{"id":3705,"date":"2024-02-29T02:25:00","date_gmt":"2024-02-29T02:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3705"},"modified":"2024-02-27T15:52:25","modified_gmt":"2024-02-27T15:52:25","slug":"existencia-de-deus-e-existencia-do-mal-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/existencia-de-deus-e-existencia-do-mal-i\/","title":{"rendered":"Exist\u00eancia de Deus e exist\u00eancia do mal \u2013 I"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Decorria o ano de 1992. A um meu amigo alem\u00e3o morreu o filho de 21 anos num acidente de autom\u00f3vel. A trag\u00e9dia fez explodir a c\u00f3lera do humano contra o divino: \u00ab\u00d3 Tu que est\u00e1s l\u00e1 em cima, que mal te fez o meu filho? Porqu\u00ea mo levaste? Que ganhas com isso?\u00bb Com reac\u00e7\u00e3o semelhante confessa um intelectual em 2015: \u00abAos 9 anos de idade perdi o meu pai, morto num acidente de autom\u00f3vel\u2026 Se Deus existe e \u00e9 omnipotente, porque deixa as crian\u00e7as sofrerem? Se Deus existe e tudo pode, tudo controla e tudo sabe, porque matou o meu pai?&#8230; Se Deus existia, ent\u00e3o ou era mau ou era indiferente \u00e0s agruras humanas. Por essa raz\u00e3o mais valia ignorarmos Deus. Mais valia sermos todos \u00f3rf\u00e3os de Pai\u2026 A f\u00e9 em Deus destr\u00f3i a Humanidade\u00bb. Na Am\u00e9rica Central, num notici\u00e1rio de TV (24.7.2003), um homem queixava-se por em sucessivos acidentes na explos\u00e3o de um vulc\u00e3o ter perdido quatro filhos e a mulher: \u00abSinto-me revoltado, porque, para mandar desgra\u00e7as, Deus escolhe-me sempre a mim\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>A repugn\u00e2ncia da raz\u00e3o humana perante o mal f\u00edsico ou moral deve obrig\u00e1-la a cuidados especiais quando o liga a Deus, para evitar uma ideia equivocada de Deus criador, de Deus omnipotente, de Deus bondoso, de Deus que faz milagres\u2026 Obrig\u00e1-la a fazer perguntas certas, por amor da nossa pr\u00f3pria sensatez e sanidade mental. Em vez de reagir interrogando \u2018porqu\u00ea me aconteceu este mal a mim?\u2019 ou \u2018que mal fiz eu a Deus?\u2019, perguntas mais certas seriam antes \u2018como\/porqu\u00ea aconteceu isto?\u2019 e \u2018como posso lidar com este mal, de modo a super\u00e1-lo ou a fazer dele oportunidade para algum bem?\u2019<\/p>\n\n\n\n<p>Porque Deus ainda est\u00e1 no horizonte da cultura ocidental em geral, a psicologia humana tende a projectar n\u2019Ele os pr\u00f3prios medos, cr\u00edticas e desaforos, deforma o seu rosto no espelho das pr\u00f3prias ang\u00fastias e obscurece com os pr\u00f3prios instintos de defesa o suposto plano divino de amor para com a humanidade. J\u00e1 Fernando Pessoa, atrav\u00e9s do heter\u00f3nimo Bernardo Soares, considerava errado que uma mera dor de dentes bastasse para n\u00e3o acreditar na bondade de Deus. Sempre que se julga Deus perguntando \u00abporqu\u00ea permite o mal f\u00edsico e moral?\u00bb ou \u00abporqu\u00ea n\u00e3o extirpa as injusti\u00e7as que relegam pessoas para a condi\u00e7\u00e3o de \u2018dispens\u00e1vel\u2019?\u00bb, pode cometer-se (inconscientemente) um \u2018pecado\u2019 de idolatria, pois rebaixa-se Deus ao n\u00edvel dos ju\u00edzos, da medida, da altura e do comportamento de uma pessoa. Quando se pergunta por que Deus n\u00e3o interv\u00e9m na hist\u00f3ria do mundo para acabar com o mal&#8230;; quando intelectuais argumentam: \u201cse existe o sofrimento do inocente, Deus n\u00e3o existe\u201d ou \u201cse Deus existe, deve-me uma explica\u00e7\u00e3o\u201d&#8230;; quando se afirma que a exist\u00eancia do mal \u00e9 prova da n\u00e3o-exist\u00eancia de Deus&#8230;; quando algu\u00e9m candidamente se interroga em tom de objec\u00e7\u00e3o se \u00e9 poss\u00edvel acreditar em Deus depois do panorama de genoc\u00eddios, massacres, viola\u00e7\u00f5es e brutais assassinatos de crian\u00e7as, opress\u00f5es e crimes contra a humanidade&#8230;; quando as pessoas se questionam sobre a exist\u00eancia ou a justi\u00e7a de Deus, renegando-o por causa do sofrimento e da desgra\u00e7a dos inocentes, e se escandalizam por Deus, Pai bom, o consentir arbitrariamente ou por ficar surdo \u00e0s ora\u00e7\u00f5es dos fi\u00e9is\u2026; quando, enfim, o sentam no banco dos r\u00e9us por causa dos males existentes&#8230;, est\u00e3o a funcionar com a concep\u00e7\u00e3o de um Deus intervencionista, de um Deus que \u2013 sup\u00f5em \u2013 poderia e deveria impedir objectivamente toda a esp\u00e9cie de mal cometido ou sofrido pelos humanos ou que Ele deveria ter criado um mundo melhor em que n\u00e3o houvesse lugar para o mal f\u00edsico e para acidentes aparentemente absurdos, onde os inocentes n\u00e3o sofressem e as crian\u00e7as n\u00e3o fossem torturadas. Assim pensava, revoltado, o m\u00e9dico do romance <em>A peste<\/em>, de Albert Camus. Exausto de tratar pessoas atingidas pela peste assoladora, quando o sacerdote lhe diz que a situa\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9 revoltante porque excede os nossos limites, mas talvez teremos de amar o que n\u00e3o podemos entender\u201d, o m\u00e9dico responde: \u201cN\u00e3o, padre. Tenho do amor outra ideia. E recusarei at\u00e9 \u00e0 morte amar esta cria\u00e7\u00e3o que tortura as crian\u00e7as\u201d <sup>(Biblioteca dos pr\u00e9mios Nobel de literatura; Opera mundi; Rio de Janeiro 1973, p. 211).<\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Quem pede a Deus esclarecimentos pelo mal evit\u00e1vel e inevit\u00e1vel que acontece no mundo torna-se suspeito de alguma forma de fundamentalismo ou de dificuldades na compreens\u00e3o dos textos b\u00edblicos, a partir dos quais se construiu uma imagem de Deus desfigurada. Quem acusa Deus de lhe ter matado o filho jovem ou o pai ou de ter matado a humanidade inteira no relato b\u00edblico do dil\u00favio identifica-o porventura com um Deus castigador, cruel, porventura vingativo. Mas essas acusa\u00e7\u00f5es n\u00e3o fazem justi\u00e7a aos relatos b\u00edblicos. S\u00e3o uma clara e lastim\u00e1vel deturpa\u00e7\u00e3o deles: n\u00e3o atendem ao seu car\u00e1cter liter\u00e1rio nem ao tipo de linguagem que eles usam. S\u00e3o o entendimento <em>na\u00efve<\/em>, ing\u00e9nuo, pueril, fundamentado no literalismo, no historicismo, numa leitura \u00e0 letra, deficiente, das narrativas b\u00edblicas de cria\u00e7\u00e3o e de outras. S\u00e3o uma sua interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o contextualizada, fundada em pressupostos gerados ao longo de s\u00e9culos e fora do contexto em que foram escritas. Por isso, voltaremos a este tema, t\u00e3o complexo como importante.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 [<em>continuar\u00e1<\/em>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Decorria o ano de 1992. A um meu amigo alem\u00e3o morreu o filho de 21 anos num acidente de autom\u00f3vel. 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