{"id":4039,"date":"2025-01-31T05:55:00","date_gmt":"2025-01-31T05:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4039"},"modified":"2025-01-28T17:57:30","modified_gmt":"2025-01-28T17:57:30","slug":"o-job-biblico-da-vida-a-oracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/o-job-biblico-da-vida-a-oracao\/","title":{"rendered":"O Job b\u00edblico: da vida \u00e0 ora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p>Orar \u00e9 para a B\u00edblia o mesmo que filosofar \u00e9 para a ci\u00eancia: \u00e9 a sua ess\u00eancia. \u00c9 uma forma de ver melhor e de potenciar as mais finas possibilidades de ser e de existir. Orar engrandece o orante, ao introduzi-lo no Mist\u00e9rio que o envolve. Exprime a voz da alma que poucos conseguem silenciar.&nbsp; A B\u00edblia, que, pelo menos desde o s\u00e9c. X a.C. at\u00e9 ao s\u00e9c. II d.C., cresceu entre o humano e o divino, n\u00e3o seria ela pr\u00f3pria se n\u00e3o pusesse o leitor a rezar: s\u00f3 realiza a sua ess\u00eancia abrindo-o \u00e0 Transcend\u00eancia. Liga-o com a outra vertente do mundo que anela. A um dado momento do desenvolvimento pessoal f\u00e1-lo sentir necessidade de se p\u00f4r de joelhos diante do Deus da vida. Os seus salmos, que fazem convergir a terra com os c\u00e9us, s\u00e3o testemunho disso: suscitam irrup\u00e7\u00f5es do sagrado no mundo humano e elevam o orante para o Mist\u00e9rio, Presen\u00e7a comunicada. Na B\u00edblia, a ora\u00e7\u00e3o torna mediatamente presente o Deus imediatamente ausente. Das suas p\u00e1ginas eleva-se frequentemente o esp\u00edrito humano em ora\u00e7\u00e3o: \u00abSeduziste-me, Senhor, e eu deixei-me seduzir\u00bb \u2013 reza Jeremias (20,7). Mois\u00e9s tinha ousado mais: \u00abDisse ao Senhor: Sim, este povo cometeu um pecado grav\u00edssimo: fizeram para si deuses de ouro. Agora, por\u00e9m, ou perdoas o seu pecado ou ent\u00e3o apaga-me do livro que escreveste\u00bb (Ex 32,31-32). Mas h\u00e1 um livro b\u00edblico que eleva ao ponto culminante a ora\u00e7\u00e3o antes de Jesus surgir no horizonte da hist\u00f3ria de Israel: \u00e9 o livro de Job.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da introdu\u00e7\u00e3o em prosa (1,1-2,13), o poema central (3,1-42,6) desenrola-se quase todo em ora\u00e7\u00e3o. O protagonista dirige-se frequentemente a Deus, quer em solil\u00f3quio reflexivo (\u00abQue \u00e9 o homem, para que tanto o engrande\u00e7as \/ e ponhas nele a tua aten\u00e7\u00e3o?\u00bb (7,17), quer em grito inflamado (\u201cSabes bem que n\u00e3o sou culpado; \/ mas n\u00e3o h\u00e1 quem me livre da tua m\u00e3o\u201d: 10,7), quer em forma de desafogo que acusa intempestivamente Deus pelo sofrimento injusto do homem: \u00abAs flechas do Todo-poderoso est\u00e3o contra mim, \/ o meu esp\u00edrito bebe o seu veneno; \/ contra mim armam-se os terrores de Deus\u00bb (6,4). Por vezes, a sua ora\u00e7\u00e3o torna-se questionamento provocante diante de Deus: \u00abPor que n\u00e3o deixas de olhar para mim \/ e n\u00e3o me soltas para eu engolir a saliva?&#8230; \u00d3 guardi\u00e3o dos homens, \/ por que me converteste em teu alvo?\u00bb (7,19-20). Ao fim da luta com o divino, a sua ora\u00e7\u00e3o desagua em col\u00f3quio descansado com o pr\u00f3prio Deus, em adora\u00e7\u00e3o silenciosa e incondicional: \u00abJob respondeu ao Senhor\u2026: eu desdigo-me e arrependo-me, deitado no p\u00f3 e na cinza\u00bb (42,6).<\/p>\n\n\n\n<p>Job, personagem constru\u00edda e imaginada, que ganha vida bem real pela voz do autor do livro, n\u00e3o p\u00f5e em causa a exist\u00eancia de Deus. O seu problema vai mais fundo. Procura a melhor rela\u00e7\u00e3o com Ele, a rela\u00e7\u00e3o que d\u00ea \u00e0 vida humana o sentido transcendente que ela parece ter e que nem sempre \u00e9 \u00f3bvio. E a sua ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o visa promover ou cultivar comportamentos \u00e9ticos; muito menos visa tornar o orante irrepreens\u00edvel. \u00c9 antes uma viagem ao interior da pessoa, que a faz crescer em dimens\u00e3o humana e espiritual. \u00c9 sincera express\u00e3o de humanidade: \u00abeu desejo falar ao Todo Poderoso, \/ quero discutir com Deus\u00bb (13,3). \u00c9 vida incarnada que, em prece de aspira\u00e7\u00e3o ao divino, se quer salvar dos seus medos e das suas limita\u00e7\u00f5es: \u00abN\u00e3o s\u00e3o pouco os dias da minha exist\u00eancia? Deixa-me! \/ Afasta-te de mim, para eu retomar alento\u00bb (10,20-21). Ensinando a olhar para a vida, aproxima-a do invis\u00edvel. \u00c8 palavra de um homem que evolui para palavra de Deus: \u00e9 carne e esp\u00edrito, sangue e substantivo, entre o tempo e a eternidade, breve espa\u00e7o humano que abre espa\u00e7o infinito a Deus. A sua \u00e9 ora\u00e7\u00e3o da verdade sobre Deus e sobre o ser humano. De facto, emite uma carga humana e espiritual que electriza, prende e apaixona qualquer orante, por ap\u00e1tico que seja. Cara a cara com Deus, afirma: \u00abSou inocente\u00bb (9,21); \u00abainda que Ele me mate, n\u2019Ele esperarei\u00bb (13,15).<\/p>\n\n\n\n<p>O crist\u00e3o e os crentes conhecem porventura o sofrimento e a paci\u00eancia de Job, o do pr\u00f3logo (Job 1-2). Mas o Job em ora\u00e7\u00e3o, orante adulto e empolgante, que procura uma nova imagem e um novo rosto de Deus e o encontra rezando, \u00e9 o melhor Job: \u00e9 o Job que exprime o homem total, a sua intelig\u00eancia, a sua f\u00e9, as suas emo\u00e7\u00f5es, as suas revoltas interiores, falando com Deus \u2018tu a Tu\u2019 e abrindo-lhe com a maior franqueza os sentimentos e as pregas da alma at\u00e9 chegar \u00e0 blasf\u00e9mia; \u00e9 o Job que nos arrebata e enfeiti\u00e7a com a for\u00e7a magn\u00e9tica da sua insatisfa\u00e7\u00e3o inicial e da sua contempla\u00e7\u00e3o final, o Job a cuja ora\u00e7\u00e3o Deus responde (38,1-42,6). O mais ex\u00edmio orante do Antigo Testamento transporta-nos aos confins do esp\u00edrito humano, com esplendorosa beleza po\u00e9tica, em imagens alucinantes que encastoam gritos de dor nos lamentos de perplexidade e de ang\u00fastia. Figura de todos os crentes, descrentes e orantes inquietos que buscam sentido para a exist\u00eancia, Job encontra-o numa experi\u00eancia de Deus. Agiganta-se por cima de todos os que, como ele, ensaiam captar Deus sem o capturar, se deleitam a dialogar com Ele e penetram no seu mist\u00e9rio pela ora\u00e7\u00e3o. Nos pr\u00f3ximos ensaios acompanharemos aqui a evolu\u00e7\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o de Job pensando na forma e nos eventuais conte\u00fados da nossa pr\u00f3pria ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Orar \u00e9 para a B\u00edblia o mesmo que filosofar \u00e9 para a ci\u00eancia: \u00e9 a sua ess\u00eancia. \u00c9 uma forma de ver melhor e de potenciar as [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4040,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4039","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4039","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4039"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4039\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4041,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4039\/revisions\/4041"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4040"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4039"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4039"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4039"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}