{"id":3629,"date":"2023-12-31T06:45:00","date_gmt":"2023-12-31T06:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3629"},"modified":"2023-12-22T08:46:51","modified_gmt":"2023-12-22T08:46:51","slug":"que-importam-os-pobres-para-a-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/que-importam-os-pobres-para-a-historia\/","title":{"rendered":"Que importam os pobres para a hist\u00f3ria?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong>&nbsp; Do nascimento de Jesus n\u00e3o existe registo algum no civil ou certid\u00e3o de baptismo na Igreja. Nasceu Ele t\u00e3o do lado de l\u00e1 da hist\u00f3ria, que ningu\u00e9m registou o principal de todos os nascimentos. Era t\u00e3o pobre, t\u00e3o pobre, que na escala social estava no degrau mais fundo e sem sol \u2013 quem quereria saber dele? Era, sim, da linhagem do grande rei David \u2013 mas quem, olhando para o pai Jos\u00e9, o carpinteiro, o adivinharia?<\/p>\n\n\n\n<p>Nasceu num buraco de animais perdido num monte, num daqueles covis em que at\u00e9 custa a crer que as alim\u00e1rias ali parissem \u2013 quem o advertiria? Nascera Ele num pal\u00e1cio, filho duma fam\u00edlia importante, viera destinado a comandar, e algu\u00e9m haveria de ter celebrado o nascimento do herdeiro com belos charutos e u\u00edsques, publicitado nos jornais e t\u00eav\u00eas, postado no Facebook e no Instagram, ou registado em plaquinhas de argila. Mas n\u00e3o, ningu\u00e9m nada registou, ningu\u00e9m nada escreveu, ningu\u00e9m nada relatou. E para c\u00famulo, dizem que no parto santo Jos\u00e9 se adormilou; ao inv\u00e9s, por\u00e9m, Maria, todas as not\u00edcias do Filho guardou no seu cora\u00e7\u00e3o, e delas algo falou, mas n\u00e3o muito. J\u00e1 isso \u00e9 algo, mas pouco.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong>&nbsp; Jos\u00e9 e Maria, pais de Jesus, eram pobres, mas amavam-se. Mais que tudo, eles amavam-se \u2013 amor, esse fabuloso motor da vida que derrete e derrota montanhas! Jos\u00e9 amava-a mais que a si mesmo, mesmo se a n\u00e3o compreendia inteiramente, nem compreendia porque no corpo da sua Mulher \u2013 e n\u00e3o de outra mais senhoril e de nome mais encorpado \u2013 acontecia o maior dos milagres: a gesta\u00e7\u00e3o do Filho de Deus!<\/p>\n\n\n\n<p>Vai l\u00e1 tu compreender!&#8230; Explicassem-lhe por onde lhe explicassem, ele, o homem justo, n\u00e3o entendia, pronto; mas estava ali, ao p\u00e9 da Mulher, para o que desse e viesse. N\u00e3o, dali ele n\u00e3o arredaria p\u00e9. N\u00e3o arredaria, n\u00e3o arredou, n\u00e3o arredar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Se ela \u00e9 o que \u00e9, a ele lho deve tamb\u00e9m&#8230; \u2013<\/p>\n\n\n\n<p>Como sabemos n\u00f3s, hoje, Maria e Jos\u00e9 eram pobres demais para que algu\u00e9m se incomodasse com o seu menino nascido naquele buraco achado \u00e0s pressas; pobres demais para que algu\u00e9m escrevesse sobre eles ou sobre o rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, \u00e9 verdade que o Imp\u00e9rio sabia o que precisava de saber da vida de Jos\u00e9; e, ai dele se n\u00e3o tratasse de para ali se deslocar a fim de se recensear na terra da sua fam\u00edlia! Ai dele, se andasse por a\u00ed a matraquilhar as ferramentas (que \u00e9 donde os homens justos tiram o sustento para viver); ai dele, se girovagasse por a\u00ed sem prova de que pagava os impostos que s\u00f3 os homens casados pagavam (e ele era casado, e at\u00e9 ia ter um filho&#8230;)! Sim, o Imp\u00e9rio sabia tudo isso muito bem, mas n\u00e3o sabia de nada mais, porque o resto eram ninharias. E por isso nenhum escriba ou oficial nada registou. Para o Imp\u00e9rio o nascimento de um menino n\u00e3o contava para nada \u2013 talvez da\u00ed a d\u00fazia e meia de anos, quando ele pudesse pegar em armas ou, casando, se obrigasse a pagar impostos. N\u00e3o, o Imp\u00e9rio n\u00e3o advertira que o menino nascido no buraco era Deus, nem podia saber que ningu\u00e9m lho dissera; e se algu\u00e9m lho dissesse n\u00e3o acreditaria, porque os deuses nascem no Olimpo, em templos ou em pal\u00e1cios, n\u00e3o em buracos. E ainda que aceitasse que pudesse nascer num buraco de um monte, para que queria ele mais um deus, se j\u00e1 tinha tantos com que se ocupar? Que vinha c\u00e1 fazer um mais? Que virtude ou que poder benfazejo acrescentaria \u00e0 Humanidade um nascituro dado \u00e0 luz na cova escura de um monte entre bichos? Sim, por que se haveria de aperceber do Santo Nascimento o poderoso Imp\u00e9rio dos deuses mais poderosos e avassaladores do momento? N\u00e3o era ele o vencedor, aquele que esmagava os ratos que se lhe opunham? Para que quereria o Imp\u00e9rio mais um deus \u2013 e para mais um de carne fr\u00e1gil e a depender da mama da M\u00e3e? Um Deus de carne pobre em breve deve morrer; por que h\u00e3o-de dois pobres coitados esfalfar-se no cuidar de um Deus que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio? Enfim, quem, pois, em boa verdade, ao longe ou ao perto, se haveria de incomodar com o nascimento de Deus sucedido \u00e0s escuras numa lura?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3<\/strong>.&nbsp; \u00c9 sabido que os pastores n\u00e3o sabiam escrever. Contar, sim; porque \u00e9 mais f\u00e1cil contar ovelhas do que escrever-lhes contos! Logo, por que haveriam de ser eles a escrever algo sobre o nascimento do Deus t\u00e3o esperado? E os primos dos pastores, igualmente pobres, tamb\u00e9m nada escreveram, ou poderiam escrever, pois tamb\u00e9m eles n\u00e3o sabiam o que Dele dizer. E se soubessem, que escreveriam eles \u2013 que numa noite nascera um menino e fora saudado por Anjos? Escrevessem isso e n\u00e3o faltaria quem dissesse que o vinho da taberna do lugar andava a escoar demasiado depressa goelas abaixo&#8230; Dois anos depois, Jos\u00e9 e Maria ainda se deixavam estar por Bel\u00e9m.&nbsp; A Jos\u00e9 iam apreciando-lhe o jeito para ado\u00e7ar a madeira; a Maria, o asseio dos paninhos sempre esplendendo no estendal. E o Garoto? o Garoto era um garoto mais, um p\u00e1rvulo entre os tantos que haveriam de ser da sua igualha nos banquinhos da sinagoga; era um de tantos que, como todos, abundantemente, profusamente, repetidamente, havia sujado os paninhos como&#8230; como os demais, como todos os beb\u00e9s \u2013 ali\u00e1s, a maioria at\u00e9 tinham sido oferecidos por esta ou aquela condo\u00edda m\u00e3e, pobre como eles, j\u00e1 depois de terem servido para alimpar outros rabos de meninos mais velhinhos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, ningu\u00e9m reparou no rapaz, para al\u00e9m de que nascera rapaz, e mamara, tivera as maleitas t\u00edpicas da inf\u00e2ncia (n\u00e3o recebeu vacinas, aten\u00e7\u00e3o&#8230;), sujara fraldas, come\u00e7ou a andarilhar pelos nove meses, botou os dentes e choramingou quando um ou outro mais teimoso lhe rasgou as gengivas, ah&#8230; e foi visitado pelos S\u00e1bios do Oriente. Bem, isso foi festival que ningu\u00e9m p\u00f4de ignorar porque a caravana armou nos arrabaldes da cidade tr\u00eas formos\u00edssimas tendas, fazendo-se notar por alguns dias! Mas assim como vieram, assim se foram: numa inesperada noite, parecendo que a terra os engolira propositadamente, desapareceram; e depois desapareceram a M\u00e3e, o pai e o Garoto! E o que ficou para tr\u00e1s foram boatos que rolavam da boca para o ouvido, como rolam pela poeira dos caminhos certas arbustos secos do deserto que se enovelam com o vento que os impele e os leva.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, em Bel\u00e9m nada ningu\u00e9m escreveu sobre aquela fam\u00edlia semi-sem-gra\u00e7a, nem sobre o filho que era Deus! E como seria Ele Deus, se era igual aos filhos das outras mulheres \u2013 n\u00e3o era isso que bem se via nas fraldas? Via-se, e via-se bem que Maria era pobre demais para albergar um ventre digno de rei, quanto mais de Deus! E Jos\u00e9, mais para o calado e macamb\u00fazio que para o tagarela e bas\u00f3fias, com jeito para fazer um banco, mas mais propenso a sentar-se e a dormir no ch\u00e3o que a recostar-se numa cadeira, quem lhe daria cr\u00e9dito? N\u00e3o, nem em Bel\u00e9m nem em Nazar\u00e9 algu\u00e9m lhes deu mais cr\u00e9dito que aquele que se empresta ao sil\u00eancio desconfiado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong>&nbsp; \u00c9, pois, um homem pobre \u2013 e para mais, Deus! \u2014 o que celebramos no Natal \u00e0 roda da mesa farta e com belos hinos sagrados em torno ao altar e do pres\u00e9pio. \u00c9 por isso que o Natal merece de ti, de n\u00f3s, de mim, um sil\u00eancio respeitador e uma contempla\u00e7\u00e3o humilde que nos levem a reconhecer e nos fa\u00e7am saber que o nascer pobre de Deus representa para n\u00f3s a maior e mais rica li\u00e7\u00e3o de vida!<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, afinal, que importam os pobres para a hist\u00f3ria, nomeadamente estes de que falo? Que pode um pobre contra as lan\u00e7as de um poderoso ex\u00e9rcito, ou contra a for\u00e7a dos gonzos das fortalezas que resistem anos e anos a um cerco? N\u00e3o sei. Algo, por\u00e9m, pressinto, mas n\u00e3o sei bem o qu\u00ea.<\/p>\n\n\n\n<p>Em cada Natal sinto o mesmo: olho o meu prato largo e fundo e com azeite \u00e0 espera do bacalhau, e entope-se-me a garganta com pensamentos sobre pobres que l\u00e1 fora rapam frio, e n\u00e3o t\u00eam nem bacalhau nem azeite nem prato nem mesa\u2026 e s\u00e3o pres\u00e9pio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda n\u00e3o \u00e9 Natal e h\u00e1 j\u00e1 bastos dias que se me vem enovelando o cora\u00e7\u00e3o e turvando o olhar com a lembran\u00e7a daquele escuro covil onde, fulgurante, numa noite, nos nasceu a luz do Salvador. E n\u00e3o \u00e9 que vindo para os seus, eles Lhe fecharam a porta e trancaram o cora\u00e7\u00e3o \u2013 que nascesse entre bichos, como entre bichos andaram e cirandaram Ad\u00e3o e Eva!<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda n\u00e3o \u00e9 Natal, n\u00e3o, nem na igreja jaz ainda o pres\u00e9pio, mas j\u00e1 me enterne\u00e7o com a lembran\u00e7a do pimpolho ao colo do pai \u2013 \u00f3 carne bendita, em cuja fragilidade de crian\u00e7a mora ignorada a imensa plenitude de Deus! Como, pois, me haverei de calar, como n\u00e3o chorarei de admira\u00e7\u00e3o, como ousar\u00e1 fechar-se algum cora\u00e7\u00e3o com algo de humano, diante de t\u00e3o imenso, de t\u00e3o intenso mist\u00e9rio? Ali\u00e1s, ou melhor, como n\u00e3o me calarei eu em calado sil\u00eancio diante de Ti, \u00f3 Verbo eterno escondido na carne?<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda hoje n\u00e3o \u00e9 Natal e sinto o longo desconforto que me incomoda por me caber trazer o passado para o presente \u2013 como celebrarei, como cantarei ou comerei, como rezarei ou agradecerei o mist\u00e9rio da ternura de Deus tamb\u00e9m por cada um de n\u00f3s, os de hoje? Sem que insulte os pobres, os que rebuscam nas sobras dos ricos um futuro para as suas fam\u00edlias, me pergunto: como se traz para o meio dos fartos de abund\u00e2ncia, e dos enjoados de comida e oportunidades, como se traz para o meio de n\u00f3s a mem\u00f3ria desse Exclu\u00eddo de h\u00e1 dois s\u00e9culos? Onde est\u00e1 a possibilidade de emprego justo para G., desempregado aos 58 anos, que s\u00f3 quer ganhar p\u00e3o com o suor do seu rosto? Quem acolhe ou compreende e aceita como amigo a T., 35 anos, que n\u00e3o se aceita a si mesmo por sofrer de doen\u00e7a cong\u00e9nita? E quem aben\u00e7oa ou recebe os votos de consagra\u00e7\u00e3o de A., 42 anos, a quem, h\u00e1 poucos dias rasgaram as constitui\u00e7\u00f5es? Quem abre uma porta, ou quem sabe, apenas um postigo, a M., 45 anos, v\u00edtima de um absurdo ass\u00e9dio moral no emprego? Neste Natal, que direi, ou como direi Deus a tantos exclu\u00eddos que, por ironia, at\u00e9 conhecem, e dedicadamente servem, o Ex\u00adclu\u00eddo?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>5.<\/strong>&nbsp; E mais, o que entre tudo \u00e9, para mim, o mais dif\u00edcil: como \u00e9 que neste Natal semearei futuro; ou, como quem diz, como semearei esperan\u00e7a, como abrirei um carreiro ou uma clareira para os que na Noite Santa cantar\u00e3o com os anjos, e comigo, o <em>Gloria in excelsis Deo<\/em>? Como \u00e9 que a tantos de cora\u00e7\u00e3o cansado e abatido que teimam em resistir para n\u00e3o desistir, como \u00e9 que lhes direi que s\u00f3 o pobre triunfa, s\u00f3 o pobre importa e vence, no fim da hist\u00f3ria?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD 1.&nbsp; Do nascimento de Jesus n\u00e3o existe registo algum no civil ou certid\u00e3o de baptismo na Igreja. 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