{"id":3972,"date":"2024-11-30T03:35:00","date_gmt":"2024-11-30T03:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3972"},"modified":"2024-11-28T15:33:19","modified_gmt":"2024-11-28T15:33:19","slug":"natal-de-jesus-e-imagem-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/natal-de-jesus-e-imagem-de-deus\/","title":{"rendered":"Natal de Jesus e imagem de Deus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Aconteceu mesmo. Na sala onde decorria a prova de desenho, a professora passava por entre os alunos que rondavam os 6-8 anos, para os ajudar. A um dado momento, a sua aten\u00e7\u00e3o deteve-se junto da carteira de uma mi\u00fada: \u2013 \u00abQue est\u00e1 a menina a desenhar?\u00bb \u2013 \u00abEstou a pintar Deus\u00bb. \u2013 \u00abA pintar Deus? Mas nunca ningu\u00e9m viu Deus, ningu\u00e9m sabe como Ele \u00e9, ningu\u00e9m sabe a que se parece!\u00bb \u2013 \u00abN\u00e3o sabem?! Mas v\u00e3o ficar a saber! S\u00f3 mais 5 minutos!\u00bb. E a professora continuou sorridente, em p\u00e9s de veludo, por entre as crian\u00e7as, como se nada de importante tivesse acontecido. Na realidade, em surdina tinha desencadeado um acontecimento teol\u00f3gico de alto n\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora tinha raz\u00e3o: \u00abA Deus nunca ningu\u00e9m o viu\u00bb \u2013 afirma o evangelho de Jo\u00e3o (1,18). Mas a menina tamb\u00e9m. Vejamos. O evangelho continua: \u00ab\u2026o Filho unig\u00e9nito\u2026, ele \u00e9 que o revelou\/interpretou [deu a conhecer]\u00bb. Ou seja, segundo a f\u00e9 apost\u00f3lica, o Filho eterno de Deus in<em>carn<\/em>ou, isto \u00e9, in<em>corpo<\/em>rou-se (o conceito hebraico de <em>carne<\/em> remete para a realidade <em>corpo<\/em>), adquiriu um corpo no homem Jesus de Nazar\u00e9, que apareceu e foi acreditado como o rosto vis\u00edvel do Deus invis\u00edvel: qualquer tentativa de redu\u00e7\u00e3o desta <em>corporeidade<\/em> de Deus \u00e9 uma infidelidade \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana e ao Deus de Jesus. Paulo \u00e9 eloquente a respeito desta In<em>corpo<\/em>ra\u00e7\u00e3o: \u00ab\u2026Deus acendeu [a luz] nos nossos cora\u00e7\u00f5es, para iluminar o conhecimento da gl\u00f3ria de Deus no rosto de Jesus Cristo\u00bb (2Cor 4,6). Dado que na cultura hebraica a \u00abgl\u00f3ria\u00bb era o peso, o ser, a pessoa enquanto projectada para o exterior, Paulo queria dizer que a luz da f\u00e9 faz ver o esplendor de Deus reflectido no rosto de Jesus, que dava visibilidade a Deus. Pelo\/no rosto de Jesus a f\u00e9 pode reconhecer Deus: \u00abH\u00e1 tanto tempo que estou convosco e n\u00e3o me conheces, Filipe? Quem me viu viu o Pai! Como dizes tu \u201cmostra-nos o Pai\u201d? N\u00e3o acreditas que eu estou no Pai e o Pai est\u00e1 em mim?\u00bb (Jo 14,9-10). \u00abEu e o Pai somos um\u2026 O Pai est\u00e1 em mim e eu estou no Pai\u00bb (Jo 10,30.38). Estas afirma\u00e7\u00f5es insistentes de Jesus seriam desconcertantes, porventura blasfemas, aos ouvidos de um piedoso judeu contempor\u00e2neo: que Deus aparecesse num corpo era inconceb\u00edvel para ele. \u00c9 verdade que Jesus n\u00e3o disse como \u00e9 Deus. Sobre o \u201cquem \u00e9\u201d, diz simplesmente que \u00e9 Pai. Mesmo assim, a menina que ousou pintar Deus ter\u00e1 encontrado um bom modelo no corpo de Jesus, porventura ajudada tamb\u00e9m pelo ap\u00f3stolo Tom\u00e9, que viu Deus no homem Jesus ressuscitado, \u00abmetendo a m\u00e3o no seu lado\u00bb: \u00abMeu Senhor e meu Deus!\u00bb (Jo 20,28).<\/p>\n\n\n\n<p>O da imagem de Deus \u00e9 um segmento de espiritualidade muito apelativo na B\u00edblia. Cruza-se com o grande tema da proibi\u00e7\u00e3o de fazer imagens de Deus, atribu\u00edda a Ele pr\u00f3prio: \u00abN\u00e3o far\u00e1s para ti imagens esculpidas, nem representa\u00e7\u00e3o alguma\u00bb (Ex 20,4). A ideia subjacente a essa veda\u00e7\u00e3o, que perpassa todo o Antigo Testamento, significava que o verdadeiro Deus n\u00e3o \u00e9 apreens\u00edvel nem represent\u00e1vel por coisas materiais ou f\u00edsicas: \u00e9 radicalmente transcendente, invis\u00edvel, mist\u00e9rio absoluto. N\u00e3o se pode dispor d\u2019Ele como se disp\u00f5e dos \u00eddolos. As imagens de Deus usadas pela B\u00edblia s\u00e3o met\u00e1foras ou inevit\u00e1veis representa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o Natal de Jesus de Nazar\u00e9 foi neste ponto um sobressalto para a f\u00e9 b\u00edblica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 do Antigo Testamento. Sem embargo da proibi\u00e7\u00e3o de imagens de Deus, Jesus foi visto como \u00abimagem de Deus invis\u00edvel\u00bb (Cl 1,15), \u00abresplendor da Sua gl\u00f3ria\u00bb (Heb 1,3). Ent\u00e3o volta \u00e0 mem\u00f3ria a identifica\u00e7\u00e3o feita por Jesus: \u00abQuem me viu viu o Pai!\u00bb Saberia a menina que, ao querer pintar Deus, o poderia fazer pintando Jesus? Essa consci\u00eancia inconsciente tem a sua profundidade. De facto, para quem quiser ver e conhecer Deus, a maneira mais eficaz de o fazer \u00e9 procur\u00e1-lo em Jesus, o dos evangelhos, real, hist\u00f3rico e remissivo, que remete continuamente para Ele: na figura humana de Jesus h\u00e1 presen\u00e7a efectiva de Deus, embora necessariamente do Deus invis\u00edvel, que continuar\u00e1 a precisar de ser acreditado pela f\u00e9. Portanto, o desejo de ver em Jesus provada a exist\u00eancia de Deus tornar-se-ia miragem, por pretender ver o invis\u00edvel. A f\u00e9 do homem b\u00edblico j\u00e1 o sabia quando p\u00f4s Mois\u00e9s a falar com Deus: \u00abMois\u00e9s disse: Deixa-me ver a tua gl\u00f3ria. E Deus respondeu: Farei passar diante de ti toda a minha bondade\u2026 Mas n\u00e3o poder\u00e1s ver o meu rosto, pois o ser humano n\u00e3o pode ver-me e continuar a viver\u2026 O meu rosto n\u00e3o pode ser visto\u00bb (Ex 33,19-23).<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, num salto Espiritual sem precedentes, a identifica\u00e7\u00e3o de Jesus com o Pai tornou poss\u00edvel ver o rosto de Deus no rosto humano de Jesus. Esta inova\u00e7\u00e3o radical do cristianismo, que v\u00ea a hist\u00f3ria humana inundada pelo abrangente mist\u00e9rio da Incarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus, \u00e9 de tal grandeza que a maior parte das pessoas quase nem se apercebe dela. A Incarna\u00e7\u00e3o significa a humaniza\u00e7\u00e3o de Deus, tamb\u00e9m do seu amor. E o amor a Deus, de dif\u00edcil aprendizagem ou compreens\u00e3o, ficou facilitado, aproximado da sua realiza\u00e7\u00e3o efectiva, ao ser f\u00e1cil amar Jesus, presen\u00e7a humana de Deus. Foi o encontro de Deus com os humanos: encontro hist\u00f3rico, que, mesmo assim, teve de ser descoberto e \u2018validado\u2019 pela f\u00e9, t\u00e3o hist\u00f3rico como acreditado. Agora importa que as pessoas descubram as palavras e motiva\u00e7\u00f5es apropriadas para encontrar Deus e para se encontrarem com Ele. Porqu\u00ea n\u00e3o aproveitar o Natal de Jesus para o fazerem?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Aconteceu mesmo. Na sala onde decorria a prova de desenho, a professora passava por entre os alunos que rondavam os 6-8 anos, para os ajudar. 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