{"id":3904,"date":"2024-09-30T02:30:00","date_gmt":"2024-09-30T02:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3904"},"modified":"2024-09-27T13:31:21","modified_gmt":"2024-09-27T13:31:21","slug":"a-oracao-e-a-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-oracao-e-a-cidade\/","title":{"rendered":"A ora\u00e7\u00e3o e a cidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para come\u00e7o, sinto necessidade de contar duas est\u00f3rias. A\u00ed v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeira. Fui novi\u00e7o na verdura dos meus dezoito anos \u2013 essa idade em que tudo sabemos e nada tememos; ou, pelo menos, eu era assim.<\/p>\n\n\n\n<p>Recordo que durante o meu tempo de Noviciado a nossa Prov\u00edncia recebeu a Visita Can\u00f3nica Geral, na pessoa de Frei Francisco Javier Jaramillo. Era colombiano. Gostei do homem: era ameno, atento e firme, paciente, dispon\u00edvel, simp\u00e1tico e entrevistou-se, inclusive, com cada um dos cinco novi\u00e7os que \u00e9ramos. Pela candura do seu esp\u00edrito e pela luz da sua intelig\u00eancia \u2013 e \u00e0quela data eu n\u00e3o era mais f\u00e1cil de convencer que hoje \u2013 como tanto apreciei falar com ele!<\/p>\n\n\n\n<p>Recordo que depois de nos ter escutado a todos durante uma manh\u00e3 inteira, almo\u00e7\u00e1mos. E depois do almo\u00e7o ficou-se a cavaquear connosco sobre como era a Ordem, onde estava, para onde se esticava ou esticaria, e para onde apontariam os voos futuros que seriam tamb\u00e9m os nossos, claro est\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>O di\u00e1logo terminou assim:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Bem, vou <em>fazer nada<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 <em>Fazer nada<\/em>, inquiri, ignorante, quase sentindo-me insultado?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Sim, gosto muito de <em>fazer nada<\/em>, recalcou semi-ir\u00f3nico, voltado para mim, talvez intuindo que assim mais me espevitaria!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Vai fazer a sesta, curioso e indelicado, insisti?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 N\u00e3o, n\u00e3o! Eu n\u00e3o fa\u00e7o sesta. A essa hora <em>fa\u00e7o nada<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei t\u00e3o perturbado com aquele seu inexplicado <em>fazer nada<\/em> que sa\u00ed da roda bem antes dele \u2013 eu era um bocado bruto, convenhamos&#8230; \u2013, mas a maravilha vem a seguir. N\u00e3o sei porqu\u00ea nem para qu\u00ea \u2013 para espi\u00e1-lo n\u00e3o foi, isso tenho tanta certezinha como a de estar vivo! \u2013 acabei por entrar na igreja pela porta claustral e, inadvertido, dei de chofre com o P. Jaramillo, serenamente ajoelhado diante do sacr\u00e1rio, com a cabe\u00e7a entre as suas duas grandes m\u00e3os! Ao ver a cena desbloqueou-se-me a torpeza da mente, ao mesmo tempo que me falhou a agilidade e desenvoltura para dali me retirar atempadamente, pelo que acabei entrando devagarinho, e acolitei-o, ajoelhado, dois ou tr\u00eas bancos atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele ali <em>fazia nada<\/em>, afinal,e fez por longo tempo; e eu olhava como fazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Segunda. Anos mais tarde, j\u00e1 sacerdote, por causa da constru\u00e7\u00e3o do Monte dos Mist\u00e9rios do Menino Jesus, em Avessadas, vi-me imerso numa interven\u00e7\u00e3o com artistas, no Porto. Foi um momento curioso. Para que os <em>Mist\u00e9rios<\/em> da Santa Inf\u00e2ncia de Jesus se constru\u00edssem haviam-me exigido que os descrevesse por escrito e a voz viva, quanto ao significado e ao figurativo que deveria constar em cada um dos doze. Por meses a fio, tive de explicar, e bem argumentar, mesmo aqueles que n\u00e3o lhes pareciam hist\u00f3ricos e que, por <em>\u00abserem efabulados pela teologia\u00bb<\/em>, diziam eles, n\u00e3o mereciam ser constru\u00eddos. Quando me apercebi de tal pedido feito em tom de amea\u00e7a, dei comigo a perceber que aquilo at\u00e9 poderia tornar-se uma oportunidade de catequese. Se o foi ou n\u00e3o, n\u00e3o sei. Sei que sess\u00f5es houve, em que os <em>catequizandos<\/em> chegaram a mais de vinte!<\/p>\n\n\n\n<p>De facto, o caminho que come\u00e7ara comigo e com o mestre escultor, e com o senhor Joaquim que lhe varria o atelier, acabou por, de quinze em quinze dias, reunir muitos e muitas, alguns deles figuras p\u00fablicas, das artes, das televis\u00f5es, da justi\u00e7a e da pol\u00edtica. Nunca aquilo me intimidou at\u00e9 ao dia em que verdadeiramente fiquei encavacado. Estava eu muito animado a injectar-lhes a minha narrativa \u2013 a que eles correspondiam respeitosamente \u2013 quando algu\u00e9m, igualmente mui respeitoso, me perguntou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Visto que voc\u00ea \u00e9 carmelita, diga-me uma coisa: Que fazem as carmelitas nos seus carmelos? Para que rezam tanto? Que acrescenta a ora\u00e7\u00e3o dos contemplativos \u00e0 sociedade? Porque n\u00e3o v\u00e3o antes trabalhar na ac\u00e7\u00e3o social? Ou dar aulas? Ou cuidar de criancinhas, como a Madre Teresa de Calcut\u00e1? Porque n\u00e3o v\u00e3o\u2026 varrer ruas?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu que sempre fui mais questionado (e sobressaltado) pelos de fora que pelos de dentro, s\u00f3 uma vez me vi verdadeiramente humilhado por um deles, mas n\u00e3o desta, embora esta me tenha perturbado a tal ponto que n\u00e3o consegui responder. Ca\u00edra-me uma nuvem tal na cabe\u00e7a que, quando come\u00e7ava a esbo\u00e7ar o princ\u00edpio da resposta, quase pressenti o V de vit\u00f3ria da plateia. E algum gozo. Antes, por\u00e9m, que fosse vencido, levantou-se um homem \u2013 um Juiz Conselheiro \u2013 que sempre se mantinha calado, deu um passo em minha direc\u00e7\u00e3o e articulou uma resposta n\u00e3o muito longa, mas t\u00e3o ajustada que parecia o Papa Paulo VI a falar! Fiquei-me <em>t\u00e3o tamanhamente<\/em> assarapantado que nem lhe agradeci \u2013 prendera-se-me a l\u00edngua, pois nunca jamais ouvira um te\u00f3logo falar assim! Passados tantos anos, j\u00e1 n\u00e3o lembro quem o homem seja. J\u00e1 n\u00e3o lembro o que disse; ali\u00e1s, o lado da improbabilidade do que dito naquele contexto \u00e9 o que ainda hoje mais me se continua a surpreender. Lembro simplesmente o modo como disse e que sim, que defendeu a ora\u00e7\u00e3o por si e em si mesma. E os contemplativos.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrando estas duas est\u00f3rias que, ainda hoje, tanto me fincam e alavancam, espero que neste texto possa alinhavar o contributo da ora\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade. Que cidade, afinal, constroem os homens e mulheres que <em>fazem nada<\/em>? Entenda-se que <em>fazer nada<\/em> \u00e9 muito diferente de <em>n\u00e3o fazer nada<\/em>, porque <em>fazer nada<\/em> tomo-o por rela\u00e7\u00e3o gratuita, por ora\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio de negociar com, tomo-o pela actividade humana mais improdutiva que existe e por isso t\u00e3o negligenciada, t\u00e3o desprezada, t\u00e3o ignorada. Rezar n\u00e3o d\u00e1 sorte, n\u00e3o d\u00e1 dinheiro, n\u00e3o planeia nem acrescenta riqueza. Num tempo em que quase unicamente se vive para tal, que valor pode ter a ora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para in\u00edcio de conversa, assumamos o que ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 negociar com Deus, nem fazer-Lhe exig\u00eancias; n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel a pedir-Lhe coisas, nem a procurar que ande enredado e ocupado connosco; n\u00e3o \u00e9 do dom\u00ednio da terap\u00eautica, nem qualquer tipo de medita\u00e7\u00e3o que pacifique e edulcore; n\u00e3o \u00e9 uma forma de O controlar, nem d\u00e1 estatuto, merc\u00ea ou vaidade espiritual que se exiba na lapela, e ajude a abrir as portas certas.<\/p>\n\n\n\n<p>(Ah, como choro, lamento e estarre\u00e7o se o per\u00edodo anterior reduz quase cem por cento da ora\u00e7\u00e3o que somos e fazemos n\u00f3s, os cat\u00f3licos, \u2013 e dos outros nem falo \u2013 que, ou rezamos muito pouco, ou nos dedicamos qu\u00e1si s\u00f3 a pedir, qu\u00e1si s\u00f3 exigir, qu\u00e1si s\u00f3 a comprar ou a chantagear a Deus!)<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, pedir faz parte da ora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 prop\u00f3sito \u00fanico da ora\u00e7\u00e3o. Na ora\u00e7\u00e3o rezamos pelas nossas necessidades, mas orar \u00e9 muito mais que nos auto-referenciarmos. N\u00e3o, nem Deus \u00e9 um g\u00e9nio m\u00e1gico, preso numa lamparina que, sob certas condi\u00e7\u00f5es \u2013 por exemplo, dizermos a senha certa! \u2013 se revele dispon\u00edvel a corresponder aos nossos pedidos, a satisfazer as nossas necessidades ou desejos, ou os alheios, que incessantemente Lhe choraminguemos; n\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e1quina que vomite moedas d\u2019ouro, mapas de tesouro ou p\u00edlulas de felicidade, e tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um invertebrado qualquer que possa ser manipulado por controlo remoto, atrav\u00e9s nossas preces, mezinhas ou l\u00e1grimas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 assunto t\u00e3o desconcertante que frequentemente escapa aos te\u00f3logos, aos experts, aos poderosos e aos s\u00e1bios. J\u00e1, por\u00e9m, \u00e9 habitual e gratuitamente franqueado aos pequeninos, perante cuja humildade se desfazem os segredos das bisagras que a velam e a resguardam.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu levo muito a s\u00e9rio a palavra do Ap\u00f3stolo Paulo aos Romanos, quando nos diz: <em>\u00abv\u00f3s n\u00e3o sabeis rezar como conv\u00e9m\u00bb<\/em> (8:26); e depois recomenda que sondemos com frequ\u00eancia o Esp\u00edrito Santo, para que interceda por n\u00f3s com palavras que n\u00e3o conhecemos. (N\u00e3o \u00e9 este o espa\u00e7o para desvelamentos, mas l\u00e1 que \u00e9 verdade que j\u00e1 lhe tenho sussurrado: \u2013 V\u00ea l\u00e1, tu, \u00f3 Esp\u00edrito, nas que estou metido! Olha que eu sei que sabes que eu sei e posso. Mas tamb\u00e9m sei que se agora Tu n\u00e3o me ajudas o que ser\u00e1 de mim?! A\u00ed, sim, isso lho tenho dito, e mais vezes do que alguma vez julguei vir a dizer-lhas!<\/p>\n\n\n\n<p>E a coisa l\u00e1 se resolve, mas nem sempre no modo que eu cuidaria mais plaus\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Rezar \u00e9 falar com Deus, \u00e9 falar com o Pai. \u00c9 reconhecer que s\u00f3 Ele \u00e9 pai, fonte e origem de tudo e de mim. Minha refer\u00eancia, meu sol e minha chuva. Meu mar, meu calor e conforto. N\u00e3o \u00e9 nunca segundo, s\u00f3 primeiro. Sempre. \u00c9 cromo \u00fanico e irrepet\u00edvel, logo imposs\u00edvel de d\u00e1-lo ou troc\u00e1-lo por mil outros, ou qualquer outro. \u00c9 donde vimos, \u00e9 para onde vamos. Queiramo-lo ou n\u00e3o, que n\u00e3o sei como n\u00e3o haveremos de n\u00e3o quer\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu entendia-me com o meu pai. A diferen\u00e7a entre pai e Pai \u00e9 que, um dia, aquele pai envelhece e vira filho dos filhos; j\u00e1 este Pai n\u00e3o envelhece nunca, n\u00e3o tem origem nem fim, \u00e9 Ele a origem, \u00e9 sempre Pai e n\u00f3s sempre seus filhos. N\u00e3o permite nem aceita troca de papeis. \u00c9 sempre o Criador, e n\u00f3s, passaritos como no ninho, sempre dispon\u00edveis para abrir a boquita\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Meu pai era mais de aben\u00e7oar que de falar. Um dia falei com ele sobre cigarros; n\u00e3o mos proibia porque n\u00e3o tinha autoridade, mas partindo da sua experi\u00eancia, tamb\u00e9m n\u00e3o mos recomendava. Que escolhesse livros. Preferi os livros e ainda hoje \u00e9 estes que fumo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quem diga que rezar \u00e9 como falar com um amigo, e eu aceito. Mas O amigo \u00e9 t\u00e3o especial, t\u00e3o senhor e criador \u2013 o \u00fanico, ali\u00e1s \u2013, que eu prefiro chamar-lhe Pai, prefiro chamar-lhe Jesus e chamar-lhe Esp\u00edrito Santo. \u00c9; n\u00e3o se fala igual com pessoas diferentes\u2026 E neste meu falar brotam palavras, tu c\u00e1, tu l\u00e1, brotam preces, crescem n\u00f3s na garganta da alma, e noutras vezes dissolvem-se, digo-lhe como estou, se estou stressado, se calmo, se explosivo, impulsivo ou melanc\u00f3lico, e \u00e0s vezes, ou muitas vezes, ingrato sou, e nem Lhe digo nada, de t\u00e3o cansado e cabe\u00e7a no ar ando. Falo-Lhe de planos e, por vezes, perscruto os que para mim tenha. E arrependo-me da minha impulsividade feroz, da minha teimosia que raramente me deixa ver claramente visto o que para Ele \u00e9 t\u00e3o claro. Diante Dele tamb\u00e9m choro, mas bebo as l\u00e1grimas para que n\u00e3o sejam mal-vistas. Imagino-O a meu lado (ou sinto-O?) ou sinto que salto para dentro do cen\u00e1rio em que Ele esteja. Espanto-me que caiba no sacr\u00e1rio, que ali fique preso, que ali se apouque, que t\u00e3o poucos O visitem \u2013 ali ou nos doentes, para mim \u00e9 sacramentalmente verdade. E penso. N\u00e3o direi aqui tudo o que pense, porque penso nos santos antigos, nos que ningu\u00e9m conhece, nos que s\u00f3 eu conhe\u00e7o, nos de hoje, espalhados pelas selvas, sejam de alcatr\u00e3o ou de cobras. Enfim, penso nas cobras e nos anjos, e em tudo o que fica de permeio. Diante do sacr\u00e1rio, gosto de me p\u00f4r a pensar como quem est\u00e1 junto \u00e0 fonte porque, assim pensando, voo sobre oceanos infindos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei se sei rezar. Admito que inteiramente n\u00e3o saiba. N\u00e3o tenho autoestradas, tenho carreiros de montanha. E, sobretudo, o Esp\u00edrito Santo. Sei, e este saber n\u00e3o \u00e9 de saber-saber, mas de alguma experi\u00eancia que vou tendo: que nunca sou t\u00e3o livre como na ora\u00e7\u00e3o. Sei que o importante ou o centro eu nunca o sou, mas Quem diante estou. J\u00e1 me incomodou mais o sil\u00eancio, mas agora prefiro-o, inclusive, \u00e0 m\u00fasica suave. J\u00e1 fui mais dado \u00e0s palavas, \u00e0s letras, ao di\u00e1rio e at\u00e9 a fazer ora\u00e7\u00f5es ou poemas. Agora, \u00e9 mais ouvir. J\u00e1 muito me incomodei com o tecto \u2013 se as ora\u00e7\u00f5es ficavam l\u00e1 a bater como os bal\u00f5es! \u2013, agora sei que mesmo que o c\u00e9u seja de bronze, Ele o fendeu de uma vez por todo o sempre! Posso n\u00e3o ouvi-l\u2019O; ali\u00e1s, n\u00e3o O oi\u00e7o, j\u00e1, por\u00e9m, n\u00e3o concebo um Pai que n\u00e3o ou\u00e7a um filho, lhe n\u00e3o enxugue as l\u00e1grimas, se negue a lev\u00e1-lo pela m\u00e3o e, quando necess\u00e1rio, ao colo sobre o abismo \u2013 logo de certeza Ele me ouve.<\/p>\n\n\n\n<p>Orar n\u00e3o \u00e9 simples, mas \u00e9 mais simples para os sem arrimo e os simples. E para quantos t\u00eam a coragem e a humildade de Lhe dizer: <em>\u2013 ensina-nos a rezar<\/em>. \u00c0s vezes n\u00e3o rezo nada e fico-me como a outra \u2013 ao que contam a outra foi Santa Teresa \u2013 que n\u00e3o querendo fugir da ora\u00e7\u00e3o ficou diante do Sant\u00edssimo a contar os tijolos da parede. (Eu \u00e9 mais anjos\u2026) Conta-se que um dia, perguntou ao Senhor:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Qual foi a vez em que a minha ora\u00e7\u00e3o mais te agradou?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Aquela em que ficaste a contar tijolos,<\/em> ripostou-lhe<em>.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes, duvido desta est\u00f3ria, por uma simples raz\u00e3o: o que seduz e vence o cora\u00e7\u00e3o de Deus n\u00e3o \u00e9 a persist\u00eancia, mas que O amemos, O estimemos, O prefiramos por cima de quanto exista. Mas uma coisa n\u00e3o nega a outra necessariamente. Outras vezes, como leio no Evangelho, a ora\u00e7\u00e3o de peti\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 insistir: e se, de facto, nunca ela muda a Deus segundo a nossa conveni\u00eancia, porque Deus n\u00e3o muda nunca, ent\u00e3o, se insistirmos, se precisarmos de insistir, \u00e9 porque algu\u00e9m precisa de mudar, n\u00f3s! E ent\u00e3o digo-me: porque pedes, Jo\u00e3o? Porque rezas como os pag\u00e3os e s\u00f3 pedes? Porque n\u00e3o adoras? Porque n\u00e3o te limitas a adorar? Porqu\u00ea, pobre bichinho, tu n\u00e3o O reconheces como Pai que te ama, sabe o que precisas, o que verdadeiramente precisas, e n\u00e3o to nega jamais? Porqu\u00ea? Porqu\u00ea?&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim, m\u00e9rito algum em n\u00f3s nos torna merecedores da salva\u00e7\u00e3o. Deus salvou-nos quando \u00e9ramos pecadores, porque \u00e9ramos tal, porque estava visto que s\u00f3 com nossas for\u00e7as jamais vencer\u00edamos o pecado. \u00c9ramos pecadores e salvou-nos. N\u00e3o foi porque f\u00f4ssemos uns her\u00f3is bons, obedientes, capazes ou bonitos \u2013 como, pois n\u00e3o rezar, agradecendo-lhe? Amando-O? Reconhecendo-O? Louvando-O? Adorando-O? Ali\u00e1s, se Deus preferisse os her\u00f3is tinha ido para Atenas ou Roma; mas a\u00ed jamais o crucificariam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong> O inverno de 1980 deve ter sido muito rigoroso, j\u00e1 que recordo que derrubou a figueira grande que habitava junto ao nosso alpendre. Quando passou a borrasca alimpamos o que havia de alimpar-se e, no ver\u00e3o, j\u00e1 sem figueira nem ra\u00edzes de figueira, eu e meu pai, erguemos o muro. A for\u00e7a tinha-a ele, eu a ajuda. Ele a sabedoria, eu a sede. As leis eram simples, disse-me. As pedras grandes ficam por baixo, as pequenas por cima. E as faces mais bonitas para fora. Agora parece-me \u00f3bvio. Erguido o muro numa semana, faltava <em>matar <\/em>as frinchas entre pedras \u2013 era trabalho meu, com o seu qu\u00ea de preparo e jeito. S\u00f3 um tolo \u00e9 que n\u00e3o aprende a afiar uma <em>pedra de matar<\/em>. Aprendi. Por\u00e9m, se o conceito \u00e9 f\u00e1cil, o realizar \u00e9 mais complicado. N\u00e3o servem umas pedras quaisquer, como ele me disse. E eu reconheci.<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u2013 Ai n\u00e3o?! Ent\u00e3o porqu\u00ea, perguntei ingl\u00f3rio?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 <em>Porque duro com duro n\u00e3o faz bom muro<\/em>, ati\u00e7ou-me!<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje disso me lembro. E agora que a luz dos olhos se me vai coando, aproveito para ver e vejo as pontes e as c\u00e2maras, os pal\u00e1cios e os minist\u00e9rios, os templos e os mercados: nenhum muro ali se constr\u00f3i s\u00f3 com pedra rija, que \u00e9 mais bailadeira. At\u00e9 pode que seja rija, firme e aguente muito peso e responsabilidade, mas se n\u00e3o \u00e9 travada com pedra mole, daquela que se esmigalha, e esmigalhando-se, amacia e penetra para l\u00e1 da apar\u00eancia, e trava a dura, ent\u00e3o esse muro n\u00e3o \u00e9 inteiramente confi\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 <em>pedra mole<\/em> n\u00e3o se lhe pe\u00e7a o of\u00edcio da dura, nem esta queira o da <em>mole<\/em>. Nenhuma se dispensa, \u00e9 o que digo, que a cidade n\u00e3o se constr\u00f3i s\u00f3 com a rija, s\u00f3 com a dura cerviz direita e firme, a que n\u00e3o sabe inclinar a cabe\u00e7a nem dobrar o joelho nem calar diante da luz tremeluzente do sacr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o quero cidade sem ora\u00e7\u00e3o, nem ora\u00e7\u00e3o s\u00f3 nos desertos e nos retiros. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 pr\u00e1tica dos devotos e implica\u00e7\u00e3o com as pedras da cal\u00e7ada, das escolas, dos est\u00e1dios, das f\u00e1bricas, dos hospitais e das cadeias. Quem verdadeiramente reza n\u00e3o foge \u00e0s dificuldades, antes atenta e abre-se aos problemas comuns. E encontra tempo para ajoelhar. E para trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o creio nem promovo ora\u00e7\u00e3o que desligue do real, mas na que \u00e9 fonte interior de coes\u00e3o, decis\u00e3o e compromisso, na que funda e oferece uma vis\u00e3o sustentada do eterno que n\u00e3o passa, mesmo que n\u00e3o seja visto \u00e0 porta a saudar quem passa. N\u00e3o sei se a crise civilizacional que sofremos \u00e9 tamb\u00e9m uma crise de ora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me custaria a crer que sim. De h\u00e1 um par de s\u00e9culos a esta parte s\u00f3 sabemos construir a cidade com a pedra dura da raz\u00e3o. Constr\u00f3i-se para o j\u00e1 e o consumo r\u00e1pido, deix\u00e1mos de querer construir com os p\u00e9s na terra, as m\u00e3os no ma\u00e7o e os olhos no c\u00e9u, incorporando o transcendente entre aquilo que erguemos. Responsabilizando-o tamb\u00e9m por aquilo que erguemos.&nbsp; E deix\u00e1mos de saber preencher os vazios entre pedras, por j\u00e1 n\u00e3o queremos o divino como vizinho. E \u00e9 assim que nenhuma constru\u00e7\u00e3o puramente humana se mostra fi\u00e1vel, sustent\u00e1vel e segura.<\/p>\n\n\n\n<p>Ai da cidade rija! N\u00e3o restar\u00e1 pedra sobre pedra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para come\u00e7o, sinto necessidade de contar duas est\u00f3rias. A\u00ed v\u00e3o. Primeira. 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