{"id":3840,"date":"2024-07-31T03:59:00","date_gmt":"2024-07-31T03:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3840"},"modified":"2024-07-24T09:01:04","modified_gmt":"2024-07-24T09:01:04","slug":"purificar-a-imagem-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/purificar-a-imagem-de-deus\/","title":{"rendered":"Purificar a imagem de Deus"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tr\u00eas meses saiu a p\u00fablico a 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, revista e aumentada, do livro <em>Cria\u00e7\u00e3o divina sem pecado humano<\/em> (Paulinas; Prior Velho 2024), que simplifica uma nova interpreta\u00e7\u00e3o da chamada \u00abhist\u00f3ria de Ad\u00e3o e Eva\u00bb em G\u00e9nesis 2-3, interpreta\u00e7\u00e3o que agora a l\u00ea no seu contexto cultural, liter\u00e1rio e religioso pr\u00f3prio. Um dos frutos desta nova leitura \u00e9 contribuir para a purifica\u00e7\u00e3o da imagem de Deus e mostrar que n\u00e3o faz sentido acus\u00e1-lo e responsabiliz\u00e1-lo pelos males contingentes que nos atormentam. Dizemo-lo, n\u00e3o em tom de confronta\u00e7\u00e3o com os que procuram Deus na noite da f\u00e9, mas em di\u00e1logo afectuoso e desejavelmente construtivo, at\u00e9 porque as desfigura\u00e7\u00f5es da imagem de Deus resultavam tamb\u00e9m da pr\u00f3pria mentalidade tradicional crist\u00e3, que ao longo dos s\u00e9culos, muito devido ao peso e \u00e0 resson\u00e2ncia da doutrina dogm\u00e1tica do \u201cpecado original\u201d na espiritualidade, na catequese e na consci\u00eancia dos crentes, fez vingar tamb\u00e9m uma atitude pessimista na sociedade perante a vida e o mundo natural. O escritor Arthur Adamov at\u00e9 reclamava que o nome de Deus n\u00e3o deveria brotar mais da boca dos humanos: \u00e9 uma palavra gasta pelo uso [!] e desde h\u00e1 muito tempo j\u00e1 n\u00e3o significa nada, estando totalmente vazia de sentido, desprovida de sangue \u2013 pensava ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Soa, pois, a urgente limpar o rosto de Deus dos mal-entendidos com que o deform\u00e1mos, para nos libertarmos a n\u00f3s pr\u00f3prios dos eventuais danos colaterais \u00e0 nossa psicologia e das incoer\u00eancias que turbam a f\u00e9 ou o religioso. \u00c9 urgente abandonar a vis\u00e3o de Deus composta com os nossos pressupostos, aquela que n\u00e3o passa de um \u00eddolo erigido pelas nossas figura\u00e7\u00f5es nas aras das nossas feridas, dores e limita\u00e7\u00f5es. O deus captado ou subentendido pelas leituras enviesadas da tamb\u00e9m chamada (inadequadamente) \u00abhist\u00f3ria do para\u00edso terreal\u00bb como sendo um deus castigador, cruel e sumamente injusto n\u00e3o \u00e9 Deus: n\u00e3o \u00e9 o verdadeiro Deus transcendente que a f\u00e9 b\u00edblica p\u00f5e em ac\u00e7\u00e3o nas narrativas de cria\u00e7\u00e3o e com o qual se deveriam entender os que s\u00e3o confrontados com o mal. Poder\u00e1 ser o grande Inquisidor ou o grande Legislador que, segundo as cren\u00e7as de alguns, tudo definiu e predeterminou de modo fatalista (o fado!) no come\u00e7o do mundo. Ou ser\u00e1 at\u00e9, segundo outros, o grande Controlador de tudo o que acontece no mundo; ou o supremo Relojoeiro que outros imaginam como tendo posto a m\u00e1quina deste mundo a andar e a mant\u00e9m em funcionamento, dentro do chamado Des\u00edgnio Inteligente (alinhado com o criacionismo, falacioso). Outros poder\u00e3o equipar\u00e1-lo porventura ao supremo Justiceiro que caprichosamente (ent\u00e3o injustamente) mata quem lhe apetece ou quem merece (!) e n\u00e3o livra da morte quem deveria livrar. Mas a cren\u00e7a num deus assim gera ateus de marca maior. Se a percep\u00e7\u00e3o desses tra\u00e7os impr\u00f3prios da imagem de Deus foi um factor decisivo para acontecer a descristianiza\u00e7\u00e3o do Ocidente ou para se debilitar a f\u00e9, em boa verdade eles n\u00e3o s\u00e3o atributos do Deus representado nas narrativas b\u00edblicas de cria\u00e7\u00e3o. Delas, pelo contr\u00e1rio, emerge a imagem inoxid\u00e1vel de um Deus transcendente, omnipotente, origem, ess\u00eancia e estrutura de todas as coisas e da humanidade \u2013 sem aparecer como a causa directa, factual, do mundo. O Deus que \u00e9 visto pela f\u00e9 b\u00edblica a criar o mundo \u00e9 aquele que d\u00e1 sentido \u00faltimo a tudo o que existe, a tudo o que \u00e9, a tudo o que acontece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imprescind\u00edvel para perceber essa finalidade das narra\u00e7\u00f5es b\u00edblicas de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 descobrir, pela sua an\u00e1lise liter\u00e1ria, que elas contam <em>as origens<\/em>, n\u00e3o <em>o come\u00e7o<\/em> f\u00edsico do mundo e da humanidade (que deve ser explicado pelos cientistas). N\u00e3o s\u00e3o o filme ou a <em>fotografia<\/em> do come\u00e7o do mundo. S\u00e3o <em>radiografia<\/em> do que se conhecia no presente, para o transfigurar \u00e0 luz do divino. S\u00e3o contempla\u00e7\u00e3o do mundo por parte da f\u00e9 e convite a contempl\u00e1-lo na sua beleza e na sua grandeza. Relacionam-no com o sagrado, fundo \u00faltimo das coisas, em que tudo cobra sentido. Tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o mera fic\u00e7\u00e3o. S\u00e3o \u2018hist\u00f3ria\u2019 verdadeira, cuja verdade est\u00e1 especialmente no facto de n\u00e3o ser de ordem historiogr\u00e1fica mas de ordem humana e religiosa. Para encherem a vida de sentido, fazem-na remontar \u00e0s suas origens, atribuindo-a a um acto criador de Deus. Quem entender os relatos de cria\u00e7\u00e3o divina \u00e0 letra como produ\u00e7\u00e3o material das coisas transforma a lua no dedo que aponta para ela e tem de pagar caro o pre\u00e7o de desfigurar a mensagem desses relatos; e a linguagem conotativa deixa de remeter para o transcendente que ela sugere: petrifica-se e morre. A linguagem da f\u00e9 nas narra\u00e7\u00f5es de cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a da hist\u00f3ria ou da ci\u00eancia. Nem se op\u00f5e \u00e0 raz\u00e3o. Interage com ela e vai al\u00e9m das ci\u00eancias, abrindo janelas para o divino. Insinua que a verdade das coisas e dos factos e o mist\u00e9rio da vida s\u00e3o mais profundos do que aquilo que a linguagem conceptual consegue dizer. As narra\u00e7\u00f5es de cria\u00e7\u00e3o, com a f\u00e9 que as fecunda, re-presentam, tornam presente ao \u201ccora\u00e7\u00e3o o essencial, o invis\u00edvel aos olhos\u201d e o Inef\u00e1vel enquanto criador das coisas: por isso imaginam Deus a cri\u00e1-las. Cruzando o natural com o sobrenatural, sugerem que a vida \u00e9 significativa e preciosa. Para sublimarem a vida actual, fazem-na remontar ao original, pela linguagem figurativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A leitura ing\u00e9nua de textos s\u00e9rios n\u00e3o \u00e9 \u00fatil a ningu\u00e9m. E s\u00f3 faz sorrir Deus, embora nos turbe a sua imagem. Amigo da verdade \u00e9 quem continua sempre a procur\u00e1-la, n\u00e3o quem p\u00e1ra depois de a ter encontrado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD H\u00e1 tr\u00eas meses saiu a p\u00fablico a 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, revista e aumentada, do livro Cria\u00e7\u00e3o divina sem pecado humano (Paulinas; Prior Velho 2024), que simplifica uma nova [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3841,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3840","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3840","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3840"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3840\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3842,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3840\/revisions\/3842"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3841"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3840"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3840"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3840"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}