{"id":4083,"date":"2025-02-28T02:30:00","date_gmt":"2025-02-28T02:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4083"},"modified":"2025-02-27T14:30:44","modified_gmt":"2025-02-27T14:30:44","slug":"job-dor-e-oracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/job-dor-e-oracao\/","title":{"rendered":"Job, dor e ora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de a B\u00edblia ser muito lida, o livro de Job ainda \u00e9 pouco conhecido. Contudo, os leitores j\u00e1 fizeram experi\u00eancias que moldaram o Job b\u00edblico. Trazem-no dentro de si desde que perderam a inoc\u00eancia, isto \u00e9, desde que fizeram a experi\u00eancia intensa da dor, porque, antes de sermos joguetes das paix\u00f5es ou das estrat\u00e9gias de outros, somos seres de dor. O livro nasceu precisamente da experi\u00eancia da dor extrema e quer iluminar a rela\u00e7\u00e3o do ser humano com Deus, mesmo nessa situa\u00e7\u00e3o-limite. Na formula\u00e7\u00e3o da tese, o sofredor, \u00edntegro, \u00e9 feito objecto de uma aposta com Deus sobre a sua fidelidade a Ele: \u00abSer\u00e1 que Job ama Deus sem nenhum interesse?\u00bb. A aposta, que s\u00f3 abrangia as propriedades e a casa, foi ganha por Deus: Job perdeu todos os bens mas manteve-se fiel a Deus. O apostador, por\u00e9m, joga outra carta, mais arriscada para o ser humano, desafiando Deus: \u00abAtinge-o nos ossos e na carne e ver\u00e1s se ele n\u00e3o deixa de bendizer-te na Tua presen\u00e7a\u00bb (1,9-11; 2,3-6). O apostador \u00e9 o <em>opositor<\/em> ou <em>acusador<\/em>, <em>satan<\/em> em hebraico: aqui apresentado como <em>advers\u00e1rio<\/em> do homem, \u00e9 uma figura que o pensamento b\u00edblico explorar\u00e1 como personifica\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria simb\u00f3lica da oposi\u00e7\u00e3o a Deus e do mal causado ao ser humano (o grego do Novo Testamento ir\u00e1 transliter\u00e1-lo como <em>satan\u00e1s<\/em> ou traduzi-lo como <em>di\u00e1bolos<\/em>&#8211;<em>diabo<\/em>). A segunda aposta, que implicar\u00e1 uma vis\u00e3o \u2018econ\u00f3mica\u2019, contratual e mercantil da religi\u00e3o (<em>dou<\/em> fidelidade para que <em>d\u00eas<\/em> a salva\u00e7\u00e3o), \u00e9 aceite por Deus e conduzida aos limites do toler\u00e1vel: \u00abO <em>opositor<\/em>\u2026 feriu Job com \u00falceras malignas\u00bb (2,7). \u00abO ouro prova-se no fogo\u00bb (Sir 2,5). Tendo este homem muito rico (1,3) sido provado no <em>ter<\/em>, mais dura ia ser a prova no <em>ser<\/em>, ferido \u00abdesde a planta dos p\u00e9s at\u00e9 ao alto da cabe\u00e7a\u00bb (2,7-8). Job \u00e9 o sofredor total.<\/p>\n\n\n\n<p>A esta altura, o leitor j\u00e1 se rev\u00ea na figura representativa que \u00e9 Job, que sentiu cravada na carne a dor lancinante, sem saber o que dizer dela. Realmente, quando nos vemos ao espelho da sua hist\u00f3ria, n\u00e3o apetece filosofar, nem procurar solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis para a dor. S\u00f3 o sil\u00eancio oferece algum conforto: \u00abTr\u00eas amigos de Job, ao ouvirem toda esta desgra\u00e7a que tinha ca\u00eddo sobre ele\u2026, choraram\u2026, sentaram-se com ele por terra, sete dias e sete noites, e nenhum ousava dirigir-lhe a palavra, pois viram a atrocidade da sua dor\u00bb (1,22; 2,10-13). Se a palavra tem poder curativo, n\u00e3o menos o tem o sil\u00eancio, o sil\u00eancio cheio, o sil\u00eancio que suporta a aus\u00eancia de est\u00edmulos e gera empatia e <em>sym-patia<\/em>, <em>sofrer com<\/em>. Aqui \u00e9 o sil\u00eancio at\u00f3nito diante da dor que assalta as entranhas, um sil\u00eancio que invadiu os s\u00e9culos e o mundo at\u00e9 chegar a n\u00f3s. Os \u00absete dias e sete noites sem dirigir-lhe a palavra\u00bb, que simbolizam o per\u00edodo tradicional do luto, podem significar que o sil\u00eancio \u00e9 uma mais-valia imperd\u00edvel, tamb\u00e9m na incapacidade de explicar tanta dor. Quem assim guarda sil\u00eancio n\u00e3o teme virar-se para dentro de si e encontrar-se consigo pr\u00f3prio (procurando sentido para a dor). Job \u00e9 \u201chumano, demasiado humano\u201d para passar sem sofrer. E, quando o corpo sofre para al\u00e9m do suport\u00e1vel, faz-se viva a alma, numa unidade indissoci\u00e1vel com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed, no fundo do po\u00e7o das desgra\u00e7as que pulverizaram a sua casa e a sua vida, o Job amadurecido pela dor na carne exprime-se em ora\u00e7\u00e3o. Vira-se para Deus. Quando a dor do corpo atinge a alma, desperta a consci\u00eancia da liga\u00e7\u00e3o do humano ao divino: \u00abO Senhor o deu, o Senhor o tirou. Bendito seja o nome do Senhor\u00bb (1,21). V\u00eam \u00e0 mem\u00f3ria as palavras da \u00f3pera <em>Parsifal<\/em> de Richard Wagner: \u00abA ferida, s\u00f3 a pode fechar a lan\u00e7a que a abriu\u00bb. Tamanha desgra\u00e7a \u2013 pensava a sabedoria tradicional de Israel, como ainda pensa muita gente hoje \u2013 s\u00f3 pode provir de Deus; e s\u00f3 Deus a pode remediar. Job aprender\u00e1, na escuta da palavra de Deus (38,1-42,6), que s\u00f3 Ele d\u00e1 sentido \u00faltimo \u00e0 dor humana, mas que ela n\u00e3o \u00e9 causada por Ele. De qualquer forma, perante a noite escura do \u2018excesso da dor\u2019, Job, em nome da humanidade, precisava de a gritar a Deus; porque ela \u00e9 surda, para n\u00e3o aparecer absurda s\u00f3 Deus a poderia escutar e transfigurar, at\u00e9 porque, se a calasse, ela agravar-se-ia. \u00c9 num percurso de descoberta espiritual que Job afoga \u2013 ou afaga? \u2013 a sua ferida. E uma das traject\u00f3rias do livro \u00e9 a da ora\u00e7\u00e3o. Conta a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria de sofrimento fazendo ora\u00e7\u00e3o. Entran\u00e7ando a ora\u00e7\u00e3o com a dor, quer compreender-se a si pr\u00f3prio e faz-nos reconhecer a humanidade comum a que pertencemos e o drama que nos habita, no entran\u00e7ado dos fios que nos ligam uns aos outros e na solid\u00e3o que nos angustia ou nos salva em Deus. Com a sua ora\u00e7\u00e3o, Job transporta consigo a humanidade e eleva-a para Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Com Job aprende-se que a ora\u00e7\u00e3o \u00e9 atitude total, inst\u00e2ncia \u00faltima da vida em qualquer circunst\u00e2ncia. A sua finalidade n\u00e3o \u00e9 tanto satisfazer pedidos a Deus ou evitar sofrimentos ou alcan\u00e7ar conquistas. Ela \u00e9 a porta para um reino que se entreabre diante de n\u00f3s pondo-nos diante do Mist\u00e9rio. O livro p\u00f5e Job diante do sofrimento, porque este \u00e9 o que nos p\u00f5e em contacto radical com n\u00f3s mesmos: leva-nos de uma vida \u00e0 flor da pele, vivida automaticamente, para a consci\u00eancia do que \u00e9 viver. Ora, isso mesmo faz a ora\u00e7\u00e3o: corta no vivo da nossa exist\u00eancia e inculca em n\u00f3s a ideia de que, para aceitar a dor extrema, \u00e9 preciso estar descal\u00e7os, como diante do Mist\u00e9rio, pois ela descal\u00e7a todas as nossas seguran\u00e7as e desperta todas as defesas poss\u00edveis. \u00abEnt\u00e3o Job caiu por terra em adora\u00e7\u00e3o e disse: Nu sa\u00ed do ventre da minha m\u00e3e e nu para l\u00e1 voltarei; o Senhor o deu, o Senhor o tirou; bendito seja o nome do Senhor\u00bb (1,20-21).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Apesar de a B\u00edblia ser muito lida, o livro de Job ainda \u00e9 pouco conhecido. Contudo, os leitores j\u00e1 fizeram experi\u00eancias que moldaram o Job b\u00edblico. 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