{"id":3760,"date":"2024-04-30T02:47:00","date_gmt":"2024-04-30T02:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3760"},"modified":"2024-04-26T10:48:29","modified_gmt":"2024-04-26T10:48:29","slug":"para-quem-sou-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/para-quem-sou-eu\/","title":{"rendered":"PARA QUEM SOU EU?"},"content":{"rendered":"\n<p><br>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Um domingo antes do Bom Pastor vejo-me \u00e0 porta a pensar; logo, ao cair do sol, estarei de m\u00e3os ao alto a rezar. Penso e rezo o ardor de quem vai, a grandeza de quem fica. Nisto, por\u00e9m, das voca\u00e7\u00f5es n\u00e3o acredito s\u00f3 em quem corre, n\u00e3o aben\u00e7oo s\u00f3 quem alevanta as m\u00e3os ao alto.<br>No domingo do Bom Pastor, junto haverei de cantar que no amparo da sombra do seu cajado \u00abnada nos falta\u00bb. E n\u00e3o.<br>Na aproxima\u00e7\u00e3o ao in\u00edcio desta jornada de ora\u00e7\u00e3o, inesperado me caiu no cora\u00e7\u00e3o um rel\u00e2mpago do tamanho de uma pergunta: \u00abPara quem sou eu?\u00bb. Li-a num pequenino texto de D. Vitorino Soares que antes a lera no n.\u00ba 286 da Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Cristo Vive. E conclui o Papa, e conclui o Bispo, que quem apenas se fica pela pergunta \u00abQuem sou eu?\u00bb esse murcha e fica s\u00f3, mas quem se pergunta \u00abPara quem sou eu?\u00bb, esse ou essa, jamais se isola, antes rasga e alarga o cora\u00e7\u00e3o, e mais e mais o reverdece, mais abre as m\u00e3os, mais d\u00e1. E assim jamais caminha s\u00f3, porque o p\u00e3o partido e repartido \u00e9 for\u00e7a para o caminho comum. E por ali mais se recebe.<\/li>\n\n\n\n<li>Para quem sou eu?<br>Eu, ou tu, sou para Deus.<br>De Deus vim, vimos, para Deus vou, vamos \u2013 tenho-o por certo. O que fica pelo meio \u00e9 espa\u00e7o de peregrina\u00e7\u00e3o. Por a\u00ed vou, n\u00e3o sem dores, n\u00e3o sem estranhezas, n\u00e3o sem d\u00favidas; \u00e0s vezes, caindo. \u00c0s vezes, apenas trope\u00e7ando. Nem sempre f\u00e1cil de ser convencido a erguer-me. Nunca inteiramente derrotado.<br>N\u00e3o sou super-homem, nem super-mulher. N\u00e3o sou um jovem superidealista; talvez mais bem quase vencido, mas ainda assim questionador e intuitivo.<br>Dia e noite perscruto o caminho de Jesus; ali\u00e1s, perscruto o cora\u00e7\u00e3o rasgado de Jesus, que se oferece como caminho. Mas nem sempre vejo as pegadas dos Seus p\u00e9s, eu que cal\u00e7o botas. Ele ofereceu a sua vida pelo Reino; e eu que cuido menos de servir que reinar, tenho dificuldade em ver como Ele v\u00ea, de falar como Ele fala; de pensar como Ele pensa \u2013 de servir, n\u00e3o ser servido \u00e9 desafio.<br>Haja sol ou chuva, oposi\u00e7\u00e3o ou indiferen\u00e7a, eu sou, tu \u00e9s, portanto, para Deus. H\u00e1 d\u00e9cadas que lembro e canto, ali\u00e1s, o que h\u00e1 500 anos cantava nossa madre Santa Teresa: \u00abVossa sou, para V\u00f3s nasci que quereis fazer de mim?\u00bb. Para quem mais haver\u00edamos de ser, pois?<\/li>\n\n\n\n<li>Para quem sou eu?<br>Eu, ou tu, sou para Deus. E em Deus sou, \u00e9s, para os outros. Deus s\u00f3 me quer se puder dar-me, distribuir-me, repartir-me, como quem d\u00e1 uma lasca de p\u00e3o: n\u00e3o mata a fome, mas j\u00e1 andas caminho at\u00e9 outro celeiro!<br>Quer-me fatiado, dado e repartido, inundado da alegria de quem transluz Evangelho.<br>Quer-me para o amanhecer da esperan\u00e7a.<br>E quando todos apenas me disserem: pensa em ti, descansa, defende-te, goza e pensa primeiro em ti, ent\u00e3o, Ele quer-me, a mim e a ti, imersos, ajoelhados e afundados nas dores dos pequeninos da comunidade.<br>Quer-me no Tabor, no escuro do Cen\u00e1culo, no n\u00e3o de Pedro, na luz tr\u00e9mula de Ema\u00fas, no nevoeiro do Lago durante a pesca nocturna, na p\u00e1gina do Ide e Ensinai.<br>Quer-me for\u00e7a de quem sai em miss\u00e3o, ou de quem ora de m\u00e3os ao alto, sustentando quem remando avan\u00e7a na barca em mar adentro.<\/li>\n\n\n\n<li>Para quem sou eu?<br>Eu, ou tu, sou para Deus. E em Deus sou para quem Ele quer que sejamos.<br>(N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que este eu, ou este tu, seja um cl\u00e9rigo \u2013 t\u00e3o-s\u00f3 um baptizado, um pequenino.).<br>Sim, todo o baptizado \u00e9 para os outros que se apenas para si, n\u00e3o passa de espiga chocha ou de p\u00e3o duro cheio de bolor que todos receiam molhar na \u00e1gua e comer.<br>Sou, enfim, mancheia de ternas migalhas distribu\u00eddas \u00e0s m\u00e3os famintas dos meninos que as dispersam, e logo cachorrinhos as lambem pelo ch\u00e3o escuro.<\/li>\n\n\n\n<li>Para quem sou eu?<br>Sou para sair para a leira e cavar fundo, para virar a terra dura, para semear com esperan\u00e7a, para vigiar o lento despontar da plantinha, que cres\u00e7a e se fortale\u00e7a debaixo do sol, para sachar, para regar e recolher.<br>N\u00e3o sou para arrecadar. Sou para malhar a espiga, para joeirar e separar a semente da casca.<br>Sou para repartir o gr\u00e3o em sacos, como Jos\u00e9.<br>Sou para a moagem do gr\u00e3o, para o amassar da farinha e o cozer da massa com uma pisca de sal.<br>Sou para ser fermento e brasa; fermento que leveda e agranda, brasa que aquece e prepara p\u00e3o para a ceia.<br>Sou p\u00e3o para ser partido e repartido pelas m\u00e3os pequeninas dos meninos por cima da mesa.<\/li>\n\n\n\n<li>Para quem sou eu?<br>Eu, ou tu, sou para Deus. E por Deus confiado aos cuidados dos outros.<\/li>\n\n\n\n<li>Para quem sou eu?<br>Eu, ou tu, sou para Deus. E em Deus sou para quem Ele quer que sejamos.<br>Sou para dar. Para sair. Para repartir.<br>Sou para os \u00f3rf\u00e3os e para as vi\u00favas, refor\u00e7o em suas duras penas, necessidades e tribula\u00e7\u00f5es.<br>Sou para quem gosta de p\u00e3o partilhado.<br>Sou para quem tem m\u00e3os limpas ou, se sujas, mant\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o em alerta, e b\u00ean\u00e7\u00e3o em seus l\u00e1bios.<br>Sou para os que passam frio, fome ou carecem de uma palavra e um beiral. Para os que precisam de tecto, de uma mesa de irm\u00e3os. De uma janela aberta.<br>Sou as m\u00e3os de quem m\u00e3os n\u00e3o tem, olhos de quem olhos n\u00e3o tem, boca de quem traz um n\u00f3, p\u00e9s de quem n\u00e3o alcan\u00e7a, a palavra de quem n\u00e3o tem voz.<br>Sou irm\u00e3o na solid\u00e3o, companheiro em miss\u00e3o, levado pelo vento at\u00e9 onde ele quiser.<br>J\u00e1 menino n\u00e3o sou; e a bailar n\u00e3o aprendi. Companheiro, sim. Vou at\u00e9 ali, ou al\u00e9m, ou mais.<br>Serei caminho, mas n\u00e3o o caminho.<br>Serei verdade, mas n\u00e3o a verdade.<br>Serei palavra, mas n\u00e3o a palavra inteira.<br>Serei vida da tua vida, mas s\u00f3 ao modo de quem colhe ma\u00e7\u00e3s para uma cesta e a deixa \u00e0 beira do caminho.<br>Serei cruz e crucificado, chaga aberta, sol por descobrir e passos por dar.<br>Serei irm\u00e3o, que um s\u00f3 n\u00e3o o \u00e9, \u00e0 volta de uma mesa, onde tamb\u00e9m os netos se sentem e falem, instruindo os av\u00f3s tamb\u00e9m.<br>Serei \u00e2nimo, alento, sino que toca, fogo que algu\u00e9m acende, lume novo, conversa quente, miseric\u00f3rdia.<br>Sou Cristo, o que Cristo seria se c\u00e1 andasse e te visse.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3761,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3760","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3760","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3760"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3760\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3762,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3760\/revisions\/3762"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3761"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3760"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3760"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3760"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}