{"id":3782,"date":"2024-05-31T04:35:00","date_gmt":"2024-05-31T04:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3782"},"modified":"2024-05-27T09:31:09","modified_gmt":"2024-05-27T09:31:09","slug":"a-palavra-em-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/a-palavra-em-liberdade\/","title":{"rendered":"A palavra em liberdade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A festa do dia 25 de Abril de 1974, entre as v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es de vida e explos\u00f5es de alegria pelas ruas e pra\u00e7as, celebrava sobretudo a liberdade. Abril ia florescendo entre cantos de j\u00fabilo e avenidas de liberdade. Mas logo se percebeu no desenrolar dos acontecimentos que os oportunistas de turno, ao verem o dom precioso da liberdade a cair no rega\u00e7o do povo, o quiseram agarrar para o entregarem a outra ditadura, pior que a anterior \u2013 coisa que veio a acontecer, por exemplo, na Nicar\u00e1gua. Valeu a for\u00e7a do povo, a perspic\u00e1cia de alguns dirigentes e a coragem de militares, a impedirem que a revolu\u00e7\u00e3o feita para obter a liberdade descambasse numa tirania. Sobrep\u00f4s-se a arma da palavra, a palavra das manifesta\u00e7\u00f5es, a palavra dos protestos, a palavra dos discursos e com\u00edcios, a palavra dos esclarecimentos, que n\u00e3o queria deixar fugir a liberdade. Uma das dimens\u00f5es mais acarinhadas, como irrenunci\u00e1vel, era a liberdade de se exprimir, usando a palavra, como queria o poeta Blas de Otero (1955), lutador pela democracia e liberdade em Espanha: apesar de perdas e sofrimentos, de desperd\u00edcios e decep\u00e7\u00f5es, \u00abme queda la palabra\u00bb. A apreciada <em>liberdade de express\u00e3o<\/em>, por\u00e9m, n\u00e3o podia gozar de absolutismo: podia ir at\u00e9 ao ponto em que ainda n\u00e3o ferisse o visado pela <em>express\u00e3o<\/em>. Ao come\u00e7ar a feri-lo, estava a mexer num enxame de sentimentos misturados, em que n\u00e3o tinha o direito de mexer: ao insultares a esposa querida do seu marido, estarias a gerar nele o compreens\u00edvel \u00f3dio \u2013 com \u2018direito ao contradit\u00f3rio\u2019 de olho por olho!? \u2013 e a contribuir para uma sociedade de cegos, em vez de para a fraternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava claro que a liberdade tinha dado trabalho, mas continuaria a d\u00e1-lo. Quanto mais os livres aperfei\u00e7oaram a liberdade mais cresceu \u00e0 volta a ambi\u00e7\u00e3o de lhes arrebatar esse dom, t\u00e3o desejado como sujeito \u00e0 deturpa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o o povo gritou palavras fortes onde faltavam ideias sinceras e abundavam ambi\u00e7\u00f5es ditatoriais. Sentiu dever atender a Johann Goethe, o escritor e fil\u00f3sofo (\u2020 1832) que aconselhava: \u00abAquilo que herdaste dos teus pais conquista-o para o tornares teu\u00bb. A liberdade \u00e9 tanto destino como origem. S\u00f3 tem futuro se respeitares o seu passado e valorizares o seu pre\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Conscientes disso, somos convocados a pensar nas origens e nos fundamentos espirituais da liberdade, seu suporte consolidado, mesmo assim a ser constantemente vigiado. A liberdade \u00e9 o valor que mais intensamente identifica a pessoa humana, individual ou colectivamente, em rela\u00e7\u00e3o a outros seres: \u00e9 o que faz do ser humano aquilo que ele \u00e9 e deve ser. Quem n\u00e3o \u00e9 livre tem em suspenso a sua categoria de pessoa. At\u00e9 poderia escrever-se a hist\u00f3ria humana e a hist\u00f3ria de Portugal nesta perspectiva, procurando descobrir em que medida ela se moveu e se promoveu ou n\u00e3o a liberdade humana. O mundo grego e, depois, o romano sentiram bem o valor da liberdade, mas de forma reduzida, sem a \u2018democratizarem\u2019 a todos os humanos: era vista, por exemplo, como liberdade do grego ou do homem livre, em contraposi\u00e7\u00e3o com o b\u00e1rbaro, o estrangeiro ou o escravo. O povo b\u00edblico, porque nasceu de uma situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o (no Egipto), saboreou mais intensamente a necessidade e o gosto da liberdade, que ent\u00e3o n\u00e3o aparecia simplesmente como um bem, mas como o bem sem alternativas reais, como constru\u00e7\u00e3o de Deus sobre os escombros de um povo oprimido, impotente para se salvar por si s\u00f3: onde ele estivesse, seria precisa a liberdade. Mas esta espiritualidade b\u00edblica evoluiu, da aplica\u00e7\u00e3o ao povo de Israel para a extens\u00e3o a todos os povos. Teve o seu ponto culminante e pleno desenvolvimento na mensagem de Jesus, que se entregou livremente \u00e0 morte para libertar o ser humano da raiz de todas as escravid\u00f5es, o mal que ofende Deus na medida em que ofende a dignidade humana: \u201cSe permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus disc\u00edpulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertar\u00e1\u2026 Se o Filho vos libertar, sereis realmente livres\u201d (Jo 8,31-32). Jesus universalizou e radicalizou a necessidade da liberdade para todas as pessoas, seja qual for a sua condi\u00e7\u00e3o social, ra\u00e7a, religi\u00e3o, cor da pele, nacionalidade ou g\u00e9nero: \u201cN\u00e3o h\u00e1 judeu nem grego, n\u00e3o h\u00e1 escravo nem livre, n\u00e3o h\u00e1 var\u00e3o nem mulher, pois todos v\u00f3s sois um s\u00f3 [radicalmente iguais] em Cristo Jesus\u201d (Gl 3,28).<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto uma opini\u00e3o largamente difundida pensa que a experi\u00eancia crist\u00e3 suporia ren\u00fancia \u00e0 liberdade, de pensamento, de express\u00e3o, de escolhas, de ac\u00e7\u00e3o, estamos a ver que \u00e9 no cristianismo que ela tem mais condi\u00e7\u00f5es para florir; \u00e9 no cristianismo que ela aparece como ess\u00eancia viva da alma e profundeza da exist\u00eancia humana: \u201cFoi para a liberdade que Cristo nos libertou\u201d (Gl 5,1). Isso n\u00e3o quer dizer que ela n\u00e3o implique ren\u00fancias e escolhas, pois, sen\u00e3o, pode ser real v\u00edtima de ambi\u00e7\u00f5es desmedidas e destemperadas. Quem segue Jesus n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 uma pessoa livre: \u00e9 um libertado (de todo o mal e de toda a culpa), para escolher e fazer o que Deus quer (tudo o que \u00e9 bom). Aqui est\u00e3o as ra\u00edzes e a fonte da liberdade, irrenunci\u00e1veis para o crist\u00e3o. A cultura ocidental com os valores e os pontos de refer\u00eancia constitu\u00eddos pela tr\u00edade \u00abliberdade, igualdade, fraternidade\u00bb \u2013 que vem do evangelho de Jesus \u2013 n\u00e3o se compreende fora do horizonte aberto por esta mensagem b\u00edblica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD A festa do dia 25 de Abril de 1974, entre as v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es de vida e explos\u00f5es de alegria pelas ruas e pra\u00e7as, celebrava sobretudo a liberdade. 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