{"id":3999,"date":"2024-12-31T02:31:00","date_gmt":"2024-12-31T02:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3999"},"modified":"2025-01-25T08:37:06","modified_gmt":"2025-01-25T08:37:06","slug":"o-meu-presepio-em-2024","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/o-meu-presepio-em-2024\/","title":{"rendered":"O meu pres\u00e9pio em 2024"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 l\u00e1 muito no finzinho, j\u00e1 no fim da v\u00e9spera de Natal, num cantinho da minha cela, tamb\u00e9m eu armo o pres\u00e9pio. A m\u00e3e est\u00e1 l\u00e1. O pai est\u00e1 l\u00e1. Ela tem l\u00e1grimas e l\u00e1grimas ele tem. E serena alegria tamb\u00e9m; esta orlada de lindas perlas caindo das persianas de seus olhos. O menino, Deus e carne da nossa carne, tamb\u00e9m est\u00e1 l\u00e1. Umas vezes, dormindo, outras, sorrindo. Outras, mamando nos peitos da m\u00e3e que, de quando em quando, tamb\u00e9m lhe <em>lala<\/em>, o embala e lhe troca as fraldas. Tal \u00e9 o meu singelo pres\u00e9pio.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quem, a cada ano, lhe acrescente uma figura. Eu todos os anos lhas transmudo, n\u00e3o importa se meninos, se reis, se pastores, se judeus ou ateus, estrangeiro ou doutores. Vir\u00e1 quem vier.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui v\u00e3o, pois, as figuras do meu pres\u00e9pio de 2024:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O anjo visitador<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Todo o pres\u00e9pio tem o seu anjo. Eu gosto de anjos, mas sem espada nem vingan\u00e7as. H\u00e1 uns cantores, outros trombeteiros, outros com tur\u00edbulos fumegantes, com harpas ou com partituras do <em>Gloria in Excelsis Deo<\/em>. H\u00e1 uns amparando os passos de meninos a caminho da escola, outros velando-lhes o sono, outros tangendo baixinho violinos e sininhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu gosto muito de anjos colectores de l\u00e1grimas, com paninhos de linho branco nas m\u00e3os. Como tanto gosto destes, sim! Mas, depois da Pandemia conheci e aprendi a reconhecer, e a melhor apreciar, os anjos visitadores de sacr\u00e1rios. H\u00e1 dias conheci um que me infundiu especial ternura. J\u00e1 a escuras desoras ia eu fechando a igreja, quando, correndo, se me aprochegou um deles. Se eu podia esperar um minutinho que fosse, disse, para que entrando um instantinho na igreja, adorasse. A\u00ed eu pensei que o minutinho solicitado, talvez pudesse durar tanto como o antigo <em>Minuto de Sil\u00eancio \u2013<\/em> esse t\u00e3o solene e nobre minuto que durava sempre entre os quinze e vinte! Sim, eu pensei isso e dispus-me \u00e0 demora que, por\u00e9m, a tanto n\u00e3o chegou, embora demorasse bem mais que o breve minutinho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 sa\u00edda, discreto, j\u00e1 semi-fechada, eu guardava a porta; a\u00ed, ele adveio e disse-me:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Muito obrigado, senhor, por ter esperado um minutinho!&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 \u00d3messa<\/em>, lhe respondi, <em>mais esperaria, se necess\u00e1rio. \u2013 <\/em>E era verdade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 \u00c9 que \u00e9 t\u00e3o importante para mim, este minuto do meu dia&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00d3bvio que eu imaginara que sim; mas sem mais nada dali pedir ou perceber. E a\u00ed, sem mais perguntar, disse-me o anjo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 O senhor nem imagina! \u00c9 que eu nem sempre posso ir \u00e0 Missa. Muitas vezes falto aos domingos, porque a vida se me descomp\u00f5e. Mas sempre que vou \u00e0 igreja de Tal Parte, logo depois venho t\u00e3o longe, \u00e0 Igreja do Carmo \u2013 a \u00fanica que todos os dias sei aberta at\u00e9 t\u00e3o tarde \u2013 para visitar Jesus que na comunh\u00e3o antes docemente me visitou, entrando em meu cora\u00e7\u00e3o, e sem eu merecer! Ent\u00e3o, como lhe digo, padre, logo de seguida, fa\u00e7o-Lhe uma visitinha sempre curtinha, mas muito agradecida, de cora\u00e7\u00e3o a cora\u00e7\u00e3o, por Ele me ter visitado na comunh\u00e3o! Muito obrigado pela sua simpatia, portanto!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Muito obrigado eu pela li\u00e7\u00e3o<\/em>, me repeti baixinho e agradecido, s\u00f3 de mim para mim.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o importa se apressado, se adorador, se calmo ou agitado, se correndo, se parado; no pres\u00e9pio deste ano vou colocar um Anjo Visitador com palavras mansas e abrasado cora\u00e7\u00e3o adorador.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Escritores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para mim, escritores s\u00e3o como palha\u00e7os. Tantas vezes, chorando, fazem rir. Tantas vezes rindo e brincando, fazem pensar e chorar. Estes n\u00e3o s\u00e3o coment\u00e1rios depreciativos, s\u00e3o o reconhecimento da versatilidade de tantos homens e mulheres que, semeando carreiras de letras e de sinais pequeninos, interpretam os sentimentos da comunidade, enformam valores, enfrentam malvados lugares comuns e encorajam palavras em fal\u00eancia de sentido. E t\u00eam tamb\u00e9m de escrever sobre Natal, mesmo que, no Dia, n\u00e3o tenham com quem repartir a posta de bacalhau e a batata fria que trouxeram para casa numa cuvete.<\/p>\n\n\n\n<p>Este ano, nas redondezas da manjedoira da Palavra, o meu pres\u00e9pio ter\u00e1 uma velha m\u00e1quina de escrever. Mesmo que a m\u00e1quina s\u00f3 escreva banalidades sobre o <em>\u00abver a ilumina\u00e7\u00e3o do natal\u00bb,<\/em> ainda assim eu irei coloc\u00e1-la, sim.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Senhora do obrigado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade \u00e9 mais que uma senhora, s\u00e3o v\u00e1rias. S\u00e3o todas velhotas, s\u00e3o todas do povo, todas humildes, todas gastas, todas pequeninas. Se as vir na rua n\u00e3o as reconhecerei a todas, na igreja sim, sobretudo quando lhes dou a comunh\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 O Corpo de Cristo<\/em>, lhes digo.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Amen<\/em>, me retribuem.<\/p>\n\n\n\n<p>E posta a confiss\u00e3o de f\u00e9, na m\u00e3o lhes deponho Deus no Sacramento Alv\u00edssimo que elas elevam \u00e0 boca, logo comungam e depois se retiram a coxear, a bambolear, a tropeguear.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, uma senhora, ou um grupinho delas, mas cada uma em sua vez e em diferentes missas, que antes de comungarem, mas j\u00e1 com o Corpo na m\u00e3o, ainda me olham e acrescem baixinho:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Obrigado!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ou, se mais n\u00e3o me conhecem:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Obrigado, senhor Padre!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, neste Natal eu vou colocar no pres\u00e9pio um <em>obrigado<\/em> em forma de sacr\u00e1rio e de senhoras velhinhas, piedosas e baixinhas. Gastas e cansadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um m\u00e9dico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando nasceu na gruta de Bel\u00e9m, o menino n\u00e3o teve direito a assist\u00eancia m\u00e9dica, nem de m\u00e9dico, nem de enfermeira, nem de parteira, nem de <em>mulher curiosa<\/em> como a minha av\u00f3 que, s\u00f3 de filhas e noras, <em>parturiou<\/em> quase quarenta netos.<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9dico que no pres\u00e9pio deste Natal, de joelhos, ali vou colocar, n\u00e3o \u00e9 o m\u00e9dico que na gruta falhou na noite de Natal. N\u00e3o \u00e9 esse, n\u00e3o. Vou colocar um que conhe\u00e7o bem, de nome, de vida e de l\u00e1grimas. Que vejo muitas vezes ajoelhado, cabe\u00e7a entre as m\u00e3os, e a seu lado, o c\u00e2ncer que, medra, comendo-lhe o corpo. O m\u00e9dico chora muito e reza muito, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por causa do c\u00e2ncer que tem, ou pela sa\u00fade que n\u00e3o tem. \u00c9 pelos muitos doentes que quando, as horas se apoucam, n\u00e3o lhe permitem mais visitar. E como a tantos n\u00e3o p\u00f4de visitar, ent\u00e3o ao fim do dia, vem visitar o Senhor na Cruz e apresentar-lhe os que mais uma noite e um dia v\u00e3o ficar sem a sua visita.<\/p>\n\n\n\n<p>O meu pres\u00e9pio, este ano, tem um m\u00e9dico, de joelhos, a rezar e a chorar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O c\u00e3o que l\u00ea<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando algures, ao longo do ano, seja ver\u00e3o, seja inverno, subo a Rua dos Ch\u00e3os, pelo lado esquerdo, que \u00e9 onde sempre os vejo, deparo-me com um pres\u00e9pio de um mendigo s\u00f3 e seu velho c\u00e3o. Pelo porte, o c\u00e3o \u00e9 de ra\u00e7a nobre.<\/p>\n\n\n\n<p>Devem passar ali a noite, ao relento, porque sempre os vejo por volta das nove horas, e depois n\u00e3o mais. H\u00e1 uma s\u00f3 mantinha por perto, o que me leva concluir que dormem juntos e agarradinhos. Se ali n\u00e3o ficam, \u00e9 sinal que dali se retiram e depois se volvem invis\u00edveis. O homem magro, que nunca vejo a comer, deve ser fil\u00f3sofo, pois sempre l\u00ea um livro \u2013 ora a\u00ed esta uma boa decis\u00e3o para bem come\u00e7ar o dia, mesmo que o leia de pernas para o ar \u2013 acto s\u00f3 ao alcance de fil\u00f3sofos! E talvez seja sempre o mesmo livro, como quem anda buscando o lado escorreito de ler; n\u00e3o vejo nisso, ali\u00e1s, mal algum.<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e3o sempre tem tr\u00eas pias, duas de metal e uma de papel \u2013 um livro.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira pia est\u00e1 sempre cheia de biscoitos de c\u00e3o. A segunda tem \u00e1gua do Luso. Sempre que os vi, tamb\u00e9m nunca vi o c\u00e3o comer ou beber, mas deitado em cima de uma manta grossa, de focinho no ch\u00e3o, est\u00e1 postado e afilado para o livro. Porque n\u00e3o \u00e9 m\u00edope, o c\u00e3o l\u00ea. Eu sei que l\u00ea, que eu sei distinguir o porte dum c\u00e3o afei\u00e7oado \u00e0 leitura de um viralata que o n\u00e3o seja.<\/p>\n\n\n\n<p>O meu pres\u00e9pio de 2024 tem um c\u00e3o que l\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Agostinha<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m havia lavradas, mas a minha terra inclinava-se mais para as <em>laboiras<\/em>. Porque as conheci, fui e sou mais das <em>laboiras<\/em>; algumas delas rasgando leivas na terra com quatro juntas de bois ou mais! Uma <em>laboira<\/em> assim tinha de ter <em>home<\/em> que soubesse de <em>guberno<\/em> de gentes e alim\u00e1rias, mesmo tendo em conta que quem <em>chamava<\/em> as outras juntas n\u00e3o era nunca burro nenhum!<\/p>\n\n\n\n<p>E se no campo, o <em>home<\/em> comandava o ex\u00e9rcito das enxadas e charruas, na casa, a mulher comandava o forno, o lume da lareira, as raparigas, os crian\u00e7os, o ex\u00e9rcito das arcas, dos potes fumegantes, das pipas, jarros, infusas e pratos, e os pobres que sempre mais apareciam nas alturas de fartura, a rezar pelas<em> almas de quem Boc\u00ea l\u00e1 tem<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma <em>laboira<\/em>, s\u00f3 para que se saiba, era algo quase t\u00e3o sagrado como uma prociss\u00e3o de cardeais no Vaticano! E, repare-se bem: Vaticano h\u00e1 um s\u00f3!<\/p>\n\n\n\n<p>Pois, eu lembro-me bem desse tempo solene.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas <em>laboiras<\/em>, ceifas e vindimas, lembro-me da alegria de ver a Agostinha e as filhas chegarem ao <em>ajuntamento do pessoal<\/em> com a\u00e7afates \u00e0 cabe\u00e7a e abrirem os mant\u00e9is e nos matarem a larica. O que nos traziam nem era o mais importante. Antes sim, o modo alegre e aben\u00e7oado como no-lo repartiam, dos mais velhos para os mais novos \u2013 essa era toda a nossa mais que justa recompensa! A mim, que \u00e0 altura n\u00e3o passava de <em>canalhico<\/em>, bastava-me receber um peda\u00e7o grande de broa com uma rodela de salpic\u00e3o, um casco de cebola e pimento vermelho curtido em vinagre!<\/p>\n\n\n\n<p>A Gustinha tem agora 94 anos. Pode ser que se aguente, ou\u00e7o dizer, mas para aquelas bandas o frio sempre teve gal\u00f5es de imprevisto general meio maneta \u2013 trai\u00e7oeiro, quero dizer. E pode ser que ela, entretanto, se v\u00e1. E se n\u00e3o, at\u00e9 pode alcan\u00e7ar o s\u00e9culo. J\u00e1 se ver\u00e1. O que este ano se viu \u00e9 que a essa <em>mulher de laboira<\/em>, robusta como um toiro, isto \u00e9, que extraordinariamente se sobrepunha a tantas mulheres extraordin\u00e1rias, com um bando de filhos em volta do avental, que governava um galinheiro de duas d\u00fazias de ovos ao dia, meia vara de porcos e uma quadrilha de arados, <em>mai-lo<\/em> o pessoal auxiliar, aquela mulher que sabia cantar as cantigas das ceifas e das mondas, <em>mai-las<\/em> das <em>laboiras<\/em> e <em>bindimas<\/em> e, ao domingo, fazer uma roda de namorados, mo\u00e7oilas e rapazes novos, e p\u00f4-los todos a bailar, essa mulher que sabia vigiar a tradi\u00e7\u00e3o e que, sem falar alto, <em>em botando faladura<\/em>, at\u00e9 os <em>homes<\/em> a escuitavam, e os pregadores tamb\u00e9m, essa mesma, sim, dessa mesma, a Gustinha, houve de saber-se no princ\u00edpio deste ano que empequenecia a compasso dum s\u00f3 pestanejar. Sem demora, agarrada a um chami\u00e7o tosco de medronheiro, revelha e seca como uma raiz, assomou-se \u00e0 <em>Igreja de S\u00e3o \u00c7upriano,<\/em> como uma sombra, numa das raras vezes que o Padre Novo l\u00e1 foi, para que ele <em>le botasse<\/em> a Un\u00e7\u00e3o Santa. E ele<em> la<\/em> <em>botou<\/em>, diz o povo, <em>como le competia<\/em>. Nem mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde esse dia, Gustinha deixou de cantar as nossas cantigas, de dizer os nossos ditos, contos, refr\u00e3es e lendas, e j\u00e1 n\u00e3o <em>bota cinten\u00e7as<\/em>. Dizem que alguma coisa ela deve ter visto ou sentido, ou pressentido, coisa que ningu\u00e9m sabe e s\u00f3 alguns, poucos, como ela, entreveem. Agora passa calada o fio dos dias, das semanas e dos meses, talvez \u00e0 espera do c\u00e9u, quem sabe, e de <em>cando em vez<\/em>, l\u00e1 vai cantando baixinho \u00e0 Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, como quem embala um menino:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u00d3 mais formosa *<br>que a linda rosa do meu jardim<br>no ber\u00e7o lindo, a luz sorrindo,<br>branco jasmim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Meu doce Jesus menino<br>de rosa, l\u00edrio mortal,<br>vinde nascer em minh\u2019alma<br>possuI meu cora\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>(* C\u00e2ntico da Par\u00f3quia de Aboim da N\u00f3brega, Vila Verde)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ou essoutro que ningu\u00e9m sabe onde ela o achou:<\/p>\n\n\n\n<p><em>Senhora do manto lindo, **<br>mostrai que sois nossa M\u00e3e;<br>olhai para n\u00f3s, sorrindo,<br>e sorriremos tamb\u00e9m.<br>\u2026<br>Senhora do manto-puro,<br>quer diga sim ou quer n\u00e3o,<br>o mundo est\u00e1 seguro,<br>na concha da vossa m\u00e3o.<br>\u2026<br>Senhora do manto-brilho,<br>o caminho custa tanto!<br>Levai-nos ao vosso Filho<br>nas dobras do vosso manto.<br>\u2026<br>Senhora do manto-neve,<br>que nos cobre e agasalha,<br>assim que a morte nos leve<br>seja ele a nossa mortalha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>(<em>** C\u00e2ntico do Santu\u00e1rio da Senhora do Sameiro \u2013 Braga<\/em>)&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Oito c\u00edrios<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em finais de junho deste ano, muito para l\u00e1 de longe das luzes de Natal \u2013 que quase s\u00f3 brilham no Advento! \u2013&nbsp; fui \u00e0s <em>Freirinhas do Sorriso<\/em> comprar pres\u00e9pios. Responderam que n\u00e3o havia, mesmo quando disse que n\u00e3o ser para com\u00e9rcio, mas para oferecer. Mas n\u00e3o mais havia, e nada trouxe.<\/p>\n\n\n\n<p>Em finais de outubro, avantajei-me e fui-me l\u00e1 de novo; disse quem era e disseram-me que dispensariam cinco <em>\u2013 Nada mal<\/em>, disse-me eu a mim mesmo. Entretanto, convidaram-me a entrar na silenciosa capela privada da comunidade e vi uma Menino Jesus das Palhinhas t\u00e3o lindo, t\u00e3o lindo e t\u00e3o grande e de sorriso t\u00e3o gentil que, de pronto, me roubou o cora\u00e7\u00e3o. De bra\u00e7os estendidos, sorrindo, o Menino falou comigo:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Leva-me contigo!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Eu respondi-lhe:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 N\u00e3o posso! Tu \u00e9s das Freirinhas do Sorriso!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Leva-me contigo<\/em>, insistia-me ele!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podendo consol\u00e1-lo, contrariei-o de vez:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Ficas aqui, nesta cova de Bel\u00e9m, que ficas bem! E eu vou para casa trabalhar e levo-te no meu olhar. Concordas?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Concordasse que n\u00e3o concordasse, ficaria e ficou. Mas o que naquela hora mais me agarrou foi que o Sant\u00edssimo Sacramento estava exposto e, rodeando o altar, estavam oito velinhas de cera imaculadamente branca, todas mais que octogen\u00e1rias, todas mais que muito pequeninas, todas em cadeira de rodas, de roupinhas muito humildes, muito caladinhas, de cora\u00e7\u00e3o ardente, olhar todo em Jesus! Ainda pensei que dormitassem e, duvidando, rodei levemente o olhar para um lado e levemente para o outro, mas elas estavam vigilantes e despertas, como quem est\u00e1 no c\u00e9u, entre anjos contemplativos!<\/p>\n\n\n\n<p>E fiquei-me ali, mudo e quedo, durante um bom <em>trancalha\u00e7o<\/em> de tempo; e \u00e9 assim que, este ano, o meu pres\u00e9pio mais que uma imagem dum menino a sorrir, ter\u00e1, sim, diante da manjedoira, oito pequeninas cadeirinhas de rodas. \u00c9 que mudo regressei a casa, pensando nisto: quanto vale hoje um velho ou velha? Obviamente muito, mesmo que o n\u00e3o saibamos sopesar! Quanto pode render um entrevado em casa? Provavelmente nada e, se for azedo, at\u00e9 ser\u00e1 de fugir! E quanto para o mundo vale uma pessoa que reza, velha seja ou n\u00e3o, leiga, frade, padre ou freira, governante ou bispo? Muito vale qualquer desses velhos, claro! E como imagino que nenhuma daquelas <em>Freirinhas do Sorriso<\/em> algo trabalhe, algo renda, e juntas elas s\u00f3 deem um valente \u00f3ctuplo trabalho, logo conclu\u00ed que do ponto de vista financeiro, aquelas velinhas orantes valham muito pouco, pouco mais que as de cera verdadeira! Deus me perdoe! Enfim, talvez pouco mais valham, sim, apesar de nada haver que tanto eleve o mundo como a ora\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 assim que fico na d\u00favida: neste ano de 2024, t\u00e3o manco e t\u00e3o escuro, ao construir o meu pres\u00e9pio, este ter\u00e1 ou oito c\u00edrios acesos ou oito cadeirinhas de tr\u00f4pegas rodas. Logo se ver\u00e1. Ainda n\u00e3o decidi.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Coca-cola zero<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 semana, \u00e0s oito horas, ao domingo, \u00e0s dez, tenho como ajudante na Missa um menino especial. De cora\u00e7\u00e3o bom. Voz grossa e doce. Atento. Dispon\u00edvel. Servi\u00e7al. Colaborante. Interessado. Inteligente e abispado.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o vou dizer o nome, porque toda a gente o conhece bem, gosta dele e sabe que o que aqui escrevo \u00e9 inteira verdade. S\u00f3 n\u00e3o vem \u00e0 Missa se estiver doente. No resto, ajuda, canta e reza, \u00e0s vezes, a destom e a destempo, mas ningu\u00e9m leva a mal. Tem quase cinquenta anos e not\u00e1veis dificuldades em fazer-se entender. Mas quem \u00e9 que disse que para ajudar \u2013 sobretudo se todos sabemos o nosso papel de cor, isto \u00e9, de cora\u00e7\u00e3o! \u2013 t\u00ednhamos de falar? Pelo menos na Missa isso \u00e9 poss\u00edvel; bastante \u00e9 falar apenas com os olhos \u2013 em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p>Um destes dias, descendo eu, encontrei-o subindo a Rua do Carmo. Trazia-a uma saca pl\u00e1stica na m\u00e3o dum supermercado local. Quando nos cumprimentamos, ele ergueu a saca pelas asas, uma em cada m\u00e3o, e imp\u00f4s que eu visse o que trazia. E eu espreitei, claro, e vi; vi e mesmo perante a evid\u00eancia ainda lhe perguntei:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Que trazes a\u00ed, Fulano!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>De cora\u00e7\u00e3o enorme e palavras escassas, imperou-me:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Ola! Ola outra vez!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E eu voltei a olhar, claro. E quedei-me novamente sem perceber. A\u00ed, ele acrescentou:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 \u00c9 para a Igrecha! Vou \u00e0 Igrecha!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Estava ele, visivelmente confundido, e quase a embirrar comigo, como se eu houvera feito prop\u00f3sito de parvo; por\u00e9m, como que apercebendo-se de que eu continuava sem sinais de perceber, disse-me:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Fostetu que peliste!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Como fui eu que pedi, menino!?! <\/em>\u2013 Interrogava-me tamb\u00e9m eu a mim, meio descoro\u00e7oado e quase aborrecido.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Mas foste tu que peliste, pala o Fladinho!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Ah, sim, a\u00ed sim, a\u00ed finalmente acordei e percebi e fiz um grande e <em>Ahhhhh!<\/em> que quase o assustou! E eis que, em honra de tal dedicado menino, meu amigo e ajudante, o meu pres\u00e9pio deste ano, ter\u00e1 tamb\u00e9m uma Coca-Cola Zero. Ficar\u00e1 l\u00e1 em recorda\u00e7\u00e3o de tantas e tantos que, durante este Advento, mais uma vez, encheram <em>O Saquinho do Fradinho<\/em> e permitiram que, juntos, ajud\u00e1ssemos a preencher melhor o prato de algumas fam\u00edlias pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Bacalhau n\u00e3o deram, mas digo-vos uma coisa: aquela Coca-Cola Zero vale mais que o por\u00e3o dum navio carregado dele!<\/p>\n\n\n\n<p>*** Oito dias depois, foi uma <em>Pepsi<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ant\u00f3nio Pedro Pereira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E vou colocar o Ant\u00f3nio Pedro que morreu, hoje, antes dos cinquenta, a escassos dez dias do Natal. A ele, e aos que mais o choram: a mulher, Susana, a Bia e o Pedrito.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizem que morreu sentado numa cadeira no fundo de um navio. Trabalhando s\u00f3, morreu s\u00f3, sentado naquela cadeira. A cadeira n\u00e3o tinha folha d\u2019ouro nem berloques nem cornuc\u00f3pias nem veludo, mas ele nela morreu, ou como rei que manda, ou como almirante que abre uma rota nova no infinito mar.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, o meu pres\u00e9pio deste ano tem ainda uma cadeira e um rei, ou almirante; e nenhum deles maior que um humilde oper\u00e1rio. Como Jos\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Carmo do Fradinho e 16 de dezembro de 2024<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD S\u00f3 l\u00e1 muito no finzinho, j\u00e1 no fim da v\u00e9spera de Natal, num cantinho da minha cela, tamb\u00e9m eu armo o pres\u00e9pio. A m\u00e3e est\u00e1 l\u00e1. 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