{"id":3531,"date":"2023-09-30T02:58:00","date_gmt":"2023-09-30T02:58:00","guid":{"rendered":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/?p=3531"},"modified":"2023-09-29T07:59:27","modified_gmt":"2023-09-29T07:59:27","slug":"os-orantes-dos-salmos-biblicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/os-orantes-dos-salmos-biblicos\/","title":{"rendered":"Os orantes dos salmos b\u00edblicos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>Armindo Vaz, OCD<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os salmos b\u00edblicos, ora\u00e7\u00e3o que brotou de um povo ao longo de uns 800 anos, tamb\u00e9m foram a linguagem usada por Jesus para p\u00f4r a sua alma em ora\u00e7\u00e3o. Foi por eles que Jesus se exp\u00f4s e se exprimiu diante de Deus. Morreu murmurando um vers\u00edculo do salmo 31,6: \u201cPai, nas tuas m\u00e3os entrego o meu esp\u00edrito\u201d. Assim, hoje podemos rezar com as mesmas palavras com que Jesus rezou. Porque os salmos foram express\u00e3o da vida real de tantos orantes, s\u00e3o vida em movimento, olhar do cora\u00e7\u00e3o para o lado e para o Alto, ora\u00e7\u00e3o do salmista mas tamb\u00e9m de milh\u00f5es de orantes at\u00e9 Jesus e de bili\u00f5es de pessoas desde Jesus at\u00e9 hoje. Foram compostos em ora\u00e7\u00e3o e para serem rezados. S\u00e3o palavra de Deus feita palavra de ora\u00e7\u00e3o a Deus. S\u00e3o o canto do homem que torna a Deus, orientando a hist\u00f3ria para a eternidade, porque v\u00eaem o Eterno na hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conjunto de todos eles representa os melhores orantes b\u00edblicos at\u00e9 Job e at\u00e9 Jesus. E o essencial da profundidade da sua espiritualidade est\u00e1 no facto de nos porem a \u00abexistir diante de Deus\u00bb (Revista de Espiritualidade 30, n\u00ba 118 [2022] 127-142), de fazerem a alma ter sede do Deus vivo (Sl 42,1-6) e ansiar por ver o seu rosto: \u00abO teu rosto, Senhor, eu procuro; n\u00e3o escondas de mim o teu rosto\u00bb (Sl 27,8). Mas a infinita necessidade de Deus sentida pelos salmistas seria menos verdadeira se subestimassem a import\u00e2ncia do ser humano, o real e potencial orante. Ora, o que neles se verifica \u00e9 que, longe de o subestimarem, o humano est\u00e1 sempre no outro p\u00f3lo da procura do ser de Deus. Os salmistas partilham muitas das inquieta\u00e7\u00f5es da B\u00edblia sobre o ser humano, onde ele \u00e9 constantemente tema polar e motivo condutor da longa sinfonia que soa ao longo de toda ela: ela faz aparecer Deus \u00e0 procura do Homem e o Homem \u00e0 procura de Deus. Este \u00e9 procurado e querido como indispens\u00e1vel por aquele e para dar sentido \u00faltimo \u00e0 sua exist\u00eancia \u2013 se n\u00e3o, quem o daria? A preocupa\u00e7\u00e3o do salmista pelo ser humano n\u00e3o incide s\u00f3 na sua exist\u00eancia; incide tamb\u00e9m na sua raz\u00e3o de ser e no seu fim. E s\u00e3o tamb\u00e9m diferentes as perguntas que sobre ele p\u00f5e. Estas polaridades est\u00e3o ilustradas, por exemplo, no salmo 8. Depois de se entusiasmar exaltando o ser de Deus com admira\u00e7\u00f5es contemplativas (\u00ab\u00d3 Senhor, Senhor nosso, como \u00e9 admir\u00e1vel o teu nome em toda a terra!\u00bb), o orante concentra-se no ser humano e na rela\u00e7\u00e3o dele com Deus: \u00abQue \u00e9 o ser humano para te lembrares dele, o filho do homem, para com ele te preocupares? Fizeste dele pouco menos que um ser divino\u00bb. Igual pergunta \u2013 \u00e0 procura \u2013 p\u00f5e o salmo 144 sobre o humano, mas agora para olhar para a sua conting\u00eancia: \u00abSenhor, que \u00e9 o homem, para te preocupares com ele? Que \u00e9 um ser humano para pensares nele? O homem \u00e9 semelhante a um sopro; os seus dias s\u00e3o como a sombra que passa\u00bb (144,3-4). Por baixo das car\u00eancias que o salmista exprimia na ora\u00e7\u00e3o, passava subtilmente a conting\u00eancia existencial do ser humano face a Deus, como dizendo: para qu\u00ea te esmeraste tanto com a alta perfei\u00e7\u00e3o de uma nuvem passageira? para que serve preocupares-te com o ser humano se, afinal, \u00e9 como um sopro? Na realidade, por\u00e9m, o salmista, professando a transitoriedade da condi\u00e7\u00e3o humana, afirma simultaneamente a vontade de Deus se relacionar com o Homem pelo simples facto de existir; apesar de ser como a sombra que passa, \u00e9 obra de arte digna da maior aten\u00e7\u00e3o, na individualidade \u00fanica de cada pessoa, na capacidade de pensar, de comunicar e de se alegrar, na empatia e na compaix\u00e3o para com outras pessoas. Faz-lhe eco S. Jo\u00e3o da Cruz: \u00abUn solo pensamiento del hombre vale m\u00e1s que todo el mundo\u00bb (Ditos de luz e amor, 34).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o salmista, a ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o era ap\u00eandice da vida. Era sangue que corria nas veias, emo\u00e7\u00e3o que enchia as suas entranhas de israelita salvo. Era uma resposta de confian\u00e7a em Deus, acreditado, aceite e escutado como libertador dos humanos: \u00abFeliz o povo cujo Deus \u00e9 o Senhor!\u201d (Sl 144,15). Era uma atitude de humildade, porque quem orava com os salmos sabia que se integrava numa boa onda de gra\u00e7a: \u00abO Senhor \u00e9 excelso, mas repara no humilde\u00bb (Sl 138,6).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, a recita\u00e7\u00e3o dos salmos e os salmos em si sempre fizeram parte da paisagem humana, cultural e religiosa do povo que viveu na sua carne a aud\u00e1cia dos seus vers\u00edculos. Cada israelita \u00abnascia com os salmos nas entranhas\u00bb (A. CHOURAQUI, Le Cantique\u2026 suivi des Psaumes [PUF 1970] 83). Vivia-os como os cantava: \u00abLouva, \u00f3 minha alma o Senhor! Hei-de louvar o Senhor na minha vida e cantar ao meu Deus enquanto existir\u00bb (Sl 146,2). Nos \u00faltimos tr\u00eas s\u00e9culos a.C., os salmos j\u00e1 estavam e ficaram para sempre pegados \u00e0 l\u00edngua e ao paladar do povo b\u00edblico como o esp\u00edrito ao corpo, como a sombra \u00e0 luz, como a voz ao canto. E sempre suscitaram atrac\u00e7\u00e3o, pela sua for\u00e7a inspiradora, pelo fasc\u00ednio po\u00e9tico e pela beleza espiritual, o desmedido que entra na medida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A emo\u00e7\u00e3o l\u00edrica da sua palavra alavanca para a esperan\u00e7a mesmo os atormentados por uma guerra ou visitados por uma pandemia, ao verbaliz\u00e1-las: \u00abos inimigos, Senhor, acabaram em ru\u00ednas para sempre\u00bb (Sl 9,10); \u00abn\u00e3o temer\u00e1s a peste que alastra nas trevas nem a epidemia que devasta em pleno dia\u00bb (Sl 91,6). E oferece sentimentos de piedade, de entrega e de confian\u00e7a em Deus, que aliviam agora outros orantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, OCD Os salmos b\u00edblicos, ora\u00e7\u00e3o que brotou de um povo ao longo de uns 800 anos, tamb\u00e9m foram a linguagem usada por Jesus para p\u00f4r a sua alma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3513,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"off","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-3531","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","et-has-post-format-content","et_post_format-et-post-format-standard"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3531","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3531"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3531\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3532,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3531\/revisions\/3532"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3513"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3531"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3531"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espiritualidade.carmelitas.pt\/boletim\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3531"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}