{"id":3555,"date":"2023-10-31T02:39:00","date_gmt":"2023-10-31T02:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3555"},"modified":"2023-10-27T14:40:11","modified_gmt":"2023-10-27T14:40:11","slug":"uma-mulher-e-o-seu-castelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/uma-mulher-e-o-seu-castelo\/","title":{"rendered":"Uma mulher e o seu castelo"},"content":{"rendered":"\n<p><br>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Santa Teresa de Jesus (1515-1582) foi mulher diligente e valente num contexto de patriarcas e var\u00f5es. Era de linhagem nobre, embora falida e de baixo coturno. Fundadora e escritora, dirigiu-se a suas irm\u00e3s e filhas, e a toda a Igreja, incluindo bispos e te\u00f3logos. Dirigiu-se, digo: ensinou. Foi mulher \u00e0 frente, num tempo marcado pelas Descobertas, pelo enfrentamento entre Reforma e Contra-Reforma, e pela rudeza da Inquisi\u00e7\u00e3o. Ter sido mulher num tempo t\u00e3o desafiante, simultaneamente t\u00e3o novo e t\u00e3o velho \u2013 precisamente na hora em que ardendo a Velha come\u00e7ava a surgir a Nova Europa \u2013 ter sido mulher e aceitado ser guiada pelo Esp\u00edrito Santo para alumiar e ensinar, e depois disso, ter sobrevivido, n\u00e3o foi nem empresa menor nem tarefa pouca! Bem merece, por isso, ser celebrada hoje. E lembradas as suas \u00faltimas palavras: \u00abMorro, enfim, filha da Igreja!\u00bb.<\/li>\n\n\n\n<li>\u00c9 considerada, com justi\u00e7a, um dos maiores g\u00e9nios da Humanidade \u2013 n\u00e3o apenas por cat\u00f3licos, mas tamb\u00e9m muitos indiferentes, tantos agn\u00f3sticos e ateus \u2013 porque todos lhe reconhecem a originalidade da sua sabedoria espiritual que s\u00f3 pode provir duma impetuosa fonte manando-lhe da experi\u00eancia e do contacto com o sublime e o divino. Era al\u00e9m disso mulher arguta de intelig\u00eancia, senhora de uma for\u00e7a surpreendente e persuasiva em seus argumentos, e possuidora de um estilo vivo e atraente.<br>Percorrendo dist\u00e2ncias improv\u00e1veis, por carreiros lamacentos e impratic\u00e1veis, \u00e0 merc\u00ea de bandoleiros e percevejos, ind\u00f3mita at\u00e9 ao hero\u00edsmo, mostrou-se capaz de empreender a funda\u00e7\u00e3o de dezasseis mosteiros de Descal\u00e7as, aventura que ainda hoje s\u00f3 pode impressionar-nos porque em cada um daqueles deixava comunidades de monjas que ardiam de zelo por Deus e pela Igreja.<br>T\u00e3o l\u00facida qu\u00e3o intuitiva sabia perceber em quem se lhe apresentava por diante a mola secreta que o (ou a) levantaria em favor de algo melhor e de um bem maior. Era ainda bela, de um s\u00f3lido e luminoso bom senso, franqueza humilde, e eleg\u00e2ncia t\u00e3o sedutora que mais cativava que amesquinhava.<br>Sem jamais alguma vez ter sido uma Madalena, nem sempre foi modelo de inteira perfei\u00e7\u00e3o. De facto, nos primeiros anos de vida no mosteiro algo se desleixou no fervor religioso. Aos 39 anos, por\u00e9m, quase inadvertidamente, Deus lhe tocou o cora\u00e7\u00e3o, e de uma maneira t\u00e3o sens\u00edvel que, debulhada em l\u00e1grimas, e prostrada diante de uma imagem representando Jesus atado \u00e0 coluna na hora da flagela\u00e7\u00e3o, lhe disse; \u00abSenhor, daqui n\u00e3o me levanto, enquanto n\u00e3o me concederdes a gra\u00e7a e a fortaleza bastantes, para n\u00e3o cair mais em pecado e Vos servir de todo cora\u00e7\u00e3o, com zelo e const\u00e2ncia\u00bb.<br>Aquela sua ora\u00e7\u00e3o foi ouvida e, de uma vez para sempre, o cora\u00e7\u00e3o de Teresa seria s\u00f3 de Jesus, e os seus cuidados e trabalhos s\u00f3 para O tornar mais conhecido e amado. Amado, tal \u00e9 o nome que de ora em diante Teresa chamar\u00e1 a Jesus.<br>\u00c0 dist\u00e2ncia de cinco curtos anos da sua morte \u2013 hora que todos sempre ignoramos \u2013, em outubro de 1577, portanto, imersa nos duros trabalhos fundacionais e no cansativo governo dos seus mosteiros, escreve a sua obra espiritual mais madura: o Castelo Interior.<br>Contra o sentido das conven\u00e7\u00f5es sociais vigentes ao tempo, temos ali uma mulher escritora, uma mestra espiritual, desarmada de conceitos teol\u00f3gicos, e apenas arrimada \u00e0 sua experi\u00eancia pessoal de Deus, algo t\u00e3o \u00edntimo e forte que a instituiu farol por cima das duras brumas que encarapa\u00e7avam o catolicismo de ent\u00e3o. Temos, enfim, ali uma mulher e o seu castelo \u2013 coisa t\u00e3o in\u00e9dita quanto actual.<\/li>\n\n\n\n<li>(Por falar nisso, quero apresentar-lhes um quadro. Existe uma pintura, creio que flamenga, mas n\u00e3o sei ao certo, pois no seu tanto algo me foge da mem\u00f3ria, no qual habito sem l\u00e1 me encontrar esbo\u00e7ado. Se bem recordo \u00e9 um quadro levemente entenebrecido a s\u00e9pia como um fim de tarde de outono, embora, talvez, mais bem sereno, e com um qu\u00ea de melancolia. Oito d\u00e9cimos do espa\u00e7o \u00e9 ocupado por campos em pousio, o restante por um rio que se abre para um peda\u00e7o de oceano, e por um navio em modo partida. Naquele imenso espa\u00e7o buc\u00f3lico desenha-se uma cena central: um casal anda a lavrar; ele, atr\u00e1s do arado, vai agarrado \u00e0 rabi\u00e7a, seguindo os bois virados para o mar; ela, atr\u00e1s deles e um pouco ao lado, esparze sementes. Nem o casal nem os bois se apercebem do navio, nem do navio h\u00e1 sinais para o casal que fica.<br>Sempre li esse quadro \u2013 n\u00e3o sei se bem \u2013 como a partida da Europa para as Descobertas: os que v\u00e3o vogam calmos e entretidos em rezas ou jogos, e de tudo o que fica se desligam e despercebem; os que ficam fincam o nariz na terra, abrem-na e semeiam-na, e n\u00e3o valorizam os que partem. Acerto? N\u00e3o sei. Sei ou parece-me que o quadro est\u00e1 incompleto: por essas horas a Europa de todo n\u00e3o era melanc\u00f3lica, mas apaixonada e ardente; e, sobretudo, a norte, esturgiam-se igrejas e catedrais, e semeava-se o ch\u00e3o de terror e sacril\u00e9gios. \u00c9 por isso que na paisagem noto uma aus\u00eancia que sangra; algo falha ali: um castelo!)<\/li>\n\n\n\n<li>Como se sabe, os castelos s\u00e3o dos var\u00f5es, e para as mulheres pris\u00e3o s\u00e3o, donde devam ser resgatadas por valoroso cavaleiro que advenha e as encante. N\u00e3o assim, Teresa. Teresa \u00e9 senhora de um castelo! S\u00ea-lo-\u00e1 sempre! Sempre! E sempre ensinar\u00e1 suas filhas a serem alcaidesas; e se servas, s\u00f3 de Sua Majestade \u2013 Jesus, o Senhor, o bom amigo e valoroso capit\u00e3o!<\/li>\n\n\n\n<li>O castelo \u2013 e tantos havia no seu tempo, mai\u2019la sua amuralhada cidade de \u00c1vila que tanto, ainda hoje, se nos afigura a um imenso castelo \u2013 \u00e9 o seu mais poderoso s\u00edmbolo gerado em sua literatura, e aquele que melhor a representa. Assumindo que nunca ela no-lo explicou cabalmente, atentemos algumas das suas genu\u00ednas considera\u00e7\u00f5es:<\/li>\n\n\n\n<li>O castelo \u00e9 a alma; e quem diz a alma, diz cada pessoa, a pessoa toda, e a sua interioridade. Logo, Teresa \u00e9 o castelo; eu sou o castelo; tu, de igual. A este castelo composto de sete moradas ou mans\u00f5es cada uma com muitos c\u00f3modos \u2013 uns por cima, outros por debaixo, outros pelos lados, em torno \u00e0 morada central \u2013 nada lhe falta. Tem uma muralha ou cerca \u2013 \u00e9 o corpo de cada um; e uma porta \u2013 a ora\u00e7\u00e3o entendida como amizade com Jesus, pela qual se entra e se adentra rumo \u00e0 interioridade. E tem habitantes; os principais s\u00e3o Deus e cada um. O senhor ou alcaide \u2013 no caso em apre\u00e7o, a alcaidesa \u2013 do castelo \u00e9 a alma, ou a pessoa, e Deus o seu h\u00f3spede.<br>E tem outros habitantes: vassalos e guardi\u00f5es que, em linguagem da Santa, s\u00e3o os sentidos e pot\u00eancias da alma (mem\u00f3ria, intelig\u00eancia e vontade).<br>Todo o castelo tem tamb\u00e9m inimigos r\u00e9cios e tenazes; e o de Santa Teresa tamb\u00e9m: (n\u00f3s pr\u00f3prios; e) cobras, sevandijas, pe\u00e7onhas, bestas e canh\u00f5es. Postados fora do castelo, os inimigos lutam para nos impedir a entrada e a demanda em direc\u00e7\u00e3o ao mais profundo centro. E se dentro, igual empecem, ou pior. Ali\u00e1s, tudo o que, fora ou dentro, nos impe\u00e7a de caminhar rumo aos tesouros da interioridade, e a sermos inteiramente livres, \u00e9 inimigo, pelo que nessa conta se hajam de contar os pecados, tenta\u00e7\u00f5es, al\u00e9m dos inimigos da alma: mundo, dem\u00f3nio e carne.<br>H\u00e1 no castelo muitas aposentos (assim como no c\u00e9u h\u00e1 muitas moradas). Ir evoluindo, esfor\u00e7adamente, de aposento em aposento, \u00e9 um duro bregar, desde o mais externo at\u00e9 ao mais alto e profundo centro, onde se d\u00e1 a uni\u00e3o \u00edntima com Deus \u2013 tal \u00e9, pois, a demanda certa, da qual importa jamais desistir.<\/li>\n\n\n\n<li>Ao longo do percurso de morada em morada, de etapa em etapa, o que para Teresa sempre mais e mais importa, \u00e9 manter por toda a vida a rela\u00e7\u00e3o com o Senhor, fixos os olhos Nele, pela via da ora\u00e7\u00e3o, digo, pela amizade \u00edntima, num tu a tu determinado e insubstitu\u00edvel.<\/li>\n\n\n\n<li>Neste nosso tempo t\u00e3o ins\u00f3lito e solit\u00e1rio, muito conv\u00e9m lembrar que jamais algu\u00e9m vive s\u00f3, pois somos castelo onde connosco Deus sempre mora, e n\u00f3s com Ele; mora, mas n\u00e3o esbraceja nem se imp\u00f5e; aguarda-nos. Ele sabe e respeita-nos como sempre se deve respeitar o alcaide ou alcaidesa de um castelo \u2013 cada um de n\u00f3s. Cabe-nos, pois, combater, defendendo-o e, desde ele, defender o doce H\u00f3spede que em n\u00f3s mora e clama pela ternura do nosso olhar, para que mais em n\u00f3s se acrescente a amizade com Ele; que sempre ali mora, aten\u00e7\u00e3o!, e desde o mais profundo segredo do nosso castelo para n\u00f3s \u00e9 e desde n\u00f3s nos acalenta. Para n\u00e3o restarmos s\u00f3s, cabe-nos, pois, o esfor\u00e7o de ir procur\u00e1-Lo, de morada em morada, arrimados ao amor que nunca nos deixa ociosos.<br>Custe o que custar, venha o que vier, suceda o que se suceder, quer o mar se afunde, ou desabem as gal\u00e1xias, n\u00e3o existe, pois, tarefa mais nobre para o crist\u00e3o do que penetrar, sem hesitar nem desistir, no castelo, e mergulharmos no seu profundo centro.<\/li>\n\n\n\n<li>\u00c9 s\u00f3 ali que acontecem as coisas mais secretas entre Deus e alma!<br>Tarefa s\u00f3 para atrevidos que queiram nunca faltar ao Senhor! Que Ele nunca nos falha!<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frei Jo\u00e3o Costa, OCD<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3541,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3555","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3555","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3555"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3555\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3556,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3555\/revisions\/3556"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3541"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3555"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3555"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3555"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}