{"id":3906,"date":"2024-09-30T02:31:00","date_gmt":"2024-09-30T02:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3906"},"modified":"2024-10-29T14:02:29","modified_gmt":"2024-10-29T14:02:29","slug":"cheias-diluvio-e-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/cheias-diluvio-e-deus\/","title":{"rendered":"Cheias, dil\u00favio e Deus \u2013 I"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><br><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto Portugal ardia irrecuper\u00e1vel, outras regi\u00f5es do orbe terr\u00e1queo n\u00e3o sabiam como lidar com as cheias e as chuvas diluvianas, que causam cat\u00e1strofes e arrastam muitas vidas com elas. Quando acontecem, h\u00e1 quem pense no dil\u00favio b\u00edblico. N\u00e3o s\u00e3o a mesma realidade. Mas s\u00e3o uma ocasi\u00e3o para desconstruir o relato do livro do G\u00e9nesis 6,5-9,17 e para construir o seu sentido. Que queria dizer, quando foi escrito entre os s\u00e9culos X e V a.C.?<\/p>\n\n\n\n<p>Por falta da necess\u00e1ria leitura contextualizada, desembocou frequentemente \u2013 na hist\u00f3ria da espiritualidade tradicional e fora dela \u2013 em interpreta\u00e7\u00f5es enviesadas de alguns dos seus temas, acusando Deus de crueldade implac\u00e1vel na destrui\u00e7\u00e3o impiedosa da humanidade: nesse contexto, Saramago, no seu romance Caim, p\u00f5e as personagens a chamarem Deus \u00abinvejoso\u2026, malvado e infame\u00bb (Editorial Caminho 2009; pp. 164.180). Pensou-se que \u00aba descarga de chuva sobre a Terra quarenta dias e quarenta noites\u00bb puniria com cores sombrias o ponto mais alto da onda do pecado \u2013 que teria vindo a crescer, desde a rebeli\u00e3o de \u2018Ad\u00e3o\u2019 contra Deus, passando pela revolta do homem (Caim) contra o homem e culminando na \u00abviol\u00eancia que encheu a Terra\u00bb: \u00abToda a carne tinha corrompido o seu caminho sobre a terra\u00bb. A hist\u00f3ria do dil\u00favio daria um perene ensinamento sobre a justi\u00e7a e a miseric\u00f3rdia de Deus e sobre a extrema mal\u00edcia humana, em que o grav\u00edssimo pecado da humanidade s\u00f3 poderia ser lavado com o exemplar castigo do dil\u00favio c\u00f3smico: significaria que Deus n\u00e3o \u00e9 indiferente diante do mal moral e da injusti\u00e7a e que interviria matando toda a humanidade pecadora e concedendo a salva\u00e7\u00e3o ao justo. Seria uma grande li\u00e7\u00e3o moral e indicaria o mist\u00e9rio do mal e do julgamento divino, executado de modo dur\u00edssimo e inexor\u00e1vel, prefigurando o \u2018ju\u00edzo final\u2019. E ligava-se a Lc 17,26ss e a Mt 24,37-39: \u00abComo sucedeu nos dias de No\u00e9, assim suceder\u00e1 tamb\u00e9m nos dias do Filho do Homem\u2026\u00bb).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas identificar a sua mensagem com a justi\u00e7a e a miseric\u00f3rdia de Deus \u00e9 ir\u00f3nico e cruel, dado que a narra\u00e7\u00e3o apresenta Deus a poupar s\u00f3 uma fam\u00edlia e a destruir toda a humanidade (\u201cpereceu toda a carne\u201d: Gn 7,19-24): isso \u00e9 miseric\u00f3rdia?! Ali\u00e1s, n\u00e3o se d\u00e1 antes do dil\u00favio um aviso premonit\u00f3rio aos supostos pecadores, no sentido de se arrependerem e se converterem para n\u00e3o perecerem! Essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 insustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender a hist\u00f3ria b\u00edblica do dil\u00favio, \u00e9 indispens\u00e1vel situ\u00e1-la no seu contexto cultural, liter\u00e1rio e religioso. Ora, ela \u00e9 uma vers\u00e3o da conhecida tradi\u00e7\u00e3o narrativa do dil\u00favio, testemunhada no contexto cultural do antigo Pr\u00f3ximo Oriente desde o tempo dos sum\u00e9rios (j\u00e1 pelo 3500 a.C.) at\u00e9 ao per\u00edodo helenista, no s\u00e9c. IV a.C. Principais relatos conhecidos, evidentemente paralelos ao do dil\u00favio b\u00edblico, com os respectivos sobreviventes correspondentes a No\u00e9: um texto sum\u00e9rio de Nippur (em que o correspondente a No\u00e9 \u00e9 Ziusudra), o mito de Atra\u1e25asis (sobrevivente com a fam\u00edlia, com o papel do No\u00e9 b\u00edblico e fam\u00edlia), redigido em ac\u00e1dico l\u00e1 pelo ano 1600 a.C., a tabuinha XI da epopeia de Gilgame\u0161 (com Utnapi\u0161tim e sua mulher a corresponderem a No\u00e9 e sua fam\u00edlia), em ac\u00e1dico na primeira metade do II mil\u00e9nio, e a vers\u00e3o do sacerdote mesopot\u00e2mico Beroso, s\u00e9c. IV a.C. (com Xisuthros a corresponder ao Ziusudra do mito sum\u00e9rio do dil\u00favio e ao No\u00e9 b\u00edblico). O confronto deles com a narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica obriga a concluir que ela est\u00e1 influenciada por eles. Como eles s\u00e3o mitos de origem, tamb\u00e9m o relato b\u00edblico do dil\u00favio \u00e9 mito de origem, um relato imaginado em fun\u00e7\u00e3o do sentido humano e religioso a dar a realidades da vida, atribu\u00eddas, para isso, a um acto criador da divindade. O mito n\u00e3o \u00e9 mentira. Pelo contr\u00e1rio, contando numa hist\u00f3ria sagrada a vinda das coisas \u00e0 exist\u00eancia, sublima o real, fazendo-o remontar ao original, \u00e0s origens, ao tempo sem tempo que \u00e9 o tempo de Deus: o que conta n\u00e3o sucedeu; liga a vida a Deus. N\u00e3o sendo aceit\u00e1vel decompor a sua linguagem em linguagem factual, n\u00e3o podemos considerar o dil\u00favio doloroso para a terra, para os humanos e para Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Lendo a narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica neste seu contexto, constatamos que a compila\u00e7\u00e3o dos relatos que agora formam G\u00e9nesis 1-11 tem os temas, o contexto e a estrutura liter\u00e1ria da tradi\u00e7\u00e3o m\u00edtica mesopot\u00e2mica sobre o dil\u00favio. Nela, o dil\u00favio insere-se numa narra\u00e7\u00e3o mais ampla e dela deriva o significado. \u00c9 assim na epopeia de Gilgame\u0161, no mito de Atra\u1e25asis e nas Babylon\u00edaka de Beroso. Dado que os mitos de origem descrevem um processo de cria\u00e7\u00e3o divina longo, nestes agora mencionados o dil\u00favio aparece como mais uma etapa, miticamente necess\u00e1ria, desse processo de cria\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana. \u00c9 o que temos tamb\u00e9m no G\u00e9nesis.<br>Aqui, o dil\u00favio aparece como puni\u00e7\u00e3o de uma transgress\u00e3o, ambas miticamente imaginadas. A motiva\u00e7\u00e3o para Deus o decidir e desencadear \u00e9 a \u201ccorrup\u00e7\u00e3o da terra diante de Deus, cheia de viol\u00eancia\u201d (Gn 6,11-13): \u201ca maldade do homem era grande sobre a terra e todos os pensamentos que o seu cora\u00e7\u00e3o concebia eram s\u00f3 e cada vez mais depravados\u201d (Gn 6,5). Esta \u201cviol\u00eancia\u201d n\u00e3o \u00e9 factual. Como nos mitos de origem que queriam \u2018explicar\u2019 realidades penosas da vida, tem a fun\u00e7\u00e3o de uma transgress\u00e3o primordial, como a hybris grega: contando que os humanos criados por Deus estariam a interferir no mundo divino, o mito significa que n\u00e3o se pode p\u00f4r em causa a ordem do universo e a fronteira intranspon\u00edvel que deve distinguir necessariamente o ser humano do Ser divino (\u201ccorrup\u00e7\u00e3o da terra diante de Deus), a iman\u00eancia da transcend\u00eancia. A transgress\u00e3o \u00e9 metaf\u00f3rica, uma causa desproporcionada, sem cores \u00e9ticas ou morais. \u00c9 funcional, um pretexto procurado para que o dil\u00favio apare\u00e7a \u2018justificado\u2019 e n\u00e3o como decis\u00e3o arbitr\u00e1ria e caprichosa da divindade. <sup><a href=\"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3940\">[o mais interessante da explica\u00e7\u00e3o seguir\u00e1 no pr\u00f3ximo n\u00famero]<\/a><\/sup><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Enquanto Portugal ardia irrecuper\u00e1vel, outras regi\u00f5es do orbe terr\u00e1queo n\u00e3o sabiam como lidar com as cheias e as chuvas diluvianas, que causam cat\u00e1strofes e arrastam muitas vidas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3907,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3906","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3906","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3906"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3906\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3943,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3906\/revisions\/3943"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3907"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3906"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3906"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3906"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}