{"id":3809,"date":"2024-06-30T03:13:00","date_gmt":"2024-06-30T03:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3809"},"modified":"2024-06-27T08:14:25","modified_gmt":"2024-06-27T08:14:25","slug":"nao-amordaces-a-semente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/nao-amordaces-a-semente\/","title":{"rendered":"N\u00e3o amordaces a semente"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\">Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.&nbsp;&nbsp; <\/strong>Sem ir a banhos, antes palmilhando a beira do lago ocupado na semeadura do Evangelho, Jesus come\u00e7ou a ensinar. Ajuntou-se \u00e0 sua volta tanta gente \u00e0 procura da sementa da sua palavra, que teve de subir a uma barca, a fim de se dirigir ao gentio cujos p\u00e9s descal\u00e7os juncavam de negro toda a praia. E de que haveria Ele de falar-lhes sen\u00e3o do reino de Deus \u2013 mas isso, sim, por meio de par\u00e1bolas? \u2013. Falava-lhes conforme eram capazes de entender, socorrendo-se de palavras que sempre partiam do quotidiano dos que o ouviam, da sua vida e da dureza do seu labutar. E quem eram eles sen\u00e3o o lavrador que, depois de cavar de sol a sol, lan\u00e7a a semente \u00e0 terra; o pastor que sai em demanda da ovelha perdida; a mulher que varre a casa porque uma das suas moedinhas se perdeu; ou o pescador que se afadiga a lan\u00e7ar as redes e n\u00e3o pesca mais que dois peda\u00e7os de algas?<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo era belo de se ver. De se ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p>As par\u00e1bolas de Jesus ca\u00edam como chuva mansa no cora\u00e7\u00e3o dos ouvintes, e eles entendiam-nas, j\u00e1 que lhes falava das suas coisas com palavras da sua eira e do rebanho das suas preocupa\u00e7\u00f5es, alumiando-lhes as situa\u00e7\u00f5es obscuras, e desvelando-lhes sentidos ocultos!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.&nbsp;&nbsp; <\/strong>As par\u00e1bolas evang\u00e9licas s\u00e3o est\u00f3rias do dia a dia que Jesus acendia como far\u00f3is de luz em noite escura. Fogueiras que s\u00f3 Ele sabe atear para alumiar uma situa\u00e7\u00e3o obscura, um problema comum, para desvendar um sentido oculto, abrir um caminho, um futuro, uma esperan\u00e7a. Sim, Ele gostava de contar est\u00f3rias, digo, par\u00e1bolas, como as que neste XII domingo comum nos reprop\u00f5e em Marcos 4:26-34. S\u00e3o duas est\u00f3rias pequeninas, pequeninas, sim, mas nem por isso menos desafiadoras ou de menor luz.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong> Mas, e se escut\u00e1ssemos a bem escutar o luminoso raio de luz que Jesus hoje nos acende nestas duas par\u00e1bolas? Surpreende tanto o que ali se diz que, se bem ouvido e acolhido, temo bem, correr\u00edamos o risco de virar as costas \u00e0 luz! Ou amorda\u00e7ar a semente!<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 me explicarei&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos bem que, na Sua prega\u00e7\u00e3o, o que mais Lhe interessava era falar como quem entreabre os dedos da m\u00e3o para espalhar, profusamente, o Reino de Deus por sobre a terra negra, \u00e1vida e fresca. Mas, e o que \u00e9 o Reino de Deus? \u00c9 Jesus-Ele-mesmo no meio de n\u00f3s, terra negra e faminta. \u00c9 Ele-mesmo pujante de vida e de esperan\u00e7a; Ele-mesmo, sereno e calmo, por entre as outras plantas da horta que tamb\u00e9m somos n\u00f3s. Ele-mesmo, qual alegria em flor despontando por entre as durezas da vida, quando ainda a primavera nem o inverno venceu. \u00c9 Deus reinando, sem jamais esmagar algu\u00e9m; reinando como quem ampara a p\u00e3o bendito a vida das pessoas, das fam\u00edlias, das comunidades e sociedades pobres. \u00c9 Deus com m\u00e3os e olhar de m\u00e3e embalando o sono de um beb\u00e9 de peito; animando outro que, \u00e0 mesa, sarrabisca no caderno di\u00e1rio os deveres da escola; e com o olhar impele os sonhos robustos e afoitos dos mais velhos. O reino de Deus \u00e9 Deus b\u00ean\u00e7\u00e3o. Deus bendizendo. Deus dizendo bem de n\u00f3s. \u00c9 Deus palavra mansa. \u00c9 b\u00e1lsamo que acalma. \u00c9 Deus acolhendo. Deus perdoando. Deus misericordiando. \u00c9 Deus-beijo, Deus-abra\u00e7o. \u00c9 Deus andarilhando na tribo dos pobres rebuscando a esperan\u00e7a. \u00c9 Deus de m\u00e3o dada com os justos que imitam a vida e os passos de Jesus, opondo-se \u00e0 guerra, partindo as espadas, e fazendo o bem e, por praticarem a caridade, merecerem o reino celeste da gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Ontem, nas praias da Galileia, e hoje, pelos caminhos do mundo, por entre os espinhos e os destro\u00e7os das bombas, e pelas autoestradas da comunica\u00e7\u00e3o, a Jesus interessa-Lhe falar-nos disso, sim \u2013 do seu reino. Interessa-Lhe dizer-nos, confiar-nos, insistir-nos que est\u00e1 no meio de n\u00f3s, qual semente escondida na terra, aguardando, pacientemente, as chuvas do outono \u2013 e \u00e9 que Jesus estava, e est\u00e1, no meio de n\u00f3s! \u2013; que os seus prop\u00f3sitos florescer\u00e3o nos l\u00e1bios que beijam meninos, que acariciam doentes e acamados; nas m\u00e3os que afagam corpos doridos, tratam feridas, mermam dores, d\u00e3o p\u00e3o aos peregrinos; ensinam a desenhar, m\u00e3o na m\u00e3o, o aeiou; nos ombros que se emprestam aos desconsolados; nas bocas onde aninham pombas que d\u00e3o bom conselho, que acalmam desavindos, guiam perdidos, serenam tempestades, constroem a paz. Interessa-Lhe confiar-nos que o Seu triunfo ser\u00e1 certo, \u00e9 certo e at\u00e9 j\u00e1 se entrev\u00ea, tal como a mimosa florindo, humilde, gentil e humilde, sobre os rigores da rijeza do frio invernio.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrementes isto, a hist\u00f3ria dos imp\u00e9rios do mundo avan\u00e7a sobre os escombros de outros imp\u00e9rios, sobre na\u00e7\u00f5es espezinhadas e espoliadas, sobre as tenras vidas dos inocentes. Por\u00e9m, as luzes pequeninas que a boca de Jesus acende jamais s\u00e3o denegadas, jamais postergadas, jamais vencidas: com Ele sempre o pequenino, sempre o esquecido no seio da terra, floresce mimoso, inverno em p\u00f3s inverno. E pela indom\u00e1vel for\u00e7a que s\u00f3 a semente pequena preserva e tem, sempre ela vence, sempre rompe e rasga a carapa\u00e7a do duro gelo, da neve fria e o impetuoso granizo, para nos sorrir, vitoriosa!<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus sabia disso, sabia, e sabia bem, e outros como Ele e S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz sabem-no e bem no-lo disseram que \u00e9 durante a brumosa escurid\u00e3o da noite que se fabricam, e para n\u00f3s e para o mundo, se abre o pequenino alforge dos milagres da vida do dia a dia: <em>\u00abEm uma noite escura \/ de amor em vivas \u00e2nsias inflamada, \/ oh! Ditosa ventura! \/ Sa\u00ed sem ser notada, \/ \u2018stando j\u00e1 minha casa sossegada\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Loas, pois, ao humilde e ao pequenino \u2013 no segredo da pequenez \u00e9 que Jesus entrev\u00ea o grande, v\u00ea o triunfo.<\/p>\n\n\n\n<p>De que nos fala, neste domingo, pois, Jesus?<\/p>\n\n\n\n<p>Diz-nos que o reinado de Deus \u00e9 como o homem que semeia: logo depois se deita \u00e0 noite, e de manh\u00e3 se levanta e, entretanto, a semente germina e cresce, sem que ele saiba bem como \u2013 porque, que o homem durma \u00e9 tudo quanto \u00e9 preciso para que a semente para fure a terra at\u00e9 ver a luz!<\/p>\n\n\n\n<p>Fala-nos Jesus que o reinado de Deus \u00e9 como a semente da pequena mostarda: quando semeada, \u00e9 a menor das sementes; mas depois que a terra se abre, a acolhe e cobre, logo ela cresce e se torna hortali\u00e7a e tempero que enche e d\u00e1 sabor ao prato sobre a mesa!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.&nbsp;&nbsp; <\/strong>\u00c9 \u00f3bvio que as palavras de Jesus nos t\u00eam de surpreender: o seu reino, reino eterno, reino de justi\u00e7a e de bem-aventuran\u00e7a, tem a indom\u00e1vel for\u00e7a das sementes! Das pequeninas e gentis sementinhas. Das pequeninas&#8230; sim, dessas mesmo!<\/p>\n\n\n\n<p>Centremo-nos, pois, nas sementes. Pequeninas.<\/p>\n\n\n\n<p>Demoradamente as contemplemos. Se poss\u00edvel, tomemos uma em nossas m\u00e3os. E que vemos? Vemos quase nada; que a m\u00e3o \u00e9 imensa como o mapa-mundi e que a sementinha bem diminuta \u00e9. Por\u00e9m, se a m\u00e3o em vez de se fechar, se abrir, e a deixar cair, se o lavrador em vez de a salvaguardar em seu celeiro, se a lan\u00e7ar \u00e0 intemp\u00e9rie, tirar\u00e1 dali alimento para si, sua fam\u00edlia e animais!<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a semente tem a for\u00e7a duma explos\u00e3o: em explodindo, traz vida, devolve vida, alimento, calor, alegria, \u00e2nimo, for\u00e7a, e inclusive poiso com passarinhos!<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, eu creio na for\u00e7a indom\u00e1vel das sementes, na for\u00e7a das gentes pequeninas! J\u00e1 n\u00e3o creio em programas transnacionais, nem em gente com medo. Eu creio na for\u00e7a da simplicidade das pessoas humildes que frequentam os sacramentos todos os dias, pela manh\u00e3, e que \u00e0 tarde levam ch\u00e1, mimo e boas palavras a acamados. \u00c9 muito? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9, \u00e9 Evangelho caminhando discreto e desapercebido pelas ruas da cidade; \u00e9 Evangelho em movimento, recoberto por um paninho de alvo linho bordado com cora\u00e7\u00f5es do Minho. Eu creio na beleza fecunda de gente simples, fazendo coisas discretas, em lugares pouco interessantes. Eu creio nesta p\u00e1gina do Evangelho em que me revejo e me prefiro situar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>6.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Sim, eu creio no ousado gesto libertador do lavrador que semeia. Creio na for\u00e7a de quem perde. No cora\u00e7\u00e3o que sabe que tudo pode perder, e ainda assim, repetindo a perda, todos os anos restaura os seus celeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu creio no sono da semente e no abra\u00e7o aconchegante da terra. Creio no impoder do lavrador s\u00e1bio, sabedor de que jamais sabe ou pode fazer germinar uma s\u00f3 semente! Que sabe que, amanh\u00e3 e depois, comer\u00e1 do p\u00e3o sa\u00eddo da semente tra\u00e7ada, triturada e esmagada mas, primeiro, tem de aceitar perd\u00ea-la, sem saber ensin\u00e1-la a romper da terra para a luz!<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, eu creio que o inverno nada pode contra a for\u00e7a de primavera loira que a semente encerra. Nada pode contra o sono que d\u00e1 vida, alimento e mesa farta. Eu creio no perder que \u00e9 ganhar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>7.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Eu jamais cri em multid\u00f5es triunfantes, mesmo se entro nelas. Eu jamais cri em tronos. Eu creio na f\u00e9 dos pequeninos, mesmo se t\u00eam chap\u00e9us bicudos na cabe\u00e7a. Creio naqueles que sabem acender uma candeia no escuro e passam contas escuras por entre os dedos. Creio na esperan\u00e7a dos pequeninos sofrendo dores maiores, enquanto esperam e confiam no b\u00e1lsamo que se achega por frestas pequeninas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>8.<\/strong>&nbsp;&nbsp; Eu creio no vigor do sono da semente, que nos medra e ampara os passos e nos leva ao c\u00e9u!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp;&nbsp; Sem ir a banhos, antes palmilhando a beira do lago ocupado na semeadura do Evangelho, Jesus come\u00e7ou a ensinar. 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