{"id":3940,"date":"2024-10-31T02:59:00","date_gmt":"2024-10-31T02:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3940"},"modified":"2024-10-29T14:01:05","modified_gmt":"2024-10-29T14:01:05","slug":"cheias-diluvio-e-deus-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/cheias-diluvio-e-deus-ii\/","title":{"rendered":"Cheias, dil\u00favio e Deus \u2013 II"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na interpreta\u00e7\u00e3o do relato b\u00edblico do dil\u00favio no livro do G\u00e9nesis 6-9, diz\u00edamos no m\u00eas passado que era m\u00edtico e, porque tencionava dar sentido humano e religioso a realidades custosas da vida humana, punha em cena uma transgress\u00e3o humana, n\u00e3o moral, que nos mitos de origem deveria ser inevitavelmente punida. Ora, aqui a consequente \u2018puni\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9 o dil\u00favio. Reduz e redimensiona a excessiva multiplica\u00e7\u00e3o da humanidade \u00e0 face da terra, como no mito de Atra\u1e25asis. Tamb\u00e9m n\u00e3o equivale a um castigo moral de pecados humanos, at\u00e9 porque Deus declara \u201cexterminar tamb\u00e9m o gado, os r\u00e9pteis e at\u00e9 as aves do c\u00e9u\u201d (Gn 6,7), que evidentemente n\u00e3o s\u00e3o sujeitos capazes de responsabilidade e pena moral. Dado o contexto e o g\u00e9nero liter\u00e1rio m\u00edtico do relato, n\u00e3o se pode entender como se a morte fosse a consequ\u00eancia do pecado nem como se No\u00e9 fosse salvo pela miseric\u00f3rdia de Deus. Na realidade, o dil\u00favio \u00e9 criador: est\u00e1 encenado em fun\u00e7\u00e3o do inteiro processo de cria\u00e7\u00e3o descrito em Gn 1-11.<\/p>\n\n\n\n<p>Que cria Deus com o dil\u00favio? Cria e \u2018explica\u2019 a condi\u00e7\u00e3o mortal de <em>todos<\/em> os seres vivos, especialmente da humanidade, dando-lhe o mais elevado sentido. \u00c9 por essa raz\u00e3o que a narra\u00e7\u00e3o atribui a <em>toda<\/em> a humanidade a causa do dil\u00favio (\u201c<em>toda<\/em> a carne tinha um comportamento viciado sobre a terra\u201d: Gn 6,12) e p\u00f5e Deus a dar morte a \u201c<em>toda<\/em> a carne\u201d: \u201cPereceu <em>toda<\/em> a carne que se move sobre a terra\u2026, bem como <em>toda<\/em> a humanidade. <em>Tudo<\/em> o que tinha alento de vida nas narinas\u2026 <em>morreu<\/em>. Assim foram <em>exterminados<\/em> [a tradu\u00e7\u00e3o grega do s\u00e9c. III a.C. entendeu que foi <em>Deus<\/em> quem<em> exterminou<\/em>] <em>todos<\/em> os seres que se encontravam \u00e0 face da terra, desde os seres humanos at\u00e9 aos animais selvagens\u201d (Gn 7,21-23). Diz o mesmo que a epopeia de Gilgame\u0161: \u201cA humanidade inteira tornou-se de novo argila\u201d (Tabuinha XI, 133 e 173). \u201cO dil\u00favio varreu\/levou (tudo)\u201d \u2013 diz a <em>Lista dos reis sum\u00e9rios<\/em>. No mito de Atra\u1e25asis \u00e9 destru\u00edda com o dil\u00favio toda a humanidade, menos a fam\u00edlia do protagonista.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir do novo rebento que \u00e9 No\u00e9 e com a nova ordem mundial depois do dil\u00favio, o processo de cria\u00e7\u00e3o \u2013 que, a n\u00edvel de compila\u00e7\u00e3o de Gn 1-11, come\u00e7a em Gn 1 \u2013 avan\u00e7a para nova fase, decisiva, que apronta a humanidade para entrar na hist\u00f3ria propriamente dita, relatada a partir de Gn 12 com a hist\u00f3ria de Abra\u00e3o, descendente do filho de No\u00e9 (Gn 11,10-32). Deus poupa miticamente um piedoso <em>resto<\/em> para avan\u00e7ar, na sucessiva fase do processo de cria\u00e7\u00e3o, com um fundamento humano que garantisse a estabilidade perene da conhecida ordem do mundo e da humanidade. No\u00e9 n\u00e3o \u00e9 destinado a salvar a humanidade. Tem a fun\u00e7\u00e3o de dar continuidade \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da humanidade. A cena do sacrif\u00edcio depois do dil\u00favio (8,20-22), an\u00e1logo ao oferecido pelos sobreviventes do dil\u00favio na epopeia de Gilgame\u0161 e no mito de Atrahasis, significa o <em>re<\/em>stabelecimento duradoiro das actuais rela\u00e7\u00f5es entre Deus e a humanidade, que aceita os pr\u00f3prios limites face a Deus, transcendente: significa o reconhecimento humano de que Deus \u00e9 Deus e \u00e9 o Senhor da terra.<\/p>\n\n\n\n<p>A segura dura\u00e7\u00e3o do mundo at\u00e9 ao presente do narrador e para o futuro ficava celebrada pelo s\u00edmbolo de uma \u201calian\u00e7a perp\u00e9tua\u201d, o \u201carco-\u00edris\u201d ou \u201carco-da-velha [alian\u00e7a]\u201d (9,8-17), significando que Deus se demarca da hostilidade contra a humanidade. A alian\u00e7a congra\u00e7a o orbe terr\u00e1queo com o firmamento celeste, une o c\u00e9u com a terra, mantendo distintos os dois mundos: o humano e o transcendente. O deslumbrante jogo de cores n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 forma est\u00e9tica. \u00c9 o grande s\u00edmbolo da perfeita harmonia entre Deus criador (9,10.13) e o universo visto como criado.<\/p>\n\n\n\n<p>O mito do dil\u00favio p\u00f5e Deus a <em>penal<\/em>izar toda a humanidade porque queria \u2018justificar\u2019 o car\u00e1cter <em>peno<\/em>so da mortalidade humana e a ordem do mundo em que <em>todos<\/em> morremos. Conta que Deus \u00e9 o criador da mortalidade humana, mas n\u00e3o o seu produtor e causa imediata. Ela n\u00e3o \u00e9 moralmente imposta: \u00e9 miticamente sugerida. Pela linguagem figurada e n\u00e3o pela hist\u00f3ria factual, o narrador pensava a morte diante de Deus: faz parte da condi\u00e7\u00e3o humana mortal, n\u00e3o \u00e9 uma fatalidade devida a um acidente original ou a uma culpa humana. A mentalidade de culpabiliza\u00e7\u00e3o, ainda existente em v\u00e1rias religi\u00f5es e no cristianismo, n\u00e3o \u00e9 sinal de uma religi\u00e3o falsa; \u00e9 ind\u00edcio de religiosidade imatura, que n\u00e3o consegue dar sentido \u00e0 morte de maneira positiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o dil\u00favio \u00e9 mais do que a hist\u00f3ria duma c\u00e9lebre cat\u00e1strofe universal para um filme de sucesso: com fun\u00e7\u00e3o fundante, essencial no mito de origem, medita na ordem c\u00f3smica e nas suas leis como divinamente estabelecidas para sempre. Se as interpreta\u00e7\u00f5es tradicionais desta narra\u00e7\u00e3o turvavam a capta\u00e7\u00e3o da imagem de Deus, visto como cruel destruidor de toda a humanidade hist\u00f3rica, a interpreta\u00e7\u00e3o contextualizada descobre Deus como senhor e origem de tudo o que existe.<\/p>\n\n\n\n<p>O mito gerava uma nova sabedoria e evitava o pessimismo. Sugeria que onde h\u00e1 morte h\u00e1 drama. Mas possibilitava uma nova conviv\u00eancia com ela, associando-a a Deus. Sabia, que no jogo de xadrez com a morte ningu\u00e9m lhe consegue dar xeque-mate; como diria Homero, \u00aba morte chega a quem nada faz e a quem muito alcan\u00e7a\u00bb (<em>Il\u00edada<\/em>, IX, 320): \u00e9 uma pot\u00eancia destruidora dos n\u00f3s e dos la\u00e7os vivos. Mesmo assim, enfrentou-a, com o leitor, diante de Deus, procurando desse modo dar-lhe o sentido \u00faltimo, que \u00e9 Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00bb Ler artigo <a href=\"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/cheias-diluvio-e-deus\/\">Cheias, dil\u00favio e Deus \u2013 I<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Na interpreta\u00e7\u00e3o do relato b\u00edblico do dil\u00favio no livro do G\u00e9nesis 6-9, diz\u00edamos no m\u00eas passado que era m\u00edtico e, porque tencionava dar sentido humano e religioso [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3925,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3940","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3940","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3940"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3940\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3941,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3940\/revisions\/3941"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3925"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3940"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3940"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3940"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}