{"id":3735,"date":"2024-03-31T03:15:00","date_gmt":"2024-03-31T03:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3735"},"modified":"2024-03-27T14:13:52","modified_gmt":"2024-03-27T14:13:52","slug":"omnipotencia-de-deus-e-jesus-crucificado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/omnipotencia-de-deus-e-jesus-crucificado\/","title":{"rendered":"Omnipot\u00eancia de Deus e Jesus crucificado"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos os dias a Igreja na liturgia eucar\u00edstica invoca Deus com o atributo de omnipotente. \u00c9 fundamental para a f\u00e9: um deus n\u00e3o omnipotente ensombr\u00e1-la-ia. Mas esse atributo \u00e9 frequentemente problematizado, incompreendido, acima de tudo quando o associam ao mal no mundo. Como lida com ele a B\u00edblia, testemunho privilegiado da revela\u00e7\u00e3o divina para a f\u00e9 judaica e crist\u00e3?<br>Quando v\u00ea Deus como omnipotente, contempla as suas ac\u00e7\u00f5es libertadoras, tendo quase sempre como pano de fundo a experi\u00eancia humana e espiritual do \u00eaxodo de Israel, que atribui a Deus a liberta\u00e7\u00e3o da opress\u00e3o eg\u00edpcia, considerada humanamente imposs\u00edvel (Ex 14,11-14). Para a f\u00e9 israelita s\u00f3 Deus podia realizar t\u00e3o grande maravilha: \u201cAlgum deus tentou alguma vez vir buscar para si um povo do meio de outro povo com provas, sinais e prod\u00edgios\u2026, com m\u00e3o forte e bra\u00e7o estendido, com terr\u00edveis portentos, como fez em tudo por v\u00f3s o Senhor, vosso Deus, no Egipto, diante dos vossos olhos?\u201d (Dt 4,34). A f\u00e9 que viu Deus a libertar Israel para lhe dar uma p\u00e1tria tamb\u00e9m O viu a faz\u00ea-lo regressar do ex\u00edlio da Babil\u00f3nia, num aut\u00eantico novo \u00eaxodo para a p\u00e1tria amada: \u201cA\u00ed vem o vosso Deus; a\u00ed vem o Senhor\u2026; vem com poder e o seu bra\u00e7o assegura-lhe a soberania\u201d (Is 40,10). Portanto, a omnipot\u00eancia de Deus alinha com a sua salva\u00e7\u00e3o, t\u00e3o sobre-humana que \u00e9 equiparada a um acto de cria\u00e7\u00e3o (Is 43,1; 44,2). Deus \u00e9 visto como omnipotente no amor pelo povo: a omnipot\u00eancia de que faz gala exerce-a a favor dos d\u00e9beis, pobres, oprimidos e em forma de perd\u00e3o. Por isso, o Novo Testamento n\u00e3o receou dizer que o poder de Deus culminou na extrema indig\u00eancia de Jesus crucificado (1Cor 1,17-25). Foi nela que se manifestou o seu supremo amor, confirmado na ressurrei\u00e7\u00e3o do Filho. E nesta aparece em que consiste a sua omnipot\u00eancia: n\u00e3o \u00e9 de ordem f\u00edsica, emp\u00edrica, mas da ordem do Esp\u00edrito e do amor. Quando a f\u00e9 p\u00f5e Deus na vida e O v\u00ea como omnipotente, tamb\u00e9m quer dar fundamento e conte\u00fado \u00e0 esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Somos assim convidados a abandonar a ideia de um Deus-mago e a assumir a imagem do Deus-mist\u00e9rio que d\u00e1 sentido ao universo e que teve o ponto culminante da sua revela\u00e7\u00e3o na Encarna\u00e7\u00e3o em Jesus, desde a sua concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte. Na cruz de Jesus, Deus foi despojado, humilhado, esbofeteado, insultado por \u201csalteadores crucificados com ele\u201d, desafiado a mostrar-se um Deus intervencionista: \u201cSalvou outros; que se salve a si mesmo se \u00e9 o Messias de Deus, o Eleito\u201d (Lc 23,35); \u201csalva-te a ti mesmo se \u00e9s filho de Deus e desce da cruz\u2026; \u00e9 rei de Israel; que des\u00e7a da cruz e acreditaremos nele; p\u00f4s a sua confian\u00e7a em Deus: que o salve agora, se verdadeiramente o ama, pois disse \u2018sou filho de Deus\u2019\u201d (Mt 27,38.40-44; Mc 15,29-32). Mas se Jesus descesse, entraria na l\u00f3gica do espect\u00e1culo pedido: se na morte fizesse ilusionismo, a vida teria sido uma ilus\u00e3o. A cruz n\u00e3o mente nem deixa mentir: \u00e9 o esplendor da verdade nua e tira d\u00favidas sobre a identidade do filho de Deus. \u201cAquele que viu d\u00e1 testemunho; e o seu testemunho \u00e9 verdadeiro; e ele sabe que diz a verdade, para que tamb\u00e9m v\u00f3s acrediteis\u201d (Jo 19,35). A cruz foi produto da trai\u00e7\u00e3o, de Judas. Jesus transfigurou-a em atrac\u00e7\u00e3o: \u201cEu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim\u201d (Jo 12,32). Condenado por todos os tribunais \u00e0 \u00e9poca (Sin\u00e9drio, Herodes, Pilatos e o povo), rei ridiculizado por uma humanidade insens\u00edvel, morre de amor na nudez humilhante, trespassado por cravos e uma lan\u00e7a lancinante. Mas \u201ccontemplar\u00e3o aquele que trespassaram\u201d (Jo 19,37), fazendo assim nascer o cristianismo \u201cda contempla\u00e7\u00e3o do rosto do Deus crucificado\u201d (cardeal C. M. Martini).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este rebaixamento, mist\u00e9rio envolvente, diz muito daquilo que Deus n\u00e3o \u00e9 e daquilo que Ele \u00e9. N\u00e3o \u00e9 omnipotente no sentido de milagreiro que d\u00ea espect\u00e1culo \u00e0 vista. Quem quiser \u201cver para acreditar n\u2019Ele\u201d ter\u00e1 de o ver na f\u00e9 nua, como um Deus que, sem deixar de ser o que \u00e9, se identifica com aqueles a quem salva. O relato da sua paix\u00e3o pela humanidade entretece as duas linguagens que tecem a vida e que todos compreendem: a dor e o amor. \u00c9 um Deus ferido de amor e de humanidade. Em Jesus sofredor, identificou-se particularmente com os mais vulner\u00e1veis. \u00c9 enquanto tal que permanece no cora\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e que ter\u00e1 de ser procurado; n\u00e3o a descer espectacularmente da cruz com Jesus mas a lavar os p\u00e9s aos disc\u00edpulos e a dizer-lhes: \u201cDou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei\u201d (Jo 13,34). E ser\u00e1 encontrado, n\u00e3o a vingar os que o mataram mas a perdoar-lhes (\u00e9 not\u00e1vel que Jesus pe\u00e7a perd\u00e3o ao Pai para os seus algozes, quando ele tinha todo o poder para lhes perdoar: Mt 28,18; Lc 5,24; quereria significar que mat\u00e1-lo a ele excedia todas as medidas do inumano?). Se algu\u00e9m quer ver Deus omnipotente ponha os olhos em Jesus crucificado impotente. \u00c9 acima de tudo na cruz de Jesus enquanto lugar de amor sofrido que se compreende em que consiste a omnipot\u00eancia de Deus: nela pode abra\u00e7ar toda a humanidade salvando-a. N\u00e3o salva da cruz, salva na cruz com Jesus. A identifica\u00e7\u00e3o de Deus com o Filho e s\u00f3 com a bondade revela-o pr\u00f3ximo, presente aos humanos, embora sob a forma de aus\u00eancia, a chamar do interior dos acontecimentos e das pessoas. A sua bondade, vinda da cruz, do alto, \u00e9 transcendente: s\u00f3 precisa de ser acolhida para ser omnipotente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Todos os dias a Igreja na liturgia eucar\u00edstica invoca Deus com o atributo de omnipotente. \u00c9 fundamental para a f\u00e9: um deus n\u00e3o omnipotente ensombr\u00e1-la-ia. 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