{"id":3557,"date":"2023-10-31T02:45:00","date_gmt":"2023-10-31T02:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3557"},"modified":"2023-10-30T10:11:31","modified_gmt":"2023-10-30T10:11:31","slug":"israel-nao-teras-outros-deuses-alem-de-mim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/israel-nao-teras-outros-deuses-alem-de-mim\/","title":{"rendered":"Israel, \u00abN\u00e3o ter\u00e1s outros deuses al\u00e9m de Mim\u00bb"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a independ\u00eancia do actual Estado de Israel em 1948 fomos assistindo \u2013 e assistimos \u2013 a gestos de anti-semitismo, mas tamb\u00e9m ao recrudescimento de manifesta\u00e7\u00f5es contra palestinianos, mu\u00e7ulmanos e crist\u00e3os. E frequentemente v\u00ea-se esta tens\u00e3o como diverg\u00eancia entre religi\u00f5es, que concebem de forma diversa o divino e a rela\u00e7\u00e3o das pessoas com Deus. Os leitores da B\u00edblia poderiam suspeitar que a base para essa tens\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 nela. Certo \u00e9 que o Deus dos hebreus aparece a exigir exclusividade de adora\u00e7\u00e3o e a rejeitar os outros deuses ou os deuses dos outros povos e religi\u00f5es. Fomo-lo ouvindo desde as sess\u00f5es de catecismo logo ao aprender os dez mandamentos como ditados ao povo de Israel: \u00abEu sou o Senhor, teu Deus\u2026: n\u00e3o ter\u00e1s outros deuses al\u00e9m de mim\u00bb (Ex 20,3).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na B\u00edblia, os deuses dos outros povos eram considerados \u00eddolos. Os profetas ridiculizavam-nos, censurando os israelitas que os adoravam: \u00abUm cipreste&#8230; \u00e9 bom para queimar. Com uma parte as pessoas aquecem-se\u2026 Com o resto fazem um deus, um \u00eddolo, que adoram prostrando-se diante dele\u2026, e dizem: \u2018salva-me, pois tu \u00e9s o meu deus!\u2019 N\u00e3o\u2026 discernem, porque\u2026 o seu cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 privado de compreender. N\u00e3o reflectem em seu cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o t\u00eam conhecimento nem intelig\u00eancia para dizer: \u2018queimei metade ao fogo, tamb\u00e9m cozi o p\u00e3o nas suas brasas\u2026 e do resto extra\u00ed uma abomina\u00e7\u00e3o: adoro um peda\u00e7o de madeira\u2019\u00bb (Is 44,13-19). Por essa altura, com Israel desterrado na Babil\u00f3nia (depois de 587 a.C.), o Deuteron\u00f3mio, numa exorta\u00e7\u00e3o sem precedentes \u00e0 fidelidade ao seu Deus e \u00e0 nega\u00e7\u00e3o dos outros deuses, p\u00f5e Mois\u00e9s a dizer ao povo: \u00abReverenciar\u00e1s o Senhor, teu Deus, a Ele servir\u00e1s\u2026 N\u00e3o ireis atr\u00e1s de outros deuses, deuses dos povos que estar\u00e3o ao redor de v\u00f3s\u00bb (6,13-15). Chega a amea\u00e7ar que \u00abquem servir outros deuses prostrando-se diante deles\u00bb ser\u00e1 apedrejado \u00e0 morte (17,2-5).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta era a viragem operada pela f\u00e9 b\u00edblica na hist\u00f3ria da evolu\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito humano. \u00c9 feita remontar a Mois\u00e9s (\u00b1 1220 a.C.): consiste na proposta de adorar um s\u00f3 Deus como verdadeiro, considerando falsos deuses todos os outros, declarando-os mentira, engano, fal\u00e1cia gen\u00e9tica. Por tr\u00e1s desta liga\u00e7\u00e3o transparecia a distin\u00e7\u00e3o entre verdade e mentira: Deus \u00e9 a verdade, os deuses dos outros s\u00e3o mentira. Ora, esta distin\u00e7\u00e3o entre verdadeiro e falso, entre Deus e os deuses, foi por vezes traduzida na distin\u00e7\u00e3o entre amigo e inimigo: a proibi\u00e7\u00e3o de outros deuses poderia definir e gerar um inimigo. Os adoradores de outros deuses ou de outro deus (1Rs 18,21) foram vistos como inimigos dos adoradores do Deus considerado verdadeiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Honestamente, este contexto liter\u00e1rio poderia descobrir essa l\u00f3gica de inimizade e at\u00e9 de viol\u00eancia. De facto, a linguagem dos textos da B\u00edblia hebraica que declaram luta \u00e0 idolatria ou descrevem a elimina\u00e7\u00e3o de adoradores de outros deuses transpira viol\u00eancia. N\u00e3o admira que o Iluminismo e o Racionalismo os tenham denunciado como textos de crueldade. Numa opera\u00e7\u00e3o punitiva exemplar \u2013 depois do epis\u00f3dio da adora\u00e7\u00e3o do bezerro de ouro \u2013 os levitas de Israel matam \u00e0 espada cerca de 3.000 homens por indica\u00e7\u00e3o de Deus a Mois\u00e9s (Ex 32,25-35). E o ajuste de contas do profeta Elias com os 450 profetas do deus fen\u00edcio Baal mais os 400 profetas da deusa fen\u00edcia Achera n\u00e3o \u00e9 menos cruel: depois do desafio sobre quem era o Deus verdadeiro, se o Deus de Israel, se os deuses fen\u00edcios, e tendo o povo aceitado como verdadeiro o Deus de Israel, Elias degolou-os (1Rs 18,18-40). At\u00e9 o piedoso rei de Jud\u00e1, Josias, levando a cabo uma reforma religiosa sem paralelo (622 a.C.), destituiu \u00abos sacerdotes que ofereciam incenso a Baal, ao sol, \u00e0 lua, \u00e0s constela\u00e7\u00f5es e a todo o ex\u00e9rcito dos c\u00e9us\u00bb e \u00abimolou nos altares todos os sacerdotes\u2026 que ali havia\u00bb (2Rs 23,4-20).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 ineg\u00e1vel que esta fraseologia b\u00edblica est\u00e1 eivada de viol\u00eancia. E verifica-se que, depois dos tempos b\u00edblicos at\u00e9 aos nossos dias, os fi\u00e9is das tr\u00eas religi\u00f5es monote\u00edstas, que v\u00e3o buscar \u00e0 B\u00edblia o substrato para a sua espiritualidade e ac\u00e7\u00e3o, exerceram viol\u00eancia uns sobre outros, fundamentando-se na linguagem dos respectivos textos sagrados que a descrevem. Contudo, n\u00e3o a exerceram de forma igual. Sobrevoando a hist\u00f3ria na generalidade, um dado chama a aten\u00e7\u00e3o. A tradu\u00e7\u00e3o desta viol\u00eancia verbal em factos violentos por motivos religiosos quase n\u00e3o \u00e9 atribu\u00edvel aos hebreus\/judeus at\u00e9 \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o de um Estado israelita independente numa terra pr\u00f3pria (aquela em que tinham vivido pelo menos desde os tempos do rei David no s\u00e9c. X a.C., com invas\u00f5es e ex\u00edlios colectivos pelo meio, at\u00e9 ao ano 135 d.C., altura em que os grupos de judeus que lutaram contra o ocupante e colonizador imp\u00e9rio romano foram esmagados e vencidos, resultando da\u00ed uma expuls\u00e3o massiva dos judeus da sua terra). No decorrer da hist\u00f3ria ter\u00e3o sido capazes de humanizar estes textos at\u00e9 ao ponto de os tornar \u2013 ou entender como \u2013 inofensivos na ac\u00e7\u00e3o. Interiorizaram a distin\u00e7\u00e3o entre amigo e inimigo, reduzindo-a a um dissentimento interior, a um pecado pessoal, que n\u00e3o envolveria a comunidade, plural do ponto de vista religioso, em que o judeu estivesse inserido. A tend\u00eancia para interiorizar a distin\u00e7\u00e3o entre amigo e inimigo refor\u00e7ou-se cada vez mais no juda\u00edsmo, at\u00e9 ao ponto de ser reduzida a uma tens\u00e3o ou conflito interior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se esta tese \u00e9 v\u00e1lida, essa interioriza\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea evitava o perigo real de a translada\u00e7\u00e3o da linguagem da viol\u00eancia, do campo e do contexto sem\u00e2ntico narrativo pr\u00f3prio, b\u00edblico, para outro contexto que n\u00e3o o dela \u2013 descontextualizando-a, portanto \u2013 efectivar a viol\u00eancia que ela n\u00e3o queria gerar. Ao n\u00e3o enveredarem por uma l\u00f3gica de viol\u00eancia em ac\u00e7\u00e3o que os seus textos sagrados fundadores aparentemente indiciavam, os judeus ter\u00e3o intu\u00eddo que a viol\u00eancia que uma leitura \u00e0 <em>letra<\/em> da proibi\u00e7\u00e3o da adora\u00e7\u00e3o de outros deuses transpira n\u00e3o \u00e9 inerente ao <em>esp\u00edrito<\/em> desses textos. Ter\u00e3o tomado consci\u00eancia de que a aparente viol\u00eancia verbal do Deus b\u00edblico contra os outros deuses n\u00e3o visava incitar \u00e0 pr\u00e1tica da viol\u00eancia f\u00edsica contra os adeptos desses outros deuses: quem se sentiu satisfeito com isso p\u00f4s baixa a fasquia da leitura. Possivelmente pela cong\u00e9nita compreens\u00e3o do alcance da l\u00edngua original hebraica da B\u00edblia, do seu l\u00e9xico e do funcionamento da sua sem\u00e2ntica, poder\u00e3o ter percebido que a significa\u00e7\u00e3o desses textos n\u00e3o se limitava ao que <em>diziam<\/em>: estava no que <em>queriam dizer<\/em>. N\u00e3o queriam fazer historiografia: eram um programa de espiritualidade. Sugeriam que o compromisso de fidelidade de Israel ao pr\u00f3prio Deus exigia a absten\u00e7\u00e3o de qualquer culto idol\u00e1trico e de express\u00f5es de religiosidade que pusessem em perigo a pureza da f\u00e9. Tencionavam, n\u00e3o gerar inimizade com pessoas mas evitar reduzir o Deus transcendente \u00e0 mat\u00e9ria: censurar a idolatria era rejeitar que o verdadeiro Deus pudesse ser n\u00e3o-transcendente. Se n\u00e3o fosse transcendente, mais valeria ser-se ateu, porque \u00abos \u00eddolos dos [outros] povos s\u00e3o ouro e prata, obra das m\u00e3os dos homens; t\u00eam boca, mas n\u00e3o falam; t\u00eam olhos, mas n\u00e3o v\u00eaem; t\u00eam ouvidos, mas n\u00e3o ouvem\u00bb (Sl 115,4-8). S\u00e3o cria\u00e7\u00e3o humana, reduzida e redutora, deuses contrafeitos, sem transcend\u00eancia. Adorar deuses seria perder do horizonte a transcend\u00eancia, identificar Deus-Esp\u00edrito com o f\u00edsico, sem necessidade de sentido \u00faltimo para a vida. O judeu formado na f\u00e9 b\u00edblica percebia que a luta dela contra a idolatria era uma luta espiritual pela salva\u00e7\u00e3o da ess\u00eancia do humano, que, se adorasse deuses, se rebaixaria ao n\u00edvel deles, que eram a tal \u00ababomina\u00e7\u00e3o\u00bb alienante. Por isso diz o profeta Jeremias dos israelitas id\u00f3latras: \u201cAssim diz o Senhor: afastaram-se de mim; indo atr\u00e1s do vazio, tornaram-se vazios\u201d (2,5). Venerar deuses punha a esperan\u00e7a em objectos inferiores, projectando neles a mortalidade humana. Isto valia mesmo para express\u00f5es de f\u00e9 monote\u00edsta que viessem a adulterar a imagem do verdadeiro Deus que pretendessem adorar (como a de um deus castigador, milagreiro, intervencionista, legislador\u2026).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se v\u00ea, a leitura de textos sagrados antigos e a sua interpreta\u00e7\u00e3o mexem com a vida, influenciam-na de forma determinante, para o bem e para o mal. Se for contextualizada, despoja-os de viol\u00eancia. Esta nem ter\u00e1 sido objectivamente levada \u00e0 pr\u00e1tica nos tempos b\u00edblicos. N\u00e3o se pode dizer que Elias tenha matado 450+400 profetas; a cena de car\u00e1cter lend\u00e1rio est\u00e1 revestida das cores de uma teofania para exaltar a f\u00e9 s\u00f3 no Deus de Israel. Lida nessa cad\u00eancia espiritual, queria significar a incompatibilidade de Deus com a idolatria e p\u00f4r o leitor a interagir com o transcendente, invis\u00edvel mas presente. O mesmo significava a amea\u00e7a de apedrejar quem venerasse outro deus que n\u00e3o o de Israel; mas n\u00e3o era para executar. Enquanto enraizado na humanidade e espiritualidade b\u00edblica, o israelita ter\u00e1 pensado que a viol\u00eancia p\u00f5e a nu as contradi\u00e7\u00f5es, os enganos dos que optam por ela. Viu que <em>o<\/em> <em>novo<\/em> da viol\u00eancia \u00e9 a aniquila\u00e7\u00e3o do bom que o violento pode ter, gerando o \u2018pior que antes\u2019, e que as suas ra\u00edzes s\u00e3o a vingan\u00e7a do amor perdido. Viu que a viol\u00eancia \u00e9 a pot\u00eancia descontrolada de uma consci\u00eancia deformada, alimentada com a corrup\u00e7\u00e3o virulenta do amor em \u00f3dio, e que, portanto, seria o aviltamento do humano. O entendimento fundamentalista dos textos b\u00edblicos, que ao longo dos s\u00e9culos justificou guerras e outras formas de viol\u00eancia, causar\u00e1 surpresas a quem n\u00e3o o quer evitar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Desde a independ\u00eancia do actual Estado de Israel em 1948 fomos assistindo \u2013 e assistimos \u2013 a gestos de anti-semitismo, mas tamb\u00e9m ao recrudescimento de manifesta\u00e7\u00f5es contra [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3559,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3557","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3557"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3557\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3561,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3557\/revisions\/3561"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3559"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}