{"id":3870,"date":"2024-08-31T02:55:00","date_gmt":"2024-08-31T02:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3870"},"modified":"2024-08-26T10:57:35","modified_gmt":"2024-08-26T10:57:35","slug":"palavra-da-fe-e-palavra-da-razao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/palavra-da-fe-e-palavra-da-razao\/","title":{"rendered":"Palavra da f\u00e9 e palavra da raz\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Armindo Vaz, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos de acordo! N\u00e3o se pensa a rela\u00e7\u00e3o do ser humano com Deus de forma abstracta, prescindindo da situa\u00e7\u00e3o concreta das pessoas, do seu tempo hist\u00f3rico, da sua cultura e religiosidade e de outras circunst\u00e2ncias. A palavra da f\u00e9 \u00e9 sempre cultural. \u00c9 o que tamb\u00e9m se observa na B\u00edblia. Numa fase germinal da capta\u00e7\u00e3o de Deus e \u00e0 procura da sua imagem mais perfeita, quando, l\u00e1 pelo s\u00e9c. XI a.C., alguns crentes de Israel pensavam piamente que Deus conduzia favoravelmente a hist\u00f3ria do povo, outros israelitas, perante a invas\u00e3o opressiva e destruidora por parte de um povo vizinho, interrogavam-se dramaticamente: \u201cSe Deus est\u00e1 connosco, por que nos acontece tudo isto? Onde est\u00e3o todos esses prod\u00edgios que nos contam os nossos pais ao dizer-nos que o Senhor nos tirou do Egipto? \u00c9 que agora o Senhor abandonou-nos, entregou-nos nas m\u00e3os dos madianitas!\u201d (Jz 6,13). Esta lamenta\u00e7\u00e3o interrogativa que lan\u00e7ava ra\u00edzes no saibro da amargura punha a f\u00e9 em sentido e a dar sentido transcendente aos acontecimentos. Diferia de uma doutrina filos\u00f3fica, te\u00f3rica, que racionalmente pensa ser imposs\u00edvel que n\u00e3o exista Deus. A f\u00e9 b\u00edblica em Deus dialoga com a raz\u00e3o como urg\u00eancia interior, express\u00e3o e caminho de racionalidade: provoca e estimula a raz\u00e3o e a raz\u00e3o d\u00e1 suporte \u00e0 f\u00e9. A f\u00e9 compreende as raz\u00f5es da raz\u00e3o na procura da verdade, mas supera a mera ideia de que a raz\u00e3o deve vencer: quem deve vencer \u00e9 a realidade nua e a <em>raz\u00e3o escondida<\/em> (chamada <em>hyp\u00f3noia<\/em> por Plat\u00e3o), que \u00e9 mais do que aquilo que a simples raz\u00e3o alcan\u00e7a. De facto, para o homem b\u00edblico, se n\u00e3o havia verdadeira f\u00e9 sem raz\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o havia raz\u00e3o sem f\u00e9. E, porque a urdidura que em \u00e9pocas sucessivas entretecia a raz\u00e3o com a f\u00e9 era de seda fr\u00e1gil, constantemente a f\u00e9 interrogava a raz\u00e3o: \u00abAt\u00e9 quando, Senhor, estar\u00e1s irritado? Para sempre?&#8230; Por que h\u00e3o-de perguntar os povos: \u201cOnde est\u00e1 o seu Deus?\u201d Que n\u00f3s vejamos reconhecido entre os povos que foi vingado o sangue derramado dos teus servos\u2026 At\u00e9 quando, \u00f3 Deus, o inimigo nos vai ultrajar? Poder\u00e1 o advers\u00e1rio desprezar o teu nome para sempre?&#8230; Ergue-te, \u00f3 Deus, defende a tua causa e lembra-te das ofensas que todo o dia te fazem os insensatos\u00bb (Sl 79,5.10 e Sl 74,10.22).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Recentemente, por\u00e9m, gente bem pensante dispensa ou a raz\u00e3o ou o gosto pela eleva\u00e7\u00e3o espiritual. As n\u00fapcias biblicamente celebradas entre uma e a outra evolu\u00edram para a separa\u00e7\u00e3o ou para o div\u00f3rcio. Mas a f\u00e9 sem a palavra da raz\u00e3o pode ser facilmente pensada como uma esp\u00e9cie de c\u00e1rcere. Compreende-se, pois, que, a f\u00e9 rija seja adversa aos devaneios da crendice. \u00c9-o sobretudo porque n\u00e3o est\u00e1 disposta a atirar para o cesto dos pap\u00e9is o Livro dos livros e, com ele, a consci\u00eancia fulgurante da <em>brevidade<\/em> da vida humana, por um lado, e da <em>eternidade<\/em> do sentido dela, por outro: \u00abO homem \u00e9 como um sopro: os seus dias s\u00e3o como a sombra que passa\u00bb (Sl 144,4). \u00abRespondeu Jesus: Eu sou o p\u00e3o da vida\u2026 Quem come este p\u00e3o viver\u00e1 para sempre\u00bb (Jo 6,49-58). A f\u00e9 b\u00edblica, na sua afina\u00e7\u00e3o final, n\u00e3o deixa o crente a reconciliar-se com a realidade da morte. Aponta-lhe a vida. Faz-lhe compreender a sua rela\u00e7\u00e3o com o tempo e a necess\u00e1ria indigna\u00e7\u00e3o causada pela morte f\u00edsica que traz dentro de si. Sente que a supera\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es humanas est\u00e1 no mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o do Filho de <em>Deus<\/em> no <em>homem<\/em> Jesus de Nazar\u00e9, cuja narra\u00e7\u00e3o e gram\u00e1tica cristalizou precisamente na Escritura. Quando a f\u00e9 descobre a consist\u00eancia do seu conte\u00fado, convida a raz\u00e3o a l\u00ea-la de joelhos, a ler a vida atrav\u00e9s dos olhos de Jesus, de Paulo e de outros que a v\u00eaem iluminada pelo fogo de uma energia irredut\u00edvel. A for\u00e7a que habita o ser das personagens b\u00edblicas electriza os que as escutam: \u00abJamais homem algum falou assim como este homem fala\u00bb (Jo 7,46). No esp\u00edrito da Escritura corre \u201co sangue dos esp\u00edritos superiores\u201d, onde fala o Esp\u00edrito da verdade. A pura energia da exist\u00eancia perpassa os evangelhos. E o sentido de humanidade \u00e9 a sua medida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque na B\u00edblia a f\u00e9 se casa bem com a raz\u00e3o, no seu conjunto \u2013 os salmos s\u00e3o ex\u00edmios nisso \u2013 grita a urg\u00eancia de p\u00f4r cobro \u00e0 inf\u00e2mia da desumaniza\u00e7\u00e3o das comunidades humanas, da viol\u00eancia gratuita ou paga, das guerras trituradoras de vidas. O exerc\u00edcio, feito no Antigo Testamento entre alguma viol\u00eancia e a correc\u00e7\u00e3o dela, feito de aprendizagem para a boa conviv\u00eancia e para a paz entre as pessoas, culminou no Novo Testamento na mensagem e na ac\u00e7\u00e3o salvadora de Jesus, que, de forma mais densa e definitiva, pela epifania do amor divino na cruz, mostrou que s\u00f3 o Amor pode salvar a humanidade. Na cruz ensanguentada pelo Filho, Deus rejeitou toda a esp\u00e9cie de viol\u00eancia e mostrou estar do lado das v\u00edtimas deste mundo. Nesse ponto final, a f\u00e9 b\u00edblica \u00e9 uma acusa\u00e7\u00e3o viva \u00e0 barb\u00e1rie. Mobiliza a esperan\u00e7a e o g\u00e9nio humanos. E \u00e9 mais da ordem do existencial, com abertura ao sentido da vida, que vem de cima, do que da ordem do intelectual, que gostaria de demonstrar o que n\u00e3o \u00e9 demonstr\u00e1vel s\u00f3 com a raz\u00e3o. De qualquer forma, n\u00e3o renuncia \u00e0 compreens\u00e3o. Empenha a vida com requinte, procurando crer para compreender: \u00abSenhor, por que nos acontece tudo isto?\u00bb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Todos de acordo! 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