{"id":3867,"date":"2024-08-31T02:54:00","date_gmt":"2024-08-31T02:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3867"},"modified":"2024-08-26T10:55:42","modified_gmt":"2024-08-26T10:55:42","slug":"oracao-de-jose-pai-de-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/oracao-de-jose-pai-de-jesus\/","title":{"rendered":"Ora\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9, pai de Jesus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem pense que a vida toda de Jos\u00e9 foi dar com o mascoto e a tamborilar salmos talvez acerte. Mas s\u00f3 em parte, pois foi muito mais que isso \u2013 Jos\u00e9 foi o esposo da M\u00e3e de Deus e o pai do pr\u00f3prio Deus. Aqui, ao substantivo <em>pai<\/em>, devemos apor (pelo menos) um adjectivo: legal, nutr\u00edcio, putativo, adoptivo, tutor, dispensador\u2026 e muitos, muitos outros mais. Que possamos qualificar a S\u00e3o Jos\u00e9 com muitos t\u00edtulos significa t\u00e3o-s\u00f3 a nossa dificuldade em defini-lo, jamais em nomear a sua dificuldade de saber e aceitar qual fora o seu papel na casa de Nazar\u00e9, no mundo e no decurso da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um santo que p\u00f5e as coisas assim: imagine que voc\u00ea tem um horto todo fechado em volta. Ningu\u00e9m ali entra, ningu\u00e9m dali sai. Um dia uma pomba sobrevoa-o, levando no bico uma t\u00e2mara. A certa altura abre o bico e liberta a t\u00e2mara, ela cai no horto e dela brota uma palmeira. Pergunta o santo: quem ser\u00e1 o dono da palmeira que, inesperada, no horto brota? Ningu\u00e9m duvida que ela \u00e9 do dono do horto. Ora, concluiu o santo, o horto \u00e9 a Virgem Maria, que pela via das leis do matrim\u00f3nio pertence a Jos\u00e9; e \u00e9 assim que o fruto da palmeira, Jesus, a Jos\u00e9 pertence.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jos\u00e9 \u00e9 pai de Jesus. Pai virginal, mas pai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A este oper\u00e1rio humilde foi confiado o jardim mais excelso, a mais bela palmeira, o mais belo fruto!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jos\u00e9 \u00e9, pois, pai, e enquanto pai \u00e9 mestre e guia. Tamb\u00e9m de ora\u00e7\u00e3o. Ele, o humilde carpinteiro de Nazar\u00e9 \u2013 e talvez n\u00e3o fosse tanto como um carpinteiro, mas apenas um artes\u00e3o, um<em> m\u00e3ozinhas<\/em>, como em certas terras se nomeiam os <em>faz-tudo<\/em>, porque de tudo um pouco Jos\u00e9 sabia fazer e fazia \u2013 at\u00e9 \u00e9 mestre de ora\u00e7\u00e3o, sim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>2.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como sabido \u00e9, Jos\u00e9 \u00e9 de Bel\u00e9m. Foi na casa de seu pai Jacob que aprendeu a rezar. Ali aprendeu a peregrinar tamb\u00e9m, pontualmente, ao templo de Jerusal\u00e9m, tr\u00eas vezes no ano: nas festas da P\u00e1scoa, Pentecostes e Tabern\u00e1culos. Ali aprendeu a aben\u00e7oar as pessoas, a fam\u00edlia e os filhos; a aben\u00e7oar o trabalho, os frutos e os alimentos, os caminhos, os campos e os animais. As alvoradas e a primeira estrela da noite. E jamais cruzava o umbral da casa paterna, e mais tarde a sua, a de Nazar\u00e9, sem rezar a <em>berakot<\/em>, uma das sete b\u00ean\u00e7\u00e3os fundamentais de todos o judeu: <em>Baruk ata Adonai, melek ha olam<\/em> (Bendito \u00e9s tu, \u00f3 Deus, rei do universo).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para que n\u00e3o se diga que escrevendo-se a biografia orante do Santo Patriarca nos olvidamos de algo aqui alinhavar, digo, pois, em resumo, que S\u00e3o Jos\u00e9 foi um delicado mestre de ora\u00e7\u00e3o, simples, humilde, confiante, segundo os rituais da tradi\u00e7\u00e3o judaica a que pertencia. Por exemplo, e para que conste, tendo-lhe nascido o filho, ele O circuncidou. De facto, oito dias depois do nascimento, correspondia-lhe \u2013 e n\u00e3o a um sacerdote como a arte nos faz crer \u2013 a honra de imprimir no corpo do menino o sinal de perten\u00e7a ao Povo de Deus. E ao proceder \u00e0 incis\u00e3o, o patriarca rezou: <em>\u00abBendito seja Jahv\u00e9, o Senhor, que santificou o seu bem-amado desde o seio de sua m\u00e3e e na sua carne gravou a Lei. Ele marca os seus filhos com o sinal da Alian\u00e7a para lhes transmitir as b\u00ean\u00e7\u00e3os de Abra\u00e3o, nosso pai\u00bb.<\/em>&nbsp;Ao que os assistentes contestaram, dizendo: <em>\u00abFeliz daquele que Tu escolhes e atrais para viver nos teus \u00e1trios\u00bb<\/em> (Salmo 65:5).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sim, Jos\u00e9 rezou toda a vida e a vida toda. (Perdoar-me-\u00e3o se o houver de repetir; ou se aqui o deixar mal apontado\u2026) Sim, rezou, e rezou como mestre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o que se espera de um mestre \u00e9 que saiba ensinar. Nos saiba ensinar. E por a\u00ed estaremos bem, creio eu, pois se ele ensinou a Deus\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, se ningu\u00e9m d\u00e1 o que n\u00e3o tem, vamos ao que o <em>Mestre da ora\u00e7\u00e3o<\/em> tem, e com o qual, profusamente, nos pode ensinar. Muito antes de ser o esposo da <em>escrava do Senhor<\/em>, j\u00e1 Jos\u00e9 era um justo \u2013 um santo de Deus. E apesar disso, varria a oficina, arrumava as ferramentas, esfregava os pratos na cozinha. E algumas vezes tamb\u00e9m mascotava os dedos. E saudava e ria com as crian\u00e7as, e inclinava a cabe\u00e7a perante os anci\u00e3os. Trabalhava laboriosamente. Frequentava a sinagoga segundo o preceito, lia a Tor\u00e1 e os Profetas, dava esmola, cuidava os necessitados, defendia os fracos e ajudava nos trabalhos a quem precisava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E orava sempre. E n\u00e3o falava muito, claro. Como n\u00e3o falou no primeiro Natal. Como n\u00e3o falou, nem aos pastores nem aos magos. Nem respondeu a Sime\u00e3o quando, aos quarenta dias, por ele foi saudado ao ir apresentar o filho ao templo, cumprindo o preceituado pela Lei, a fim de que elevando-O para o Alt\u00edssimo, O ofere\u00e7a a Deus, pois era o seu primog\u00e9nito. N\u00e3o, n\u00e3o o fez como quem dedicava um filho, mas como quem oferecia a H\u00f3stia Santa e Imaculada! E Jos\u00e9 orava sempre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na fuga para o Egipto, dormiu aqui e ali com um olho aberto e outro fechado: o fechado, para descansar; o aberto, para mirar e inteirar-se da cara da Virgem que dormia; e para aspirar a respira\u00e7\u00e3o do Menino, recostado contar o peito da m\u00e3e. E h\u00e1 quem diga que tamb\u00e9m isso \u00e9 orar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ali\u00e1s, Jos\u00e9 \u00e9 um homem a quem a alma treme, s\u00f3 por ter de proteger a seu Deus beb\u00e9, e mais tremia por n\u00e3o saber por qual raz\u00e3o Deus a ele se submetia e o metia naqueles apuros, em vez de o guardar e o proteger a ele, Jos\u00e9. E Jos\u00e9 rezava e rezava quando Deus, a di\u00e1rio, se lhe submetia, e submetendo-se-Lhe, lhe trazia umas ripas, ou lhe varria e acomodava a oficina a seu mando! Que mist\u00e9rio! Que ora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jos\u00e9 rezava sempre, e n\u00e3o, n\u00e3o era macamb\u00fazio, mas alegre. E bom cantor \u2013 um dia algu\u00e9m lhe disse: \u00e9s um grande artes\u00e3o, mas poderias ter sido um excelente cantor e dan\u00e7arino! Ambos sabiam que sim. Claro que o seu dia a dia era trabalhar \u2013 pudera! Mas, se na oficina, cantarolava mais a gosto, era t\u00e3o-s\u00f3 porque Maria, ali ao lado, era toda a sua alegria, toda a sua gra\u00e7a e, cantando, qual rouxinol enamorado, ela lhe devolvia toda a santa alegria de volta! Ambos trabalhavam, e trabalhando cantavam, e depois, rezavam, que uma coisa era verdade: para Jos\u00e9 o trabalho era um a can\u00e7\u00e3o e uma ora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele tempo, os meninos tinham uma idade para estarem sujeitos \u00e0 m\u00e3e e outra ao pai. E em ambas se sujeitavam aos dois. F\u00e1cil \u00e9 de perceber. Se \u00e0 nascen\u00e7a eles dependiam qu\u00e1si s\u00f3 da m\u00e3e; depois passavam para a jurisdi\u00e7\u00e3o do pai. Finalmente, ganhavam autonomia. Como n\u00e3o compreender que o menino se faria homem imitando o pai? E a menina a m\u00e3e? Claro que Jesus aprendeu a ser homem com Jos\u00e9. A trabalhar como Jos\u00e9. A serrar como Jos\u00e9. A negociar como Jos\u00e9. A cantar como Jos\u00e9. A rezar como Jos\u00e9. A mirar como Jos\u00e9. A calar como Jos\u00e9. A ser varonil, como Jos\u00e9! Sim, o modelo de masculinidade de Jesus foi Jos\u00e9. Desse homem laborioso e afectuoso aprendeu Jesus o trabalho e a ora\u00e7\u00e3o. Se o trabalho n\u00e3o tinha segredos para Jos\u00e9, a ora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o. E um e outra, Jesus os aprendeu de Jos\u00e9. Como n\u00e3o\u2026 E se foi fiel na sinagoga, como fiel foi em Jerusal\u00e9m, tamb\u00e9m na intimidade da casa de Nazar\u00e9, segundo a tradi\u00e7\u00e3o judaica, Jesus rezou e dirigiu as ora\u00e7\u00f5es familiares, tanto pela manh\u00e3, como ao meio dia e \u00e0 noite, como nas principais celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas. Ah, e como n\u00e3o, tamb\u00e9m na oficina, ao lado de Jos\u00e9, aprendeu ele a alternar trabalho e ora\u00e7\u00e3o. (E at\u00e9 suspeito e antecipo em Jos\u00e9 uma certa \u00e2nsia: a de que o Menino alcan\u00e7asse rapidamente a idade adulta, para com ele rezar os Salmos de David\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, sim, desculpai se repiso: trabalhando e caminhando lado a lado com Jos\u00e9, Jesus aprendeu rezar e a ir \u00e0 sinagoga, isto \u00e9, a participar na ora\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e, permanecendo ao dado de Jos\u00e9 e, sentado a seu lado, aprendeu a escutar silenciosamente a leitura da Tor\u00e1. Ah, e ousaria ele privar Jos\u00e9 do gosto de, juntos, recitarem os salmos, diariamente, interpoladamente, como monges, na oficina? A delicadeza, a terna firme e humildade, a simplicidade e hombridade de Jesus s\u00e3o, obviamente as de Jos\u00e9. Foi com ele que Jesus aprendeu. E se assim era o filho, como n\u00e3o seria o pai! Tamb\u00e9m na ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No lento discorrer das horas do dia, Jos\u00e9 contemplou, saboreou, deliciou-se e amou o Filho de Deus, \u2013 o seu filho, entenda-se\u2026 \u2013 entretido com as fitas do ch\u00e3o da sua oficina, e depois, chegando-lhe, diligente, o martelo e a pua, e por fim, aprendendo e auxiliando-o, e por \u00faltimo, assumindo a direc\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ah, e como n\u00e3o \u2013 e l\u00e1 vamos n\u00f3s outra vez ao enlevo de Jos\u00e9 \u2013 por quantos momentos, n\u00e3o parou ele os trabalhos, ou para se entreter mirando o filho a brincar, ou para, simplesmente, lhe contemplar os carac\u00f3is do cabelo? Ou, tendo sido ali deixado por Maria, na alcofa, para escutar a m\u00fasica do seu sono?\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos gozos e nas durezas do trabalho, Jos\u00e9 foi pai e var\u00e3o laborioso e mestre de ora\u00e7\u00e3o e da vida interior. Aprendeu a ser mestre s\u00f3 de olhar para Jesus, s\u00f3 de olhar por Jesus, na doce e silenciosa responsabilidade de ser seu pai.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E celebrava jubilosamente o Natal de Jesus, e o anivers\u00e1rio da Virgem. E da oficina trazia e oferecia-lhes presentes \u2013 certa vez, a Maria, ofereceu-lhe uma arca de madeira, e ao entregar-lha, disse-lhe: <em>Ave Maria, cheia de gra\u00e7a, o Senhor est\u00e1 contigo<\/em>\u2026 Surpreendida, ela olhou a grande e bela arca, e brincando, saltaricou-lhe para dentro com o Menino ao colo, mas logo pediu para sair porque aquele t\u00famulo de madeira pressagiava-lhe algo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">***<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>6.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um dia, ao levantar-se da cama, Jos\u00e9 trazia m\u00e1 cara. N\u00e3o era nada, garantia, apesar das dores. Mas a mulher p\u00f4s-lhe a m\u00e3o na testa e ela ardia de febre. Estava doente; e aquela seria a \u00faltima vez que se sentaria com eles \u00e0 mesa. Jesus impediu-o de ir para a oficina, e ele nem for\u00e7as teve para obstar. Pesado, deitou-se, de novo, na enxerga. E oficialmente passou a haver um doente em casa. N\u00e3o tinha apetite, tinha dores. E vieram as amigas de Maria, e trouxeram-lhe mezinhas e plantas medicinais, mas at\u00e9 bebericar um ch\u00e1 lhe custava. E Jesus, o filho do carpinteiro, o orante que aprendera de seu pai, l\u00e1 ia <em>rezando, e com o ma\u00e7o dando<\/em>, e trabalhando com a serra e o martelo, o mais baixinho que podia, para n\u00e3o incomodar o mestre. Por fim, Maria tamb\u00e9m perdeu o apetite. \u00c0 cabeceira de Jos\u00e9, as noites passaram a ser muito longas e muito mal dormidas. E os dias como as noites. E rezava. E rezava. E rezava. E enquanto Jesus trabalhava, Maria rezava. E enquanto Jos\u00e9 sofria, Maria rezava para que Jesus, o Filho de Deus, fizesse uma porta que fechasse e deixasse a morte do lado de fora da casa \u2013 mas que se fizesse sempre e em tudo, a vontade do Alt\u00edssimo, sempre, sempre, conclu\u00eda-lhe ela. E entrementes, baixinho, Jos\u00e9 e Maria, mais ela que ele, falavam do primeiro Natal. Do <em>Gl\u00f3ria<\/em> cantado pelos anjos, do burro e da vaca, da visita dos pastores e dos magos. De\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, contemplando os dois, Jesus ouvia em sil\u00eancio. Rezava em sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, a certo momento, Maria viu que Deus se ergueu, se aproximou do leito do enfermo, p\u00f4s as m\u00e3os sobre a cabe\u00e7a de Jos\u00e9. E aben\u00e7oou-o. Quando as retirou Jos\u00e9 tinha expirado, e Maria era a vi\u00fava do melhor esposo que o mundo jamais vira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>7.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem isto ler haver\u00e1 de me desculpar por em nenhum lugar ter abordado Jos\u00e9 como homem do sil\u00eancio \u2013 e como o sil\u00eancio \u00e9 necess\u00e1rio na ora\u00e7\u00e3o! N\u00e3o tem desculpa, eu sei. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o foi ignor\u00e2ncia minha, nem desleixo. Nem contum\u00e1cia. Nem falha de espa\u00e7o. Foi sim, decis\u00e3o, para que as \u00faltimas linhas fossem mesmo sobre o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verdade, \u00e9 que mirando Jos\u00e9 como mestre de ora\u00e7\u00e3o \u2013 como Santa Teresa de Jesus e outros o apostrofam \u2013 o que menos importa \u00e9 o seu mutismo feito aus\u00eancia de palavras. N\u00e3o. Por si s\u00f3, manter a boca fechada n\u00e3o \u00e9 sinal nem de virtude nem de ora\u00e7\u00e3o, porque o que S\u00e3o Jos\u00e9 nos ensina \u00e9 bem outra coisa: \u00e9 o valor do sil\u00eancio de quem est\u00e1 perante o mist\u00e9rio!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Jos\u00e9 coube o que a mais nenhum homem tocou \u2013 ver-se ante o mist\u00e9rio de Deus, indigente e feito carne, feito beb\u00e9, feito menino! O mist\u00e9rio de uma Virgem que engravida sem concorr\u00eancia de var\u00e3o! E, concomitantemente, como no seio pequenino da Virgem coube O que os c\u00e9us n\u00e3o souberam nem puderam encerrar!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perante o mist\u00e9rio, Jos\u00e9 calou-se e contemplou. \u00c9 o homem do sil\u00eancio. O patrono dos contemplativos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, calou-se ao ver que Deus escolhia um homem \u2013 ele mesmo, Jos\u00e9 de Bel\u00e9m \u2013 para guarda do mist\u00e9rio de Deus, para protector dos protagonistas principais do mist\u00e9rio: o Filho e a M\u00e3e! E l\u00e1 restava ele, sem saber como aceitar que as suas m\u00e3os rijas, laboriosas e suadas tinham sido eleitas para defender o mist\u00e9rio da Incarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havendo imensos pal\u00e1cios e vilas formos\u00edssimas por tantos recantos e metr\u00f3poles do Imp\u00e9rio, como fora Deus escolher a casucha de um artes\u00e3o da Galileia, numa aldeia esquecida, para ali o Seu Filho crescer e fazer-se homem? N\u00e3o reparara Deus que a casucha nem portas tinha, sen\u00e3o uma cortina remendada, debotada e envelhecida?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao ver-se espectador e actor de tal mist\u00e9rio, o maior desde a cria\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 bem maior que este, e mais ainda, ao ver-se nele implicado como personagem fundamental, Jos\u00e9 ficava em sil\u00eancio por n\u00e3o compreender o actuar de Deus. E rezava. E contemplava. E aceitava. E rezava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, \u00e9 certo que quase n\u00e3o falei do sil\u00eancio de Jos\u00e9. E a raz\u00e3o foi esta: que haveria Jos\u00e9 de dizer, de dizer-nos, se tamb\u00e9m ele estava envolto na nuvem do mist\u00e9rio? \u2013 Qualquer palavra que dissera tolice seria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem contempla o mist\u00e9rio n\u00e3o fala, e se fala n\u00e3o sabe o que diz\u2026 E Jos\u00e9 n\u00e3o falou, s\u00f3 contemplou, calou e viveu o mist\u00e9rio da Incarna\u00e7\u00e3o no seu interior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>8.<\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Calou. E ensinou como um mestre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem pense que a vida toda de Jos\u00e9 foi dar com o mascoto e a tamborilar salmos talvez acerte. 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