{"id":3589,"date":"2023-11-30T02:21:00","date_gmt":"2023-11-30T02:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3589"},"modified":"2023-11-28T16:23:24","modified_gmt":"2023-11-28T16:23:24","slug":"dor-morte-e-luto-na-familia-de-santa-teresinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/dor-morte-e-luto-na-familia-de-santa-teresinha\/","title":{"rendered":"Dor, morte e luto na fam\u00edlia de Santa Teresinha*"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pais de Santa Teresinha, Z\u00e9lia e Louis Martin, casaram-se em 1858 e viveram uma vida matrimonial de 19 anos, at\u00e9 \u00e0 morte da esposa. Inicialmente o projecto do casal era viver a contin\u00eancia no casamento, mas abrindo-se ao projecto de Deus acolheram nove filhos \u2013 Z\u00e9lia, empreendedora, empres\u00e1ria e m\u00e3e, ser\u00e1, sobretudo, m\u00e3e; escrever\u00e1 a prop\u00f3sito: <em>\u00abAmo loucamente as crian\u00e7as; nasci para t\u00ea-las\u00bb<\/em>, pelo que todas as suas energias eram canalizadas para a educa\u00e7\u00e3o da prole, tomando sempre por base a confian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De 1860 a 1873 nasceram-lhes nove filhos: Maria (1860); Paulina (1861); Le\u00f3nia (1863); Helena (1864); Jos\u00e9 Luis (1866); Jos\u00e9 Jo\u00e3o Baptista (1867); Celina (1869); Mel\u00e2nia (1870) e Teresinha (1873). Dos nove morrer\u00e3o os dois meninos \u2013 Jos\u00e9 Luis de cinco meses; e Jos\u00e9 Jo\u00e3o Baptista, de oito \u2013; e duas meninas \u2013 Helena, aos cinco anos; e Mel\u00e2nia com pouco mais de um m\u00eas \u2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A abundante correspond\u00eancia de Z\u00e9lia revela o profundo afecto existente entre o casal, e as alegrias e sofrimentos brotando ao ritmo dos nascimentos e mortes dos filhos. Publicando-se este texto no dia de Fi\u00e9is Defuntos reflectiremos sobre a viv\u00eancia da morte e do luto, e a rela\u00e7\u00e3o com os defuntos naquela fam\u00edlia aben\u00e7oada, muito embora a morte a tenha visitado precocemente, por quatro vezes, na pessoa de quatro crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhum pai \u00e9 para ver ir os filhos \u00e0 frente. Z\u00e9lia e Louis, por\u00e9m, viram. Acompanhemos os sentimentos do casal santo que nunca ro\u00e7aram nem a histeria nem o desespero, antes a serenidade e a esperan\u00e7a e, por fim, tamb\u00e9m os de Teresinha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Z\u00e9lia e Louis sempre se sentiram profundamente aben\u00e7oados com o nascimento dos nove filhos. A cada morte precoce correspondeu, naturalmente, um doloroso per\u00edodo de luto. Por\u00e9m, jamais enfraqueceram a sua confian\u00e7a na bondade do plano de Deus, antes mais se abandonaram, amorosamente, \u00e0 Sua vontade. E \u00e9 assim que o seu exemplo santo representa um modelo de como enfrentar a morte e consequente aus\u00eancia de familiares e amigos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se verifica no elenco acima, quando Teresinha nasceu j\u00e1 os quatro irm\u00e3ozinhos haviam morrido; ela, sempre d\u00e9bil de sa\u00fade, seria a quinta, aos 24 anos de idade. T\u00e3o piedosa qu\u00e3o carinhosa, Z\u00e9lia, a m\u00e3e, soube viver e ler o mist\u00e9rio da morte e a enquadr\u00e1-lo no cora\u00e7\u00e3o das filhas sobreviventes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de nascer o primeiro menino o casal tinha j\u00e1 quatro filhas; por isso, todas as noites, a pedido da m\u00e3e, <em>\u00abas m\u00e3os das pequenitas juntavam-se para pedir a S\u00e3o Jos\u00e9 um irm\u00e3ozinho que oferecesse a H\u00f3stia Santa e fosse para terras distantes evangelizar os pag\u00e3os\u00bb. <\/em>Num dos partos mais felizes o menino nasceu mas, seis meses depois, seria o primeiro a falecer<em>.<\/em> Sem outro arrimo que n\u00e3o a f\u00e9, Z\u00e9lia resignou-se com a vontade de Deus: <em>\u00abEle no-lo deu. Ele no-lo tirou\u00bb<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">T\u00e3o s\u00f3 nove meses depois, em p\u00f3s doloroso parto, nasceu Jos\u00e9 Jo\u00e3o Baptista. Em palavras da m\u00e3e era <em>\u00abmuito forte e muito vivo\u00bb<\/em>. Contudo morreria oito meses depois, so\u00e7obrando a tr\u00eas de bronquite agravados por uma crise intestinal t\u00e3o aguda que fizeram a m\u00e3e suplicar o fim do calv\u00e1rio do filho: o menino<em> \u00abpassou uma noite de cruel sofrimento e eu pedia, com l\u00e1grimas, que Nosso Senhor o levasse. Foi um al\u00edvio quando o vi dar o \u00faltimo suspiro\u00bb<\/em>. Deitando-o no seu caix\u00e3ozinho, banhada em l\u00e1grimas, a m\u00e3e coroou-o de rosas brancas, e por entre l\u00e1grimas e suspiros, confortava-se: <em>\u00abagora semeias em l\u00e1grimas, mas h\u00e1s-de recolher na abund\u00e2ncia da alegria do Senhor!\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"384\" height=\"743\" src=\"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Teresinha_def2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3571\" srcset=\"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Teresinha_def2.png 384w, https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Teresinha_def2-155x300.png 155w\" sizes=\"(max-width: 384px) 100vw, 384px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O golpe mais duro, tamb\u00e9m o mais inesperado, aconteceu em finais de fevereiro de 1870: Helena, de cinco anos, <em>\u00aba preferida de toda a fam\u00edlia\u00bb<\/em>, morreria <em>\u00abap\u00f3s uma crise que durou um s\u00f3 dia e sem que o m\u00e9dico pudesse adivinhar a gravidade do mal\u00bb<\/em>.&nbsp; Banhada em l\u00e1grimas, Z\u00e9lia assistiu a filha naquelas horas que se prolongaram pela noite dentro at\u00e9 \u00e0s dez da manh\u00e3. Despertando em meio do torpor a menina soergueu-se, rodeou o pesco\u00e7o da m\u00e3e com os dois bracinhos e consolou-a como p\u00f4de, dizendo-lhe: <em>\u00abMinha pobre m\u00e3ezinha, que esteve a chorar!\u00bb\u2026<\/em> E se grande tinha sido o desgosto pela morte dos dois meninos, <em>\u00aba perda desta causou-me um ainda maior. Agora que eu come\u00e7ava a apreci\u00e1-la, de t\u00e3o meiga e desenvolvida\u2026\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E nada mais tendo, nem melhor podendo para debelar a dor familiar, Z\u00e9lia em conformidade com a sua f\u00e9, oferecia para consolo do Cora\u00e7\u00e3o de Deus <em>\u00abo seu cora\u00e7\u00e3o esmagado por uma prensa\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele mesmo ano faleceria, Mel\u00e2nia, de pouco mais de um m\u00eas de vida. N\u00e3o tendo leite para a filha, Z\u00e9lia confiou a beb\u00e9 a uma ama que <em>\u00aba deixou definhar\u00bb<\/em>. Quando a m\u00e3e disso se apercebeu, j\u00e1 nada p\u00f4de fazer sen\u00e3o o funeral sob terr\u00edveis sofrimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que poderia consolar o cora\u00e7\u00e3o daqueles pais, ou quem lhes atenuaria o luto pela perda dos quatro meninos? \u2013 Fruto dos veios da terra n\u00e3o conhecemos nenhum b\u00e1lsamo; e um s\u00f3 se lhes imp\u00f4s: a esperan\u00e7a do C\u00e9u! Al\u00e9m disso, algumas testemunhas dizem-nos que Louis e Z\u00e9lia<em> \u00abconservavam gravadas na retina as fei\u00e7\u00f5es queridas dos desaparecidos, e consagravam-se aos que lhes ficavam, unindo, em magn\u00edfica solidariedade, a fam\u00edlia terrena e a fam\u00edlia que vivia no mundo melhor, sendo esta que protegia a outra\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Perante a morte, ainda mais se de um beb\u00e9 ou de uma crian\u00e7a, cessam as palavras at\u00e9 para fazer perguntas. Pela ben\u00e9fica for\u00e7a da gra\u00e7a de Deus, por\u00e9m, podem florir pequeninas flores de esperan\u00e7a nos cora\u00e7\u00f5es que doridos ficam. E a frag\u00e2ncia dessas florinhas poder\u00e1 ajudar a confiar que \u2013 adiantando-se os filhos aos pais para as moradas eternas \u2013 por des\u00edgnio de Deus, eles s\u00e3o constitu\u00eddos como intercessores dos que restam na peregrina\u00e7\u00e3o terrena. Isso confirma Z\u00e9lia numa carta: <em>\u00abquando fechava os olhos dos meus filhinhos nunca lamentei os trabalhos e preocupa\u00e7\u00f5es que tinha sofrido por eles. Muitas pessoas diziam-me: \u201cMais valia n\u00e3o os ter tido\u201d. Mas eu n\u00e3o suportava essa maneira de falar, porque eu n\u00e3o os tinha perdido para sempre: a vida \u00e9 curta e cheia de mis\u00e9rias e havemos de nos encontrar l\u00e1 em cima!\u00bb<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa esperan\u00e7a, sem analg\u00e9sicos, confortou e aliviou o cora\u00e7\u00e3o de Z\u00e9lia e Louis,<em> \u00abaqueles pais inigual\u00e1veis\u00bb<\/em>, e passou admiravelmente para o cora\u00e7\u00e3o das cinco meninas. Isso se pode ver, por exemplo, na vida e na f\u00e9 de Teresinha. Certo dia, estando j\u00e1 ela no carmelo, uma irm\u00e3 perguntou-lhe porque sempre sorria, mesmo diante das grandes tribula\u00e7\u00f5es eu sofria. Ao que <em>Florinha <\/em>respondeu:<em> \u00abA dor \u00e9 minha. O meu rosto \u00e9 dos outros. Conv\u00e9m que eu sorria\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E sorria e confiava. Confiava-se tamb\u00e9m \u00e0 <em>\u00abcomunh\u00e3o dos santos\u00bb <\/em>que \u00e9 um artigo da f\u00e9 crist\u00e3 pouco recordado. <em>\u00abNo in\u00edcio da sua vida espiritual\u00bb<\/em>, na volta dos treze para os catorze anos, e na sequ\u00eancia de um retiro, viveu uma terr\u00edvel crise de escr\u00fapulos que se negava a todo o cuidado. N\u00e3o lhe advindo solu\u00e7\u00e3o de quadrante algum \u2013 Maria entrara j\u00e1 no carmelo\u2026 \u2013, confessa ela, <em>\u00abdirigi-me aos quatro anjinhos do c\u00e9u, pois pensei <\/em>[\u2026] <em>que teriam compaix\u00e3o da sua pobre irm\u00e3zinha que tanto sofria na terra. Falei-lhes com simplicidade de crian\u00e7a. A sua partida para o c\u00e9u n\u00e3o me parecia raz\u00e3o suficiente para que me esquecessem. Ao contr\u00e1rio <\/em>[sentia que]<em> deviam dispor dos tesouros divinos para me conceder a paz. A resposta n\u00e3o se fez esperar. Em pouco tempo a paz inundou a minha alma\u00bb.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><sup>* <\/sup><em>Publicado no jornal Di\u00e1rio do Minho de 4 novembro 2023<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD Os pais de Santa Teresinha, Z\u00e9lia e Louis Martin, casaram-se em 1858 e viveram uma vida matrimonial de 19 anos, at\u00e9 \u00e0 morte da esposa. Inicialmente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3570,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3589","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3589","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3589"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3589\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3590,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3589\/revisions\/3590"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3570"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3589"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3589"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3589"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}