linguagem figurada por parte dos autores b\u00edblicos atesta bem as dificuldades e as limita\u00e7\u00f5es da linguagem humana e da nossa capacidade de visualiza\u00e7\u00e3o para falar de Deus. Mas esta interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o p\u00f5e em d\u00favida a f\u00e9 em Jesus ressuscitado. Torna razo\u00e1vel a afirma\u00e7\u00e3o da f\u00e9, conjugando-a com a raz\u00e3o, e convida o crente a ultrapassar o vest\u00edbulo do edif\u00edcio da f\u00e9, como convida o n\u00e3o-crente a abrir as pregas do manto da linguagem. O desejo de ver em carne e osso, na veste da vida nova, o grande <em>influenciador<\/em> que tinha sido Jesus exerceu sempre e continuar\u00e1 a exercer um grande poder sobre o cora\u00e7\u00e3o humano; como se essa desejada vis\u00e3o, f\u00edsica, fizesse voltar as pessoas ao glorioso tempo original em que multid\u00f5es viam e podiam tocar Jesus! Mas esquecem que, mesmo ent\u00e3o, seria precisa a f\u00e9, que faltou a muitos dos que o viam e tocavam e que, por isso, o crucificaram. Ingenuidade genial: de Jesus viram tudo sem se aperceberem de nada, do mist\u00e9rio que ele era. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus e a esperan\u00e7a daqueles que cr\u00eaem que ele \u201cos ressuscitar\u00e1 no \u00faltimo dia\u201d (Jo 6,40.44.54) escapam \u00e0 visualiza\u00e7\u00e3o f\u00edsica e \u00e0 possibilidade de formar uma imagem sobre elas; bem mais importante \u00e9 que elas abram a pessoa para al\u00e9m de si mesma e gerem o definitivo, numa esp\u00e9cie de salto qualitativo que entreabre uma nova dimens\u00e3o de ser humano. A P\u00e1scoa pode retirar-nos de zonas sombrias da nossa exist\u00eancia pessoal ou comunit\u00e1ria em que poderemos querer refugiar-nos. Um bom presente de P\u00e1scoa \u00e9 a esperan\u00e7a libertadora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Falando da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, enquanto pessoas com forma\u00e7\u00e3o e mentalidade tendencialmente racional (no bom sentido: as que v\u00eam das Ci\u00eancias, da Filosofia, da Biologia, da Gen\u00e9tica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4185,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4197","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4197","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4197"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4197\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4198,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4197\/revisions\/4198"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4185"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}