{"id":4033,"date":"2025-01-31T05:44:00","date_gmt":"2025-01-31T05:44:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4033"},"modified":"2025-01-28T17:45:52","modified_gmt":"2025-01-28T17:45:52","slug":"todos-pertencemos-a-todos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/todos-pertencemos-a-todos\/","title":{"rendered":"Todos pertencemos a todos!"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><br>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Por especial solicitude do Papa Francisco, este \u00e9 o Domingo da Palavra de Deus. De facto, \u00e9 aos domingos que, maiormente, abrimos o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 Palavra de Deus que se faz ouvir nas nossas assembleias; e por isso, n\u00e3o depreciando outros modos e maneiras, \u00e9 ao domingo, em assembleia reunida, que Ela mais nos atinge. Em cada eucaristia dominical escutamos (e at\u00e9 cantamos!) quatro por\u00e7\u00f5es da Palavra: a Primeira Leitura (habitualmente retirada do Novo Testamento) e o Salmo Responsorial pelo qual a Assembleia responde e medita sobre a mensagem daquela leitura; a Segunda Leitura (retirada do Novo Testamento, excluindo os Evangelhos), e um excerto dos Evangelhos. De notar ainda, que frequentemente a Primeira Leitura antecipa o tema que se proclamar\u00e1 no Evangelho; ao passo que a Segunda Leitura \u00e9 de mensagem mais aut\u00f3noma.<\/li>\n\n\n\n<li>Por n\u00e3o me centrar, como habitualmente, no Evangelho deste III Domingo do Tempo Comum, Ciclo C, permita-se-me uma par\u00e1bola, ao jeito das que Jesus costumava contar \u00e0s suas gentes:<\/li>\n\n\n\n<li>Iam por certo caminho dois homens. Um era coxo; bastante, coxo, ali\u00e1s. E o outro, cego. Totalmente cego, diga-se. Apesar das penas e fragilidades de ambos, l\u00e1 caminhavam juntos, mais tr\u00f4pegos e diligentes que direitos e assertivos. Tanto tempo caminharam juntos, que se fizeram amigos. N\u00e3o \u00e9 que tudo lhes corresse bem \u2013 pudera! \u2013, mas que apesar de tudo, apesar de alguns desentendimentos e casmurrices l\u00e1 se iam entendendo. E n\u00e3o era por isso que se separavam.<br>(Sei que at\u00e9 aqui todos me entendem, e que at\u00e9 podem concluir quem possam ser esses dois\u2026 Adiante, portanto!)<br>Ora, sucedeu, que depois de muito caminharem juntos, por muitos caminhos e muitos lugares, depois de terem passado por muitos sacrif\u00edcios e dificuldades, alegrias tamb\u00e9m, frios e fomes, calores e perigos, sucedeu, pois que, em certo dia, se achegaram a um tramo de caminho especialmente desafiador e dif\u00edcil. Era a subir. Tanto a subir que o coxo \u2013 o que via o caminho, entenda-se! \u2013 logo sentenciou que seria imposs\u00edvel ultrapass\u00e1-lo! Disse o coxo:<br>\u2013 \u00c9 t\u00e3o pedregoso este caminho, que eu n\u00e3o vejo s\u00edtio em que ponha os p\u00e9s! Se ponho o p\u00e9 aqui, caio para ali! Se os ponho al\u00e9m, entorno para acol\u00e1! Portanto, amigo, \u00e9 aqui que tudo se acaba! Eu n\u00e3o prosseguirei, que aqui nem as muletas me servem para amparo algum!<br>\u2013 Como n\u00e3o prosseguir\u00e1s, indignou-se o cego?!<br>\u2013 Al\u00e9m disso, continuou o coxo: este \u00e9 um caminho estreito e com um precip\u00edcio de cada lado! Se eu me desequilibrar, caio por a\u00ed abaixo e\u2026 adeus, coxo! Nunca mais nos veremos. Nem talvez no c\u00e9u!\u2026<br>\u2013 Quem falou em cair pelo precip\u00edcio? Quem falou em parar, em desistir? Quem falou tal \u00e0 minha beira? Cruzes, credo! Quem falou em desistir, foste tu, coxo?<br>\u2013 Fui eu, sim, fui eu, repetiu o coxo! Eu sei o que \u00e9 o medo! Eu tenho muito respeitinho pelo caminho, e pelos perigos e, al\u00e9m disso, gosto muito da vida! Por isso, eu n\u00e3o subirei! Vai tu se quiseres!<br>Pronto, lhe volveu o cego:<br>\u2013 Amigo, desistir \u00e9 coisa para os fracos! Ter coragem, seguir em frente, vencer os perigos e chegar \u00e0 meta, \u00e9 para os fortes! Eu seguirei!<br>Rindo-se-lhe na cara, logo lhe contestou o coxo de forma desdenhosa:<br>\u2013 E falou o cego que \u00e9 cego! Sobe, pois, por a\u00ed, \u00f3 cego, tu que n\u00e3o v\u00eas nem um boi \u00e0 tua frente! D\u00e1 tu o tal passo em frente, e talvez sejas o primeiro a cair e a perder-te! Ainda n\u00e3o te deste conta disso? Pois \u00e9!\u2026 O nosso caminho acaba aqui: eu sou coxo, n\u00e3o consigo equilibrar-me; tu \u00e9s cego, n\u00e3o consegues desviar-te dos perigos! E agora, amigo meu, capice?!<br>Mas o cego que o era, e sabia-o, mas n\u00e3o era burro, logo sem demora lhe respondeu:<br>\u2013 Caro, coxo! \u00c0s vezes, fecham-se-nos as portas diante de nossos passos, e ao fecharem-se, abrem-se janelas; isto \u00e9, abrem-se-nos novas oportunidades, mas de outra maneira. Concordo que ambos estamos em situa\u00e7\u00e3o complicada! Sozinhos, nem tu, nem eu, subiremos este caminho das pedras, pelo que temos de voltar para tr\u00e1s \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o \u2013 ou cairmos no abismo, o que tamb\u00e9m nenhum de n\u00f3s quer.<br>\u2013 Estou a ver que, al\u00e9m de cego, \u00e9s inteligente, ironizou o coxo, que n\u00e3o estava a ver nenhuma janela abrindo-se-lhe diante do olhar!\u2026<br>\u2013 \u00c9 mesmo isso, meu caro, respondeu o cego! \u00c9 mais ou menos isso, sim. Eu sou cego, mas vejo uma solu\u00e7\u00e3o! Tu n\u00e3o \u00e9s, mas n\u00e3o vez alguma! Reparaste no paradoxo? N\u00e3o te apetece a ti rir, como a mim?<br>\u2013 Eu tenho raiva e s\u00f3 me apetece chorar! Mas, fala l\u00e1, \u00f3 Einstein, disse-lhe o coxo, j\u00e1 mais que aborrecido e cansado com aquela conversa toda!<br>\u2013 Pois falarei, \u00f3 cabe\u00e7a dura, respondeu-lhe o cego! E tu, ouve-me com ouvidos de gente, n\u00e3o de cabra tonta; com as devidas licen\u00e7as \u00e0s cabras e seus dignos maridos! Tu, ouve-me, \u00f3 franganote: Olha para mim e que v\u00eas? Sou um touro, mas sou cego! Logo sou fraco e, sozinho, paro aqui. Mas tu, franganote, tu v\u00eas, \u00e9s o \u00fanico que aqui v\u00ea, mas como \u00e9s coxo, n\u00e3o ir\u00e1s longe! O que te proponho \u00e9 o seguinte: valorizemos aquilo que nos acrescenta, n\u00e3o aquilo que nos diminui a ambos!<br>Logo lhe desabafou o coxo:<br>\u2013 Agora, sim, agora \u00e9 que eu me arrependo de te ter conhecido, \u00f3 taramela de fil\u00f3sofo! N\u00e3o percebi nada do que est\u00e1s pra\u00ed a falar!<br>\u2013 Anda c\u00e1, meu burro, disse, carinhoso, o cego ao coxo! Anda e sobe aqui para as minhas costas, que eu confio nas minhas pernas e nas minhas for\u00e7as! E tamb\u00e9m confio na tua vis\u00e3o para me orientares. Ora se tu me guiares bem, com calma e serenidade, juntos, sairemos, deste enorme desafio e, juntos, nos salvaremos! Confia em mim e eu confio em ti! Aceitas que, juntos, nos poderemos sair bem?<\/li>\n\n\n\n<li>A verdade, amigos, \u00e9 que, agora mesmo, eu n\u00e3o sei quem aqui seja o cego e quem aqui seja o coxo: se quem escreve ou se quem l\u00ea o texto; ou se, segundo os dias e as circunst\u00e2ncias, intercambiamos entre n\u00f3s os pap\u00e9is. O que sei \u00e9 que na vida \u2013 mais ainda na vida da Igreja \u2013 precisamos uns dos outros: os fracos precisamos dos fortes, os capazes dos cegos; os calados dos animadores, os sonhadores dos aventureiros. Os pecadores dos santos.<br>Precisamos uns dos outros, pois ningu\u00e9m chega l\u00e1 sozinho \u2013 essa \u00e9 a verdade. Ningu\u00e9m jamais se basta a si mesmo! Jamais! A perna precisa do p\u00e9, a boca da m\u00e3o, o ouvido do nariz. N\u00e3o nos bastam os solos, precisamos tamb\u00e9m da harmonia coral. Precisamos, enfim, de amigos que tamb\u00e9m precisam de n\u00f3s, porque nenhum de n\u00f3s \u00e9 completo, ningu\u00e9m se basta, que at\u00e9 o forte alguma vez merma e se volve fraco.<br>Estamos todos a caminho com o Evangelho no cora\u00e7\u00e3o; mas caminhando, rezamos juntos e fazemos pausas nos hospitais e nos albergues, lemos testemunhos e documentos, avaliamos for\u00e7as e estrelas, ponderamos novas etapas, novos rasgos, novas solu\u00e7\u00f5es, novas sementeiras e respostas. \u2013 E se acaso, al\u00e9m de pararmos, voltamos atr\u00e1s para amanh\u00e3 mais nos abalan\u00e7armos para a frente! \u2013 Hoje como ontem, precisam os velhos da aud\u00e1cia dos novos, e os novos da sabedoria e tempero dos velhos, tal como os campos precisam das sementes e das chuvas, e as sementes do sol e que o trabalhador as esparza e depois recolha.<br>Estamos todos a caminho e ningu\u00e9m ficar\u00e1 sem alcan\u00e7ar a meta. Se um l\u00e1 n\u00e3o chegar, ser\u00e1 derrota de todos, inclusive de Jesus! E eu tenho por certo que, vindo como veio, n\u00e3o veio para que perder algum!<br>Precisar, precisamos uns dos outros, que precisar \u00e9 verbo que anima e salva.<br>Ningu\u00e9m \u00e9 s\u00f3. Ningu\u00e9m cresce s\u00f3. Ningu\u00e9m se salva sozinho! Somos comunh\u00e3o, mesmo se o n\u00e3o sabemos. Por inteira virtude que a n\u00f3s n\u00e3o cabe, somos um. Um corpo. Ningu\u00e9m se salva s\u00f3 \u2013 por isso, chegar\u00e1 o dia em que quando um rir, rir\u00e3o todos; e se algum chorar, choraremos todos. \u00c9 que n\u00e3o se salvam partes, salva-se o corpo todo, porque ningu\u00e9m, nenhum parcial, tem todos os dons, todas as gra\u00e7as, todas as virtudes, todas as for\u00e7as, todas as luzes, todo o humor, todo o amor. Sim, para se caminhar e se chegar ao fim sempre precisamos de algu\u00e9m. De todos. Porque a m\u00e3o pertence ao p\u00e9, e a orelha \u00e0 cara, enfim, todos nos pertencemos e, ao fim, todos chegaremos juntos!<br>Ah, que inesperado espanto um dia passaremos ao descobrir o tanto que devemos a tantos que nunca, ou n\u00e3o apreciamos, ou n\u00e3o vimos nem conhecemos!<\/li>\n\n\n\n<li>Disto me alembrei quando, celebrando o Domingo da Palavra de 2025, dei de chofre com a leitura de 1Cor\u00edntios 12:12-30. Valeria a pena ir verific\u00e1-la.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4034,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4033","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4033","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4033"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4033\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4035,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4033\/revisions\/4035"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4034"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4033"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4033"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4033"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}