{"id":4159,"date":"2025-04-30T08:32:35","date_gmt":"2025-04-30T08:32:35","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4159"},"modified":"2025-04-30T08:32:38","modified_gmt":"2025-04-30T08:32:38","slug":"a-linguagem-sobre-a-ressurreicao-de-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-linguagem-sobre-a-ressurreicao-de-jesus\/","title":{"rendered":"A linguagem sobre a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ao quererem comunicarliterariamente a experi\u00eancia m\u00edstica que tiveram de Jesus ressuscitado na vida real, os disc\u00edpulos traduziram-na em relatos de apari\u00e7\u00e3o dele. Contam que <em>apareceu<\/em> ou se fez ver nas variadas circunst\u00e2ncias da vida quotidiana: a caminho com eles, no trabalho da pesca, a falar, a comer peixe assado, a tocar o corpo, em casa, em reuni\u00e3o, fora de casa, no monte, afastando-se do sepulcro\u2026 Contam que o morrer de Jesus foi superado e transcendido pela vida nova do Esp\u00edrito de Deus. Os relatos, que subentendem novas formas de perceber, de ver e de ouvir o mundo, queriam suscitar comportamentos que inspirassem aos leitores uma percep\u00e7\u00e3o ou perspectiva\u00e7\u00e3o nova desse mundo, um olhar diferente, uma vis\u00e3o pascal da vida, em que as pessoas descobrem o sentido mais profundo das suas inter-rela\u00e7\u00f5es e dos acontecimentos. A\u00ed, a quest\u00e3o \u201cque sucedeu realmente?\u201d torna-se irrelevante, porque deixa de lado o que \u00e9 verdadeiramente importante: que os disc\u00edpulos demoraram a descobrir o sentido da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus por meio da medita\u00e7\u00e3o ao longo de uma vida, j\u00e1 que os relatos evang\u00e9licos do encontro com o Ressuscitado foram escritos uns 50 anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os disc\u00edpulos darem a entender essa experi\u00eancia, seria impens\u00e1vel referirem-se a Jesus ressuscitado sem corpo. A sua <em>pessoa<\/em> s\u00f3 podia ser identificada com o seu <em>corpo<\/em>. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o pensavam num corpo f\u00edsico de carne e osso (como uma leitura dos relatos \u00e0 letra poderia supor). Pensavam num \u201ccorpo <em>glorioso<\/em>\u201d (Fl 3,21), isto \u00e9, que dava <em>gl\u00f3ria<\/em> \u00e0 pessoa (o hebreu usava a palavra <em>corpo<\/em> para dizer <em>pessoa<\/em>): era um corpo que fazia resplandecer e projectava para o exterior o mist\u00e9rio que Jesus era no seu interior. O Jesus ressuscitado era um \u201ccorpo espiritual [<em>pneumatik\u00f3n<\/em>]\u201d (1Cor 15,44), isto \u00e9, plenamente vivificado pelo <em>Esp\u00edrito<\/em> recriador de Deus: j\u00e1 s\u00f3 pertencia \u00e0 esfera divina, depois de ter assumido a humana. Os relatos tinham a fun\u00e7\u00e3o de sugerir o super-real: que o Cristo vivo de que tinham tido experi\u00eancia m\u00edstica\/Espiritual era o mesmo que o Jesus crucificado. Por exemplo, o relato que p\u00f5e Jesus a apontar a Tom\u00e9 o sinal da crucifix\u00e3o (\u201cv\u00ea as minhas m\u00e3os, traz a tua m\u00e3o e mete-a no meu lado\u201d: Jo 20,27) quer significar que ele n\u00e3o era um fantasma gasoso mas era o mesmo que o Jesus hist\u00f3rico que eles conheceram e que continuava presente na hist\u00f3ria deles; continuava a interagir com o mundo humano, a marcar a hist\u00f3ria humana e a ter efeitos nela. O de Jesus a comer peixe dado pelos disc\u00edpulos (Lc 24,41-42) quer sublinhar a realidade <em>corp\u00f3rea<\/em> do Ressuscitado, para que fosse compreendido como <em>pessoa<\/em> e n\u00e3o como fantasma. Os relatos de apari\u00e7\u00e3o do Ressuscitado significavam que ele se podia encontrar com eles de forma real, embora invis\u00edvel, super-real. Significavam que ele n\u00e3o estava fora da vida deles: era parte dela e vivificava-a por dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, os relatos de apari\u00e7\u00e3o do Ressuscitado n\u00e3o surgiram de uma experi\u00eancia psicol\u00f3gica, on\u00edrica ou m\u00e1gica, de uma vis\u00e3o fantasmag\u00f3rica ou quim\u00e9rica dos seus disc\u00edpulos. Nasceram da percep\u00e7\u00e3o super-real de Jesus vivo, que de sua iniciativa se imp\u00f4s a eles, num encontro pessoal e gratuito. \u00c9 importante sublinh\u00e1-lo, para que as gera\u00e7\u00f5es mais novas n\u00e3o imaginem as apari\u00e7\u00f5es do Ressuscitado dos evangelhos \u00e0 maneira das maravilhas operadas por Harry Potter a atravessar uma parede ou a fazer as magias que o autor lhe atribui. Estas nascem de uma fantasia prodigiosa. Os relatos de apari\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo nascem de uma experi\u00eancia viva (por isso, podem contar o que seria absurdo noutro contexto e noutro g\u00e9nero liter\u00e1rio: os de Ema\u00fas no princ\u00edpio caminham com ele e n\u00e3o o reconhecem, vindo a reconhec\u00ea-lo ao fazerem experi\u00eancia dele alertados pelas Escrituras). S\u00e3o a l\u00f3gica consequ\u00eancia da percep\u00e7\u00e3o espiritual que a f\u00e9 pascal teve e da experi\u00eancia m\u00edstica que os disc\u00edpulos tiveram, sentindo que Jesus estava presente e operante nas suas vidas, a anim\u00e1-las e a gui\u00e1-las (como se conta no livro dos Actos dos Ap\u00f3stolos). Nomeadamente os relatos do sepulcro vazio, ao mesmo tempo que queriam confirmar a abalada f\u00e9 dos disc\u00edpulos, s\u00e3o um <em>s\u00edmbolo<\/em> que, enquanto tal, aponta para uma realidade transcendente. Queria significar que seria errado procurar Jesus no mundo dos mortos, como seria imposs\u00edvel sepultar a Verdade numa tumba; que ele tinha morrido, sim, mas n\u00e3o era um morto, nem pertencia ao mundo dos mortos, nem ficava no lugar dos mortos; estava vivo em Deus. A vida venceu a morte: \u00abPor que procurais entre os mortos aquele que est\u00e1 vivo? N\u00e3o est\u00e1 aqui. Ressuscitou! <em>Recordai<\/em>-vos de como vos falou\u2026 <em>Recordaram<\/em>-se ent\u00e3o das suas palavras\u00bb (Lc 24,5-6). Dele, o que restava agora era sil\u00eancio activo! S\u00f3 podia ser escutado em sil\u00eancio, procurado na f\u00e9 e visto com os olhos fechados como urg\u00eancia que empenhava toda uma vida.<\/p>\n\n\n\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus p\u00f5e ao vivo a quest\u00e3o sobre a transforma\u00e7\u00e3o da carne de uma pessoa. \u00c9 a contesta\u00e7\u00e3o definitiva da morte, a confiss\u00e3o impl\u00edcita de que a morte n\u00e3o reina sobre a vida pessoal. Quem reina \u00e9 Deus e os que vivem por Ele e n\u2019Ele. T\u00e3o grande verdade n\u00e3o se exprime no Novo Testamento com a linguagem abstracta. Diz-se em s\u00edmbolos, gestos, narra\u00e7\u00f5es e na profiss\u00e3o de Paulo: \u00abOnde est\u00e1, \u00f3 morte, a tua vit\u00f3ria?&#8230; Gra\u00e7as a Deus que nos d\u00e1 a vit\u00f3ria por meio de nosso Senhor, Jesus Cristo\u00bb (1Cor 15,55.57). A ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um manifesto contra a morte (a morte n\u00e3o se combate). \u00c9 a vida do Esp\u00edrito dada por Deus que subverte as evid\u00eancias procurando esvaziar o conceito de morte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Ao quererem comunicarliterariamente a experi\u00eancia m\u00edstica que tiveram de Jesus ressuscitado na vida real, os disc\u00edpulos traduziram-na em relatos de apari\u00e7\u00e3o dele. 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