{"id":4117,"date":"2025-03-31T02:21:00","date_gmt":"2025-03-31T02:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4117"},"modified":"2025-03-27T13:50:37","modified_gmt":"2025-03-27T13:50:37","slug":"a-experiencia-da-ressurreicao-de-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-experiencia-da-ressurreicao-de-jesus\/","title":{"rendered":"A experi\u00eancia da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00abA ess\u00eancia do cristianismo \u00e9 a contempla\u00e7\u00e3o do rosto do Deus crucificado\u00bb \u2013 disse o Cardeal Carlo Maria Martini. Na \u00abpalavra da cruz\u00bb (1Cor 1,18), isto \u00e9, no excesso do amor, procura e revela\u00e7\u00e3o de Deus acontecem simultaneamente, na morte do Filho, livre e volunt\u00e1ria: \u00abO Filho de Deus amou-me e entregou-se a si mesmo por mim\u00bb (Gl 2,20); \u00abCristo morreu pelos nossos pecados\u00bb (1Cor 15,3). Jesus aceitou-a para ser a suprema manifesta\u00e7\u00e3o do amor de Deus-Pai \u00e0 humanidade: o amor do Pai revelava-se no acto de amor do Filho, aceite pelo Pai como redentor. Foi uma morte real, selada pela pedra tumular. Mas n\u00e3o a morte her\u00f3ica de uma personagem dram\u00e1tica: o Novo Testamento afirma que o Jesus morto ressuscitou, isto \u00e9, que a sua morte se transformou em fonte de vida radicalmente nova pela for\u00e7a do Amor do Pai, que \u00e9 o seu Esp\u00edrito e tamb\u00e9m o Esp\u00edrito de Jesus, \u00abEsp\u00edrito que d\u00e1 vida\u00bb (1Cor 15,45): \u00abo Esp\u00edrito [do Pai] ressuscitou Jesus de entre os mortos\u00bb (Rm 8,11), dando-lhe a sua vida. O Pai tornou a morte do Filho por amor um certificado de garantia de vida para sempre. Esta rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entende-se assim: Jesus estava na \u00f3rbita do Amor do Pai, que \u00e9 o seu Esp\u00edrito. Ora, porque \u00abo amor n\u00e3o acaba nunca\u00bb (1Cor 13,8), o Amor do Pai para com o Filho n\u00e3o podia acabar. Por isso, arrancou-o \u00e0s garras da morte. Isso foi a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, que significa?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os evangelhos n\u00e3o a descrevem graficamente a acontecer, em ac\u00e7\u00e3o. S\u00f3 descrevem o acontecido, o resultado da ressurrei\u00e7\u00e3o: que os disc\u00edpulos viram o Ressuscitado (1Cor 15,3-8). \u00abOs disc\u00edpulos alegraram-se ao ver o Senhor\u00bb (Jo 20,20). Maria Madalena diz: \u00abVi o Senhor\u00bb (Jo 20,11-18); \u00abquando o viram [no monte], ajoelharam-se\u00bb (Mt 29,17). Viram-no tamb\u00e9m junto ao mar de Tiber\u00edades (Jo 21,1-14); e mais vezes. Ora, tal vis\u00e3o \u2013 express\u00e3o duma f\u00e9 adulta \u2013 \u00e9 do g\u00e9nero da vis\u00e3o do Ressuscitado que S. Paulo ter\u00e1 tido a caminho de Damasco (Gl 1,12.16; Act 9,3-18\u2026). Tem as caracter\u00edsticas de uma vis\u00e3o m\u00edstica, no sentido mais forte e aut\u00eantico. Foi percep\u00e7\u00e3o da realidade mas n\u00e3o de factualidade f\u00edsica. N\u00e3o se pode ter uma prova ou amostra tang\u00edvel do momento da ressurrei\u00e7\u00e3o, porque o acontecimento da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus n\u00e3o foi simplesmente real: foi super-real. Se fosse s\u00f3 vis\u00e3o real de Jesus no sentido de factual, ent\u00e3o praticamente n\u00e3o se distinguiria da vis\u00e3o do Jesus hist\u00f3rico (como, se fosse s\u00f3 irreal, n\u00e3o passaria de uma fantasia vazia). S\u00f3 a linguagem figurada (metaf\u00f3rica, simb\u00f3lica\u2026) podia sugerir o mist\u00e9rio para o qual apontava. A experi\u00eancia da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus era uma eleva\u00e7\u00e3o ou um levantamento do esp\u00edrito; era perceber a for\u00e7a que vem do amor total expresso na cruz. De facto, a transforma\u00e7\u00e3o interior da pessoa dos ap\u00f3stolos por essa experi\u00eancia \u2013 essa, sim, transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e palp\u00e1vel \u2013 certifica a presen\u00e7a de Jesus neles. Era uma verdadeira experi\u00eancia m\u00edstica, plenitude da f\u00e9 no Jesus sentido como Filho de Deus, quando o Jesus terrestre e sens\u00edvel tinha sido sepultado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era uma experi\u00eancia que desorganizava a hist\u00f3ria programada dos disc\u00edpulos. Eles n\u00e3o tinham compreendido o sentido da morte de Jesus. Para eles ainda era noite (Jo 20,1). A Madalena estava desorientada: \u00abTiraram o meu Senhor e n\u00e3o sei onde o puseram\u00bb (Jo 20,2.13). E os outros tiveram dificuldade em superar o esc\u00e2ndalo da cruz: \u00abSe n\u00e3o vir nas suas m\u00e3os o lugar dos pregos\u2026, jamais acreditarei\u00bb (Jo 20,25). A sua f\u00e9 carecia de uma nova etapa. Atingiram-na ao fazerem a experi\u00eancia de Jesus vivo. A partir dela, os disc\u00edpulos percebiam que Deus, respondendo ao ser humano que O procurava, se deixava encontrar no Filho feito carne, em quem tinha incarnado a plenitude do amor. Tendo Jesus morrido, n\u00e3o sabiam onde estava. E descobriram que estava definitivamente no Pai e entre os irm\u00e3os: \u00abVai aos meus irm\u00e3os e diz-lhes: Subo para o meu Pai e vosso Pai\u00bb (Jo 20,17). Da\u00ed em diante, a procura humana de Deus s\u00f3 podia ser resposta de amor ao amor que era primeiro (1Jo 4,10.19). Assim, o mist\u00e9rio pascal tornava-se confirma\u00e7\u00e3o e ponto culminante de todas as experi\u00eancias m\u00edsticas, que consistem em que o m\u00edstico j\u00e1 n\u00e3o reza simplesmente mas ama, j\u00e1 n\u00e3o procura simplesmente Deus mas contempla-o em Jesus ressuscitado\/vivo.<\/p>\n\n\n<p>[a medita\u00e7\u00e3o continuar\u00e1]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD \u00abA ess\u00eancia do cristianismo \u00e9 a contempla\u00e7\u00e3o do rosto do Deus crucificado\u00bb \u2013 disse o Cardeal Carlo Maria Martini. 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