{"id":4002,"date":"2024-12-31T02:35:00","date_gmt":"2024-12-31T02:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=4002"},"modified":"2025-01-25T08:24:28","modified_gmt":"2025-01-25T08:24:28","slug":"em-louvor-da-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/em-louvor-da-casa\/","title":{"rendered":"Em louvor da casa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p>Em tempo de Natal os crist\u00e3os celebravam h\u00e1 dias a festa da Sagrada Fam\u00edlia, que notou a falta de uma casa para Jesus nascer (Lc 2,7): o Natal de Jesus n\u00e3o aconteceu \u201cem casa\u201d nem numa casa. Mas hoje n\u00e3o pode \u2013 n\u00e3o deveria \u2013 haver Natal sem casa. A crise de habita\u00e7\u00e3o no pa\u00eds protesta e grita pela necessidade dela: n\u00e3o se pode viver sem casa! At\u00e9 os migrantes que sa\u00edram de casa voltam a ela com saudades na quadra natal\u00edcia. Meditemos sobre a sua import\u00e2ncia sociol\u00f3gica e sobre o seu simbolismo humano.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abMy home, my castle!\u00bb \u2013 dizem os brit\u00e2nicos: \u00aba minha morada \u00e9 o meu castelo\u00bb, significando, entre outras coisas, que a morada \u00e9 o ref\u00fagio mais seguro e confort\u00e1vel, onde a pessoa se sente como no seu castelo. Podemos visitar casas de amigos, umas mais bonitas que outras. Mas \u2018viver mesmo\u2019 \u00e9 na nossa pr\u00f3pria casa. Ela, o espa\u00e7o mais frequentado por n\u00f3s, assiste ao melhor da nossa vida. Na casa de pessoas e fam\u00edlias tamb\u00e9m h\u00e1 roturas, tens\u00f5es, \u00f3dios incontidos, separa\u00e7\u00f5es fracturantes, div\u00f3rcios, divis\u00f5es mort\u00edferas. Mesmo assim, o simbolismo da casa\/morada remete-nos preferentemente para a sua carga positiva.<\/p>\n\n\n\n<p>De facto, a casa \u00e9 a primeira estrutura de acolhimento da pessoa que nasce. \u00c9 onde se vive e se morre. N\u00e3o tem s\u00f3 paredes, traves e reparti\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o de pedras vivas cujo cimento \u00e9 o amor. A casa \u00e9 o santu\u00e1rio do crescimento amparado, o ber\u00e7o dos afectos, aconchegado no seio de uma fam\u00edlia. Casa onde se cresceu, podem deix\u00e1-la os p\u00e9s, n\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o. Dizer \u00abcasa\u00bb \u00e9 dizer comunh\u00e3o de vida, vida familiar, vida em comunh\u00e3o, onde se est\u00e1 \u00abem uni\u00e3o com\u00bb e se descobre a do\u00e7ura da ternura murmurada, do amor sempre oferecido e renovado. Conviver na mesma morada permite aos pais, irm\u00e3os ou filhos dizer ao outro: \u201cestou aqui para ti\u201d, \u201cexistir faz sentido, porque tu tamb\u00e9m est\u00e1s aqui\u201d. A casa \u00e9 o lugar onde as pessoas est\u00e3o \u00e0 vontade e onde, por n\u00e3o estarem expostas, partilham descontra\u00eddas o rir e o chorar, o sofrer e o gozar, o mimo e o carinho. A morada \u00e9 o lugar do encontro di\u00e1rio e das rela\u00e7\u00f5es desej\u00e1veis, em que a vida \u00e9 mais verdadeira e \u00edntima, onde os abra\u00e7os s\u00e3o mais genu\u00ednos.<\/p>\n\n\n\n<p>Num recanto da morada \u00e9 o \u00fanico lugar onde somos capazes de estar nus, isto \u00e9, de nos vermos como somos, de vermos o que verdadeiramente somos, sem m\u00e1scaras, vestidos s\u00f3 com a transpar\u00eancia e a autenticidade do <em>ser para o outro<\/em>. A casa pr\u00f3pria facilita o ser sincero sem ser agressivo, o pedir sem reivindicar, o dar sem negociar: favorece a excel\u00eancia da gratuidade e o valor do <em>ser<\/em> em detrimento do <em>ter,<\/em> do<em> possuir <\/em>e do<em> aparentar<\/em>. A morada \u00e9 o espa\u00e7o onde a pessoa se encontra bem, onde o amor se entranha, onde a zanga se dilui, onde a compreens\u00e3o, o perd\u00e3o, a reconcilia\u00e7\u00e3o e a harmonia \u2018est\u00e3o em casa\u2019. A\u00ed a pessoa recebe dos pais a mem\u00f3ria dos antepassados, bebendo todos os dias os ensinamentos que eles t\u00eam para comunicar e partilhar. \u00c9 o espa\u00e7o de comunh\u00e3o nos afectos mais enternecedores e onde primeiro a pessoa aprende a amar. As grandes apostas da vida s\u00e3o as que dizem respeito \u00e0 pr\u00f3pria casa e \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os habitantes na casa fogem da inseguran\u00e7a e dos medos, suscitados n\u00e3o s\u00f3 pelas intemp\u00e9ries, mas tamb\u00e9m pelas agress\u00f5es do meio ambiente estranho, animal e humano. A morada \u00e9 lugar de ref\u00fagio, porto de abrigo, ninho de conforto. Quando os perigos espreitam, a morada est\u00e1 \u00e0 nossa espera, acolhedora e protectora como sempre: por isso, o melhor de uma viagem \u00e9 o regresso a casa. E \u00e9 um espa\u00e7o interior, reposit\u00f3rio das emo\u00e7\u00f5es e dos sentimentos mais marcantes da nossa exist\u00eancia, que nos remetem para o melhor de n\u00f3s pr\u00f3prios. \u00c9 o lugar onde mais falamos com os da nossa fam\u00edlia e mais nos confrontamos com n\u00f3s pr\u00f3prios e com os outros. \u00c9 o lugar de escuta, de confronto e das comunica\u00e7\u00f5es preferenciais. Na nossa casa escuta-se antes de falar; e o filho do crente aprende a rezar, a escutar Deus e a elevar-se para a transcend\u00eancia: aprende a incluir a transcend\u00eancia na sua iman\u00eancia. A morada \u00e9 lugar importante da viv\u00eancia e da transmiss\u00e3o da f\u00e9. Nela, a f\u00e9 \u00e9 \u2018mamada\u2019, recebida por filhos, netos, sobrinhos, afilhados.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a morada tamb\u00e9m \u00e9 o espa\u00e7o aberto aos outros, prop\u00edcio a fazer comunidade e comunh\u00e3o, onde se podem acolher os amigos, para partilhar com eles a palavra reconfortante e o banquete da comunh\u00e3o na amizade. A realidade e o s\u00edmbolo da morada remetem imediatamente para acolhimento, sensibilidade, com-paix\u00e3o (com-viver a mesma paix\u00e3o do outro). Na visita de um amigo, o bem-querer invade a casa, gerando uma aura de benevol\u00eancia. Uma exist\u00eancia harmoniosa sente alegria em abrir a morada \u00e0 visita de outras pessoas, com o desejo de que \u201cse sintam em casa\u201d. A nossa morada \u00e9 lugar de abertura ao mundo que rodeia a fam\u00edlia e de alargamento do tecido da comunh\u00e3o humana. A morada \u00e9, de algum modo, estruturante da exist\u00eancia humana, por congregar em si a hist\u00f3ria da pessoa e da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Atendendo a estes e outros conte\u00fados da casa, a f\u00e9 crist\u00e3 percebe o drama que \u00e9 o Filho de Deus ter querido nascer na pessoa de Jesus e a M\u00e3e n\u00e3o ter encontrado dispon\u00edvel uma casa para o dar \u00e0 luz. \u00abVeio \u00e0 sua casa e os seus n\u00e3o o receberam\u00bb (Jo 1,11). Ao neg\u00e1-la n\u00e3o sabiam a quem a negavam. Agora sabe-se: \u00abFui forasteiro e n\u00e3o me acolhestes\u2026 Tudo o que n\u00e3o fizestes a um destes pequeninos a mim n\u00e3o o fizestes\u00bb (Mt 25,43-45). Este <em>saber<\/em> \u00e9 mais uma consequ\u00eancia do Natal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Em tempo de Natal os crist\u00e3os celebravam h\u00e1 dias a festa da Sagrada Fam\u00edlia, que notou a falta de uma casa para Jesus nascer (Lc 2,7): o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4003,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-4002","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4002","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4002"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4002\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4004,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4002\/revisions\/4004"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4003"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4002"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4002"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4002"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}